A
liberação do uso de transgênicos envolve mais uma questão política que
legal? SIM
Transgênicos: soberania em xeque
LUCI CHOINACKI - 46, agricultora, deputada federal pelo PT/SC, é vice-líder do partido na Câmara.
Não se sabe cientificamente se os alimentos transgênicos podem causar danos à
saúde humana. Efeitos alérgicos e até alteração no metabolismo poderiam ser
sentidos no organismo humano. Cogita-se que os cultivos de transgênicos podem
colocar em risco a biodiversidade. A polêmica em torno desse assunto é mundial
e está sustentada por fortes conotações políticas.
Apesar das controvérsias, uma equipe de ministros comandada pelo presidente
Fernando Henrique liberou a produção e a comercialização de organismos
geneticamente modificados sem consultar consumidores e sem aval científico. E o
ministro da Saúde, José Serra, declarava-se favorável à moratória dos
transgênicos. As contradições ministeriais vieram à tona pouco depois que o
Greenpeace e o Instituto do Desenvolvimento Econômico (Idec) divulgaram uma
lista de transgênicos encontrados em supermercados sem rotulagem. Até mesmo
produtos lácteos compostos com transgênicos, para alimentação infantil, estão
livres no mercado. Uma afronta! A vigilância sanitária, porém, cumprindo
leis, exigiu a retirada desses itens das prateleiras.
Mas o Planalto, submisso às multinacionais, foi além. Citemos um grande
exemplo: para a instalação na Bahia da fábrica da Monsanto -uma das
multinacionais que mais se beneficiam desse tipo de produção e denunciada por
formação de cartel-, o governo dará um incentivo fiscal de R$ 285 milhões. A
obra custará R$ 700 milhões e serão gerados só 350 postos de trabalho -um
custo de R$ 2 milhões/emprego.
No bojo do suposto processo de modernização econômica, o governo criou um
ambiente institucional para a expansão interna dos interesses dos grandes
laboratórios e dos grupos multinacionais de química e biotecnologia.
Sem dúvida, caso os enormes interesses econômicos em jogo consigam se impor às
resistências da cidadania pelas indispensáveis cautelas na utilização dessas
tecnologias, a alimentação e a saúde da população mundial estarão cada vez
mais dependentes de uns poucos conglomerados econômicos.
Nesse quadro, países como o Brasil estarão virtualmente condenados ao atraso
científico e tecnológico e à dependência externa em setores estratégicos.
Mais do que nunca, o suposto liberalismo econômico -armadilha engendrada pelos
grandes grupos econômicos para viabilizar seus interesses- e a globalização
se firmarão como instrumentos de consagração da hegemonia política dos países
desenvolvidos.
Mas o governo brasileiro submete-se mais uma vez aos desejos da política
expansionista de multinacionais, que exigem a qualquer custo a disseminação
dos produtos alterados geneticamente.
Por sinal, os transgênicos, no Brasil, são estudados conforme as conveniências
do mercado. Não há um amplo debate. Se existe alguma discussão, a iniciativa
parte de organizações não-governamentais (ONGs), movimentos sociais, igrejas,
universidades, partidos políticos e imprensa. Mesmo assim, o governo do PT no
Rio Grande do Sul passou a se constituir num território de luta contra a liberação
sem critérios dos transgênicos.
A União Européia não se omite na polêmica dos transgênicos: a maioria dos
seus países só liberará a produção e o comércio quando a ciência
confirmar que as modificações genéticas em alimentos não causam males. Todo
cuidado é pouco, a vida humana deve estar sempre acima dos valores de mercado.
Aliás, o aspecto político que norteia o debate sobre transgênicos passa pelo
viés de uma importante mudança nas relações do comércio internacional. Os
europeus, os americanos e os japoneses, em sua maioria, não querem consumir
produtos transgênicos. Assim o volume de exportações de grãos e carne do
Brasil teria uma queda muito acentuada. Há uma crescente aversão dos
consumidores estrangeiros aos transgênicos, o que tem valorizado economicamente
os alimentos convencionais.
Até esclarecermos se os transgênicos provocam ou não danos, é preciso
impedir o seu cultivo e sua venda. Engrossar a luta pela moratória dos transgênicos
no Brasil tem um significado político. Representa, para o Terceiro Mundo,
sonhar com um futuro mais soberano.
A
liberação do uso de transgênicos envolve mais uma questão política que
legal? NÃO
Os transgênicos e o princípio da precaução
Enio Moraes da Silva - procurador do Estado de São Paulo e mestre em direito comparado pela Universidade da Florida
Maçãs mais saborosas que não ficam escuras mesmo horas depois de cortadas ou
mordidas. Bananas que contêm uma vacina contra hepatite. Salmões gigantes e
que se reproduzem até seis vezes mais rápido.
Não são produtos de ficção científica. É a mais pura realidade da
biotecnologia que está chegando, trazendo a nova geração dos transgênicos:
os "alimentos funcionais", árvores e peixes. Os alimentos funcionais
seriam aqueles que resultariam em produtos fortificados e mais saudáveis. Um
exemplo é o "arroz dourado", com mais vitamina A e ferro.
As árvores geneticamente modificadas são rotuladas pelas indústrias como a
salvação ao desflorestamento global. As sementes gerariam árvores em tempo
muito menor do que o normal.
Com a poluição ambiental e com parte da indústria da pesca -aquela que usa práticas
indiscriminadas- provocando uma sensível diminuição na vida marinha, os
pesquisadores pretendem ajudar a alimentar a humanidade com a criação de
peixes que crescem mais, mais rápido e resistentes a doenças.
A indústria tenta arrefecer os ânimos exaltados dos consumidores, mas nem tudo
são rosas nos jardins da engenharia genética. As indústrias alardeiam que os
alimentos alterados geneticamente são seguros e que não há o que temer, pois
passam por rigorosos testes e, em cinco anos de uso, não houve dano detectado
à saúde do consumidor.
Nada errado em a indústria defender seus interesses e tentar tranqüilizar os
consumidores. O assunto não é pacífico, até porque, em termos de pesquisa,
cinco anos pouco significam. As possíveis conseqüências adversas podem
ultrapassar os prováveis benefícios.
O arroz dourado, por exemplo, desenvolvido para minimizar a fome nos países
pobres, nem sequer foi desenvolvido fora de laboratório. Não se sabe se terá
o mesmo resultado em condições reais de plantio, submetido a diferentes climas
e ecossistemas. Também é difícil de acreditar que esse arroz chegará aos
consumidores carentes, já que o seu preço fatalmente será superior ao do
arroz comum, em razão das centenas de milhões de dólares gastos no seu
desenvolvimento. Talvez fosse mais racional utilizar todos esses recursos para
permitir que as populações de países pobres tivessem acesso a uma dieta saudável
com vegetais, verduras, frutas e peixes.
As árvores produzidas pela biotecnologia receberam genes de bactérias, de
frangos e até mesmo de seres humanos. E ainda podem espalhar seu pólen com
genes resistentes a insetos e herbicidas a outras espécies nativas, originando
cruzamentos imprevisíveis. O benefício dessas árvores no que tange à redução
do gás carbônico e diminuição do aquecimento global, poderá ser toldado em
razão da contrapartida que as mesmas exigirão. Como essas novas espécies
foram criadas para crescerem mais rapidamente, requerem grandes quantidades de
água, fertilizantes e pesticidas.
Os peixes geneticamente alterados podem ser altamente assoladores para os demais
peixes, pois uma vez fora de seu confinamento experimental, devido à sua
característica de crescimento irão consumir os suprimentos das demais espécies
comuns, podendo também carregar vírus ou outras doenças que se espalhariam
pelas populações marinhas.
Como se percebe, o assunto é polêmico, e as consequências dessas
impressionantes experiências são imprevisíveis. Experimentos recentes com os
transgênicos, muito menos ousados, já escaparam ao controle dos cientistas.
Por isso, a cautela manda que o entusiasmo inicial com as promessas da
engenharia genética seja colocado de lado para dar lugar à racionalidade.
Bem apropriado seria observar o princípio da precaução ("Precautionary
Principle'), do Direito Internacional, o qual foi adotado aqui mesmo no Brasil,
na Eco-92. O princípio de nº 15 da declaração determina que o princípio da
precaução deve ser aplicado quando há ameaça de sérios ou irreversíveis
danos ao ambiente. Nesse caso mesmo a ausência de comprovação científica não
poderá ser alegada para adiar medidas efetivas para prevenir a degradação.
Segundo esse princípio, o ônus da prova sobre a segurança desses novos
produtos cabe àqueles que pretendem introduzir a novidade, e não ao
consumidor, provar o que há de errado. Havendo apenas razoável fundamento
científico de que há riscos para a saúde ou ao meio ambiente, os transgênicos
não podem ser comercializados até que a indústria responsável apresente
provas de que os riscos são mínimos, e os benefícios que trarão:
incomparavelmente maiores. Os consumidores fazem a sua parte tentando se
proteger e aguardam ansiosamente estudos científicos imparciais dos produtores
dos transgênicos mostrando que podemos morder a maçã sem medo de pecar.
FSP
09.09.2000-09-17
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