Voluntariado,
uma polêmica que está tomando o país
AnaCris Bittencourt
Você sabe o que têm em comum o desenhista carioca Daniel Azulay e a
funcionária pública baiana Maria Máxima dos Santos? Uma ideologia, dar um
pouco do próprio tempo para tentar mudar o Brasil. Seu empenho lhes rendeu o título
de Voluntário do Ano 2000. Assim como eles, 10 milhões de adultos e 14 milhões
de jovens são voluntários em potencial, mas não descobriram por onde começar.
As dúvidas não são poucas, até mesmo a definição das tarefas gera confusão.
Sem falar na transparência das instituições que desenvolvem os projetos
sociais. Existe ainda uma parcela da população que vê nessas iniciativas uma
ameaça ao trabalhador. E você, o que pensa sobre o assunto?
Desde janeiro, ficou mais
fácil colocar em prática aquele projeto de solidariedade que estava guardado
na gaveta. Com o lançamento do Ano Internacional do Voluntário, os 50 países
que assinaram a declaração da ONU estão se empenhando na divulgação. Aqui
no Brasil, os eventos começaram a partir do lançamento do selo internacional,
em 29 de março, mas o movimento começou a pipocar bem antes.
Pesquisa da empresa de consultaria Kanitz & Associados mostra que em
dois anos (1997 a 1999) o trabalho voluntário no Brasil aumentou 42%. Mas o que
está impulsionando essa mudança de comportamento? Na opinião de uma das
fundadoras do Centro de Voluntariado do Distrito Federal, a pedagoga Olivia
Volker Rauter, trata-se de sistematização: “o brasileiro é muito solidário,
mas não tem essa cultura de forma organizada. O que estamos fazendo é dar essa
orientação”. O Centro tem hoje 1.600 pessoas em seu cadastro, um aumento de
cerca de 50% em relação ao ano passado
Uma prova desse espírito aconteceu no início deste mês, em Recife.
Representantes de 15 centros de trabalho voluntário se reuniram para criar a
Rede Norte-Nordeste de Voluntariado. A idéia é captar recursos para se
desvincular, aos poucos, do Programa Voluntários. Criado em 1996, por
iniciativa do Conselho da Comunidade Solidária em parceria com a Fundação
Abrinq pelos Direitos da Criança, foi legalizado em fevereiro de 1998. Hoje
existem 34 centros no Brasil.
“Queremos promover o bem comum em contato direto com as comunidades,
independentemente de estardalhaços políticos”, esclarece Daniel Figueredo,
coordenador do Centro de Voluntários de Sergipe. A preocupação é de que a
iniciativa não perca o rumo com a próxima troca de governo, em 2002.
A Kanitz & Associados dá uma mãozinha para sanar a principal
dificuldade de quem quer colaborar, a credibilidade nos projetos e instituições.
A empresa de consultoria lançou no dia 2 de abril o Guia
de Filantropia 2001.
A publicação - também
disponível na internet - traz um ranking das
400 melhores instituições filantrópicas e uma aula sobre como fazer a escolha
certa.
Boa vontade X
profissionalismo
O ítalo-argentino Daniel
vive há 20 anos no Brasil. Sua experiência em 12 anos de trabalho social
mostra que para estimular a prática aqui é preciso esclarecer o conceito de
voluntário, confundido com assistencialismo. Por isso, até maio, o Centro de
Sergipe estará oferecendo cursos de treinamento para cidadãos e representantes
de ONGs.
Nas aulas é possível aprender que doar dinheiro para uma instituição,
sem saber como será utilizado, não é função de voluntário. Já os
dirigentes de ONGs saberão como lidar com o colaborador não-remunerado, que
nem sempre precisa exercer ali sua profissão, pode querer atuar em outra área.
Nem tem que cumprir uma carga horária rígida.
O filósofo e mestre em Políticas Sociais Mário Volpi não concorda com
a fórmula de que um punhado de boa vontade somado a alguma doação de tempo
resulte no voluntário ideal. O oficial de projetos do Unicef levou em sua
bagagem para Brasília a experiência de cinco anos como dirigente do Movimento
Nacional de Meninos e Meninas de Rua. Para ele, um bom voluntário precisa ter
competência e comprometimento. “O conceito de boa vontade na filantropia é
antigo e não condiz com o conceito de cidadania. O colaborador precisa dar o
que tem de melhor, atuando em uma área que domine, por um período de tempo
definido.”
Mário aponta vários fatores para o aumento do trabalho não-remunerado.
A diversidade de atividades que engloba os projetos desenvolvidos é um deles. Há
alguns anos esse universo era restrito a poucas áreas, como infância e meio
ambiente. Mas a polêmica não pára. Com 20 anos de experiência, Olívia
Rauter acredita que um dos fatores que auxilia na formação do futuro voluntário
é a educação que se recebe em casa e também uma questão de perfil.
Uma discussão que divide o movimento no Brasil é a
disputa entre voluntários e desempregados. O curso oferecido pelo Centro de
Sergipe ajuda a melhorar essa relação. Na visão de Daniel Figueredo, não há
motivos para competição: “20% dos nossos voluntários são desempregadas
dispostos a doar o tempo livre para impedir que outros passem as mesmas privações
que eles. A colaboração só pode acrescentar qualidade ao trabalho, nunca
atrapalhar”, enfatiza.
Olívia concorda - “não é uma ameaça porque é
impossível uma instituição ou empresa contar somente com o voluntário, que não
trabalha todos os dias e nem um dia inteiro. Em geral, ao contrário, atua em
horários curtos e alternados, as empresas precisam da dedicação do
assalariado”.
Mário Volpi acredita que existe o risco da colaboração
acabar virando um emprego precário, mas isso só acontece se o conceito de
voluntariado não estiver claro. E deu um exemplo: “um estrangeiro que sai de
seu país para trabalhar em uma ONG aqui está ganhando para isso, a sua ação
solidária está em deixar o país de origem e investir sua experiência no
Brasil, mas isso não é ser voluntário”, esclarece.
Desde 1997, quando o sociólogo Betinho lançou a
campanha pela publicação do balanço social das empresas, o debate sobre
voluntariado mexeu com os empresários. De lá para cá, o investimento em
filantropia cresceu e deu nova cara ao setor. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada) resolveu checar a mudança e, desde 1999, vem realizando a Pesquisa Ação
Social das Empresas. O trabalho envolve as regiões Sudeste, Nordeste e Sul, o
equivalente a 90% das empresas do país. Seus resultados finais serão
divulgados em julho e vão apontar quais são e onde estão as empresas que
beneficiam a comunidade e seus empregados.
Até agora, Minas Gerais é o exemplo de
solidariedade no Sudeste - pólo de concentração da metade das empresas e de
30% da população pobre do país. Lá, 81% das companhias realizam ações
sociais. Das 445 mil empresas consultadas, 300 mil preocupam-se com a questão.
De acordo com o Ipea, esse foi o levantamento mais
abrangente já realizado com o setor. Mais de 80% dos empresários alegaram ter
mudado de postura com relação à questão social por motivos humanitários. E
apontaram a satisfação pessoal como a maior recompensa recebida ao lado da
melhoria da qualidade de vida da comunidade.
Os resultados parciais no Nordeste reforçam a
participação das pequenas e microempresas, com contribuição semelhante às
de grande porte: 55% daquelas com 1 a 10 funcionários e 60% das com 11 a 100
tiveram relevante atuação social. A diferença para o Sudeste é que, nesse
caso, os benefícios estão mais voltados para os funcionários do que para a
comunidade. Entre os estados, destaca-se a Bahia, onde 70% dos empresários
contribuem.
A primeira etapa realizada no Sul aponta que o
comportamento social do empresariado na região é mais homogêneo que nas
demais áreas. Santa Catarina é o estado em que os empresários mais investem
no social (50%), seguido bem de perto por Paraná (49%) e Rio Grande do Sul
(39%). O setor que mais atende aos funcionários é o da agricultura (98%).
Beija-flores
No Rio de Janeiro, outro
Daniel, o Azulay, não participa de centros de voluntariado nem se considera
especialista no tema, mas há 25 anos se vale da arte para beneficiar crianças
pobres. Desenhista premiado e compositor, o criador da “Turma do
Lambe-Lambe” aproveita a sua empatia com o público infantil para incentivá-los
a sair das ruas através da capacitação profissional.
Foi assim ano passado, quando participou do projeto
Murais Urbanos, organizado por um grupo de artistas plásticos, com apoio da
prefeitura local. A idéia surgiu a partir da vontade dos alunos em recuperar
uma escola depredada na Zona Norte. Com a ajuda de meninos de rua, ex-pixadores,
ela se transformou em uma exposição de arte ao ar livre. Para ele, o trabalho
voluntário permite satisfação pessoal a quem faz e é melhor do que qualquer
sessão de análise: “percebo que os voluntários têm menos medo dos
problemas urbanos, seu ir e vir é mais espontâneo do que aqueles que vivem
para si mesmos, sempre preocupados em fechar o vidro do carro para não enxergar
a realidade”.
O exemplo
da voluntária Maria Máxima dos Santos, na Bahia, comprova o que pesquisas
realizadas com os participantes do Natal sem Fome, organizado pela Ação da
Cidadania, já apontavam: justamente aqueles que têm menos doam mais. Aos 61
anos, mãe de oito filhos (dois adotivos) e 10 netos, a funcionária pública é
copeira na Universidade Federal da Bahia e aprendeu suas lições de cidadania
desde menina.
Ela ficou órfã aos 13 anos, foi feirante, lavadeira
e doméstica. O sofrimento foi o seu combustível. Duas vezes por semana,
participa do projeto SOS Presídio. Este mês, doou um terreno para que seja
construído um centro de reabilitação para os internos retornarem à vida
social. Mas sua atenção maior volta-se às crianças, seja no Grupo de Apoio
à Criança com Câncer (GACC), seja atendendo meninos de rua do bairro onde
mora. O que mais impressiona em Maria Máxima é a disposição para fazer tudo
isso sem ajuda, locomovendo-se pela cidade de ônibus.
Conheça mais sobre
voluntariado em: www.voluntarios.org.br
- www.voluntariosse.org.br - www.portaldovoluntariado.org.br
(Jornal
da Cidadania - abril 2001 - n. 100)
Porto
Alegre, 27/03/01.
Ao Voluntariado do Fórum
Social Mundial:
Nós humanos, incógnitas cósmicas, seres realizáveis,
e não realizados, gravitamos em uma órbita em que desde que nascemos nosso
maior desafio é a sobrevivência.
Sobrevivemos para adiar ao máximo o fim, que quem sabe
pode ser o começo, ou ainda quem duvida, o recomeço.
Nesta luta, ou caminhada, estes seres na sua grande
maioria buscam acima de qualquer valor, manterem-se vivos.
Há um grupo mais ambicioso, que só consegue
sobreviver buscando o porquê viver. São contestadores dos valores vigentes nas
suas comunidades, buscam tornar mais justas as relações entre si e harmônicas
com o meio ambiente. Buscam a sua integração dentro
desta mudança, a sua sobrevivência dentro deste processo, ou talvez a
sobrevivência das suas ambições pessoais aliadas a esta transformação.
Dentro deste grupo, apesar da nobreza de seus propósitos,
ainda gravitam sobre o eixo da sua sobrevivência individual.
Porém, existem seres humanos, anônimos geralmente,
nas transformações mais importantes em nossa sociedade, que não sobrevivem
mais buscando o viver, vivem já no potencial máximo da possibilidade humana. Já
não são mais vulneráveis às tentações da vaidade, do poder, de melhor
posicionamento social entre os seus.
As grandes transformações sociais que urgem em nosso
meio, sómente são possiveis com a presença destes seres humanos, prudentes
nas suas ambições materiais, mas infinitamente ousados na sua intuição de
perceber que acima de todas as mazelas desta aldeia terrestre, um novo mundo é
possivel.
Um mundo em que a mola mestre da humanidade não seja
mais o sobreviver para tentar viver, mas apenas o viver!
Voluntariado do Fórum Social Mundial, vocês dispensam
agradecimentos, já foram recompensados com a consciência do dever cumprido.
Porém, saibam que nós do Comitê Gaucho, estamos convictos de
que a beleza, ou a grandeza deste evento, fluiu de vossos corações!
Coordenação do Comitê
Gaúcho.
MARIA ELENA P. JOHANNPETER
(Vice-presidente executiva da Parceiros Voluntários)
O ano 2001 promoverá o movimento de voluntariado no mundo
O ano de 2001 foi designado pela ONU como o Ano Internacional do Voluntário.
Esta frase nos leva a uma reflexão do “porquê” dessa designação, “o
que” isto significa e, o mais importante, “como” poderemos interagir com
esse movimento Por ser o primeiro ano do século e do milênio, essa designação
talvez nos possa dar esperanças de que nos próximos tempos a figura do ser
humano seja colocada em primeiro lugar. É bem claro, todavia, um convite a uma
atitude de envolvimento com o nosso semelhante, fazendo-nos sentir partícipes
de nossa realidade para que vivenciemos o sentimento do “pertencimento”.
Em seu livro Pertencendo
ao Universo, Fritjof Capra
nos explica o duplo sentido de pertencer: “Quando digo ‘isto pertence a
mim’, quero dizer que possuo alguma coisa. Todavia quando digo ‘eu pertenço’,
significa ‘eu encontro aqui o meu lugar’ e, ao mesmo tempo, ‘sou responsável
por eles e para eles’. Veja bem,
pertenço a eles tanto quanto eles pertencem a mim. Nós todos nos pertencemos
nesta grande unidade cósmica”.
Dentro deste sentimento de pertencimento, o ano
2001 promoverá o movimento de voluntariado no mundo e, ao mesmo tempo, dará
visibilidade, divulgação e reconhecimento de exemplos de ações
bem-sucedidas. para que possam servir de estimulador para outros e, assim,
percebermos que ações voluntárias com objetivos bem focados, responsáveis, são
de grande relevância no combate à exclusão social, e não somente uma fonte
de realização pessoal.
Temos também que levar em conta que o passivo
social é de responsabilidade de todos nós, cidadãos, tomando-se antiético e
imoral quando ignoramos problemas e nos omitimos na busca de soluções. O sociólogo
Bernardo Toro diz: “Toda ordem social é criada por nós. O agir ou não agir
de cada um contribui para a formação e consolidação da ordem em que
vivemos”.
Há 500 anos ouve-se: “Isto é
do governo”. A construção do público a partir da sociedade civil
organizada exige o rompimento com essa tradição e o compromisso com uma nova
atitude de responsabilidade, de desenvolvimento da capacidade de pensar e agir.
É necessário colocar em prática, urgente, o Princípio da Subsidiariedade. Se
formos pelo viés religioso, também concluiremos que perante Deus não existe
este ente abstrato chamado Estado. Existem sim, pessoas que formam o Estado,
portanto o pecado pela omissão é nosso, homens e mulheres e não do Estado.
Na cultura de voluntariado organizado, além de
desenvolvermos conscientemente essa atitude, está embutido também todo um
desenvolvimento econômico. Sob este prisma, a interrogação que fica é: um país
é desenvolvido porque tem uma sociedade civil organizada, livre e atuante ou a
sociedade civil é organizada, livre e atuante porque o país é desenvolvido?
Penso que não é essencial a resposta, no momento, pois ela se mostrará no seu
devido tempo.
A partir deste mês de dezembro, a ONG Parceiros Voluntários estará desenvolvendo ações visando ao ano 2001. Venha juntar-se a nós ou, melhor ainda, reúna sua família, seus amigos, colegas, procure algum projeto social, junte-se aos que já o estão executando para que, numa soma de esforços, os objetivos sejam atingidos. O presidente John Kennedy já dizia: “Se você não faz parte do problema, você, certamente, faz parte da solução”.
(Zero
Hora de 07.12.2000)