VISÃO DA REALIDADE

  (A partir das Comunidades Eclesiais de Base)

 

A estrutura da nossa sociedade

 

O presente texto quer apresentar uma série de elementos que estruturam nossa atual sociedade. Que eles nos possam ajudar a entender o mundo em que estamos vivendo.

 

1. Fórum Social Mundial (Porto Alegre) X Fórum Econômico (Davos - Suíça)

Estes dois grandes acontecimentos marcaram o início do ano de 2001. Um que lança uma perspectiva social para a atual humanidade e o outro vê tudo sob o prisma da economia. É o embate conflitivo de dois modos de viver e organizar a vida das pessoas hoje na humanidade.

 Por trás do Fórum Econômico, está o projeto de globalização da economia mundial. Rege-se segundo as leis econômicas e de mercado. O ser humano está em segundo plano. Por isso milhões de seres humanos ficam à margem do progresso e dos bens indispensáveis às suas vidas. São excluídos.

 Já o Fórum Social Mundial contrapõe-se às políticas neoliberais impostas aos países pobres pelo Banco Mundial e o FMI. Enfrenta o Fórum Econômico, defendendo a vida do ser humano como primeiro valor. Por isso defende o direito dos pobres, a globalização, sim, mas da solidariedade.

 Para entendermos este mundo vamos olhar para as grandes transformações que nele se deram nestes últimos anos. São elementos da estrutura da sociedade mundial atual.

 

2. A Grande Transformação Sócio-Econômica do Capitalismo

 

No final dos anos oitenta e início dos anos noventa, assistimos à queda do muro de Berlim e à implosão da União Soviética que foram considerados os acontecimentos que simbolizavam a vitória do capitalismo sobre o comunismo. Isto favoreceu não só a expansão política irresistível das teses capitalistas, neoliberais e da dinâmica da globalização, mas acelerou uma profunda transformação.

 Assim, estamos hoje envolvidos numa rápida, grande e profunda transformação sócio-econômica do capitalismo. Esta transformação tem características de grande influência na vida cotidiana.

 

2.1 Características

 

a) A questão da tecnologia

Uma das características da grande transformação é que ela se constitui numa verdadeira revolução tecnológica. Isso é evidenciado pela informatização, entendendo-se os dois aspectos inter-relacionados: o computador (Chip) que armazena e processa a informação, e a comunicação que interliga tudo.

Trata-se de uma revolução porque a descoberta de meios técnicos proporciona novas concepções. A revolução tecnológica está gerando uma nova concepção da pessoa, uma nova concepção e inter-relação, uma nova concepção do cosmo, e uma nova concepção do transcendente. A humanidade já passou por outras grandes revoluções tecnológicas que proporcionaram novas concepções e mudanças profundas.

A revolução agrícola, simbolizada pela descoberta do arado, enxada, carroça, etc., pode ser considerada uma primeira revolução. O ser humano passou a cultivar a terra e a produzir, em larga escala, os alimentos necessários que, antes, eram recolhidos da natureza que os produzia espontaneamente. Não é difícil perceber as mudanças profundas que isso provocou na identidade do ser humano, nas suas relações, no meio ambiente, e no seu relacionamento com Deus. Nesta revolução e nas suas conseqüências, a Igreja se situou bem, ocupando o centro, sendo a grande referência hegemônica.

A revolução industrial, simbolizada pela descoberta da máquina a vapor, provoca mais uma vez mudanças profundas nas concepções. Os novos meios técnicos são reunidos num mesmo lugar, as pessoas devem ir ao encontro destes meios, obedecer a um chefe, uma rotina e um esquema de montagem. É a urbanização que expropria as pessoas e resulta na exploração. É o horário da fábrica, a chaminé, o apito que vai mandar na vida das pessoas. A Igreja, que era o centro, passa agora para um segundo plano.

Hoje estamos envolvidos pela revolução da Informática. Mais uma vez estamos diante da descoberta de meios técnicos revolucionários. Foi descoberto o “chip” que é capaz de armazenar e processar uma infinidade de informações. Somado a isso, a descoberta de meios técnicos de comunicação possibilita a interligação de todas estas informações. O ser humano está, assim, diante de infinitas possibilidades provocando mais uma vez mudanças radicais nas suas concepções.

A novidade agora está por conta da manipulação do imaterial. A revolução agrícola e industrial manipularam o material: terra, colheitas, matérias-primas, fábricas, etc. Agora, a manipulação é de conhecimentos, de tecnologias, de marcas. Por isso, agora, estamos diante de uma grande novidade, e as mudanças no mundo são muito mais radicais, o que certamente repercute muito mais profundamente nas concepções da pessoa, das relações, do cosmo e do transcendente.

Tudo isso sem falar ainda das conquistas, vantagens, incertezas e incógnitas da descoberta do código genético. O século XXI será o da revolução bio-tecnológica, que alguns chamam de 4a. revolução. É a articulação da Informática com a Biologia e, na Biologia, a Genética. Alguns autores chamam isso de segunda criação. Certamente teremos muitas vantagens, como a longevidade e a cura de doenças, por exemplo. Mas teremos, também, muitos problemas, como a apartação, cujo símbolo é a África. Fala-se de apartação genética, expressão que significa a exclusão dos benefícios de longevidade e saúde trazidos pela genética.

E a questão ética? Quem controlará as possibilidades oferecidas pelo Genoma? Alguns autores já levantam algumas questões. Podemos ou não criar um ser humano melhorado, mais forte, mais capaz ou perfeito? (F. Fukuyama). Já que em dois mil anos de Cristianismo não se conseguiu educar o ser humano, será que a biotecnologia não poderia criar um ser humano mais ético e moralmente bom? (P. Sloterdizk). Entra aqui, também, toda a questão dos transgênicos, com suas possibilidades ilimitadas e imprevisíveis.

Mas será que o ser humano pode interferir num equilíbrio que se estabeleceu há 14 milhões de anos? É a idéia dos bens públicos globais que vem do Fórum Social Mundial, de Porto Alegre. Será que a modificação transgênica, só porque é tecnicamente possível, deve ser feita? É uma interferência num equilíbrio que a natureza levou milhões de anos para construir.

Estamos, portanto, diante de uma revolução tecnológica com conseqüências imprevisíveis em todas as áreas que abrangem o ser humano.

 

b) A questão das matérias-primas estratégicas

Uma outra característica da grande transformação está por conta da matéria-prima usada. Já vimos acima que o material é hoje cada vez menos importante. O que tem valor, hoje, não são mais os materiais manufaturados e produtos da matéria transformada, mas, as idéias elaboradas, as experiências acumuladas. O que se compra e se vende são idéias, experiências, marcas, etc. E, neste contexto, a idéia do aluguel é fundamental. A interligação é fundamental. O ser humano precisa ficar ligado e, a qualquer momento, conectado ou acessado.

Mas, mesmo assim, há algumas matérias-primas que são estratégicas para o século XXI. Mesmo que a revolução tecnológica provoque tantas e tão substanciais transformações, a água potável continuará sendo uma matéria-prima essencial, tendo cada vez valor maior devido a sua escassez. Entra aqui uma outra questão: esta água é de quem? Já se tem hoje uma grande discussão. E quem conduz esta reflexão é Ricardo Petrella, da Bélgica, que defende que o acesso à água é um direito universal inalienável, um bem global. Mas quem vai garantir este direito a todos? Será preciso um governo global. E quem constituirá este governo? A ONU, por sua parcialidade, jamais garantirá este direito. Há ainda um vazio na atribuição dos direitos universais e globais.

Outra matéria-prima estratégica é a biodiversidade. A biogenética tem o seu futuro garantido na biodiversidade. Ela necessitará desses recursos para aprofundar e ampliar as suas conquistas. E aí vem mais uma vez a questão: a quem pertence a Mata Atlântica? A quem pertence o universo da Amazônia? Que significam as patentes?

A terceira matéria-prima estratégica é o Sol, uma fonte de energia aparentemente inesgotável. O físico brasileiro. Bautista Vidal, da Universidade de Brasília, tem se debruçado exaustivamente sobre este assunto.

 

c) A questão do trabalho

A outra característica da grande transformação a ser analisada é a questão do trabalho. A afirmação tradicional era: para ser rico, é preciso trabalhar muito. Com as sucessivas revoluções, produzem-se cada vez mais bens com menos trabalho a ponto de não haver necessidade de todas as pessoas trabalharem. E desvincula-se a clássica dupla trabalho-emprego. É uma mudança radical. E como ficará o ser humano que foi educado para o trabalho?

 A revolução industrial trouxe consigo muitos problemas para o mundo do trabalho que perduram até os dias de hoje. No trabalho com a matéria, o ser humano faz sempre a mesma operação para não ter necessidade de pensar. Este esquema resultou em muita exploração dos trabalhadores, salários aviltantes, excesso de horas trabalhadas e muita gente fora do mercado de trabalho.

A bolsa-escola é algo que vai nesta linha, foi implantada no Brasil por Cristóvam Buarque, ex-governador de Brasília, que se inspirou numa experiência realizada em Bangladesh.

Uma terceira saída para a questão do desemprego seria a Reforma Agrária. O Brasil é um dos seis países que tem uma grande extensão territorial e uma ampla extensão agrária. Criar um emprego no campo é bem mais barato do que criar um emprego na indústria. O Brasil teria condições de criar, em curto e médio prazo, um grande número de empregos.

 

d) A questão da financeirização da economia

Nunca o dinheiro foi tão importante, onipresente, onipotente, invisível no mundo do que no dia de hoje. Ele sempre esconde relações. Hoje ele é uma abstração ao cubo. O dinheiro deixa de ser algo que se toca para se tornar um toque de computador.; O dinheiro é cada vez mais imaterial. Ele não expressa simbolicamente bens realmente existentes. O problema está em quem controla este dinheiro. A fonte deste capital está nos que aplicam o seu dinheiro na ciranda financeira: as pessoas jurídicas, pessoas físicas, os fundos de pensão, os fundos do narcotráfico, os fundos do contrabando de armas, etc. Conhecemos , suficientemente, os principais problemas causados pela megaespeculação. E, em cima disso, surgem inúmeras perguntas e questões sem solução.

Uma saída para esta questão poderia estar na “Taxa Tobin” que propõe cobrar de 0,1 a 0,5% da movimentação de todo valor especulativo. Este dinheiro seria aplicado para formar uma bolsa mundial para terminar com o analfabetismo no mundo. Os Bancos Éticos seriam uma outra saída. Seu dinheiro não poderia ser usado para financiar fabricação de armas ou por empresas que trabalham com transgênicos, ou com coisas semelhantes. Há outras propostas. Mas todas elas só seriam possíveis com um governo mundial.

 

e) A questão da redistribuição do poder

Aqui entra a questão da globalização e os mercados comuns: o Mercosul, o Nafta, a Alça, o Mercado Comum Europeu e outros. Faz parte desta estratégia a dolarização da economia. O mundo estará subordinado aos comandos dos blocos de poder, principalmente aos 3 maiores. O primeiro pólo é o Americano, o segundo, o Mercado Comum Europeu, o terceiro, o Japão e a China. Hoje os Estados Unidos são a maior potência do mundo, em vários sentidos. A grande moeda mundial é o dólar norte-americano. A Biotecnologia está com 90% nos Estados Unidos. Eles se impõem também pelo poder militar. Sua hegemonia é, ainda, cultural (conseguem afirmar e impor mundialmente o american way of live). Consideram-se a nação escolhida por Deus para salvar o mundo.

Hoje há muitos fenômenos intimamente ligados a esta questão do poder. O fenômeno migratório é um deles. Como é possível administrar as migrações para esses pólos? As grandes potências começam a se fechar para os imigrantes. Como acompanhar as migrações? Serão necessárias estruturas internacionais. A gravidade dos problemas sociais nos leva a perceber que há uma diferença entre pobres de outrora e os excluídos sociais e econômicos de hoje. Os pobres dos anos 60 e 70 eram necessários para o sistema. Hoje os excluídos não são mais necessários para o desenvolvimento da economia.

 

3. A Grande Transformação Ético-Cultural

A transformação do capitalismo é acompanhada também por uma grande transformação ético-cultural que tem as suas vertentes tradicionais nos gregos, no judaísmo e no cristianismo. Algumas compreensões devem ser retomadas nos dias de hoje.

 

3.1 Características

 

a) A compreensão do Indivíduo

Aqui temos a grande influência de Paulo, através de seu trabalho e dos seus escritos, e do cristianismo, revelando a pessoa humana como um indivíduo. Isso é uma coisa boa. A modernidade e a pós modernidade capitalistas, porem, vão assumir a pessoa humana como indivíduo, mas não mais relacionado com o outro, com o cosmo e o universo. Torna-se uma mônada isolada. Maximiza a vontade própria. Adam Smitt trabalha esta questão. No Brasil, Roberto Campos foi o expoente. É o indivíduo que se erige autonomamente em si e corta as relações que possam inibir a sua individualidade em termos pós-modernos. A cultura atual, por isso mesmo, nos leva ao narcisismo. Se por um lado isso é libertador e cristão, por outro lado, como vamos recuperar a inter-relação, que é a grande intuição de Francisco de Assis?

 

b) A compreensão da igualdade

Aqui está mais uma contribuição de Paulo, na carta aos Gálatas. Na polis dos gregos não entravam as mulheres nem os escravos. Já Paulo evoca a igualdade quando diz que não há mais escravo nem livre, nem grego nem judeu, etc. A idéia da igualdade foi assumida pela modernidade. A revolução francesa é a coisa típica. Sempre houve um sonho de igualdade. Mas aqui há problema. Se no Ocidente se conquistou a igualdade (pensar, científica, interligação), por outro lado há um déficit porque o mundo nunca esteve tão desigual (em termos sociais e econômicos) como hoje. Há uma ruptura ético-cultural, pois a nossa sociedade renunciou à possibilidade de construir a igualdade. Em vez da igualdade, se instaura a competitividade. Ou a pessoa é competitiva, ou ela não tem lugar. A busca da competitividade torna-se uma nova religião. Neste mundo, fora da competição não há salvação. Já o Fórum Social aposta na possibilidade da construção da igualdade. Isso vem contra a idéia de apostar na competição que alguns chamam de neodarwinismo social.

 

c) A compreensão de mercadoria

 

A grande vitória do capitalismo é transformar tudo em mercadoria. Ele consegue transformar a experiência humana em mercadoria. Isso significa que tudo pode ser comprado e tudo pode ser vendido. A discussão de hoje: como transformar o código genético em mercadoria de compra e venda? Mais cedo ou mais tarde isso acontecerá. A única coisa que foge a isso é a família. Aí a relação mercadológica ainda não impera.

 

d) A compreensão do tempo

Há diversas concepções do tempo. Os gregos dizem que o tempo é um eterno retorno sobre si mesmo. Já o judaísmo diz que o tempo é linear: é o passado, se atualiza no presente e se projeta para o futuro. É um tempo aberto. Hoje, na concepção do capitalismo, há uma ruptura. É um retorno para o tempo pagão onde não há passado nem futuro. É um tempo que retorna sobre si mesmo. Isso tem implicações sérias. Como exemplo, podemos citar a aplicação do dinheiro. O que interessa é a rentabilidade. Não interessa passado nem futuro. O que interessa é o presente onde devo ganhar dinheiro. Os transgênicos: não interessa os milhões de anos que a natureza levou para chegar a este equilíbrio. Não interessam também as conseqüências futuras. O que interessa é o lucro que eu posso ter agora.

 

e) A compreensão do sacrifício

Outro elemento importante hoje é a idéia do sacrifício. Os pagãos e judeus usavam os bodes expiatórios. Para os cristãos, Jesus é o último, definitivo e suficiente sacrifício. Não há mais necessidade de sacrifícios humanos. Participar da ceia é protestar contra todo e qualquer sacrifício humano. Hoje a cultura capitalista volta a restaurar o sacrifício humano como necessário. Para que haja lucro e progresso, é necessário o sacrifício. Os pobres vão padecer e isso é tido como conseqüência necessária e natural do progresso. Pode ser que o objeto de sacrifício seja um grupo de pessoas, uma classe social, um país, ou um continente. E, ainda, o meio ambiente ou os animais.

 Aí está o grande desafio. O cristianismo tem muito a dizer. E aqui temos algo em comum, algo com as grandes tradições religiosas. Trata-se da idéia da compaixão. As grandes religiões trabalham muito bem esta idéia da compaixão. Gandhi é o grande ideólogo da compaixão. No cristianismo, é H. Küng quem trabalha isso. Aqui será preciso reunir as grandes religiões em torno da idéia de compaixão para salvar a humanidade dos sacrifícios propostos nos dias de hoje.

 

4. A Grande Transformação Social

Um terceiro campo a ser observado é o do movimento social. Também aqui podemos encontrar sinais de uma verdadeira revolução. Na verdade são alguns movimentos novos que surgem como reações importantes e que dão esperança.

 

a) Movimento Ecológico

É um movimento central porque conseguiu auscultar o grito da terra frente a esta irracionalidade. O grito da terra é: “Parem! Porque se vocês não pararem as coisas podem ser piores para vocês do que para mim”. O ser humano está poderoso como nunca. Somos poderosos, mas por isso mesmo extremamente frágeis. Esta é a crise que vivemos.

 

b) Movimento Feminista

A racionalidade atual do capitalismo é androcêntrica. As relações de poder são masculinas. Como reação, o movimento feminista exige novas relações entre as pessoas, das pessoas com o cosmo e com a natureza. É o movimento ecofeminista. A novidade do pensamento do feminino é a intuição. A visão feminina é intuitiva e nos faz resgatar o princípio do cuidado que se contrapõe ao ponto de vista masculino da devastação que confunde o uso com a exploração, o trabalho com o emprego, o progresso com o sacrifício, etc. A intuição feminina é capaz de resgatar o rosto materno de Deus no Jesus Ressuscitado. Assim o movimento social do feminismo constitui-se noutra grande novidade nos dias de hoje, merecendo nossa atenção.

 

c) Movimento de Ética na Economia

Outra reação à economia de especulação selvagem do capitalismo, que já se constitui num verdadeiro movimento, é o de uma economia com finalidade humana. É uma teoria que, no Brasil, ganha um articulador na pessoa de Cristóvam Buarque, chamando isso de “revolução nas prioridades - a desordem do progresso”. É uma proposta retomada com muita força no Fórum Social Mundial, de Porto Alegre. A idéia é inverter a questão: em vez da economia, esta idéia coloca a sociedade como fim de toda a atividade humana. A economia seria um meio para chegar à realização da sociedade. É a proposta de “rede local de troca”, sem monetarizar as necessidades e os serviços. São hoje inúmeras experiências pelo Brasil constituindo-se num movimento que surge fora da igreja, fora das instituições, fora das universidades, fora dos partidos, etc. É um movimento revolucionário que surge à margem dos grandes centros polarizadores da ordem do capitalismo.

 

d) Movimento do Consumo Ético

Outro movimento que desperta cada vez mais interesse e adesão é o que controla o consumo por uma ética. Não dá para consumir tudo o que aparece na minha frente. É preciso escolher produtos saudáveis, produzidos com princípios éticos, valorizando a pessoa humana. Buscar o pão numa padaria de economia solidária, por exemplo. Por outro lado, é preciso rejeitar produtos de injustiças. Assim se multiplicam os movimentos de boicote a certas marcas e produtos. Isso exige uma nova consciência ética. A intuição de todos os movimentos é esta: os problemas são globais, mas as soluções são locais. É preciso pensar o global, e quanto mais global é o problema tanto mais radicalmente local é a solução. Esta é, sem dúvida, uma grande fonte de esperança.

 

5. Contribuições das CEBs

Se por um lado não podemos fugir das sombras que as profundas transformações lançam sobre o futuro do ser humano e sobre tudo que diz respeito a ele, por outro, percebem-se reações e movimentos completamente novos que são capazes de restabelecer a esperança de que é perfeitamente possível fazer desta terra uma casa de todos.

 Este é o grande desafio. Aqui as CEBs, junto com os movimentos e as grandes religiões, têm grandes contribuições a dar para a caminhada da humanidade neste novo milênio. A experiência cristã, com uma teologia atualizada, deverá estar muito atenta aos novos movimentos, e não poderá se abster de buscar alternativas para influir na definição das novas concepções que surgem a respeito da pessoa, das relações, do cosmo e do transcendente.