DO BRASIL “QUE TEMOS” AO BRASIL “QUE QUEREMOS”

 

Prof. Dr. Plínio de Arruda Sampaio

 

Plínio de Arruda Sampaio nasceu em São Paulo, em 1930. Formado em direito pela USP (1954), fez mestrado em Desenvolvimento Econômico Internacional, na Universidade de Cornell. nos Estados Unidos (1975). Foi presidente da Juventude Estudantil Católica (JEC), de São Paulo, na década de 50. Deputado Federal em três legislaturas (1962-1964; 1985-1986; 1986-1990); Relator do capítulo do Poder Judiciário na Assembléia Nacional Constituinte. Foi líder da Bancada Federal do Partido dos Trabalhadores e candidato a Governador do Estado de São Paulo. nas eleições de 1990.

 

O BRASIL QUE TEMOS

 

 

Para transformar o nosso país, precisamos criticar as estruturas econômicas, políticas e sociais, denunciar as injustiças, apontar os erros das políticas públicas. Mas isso não basta. É preciso também apontar as soluções e os caminhos para corrigir as injustiças e promover o progresso. Este texto trata desses dois aspectos - a crítica (Brasil que temos) e a proposta (Brasil que queremos). O destaque maior, contudo, é dado a este último, porque é o aspecto que tem sido menos trabalhado.

A parte da crítica foi trabalhada em torno de três itens:

1-Resumo da situação atual;

2- Reações do povo diante da situação atual;

3- As causas da situação atual.

(A parte da proposta foi organizada em torno de seis itens: Os vários “Projetos de Brasil”; Dificuldades do povo para formular o seu projeto; Objetivos de um projeto popular; A condição básica para alcançar os objetivos; Viabilidade do projeto popular; Obstáculos à execução do projeto popular).

 

1.    Resumo da situação atual

 

Sempre que pensamos sobre o nosso país, somos tomados por dois sentimentos contraditórios. Por um lado, ficamos maravilhados com o tamanho do nosso território, a enormidade das suas riquezas, a beleza das paisagens, a doçura do clima. Se voltarmos nossa atenção para o progresso material que conseguimos construir ao longo da nossa história, nossa admiração não é menor, topamos, em todas as partes do país, com obras gigantescas, tanto no campo da infra-estrutura econômica (grandes usinas hidroelétricas, estradas imensas, portos, aeroportos, redes de telefonia) quanto no campo da produção (campos de exploração de petróleo, usinas siderúrgicas, fábricas de grande porte), no campo da urbanização (grandes e modernas cidades) e no campo da cultura (universidades, teatros, museus, orquestras sinfônicas). E quando voltamos a atenção para a qualidade da nossa música popular, o sofisticado pala­dar da nossa cozinha, e, sobretudo, o nosso jeito descontraído, simples e alegre de viver, sem as seculares rixas religiosas, étnicas ou regionais que envenenam a convivência de tantos povos, ficamos agradecidos de ter nascido no Brasil.

Mas este é um lado da nossa realidade. Quando nos voltamos para o outro lado e vemos as calamidades que estão acontecendo à nossa volta, então ficamos tristes e indignados.

Para começar, examinemos o espetáculo doloroso da pobreza. Cerca de trinta milhões de pessoas, além de permanentemente mal nutridas, passam, praticamente todos os anos, por períodos de fome aguda. Mais da metade da população vive em habitações precárias, destituídas dos mais elementares meios de higiene e conforto, em lugares não urbanizados e, muitas vezes, insalubres e perigosos. Milhares de pessoas, entre as quais crianças e adolescentes, moram literalmente na rua.

Para essa imensa pobreza, não há escolas, razão pela qual milhões de compatriotas nossos são analfabetos.

Mas não é só a pobreza.

Nossa indignação aumenta quando vamos ao trabalho e voltamos dele, amontoados como sardinha em lata em ônibus ou trens imundos, perigosos e caros; quando percebemos, no dia-a-dia da nossa vida, a prepotência dos patrões, a arrogância dos ricos e poderosos, a impunidade dos corruptos e dos corruptores.

Todas as noites, na televisão, assistimos às reportagens sobre a barbárie que reina em nosso país: assaltos, seqüestros, fuzilamentos de jovens envolvidos com droga, guerras de gangues nos morros e periferias dos grandes centros; filas intermináveis de doentes à espera de consulta e tratamento nos hospitais; destruição das nossas matas, poluição dos nossos rios; extermínio da nossa fauna.

Também nos causa tristeza e revolta a invasão cultural que estamos sofrendo. Ouvem-se mais músicas estrangeiras do que brasileiras por nossas rádios; assiste-se mais a filmes “enlatados”, de baixíssima qualidade, do que a filmes brasileiros na televisão; expressões da língua brasileira são substituídas pelas suas correspondentes em outros idiomas, tanto nas propagandas como no linguajar comum das pessoas.

Para completar esse quadro depressivo, estamos todos com medo de perder o emprego, porque sabemos que será difícil encontrar outro e que, se encontrarmos, o salário será menor. Vemos ao nosso lado o dra­ma das famílias assoladas pelo desemprego e olhamos com preocupação para os nossos filhos, pois não temos garantia alguma de que o enorme sacrifício que estamos fazendo para que eles estudem, será compensado com um emprego que garanta o seu futuro. Definitivamente a situação atual é inaceitável.

 

 

2.    Reações do povo diante da situação atual

 

As atitudes das pessoas diante dessa situação, contudo, variam bastante. Muitas se desesperam da possibilidade de mudar as coisas na economia e na política e entram no clima do salve-se quem puder Encerram-se dentro dos seus problemas e tentam resolvê-los por conta própria, na ilusão de que, com muito esforço pessoal ou com o apoio de amigos, parentes e padrinhos políticos, poderão safar-se do naufrágio.

Outras se encontram psicologicamente tão arrasadas, que procuram fugir da realidade, buscando escapar pela bebida, pela droga ou pela religiosidade alienada, feita de crendices e superstições.

Mas há também, felizmente, os que conservam a capacidade de ver os dois lados da realidade brasileira. Nem se desesperam nem se encerram egoisticamente em seu caso pessoal. Sabem que a realidade é dialética (ou seja, está constituída sempre por dois elementos contrários, cada um pressionando o outro). Podem, por isso, enxergar no Brasil que temos hoje os dois pólos de uma contradição: o pólo progressista do Brasil, que luta para se constituir como uma nação civilizada e próspera; e o pólo atrasado do Brasil, incapaz de se desvencilhar do sistema colonial que comandou mais de trezentos anos da sua história.

As brasileiras e os brasileiros que pensam dessa forma são os portadores de esperança. Do meio deles surgirão os lutadores do povo. E da atuação desses lutadores do povo é que poderá ser formulada a visão de um Brasil que queremos em contraposição ao Brasil que temos.

 

 

3. As causas da situação atual

 

A situação atual do Brasil explica-se pela convergência de dois fatores: de um lado, um fator de ordem mais estrutural (ou seja, contradições decorrentes da sua formação histórica, que se cristalizaram nas instituições, leis e costumes); de outro lado, um fator conjuntural: as políticas econômicas e sociais adotadas pelas classes dominantes nestes últimos anos para inserir nossa economia na globalização.

 

3.1. As causas estruturais

 

A sociedade que se formou no período colonial marcou-se, desde seus primeiros tempos, por dois processos paralelos: o massacre dos povos indígenas e a vinda de grandes levas de africanos para trabalhar como escravos na agricultura. Processos assim violentos e traumáticos só podiam dar origem a uma sociedade dividida em dois compartimentos estanques: o dos senhores e o dos escravos.

Para manter uma sociedade desse tipo, era indispensável estabelecer uma rígida hierarquia e uma disciplina férrea. As leis, instituições e costumes do período colonial concretizaram essas condições, cristalizando na nossa estrutura social a divisão e a hierarquia entre as classes, a repressão violenta aos de baixo.

A economia brasileira, por seu lado, começou, na região Nordeste do país, com a grande propriedade rural destinada à produção de açúcar para exportação aos mercados europeus. O açúcar era uma das especiarias mais apreciadas da época e uma das principais mercadorias comercializadas em âmbito internacional. Desse modo, a produção açucareira nordestina tomou-se uma das principais empresas capitalistas do século XVII. Para levá-la a cabo, associaram-se: os capitais europeus, principalmente holandeses, os senhores de terras da colônia e a coroa portuguesa. Os primeiros financiavam a montagem dos engenhos e a comercialização do produto, os segundos organizavam a produção, e a coroa garantia a ordem social. O trabalho era feito pelos escravos. Controlando os investimentos e a comercialização, os capitais estrangeiros comandavam o desenvolvimento da economia açucareira nordestina, de modo que a economia brasileira já nasceu dependente. Até hoje não se livrou dessa dependência.

A divisão social e a dependência, que têm sua origem na forma como se deu a colonização do país, constituem traços estruturais da sociedade brasileira e são os fatores determinantes, em última instância, da situação atual do país.

Após quinhentos anos de evolução, evidentemente esses traços estruturais herdados da colônia, tanto no aspecto social como no aspecto econômico, não se expressam mais do mesmo modo que no período colonial. Mas continuam presentes. A mais superficial observação mos­trará a divisão social, a hierarquia das classes, o rígido controle sobre o povo, a dependência exagerada da nossa economia dos capitais estrangeiros e das flutuações do mercado internacional.

Divisão social e dependência econômica são características incompatíveis com democracia e desenvolvimento.

Para haver democracia, é preciso que as diferenças econômicas e de posição entre as classes sociais não sejam abismais, e, no Brasil de hoje, essas diferenças ainda são abismais. A elite dominante concentra em suas mãos a riqueza, o acesso à instrução superior, os meios de informação e comunicação, o prestígio social e o poder político.

Em uma sociedade assim, o máximo de democracia possível é esse arremedo de estado de direito que temos, regido por uma Constituição que não é aplicada, mas que se mantém vigente, a fim de dar credibilidade à ficção de que as decisões políticas respondem à vontade majoritária do povo.

O desenvolvimento econômico de uma nação, por seu lado, requer autonomia dos centros internos de decisão para estabelecer as regras de funcionamento do mercado dentro do espaço econômico nacional. Quando as principais decisões econômicas são tomadas por empresas transnacionais, bancos e financistas estrangeiros, essa autonomia torna-se uma ficção e não há como dirigir os investimentos para o benefício do conjunto da população.

Caio Prado Jr. mostrou, de modo muito claro, como a dependência gera um mecanismo de freio ao desenvolvimento econômico.

Em seu livro A Revolução Brasileira, ele diz:

“Efetivamente, o nosso desenvolvimento econômico, se for enquadrado no sistema capitalista, se pautará necessariamente pelos interesses dos trustes aqui instalados, que se farão o elemento principal e fator decisivo de nossa economia nacional. São os trustes que fixarão as normas, o ritmo e os limites do desenvolvimento, para eles naturalmente determinados pelo montante dos lucros que a economia brasileira é capaz de proporcionar. E que limites são estes? Encontramo-los na margem de saldos financeiros que o Brasil oferece nas suas contas externas, a saber, aqueles que resultam do nosso intercâmbio com o exterior.

De fato, o lucro auferido pelos empreendimentos imperialistas no Brasil somente se pode liquidar (e somente então constituirão verdadeiros lucros) com os saldos do nosso comércio exterior, uma vez que é da exportação que provém nossos recursos normais em moeda internacional. Descontada a parte desses recursos que se destina a pagar as importações, é do saldo restante, e somente dele, que poderá sair o lucro dos empreendimentos aqui instalados pelos trustes. Na base do previsível para esse saldo, portanto, fixarão os trustes o limite de suas atividades; e, em conseqüência, do desenvolvimento brasileiro que no sistema vigente é por eles enquadrado” (1987, pp. 88 e 89).

A dependência, cujo efeito mais grave é resumido nesta citação de Caio Prado ir., responde em última instância pelos problemas seculares da economia brasileira: crescimento instável; inadequação da base produtiva às necessidades da população; desarticulação entre as regiões geoeconômicas; incapacidade de assegurar o domínio sobre todo o território.

Vejamos cada um deles.

 

Crescimento instável

 

Como a economia depende da expansão ou contração dos financiamentos externos e dos investimentos de empresas estrangeiras, ela cresce por meio de ciclos econômicos, que surgem, atingem um auge e logo declinam: ciclo do açúcar, do ouro, do café, da borracha, do cacau, da soja, e assim por diante.

Em cada momento de auge, os brasileiros alimentam a ilusão de superar o subdesenvolvimento e igualar-se às economias maduras. Em cada fase de declínio, há um colossal desperdício de capital e de recursos humanos. Estamos vivendo, neste momento, o fim do ciclo da industrialização substitutiva de importações.

 

Inadequação da base produtiva

 

Nossa economia foi organizada basicamente para exportar e assim assegurar um padrão de vida luxuoso às reduzidas camadas sociais que formavam a elite dominante do país. A grande massa da população, constituída por escravos e pessoas livres pobres, não formava propriamente um mercado capitalista. Era abastecida de modo extremamente precário por uma produção de subsistência que se esgueirava no meio da produção para exportação.

Esta situação evidentemente modificou-se à medida que a economia cresceu, diversificou-se, industrializou-se, e, à medida que a população aumentou e tornou-se urbana. Mas essas modificações todas não alteraram a característica estrutural herdada do período colonial: temos hoje a oitava máquina produtiva do mundo, mas ela é extremamente vulnerável aos movimentos do capital externo e não se ajusta às necessidades básicas da população brasileira. Basta ver que milhões de pessoas não conseguem se alimentar, não têm casas adequadas, vivem em farrapos e não dispõem de renda monetária para adquirir os mais elementares bens de consumo.

Esse desajuste decorre basicamente da divisão social que acarreta a pobreza do povo e está na raiz do círculo vicioso que impede a superação do subdesenvolvimento. Como ensina Caio Prado Jr:

“Os baixos padrões de vida da grande massa da população brasileira não dão margem para atividades produtivas em proporções suficientes para absorver a força de trabalho disponível e assegurar com isso ocupação e recursos adequados àquela população. Donde um mercado consumidor restrito.., e o retorno ao ponto de partida do nosso “círculo”. Em suma, não temos produção porque não temos consumo, e não temos consumo porque não dispomos de um nível adequado de atividades produtivas” (1987. p. 158).

 

Desarticulação das regiões

 

Até os anos trinta, nossa economia era um arquipélago de núcleos exportadores (borracha, na Amazônia; algodão, no Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte; açúcar, em Pernambuco; cacau, na Bahia; café, em São Paulo e Minas; carnes e couros, no Rio Grande do Sul) que se ligavam diretamente aos mercados externos interessados na compra desses produtos. Esses centros exportadores tinham poucas e precárias comunicações entre si. Basta lembrar que, em 1940, quando a navegação costeira foi interrompida por causa da ameaça dos submarinos alemães, houve crise de superprodução de açúcar no Nordeste e racionamento desse produto em São Paulo.

Toda a infra-estrutura de transporte e comunicação das diversas regiões econômicas havia se desenvolvido em função das relações entre a zona produtora e o mercado externo importador, sem ligações que permitissem o intercâmbio comercial entre as próprias regiões do país.

A criação de um espaço econômico nacional começou após a revolução de trinta (a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder e destronou os fazendeiros de café de São Paulo e Minas Gerais, que até então comandavam o país) e demandou cinco décadas de esforço do Estado brasileiro, não se podendo afirmar que a tarefa já esteja inteira­mente terminada, pois, embora o mercado interno tenha atingido certo porte, as articulações entre as várias regiões continuam precárias e in­coerentes.

 

Incapacidade de afirmar o domínio sobre todo o território

 

As limitações do nosso desenvolvimento acabaram por criar um problema geopolítico muito grave: até hoje não conseguimos afirmar plenamente nosso domínio sobre todo o território nacional. As regiões de fronteira, tanto ao norte quanto a oeste, mantém ainda fortes traços de “terra de ninguém” — espaços em que as instituições do Estado brasileiro têm pouca presença e efetividade. Não por outra razão, essas regiões servem hoje de refúgio para o narcotráfico andino e para o contra­bando de ouro e metais preciosos extraídos ilegalmente nas regiões perdidas do interior do país. Nessas regiões longínquas do interior, onde freqüentemente se tem notícia da existência de trabalho escravo, as instituições do Estado têm menos poder do que os chefões locais.

A incapacidade do Estado brasileiro de impor o domínio nacional em regiões tão extensas atrai evidentemente a cobiça de Estados poderosos, o que vem se manifestando, cada vez com mais freqüência, nas tentativas, sutis, mas inequívocas, de limitar nossa soberania na Amazônia.

A evidência maior dessa incapacidade do Estado brasileiro de manter domínio sobre todo o território foi a entrega da vigilância aérea dessa imensa área, através do projeto SIVAM (Sistema de Vigilância Aérea da Amazônia), a uma firma norte-americana.

 

Até agora tratamos de fatores econômicos. Mas não são somente eles que explicam o Brasil que temos. Este Brasil explica-se também por uma série de contradições políticas e culturais, que ainda não conseguimos superar, tais como a falta de identidade cultural; a precariedade das instituições administrativas e políticas do Estado; o arraigado colonialismo cultural das nossas elites.

O estoque inicial de população européia que emigrou para o Brasil na época do descobrimento misturou-se com a população indígena, e, posteriormente, com a população negra escravizada, formando a base da população que iria receber, nos séculos XIX e XX, imigrantes asiáticos e novas grandes levas de imigrantes europeus. Esse conjunto é recente e ainda não foi capaz nem de se integrar como uma sociedade homogênea nem de formular um projeto histórico claro e definido, que lhe dê identidade cultural própria.

A falta de identidade cultural dificulta a percepção dos interesses e dos valores comuns da sociedade e essa dificuldade se reflete imediata­mente na incapacidade de fixar objetivos de desenvolvimento próprios e estratégicos adequados para atingi-los. Um povo sem identidade cultural não pode gerar cidadãs e cidadãos conscientes dos seus direitos e dos seus deveres e, sem isso, não há como construir instituições políticas e administrativas sólidas e duradouras.

Em tais condições, o Estado brasileiro não é sustentado consciente e ativamente por toda a população, mas pela diminuta parte dela que tem acesso ao fechadíssimo círculo do poder. Essa oligarquia (governo de poucos) não vê o conjunto; olha apenas os seus interesses imediatos. Por isso não conseguimos escapar dos cassinos, ou seja, de leis que são feitas para atender ao interesse de uma pessoa ou de um grupo. Até as Constituições são feitas para coonestar consensos temporários, decorrentes de correlações de forças precárias e transitórias. Basta ver que, nas últimas seis décadas, tivemos seis Constituições e mais de dez Atos Institucionais editados por ditadores. Nenhuma dessas Constituições chegou a ser inteiramente regulamentada e posta efetivamente em vigor. Por exemplo, a execução de despejos à noite é expressamente vedada pelo texto constitucional, mas, apesar disso, ocorre diariamente, sem provocar nenhuma reação dos poderes constituídos da República. O mesmo acontece com a tortura contra presos comuns, que se tornou rotina nas delegacias de polícia, sem que os governadores e os juízes de direito tomem providências eficazes para eliminá-la. Não por acaso, também, a Medida Provisória, um recurso previsto na Constituição para atender situações excepcionais e de muita urgência, passou a ser editada rotineiramente pelo Presidente da República, a fim de substituir as leis votadas pelo poder competente para isso — o Congresso Nacional. A cada eleição te­mos uma nova lei eleitoral, redigida cuidadosamente pelos deputados da maioria em função do cálculo que eles fazem a respeito de suas possibilidades de reeleição com a lei que vigorou na eleição anterior. Se algum artigo dessa lei pode atrapalhar sua reeleição, esse artigo é devidamente modificado. Por isso é que, numa eleição, não pode haver propaganda em “outdoor”, e na eleição seguinte pode; numa eleição pode passar filme no programa eleitoral do candidato, e na eleição seguinte não pode, numa eleição pode haver boca de urna, e na outra não pode. Tudo depende do cálculo que a maioria dos congressistas faz a respeito da possibilidade de se eleger com a lei vigente. Os exemplos podem ir longe...

Outro traço negativo da sociedade brasileira e que decorre igualmente da falta de identidade nacional é a submissão das elites dirigentes aos padrões culturais que vêm de fora. Desde o período colonial, nossas elites empresariais, intelectuais e políticas vivem no Brasil, mas com a cabeça voltada para a Europa ou para os Estados Unidos. Para elas, “lá é o mundo que vale a pena; aqui, o degredo”; “bom é o que vem de fora; ordinário, o que for produzido aqui”; “correto é o que for aprovado nos centros de pensamento forâneos; aqui não somos capazes senão de co­piar e repetir”. Prova disso é a obsessão das classes ricas e das classes médias com as viagens à Disneylândia, com as compras em Miami e Nova Iorque, com as viagens turísticas pela Europa. Essa submissão cultural torna-se ainda mais patente quando se cristaliza em expressões do próprio idioma comumente falado. Por exemplo, no Brasil de hoje, quando se quer afirmar o valor de um objeto, de uma obra artística, de um edifício, diz-se: “Isto é de Primeiro Mundo”.

Nem o mundo intelectual escapa disso. Vários intelectuais brasileiros têm criticado o trabalho acadêmico de muitas universidades por se subordinarem a modas intelectuais que vêm de fora.

O exame das causas estruturais da realidade brasileira atual ajuda a compreender por que é tão triste e revoltante o Brasil que temos — um país cujo povo se deixa explorar sem reação; um Estado cujas instituições administrativas e políticas são frágeis; uma sociedade governada por elites que se consideram inferiores aos povos mais desenvolvidos; e um território riquíssimo, cujo patrimônio natural está sendo impiedosamente depredado. Enquanto essas contradições herdadas do passado histórico não forem superadas, será impossível trocar o Brasil que temos pelo Brasil que queremos.

Contudo, esta descrição não seria correta, se não apontasse também o outro lado da nossa realidade social, cultural e política — o lado da busca de superação da situação colonial.

Desde a Independência, e, especialmente, desde os primeiros anos deste século, toda uma geração de intelectuais, artistas, políticos, empresários, lideranças populares e religiosas, engajou-se na empreitada de pensar o Brasil com critérios, valores e parâmetros nossos. Há hoje toda uma literatura que documenta esse esforço de valorização da nossa experiência histórica, da cultura que conseguimos acumular, da especificidade dos nossos problemas. Ao lado disso, pode-se identificar, especialmente nos últimos setenta anos, um movimento social e político, formado por segmentos das classes dominantes e pelas classes populares, que luta pela soberania e pela autonomia da nação.

Foi a análise dessa contradição entre as forças progressistas e as forças do atraso que levou Caio Prado Jr. a afirmar, no livro já citado, que o traço essencial da nossa história independente é a transição do Brasil-colônia de ontem para o Brasil-nação de amanhã.

Com efeito, quem observa a história deste último século verificará facilmente que toda ela é marcada pela disputa entre os que lutam por construir uma nação soberana, dotada de autonomia, próspera e socialmente justa (campanha da abolição, campanha da escola pública, luta pela Petrobrás, luta pela reforma agrária, movimento de defesa dos direitos das mulheres, dos negros, dos índios e tantos outros) e os que a querem submissão aos interesses estrangeiros e marcada pela injustiça social, como o Acordo MEC - USAID (um acordo nefasto para o desenvolvimento da educação brasileira, celebrado entre Ministério da Edu­cação e Cultura e a agência norte-americana de ajuda ao desenvolvi­mento, durante o governo militar), submissão ao FMI (Fundo Monetário Internacional, organismo internacional, mas, de fato, subordinado ao Tesouro dos Estados Unidos, que controla as economias dos países subdesenvolvidos), resistência à reforma agrária, entrega do SIVAM (Siste­ma de Vigilância Aérea da Amazônia) a uma firma norte-americana, favorecimento à desnacionalização do nosso parque industrial, privatizações, liberalização do mercado externo.

Desde a proclamação da independência, a disputa entre progressistas e conservadores não cessou um instante, mas, apesar das idas e vindas, avanços e retrocessos, o Brasil-nação vinha paulatinamente substituindo o Brasil-colônia. A gravidade do momento que estamos vivendo é que, desde 1990, esse processo está paralisado. Nesta última década, o Brasil-colônia fez o Brasil-nação recuar. Por isso um pensador importante e sério como Celso Furtado ficou tão alarmado, que resolveu escrever um livro para alertar a população sobre o que estava acontecendo e pôs nesse livro o título: Brasil - a construção interrompida.

É preciso, pois, examinar atentamente os fatos que explicam essa paralisação.

 

3.2. As causas conjunturais da situação atual

 

Causas conjunturais são as que determinam diretamente os fatos que estão acontecendo e as situações que se estão formando. Distinguem-se das causas estruturais por serem mais recentes, passageiras, menos definitivas. Mas é óbvio que, se não forem removidas, podem dar origem a causas estruturais.

Neste momento a causa mais importante da situação conjuntural do país refere-se às mudanças ocorridas no sistema capitalista internacional, Essas mudanças estão determinando uma nova divisão internacional do trabalho, ou seja, estão definindo o que cada país vai produzir. Por exemplo: que países irão produzir e exportar foguetes, satélites, computadores, espécies transgênicas, animais clonados? E que países irão produzir e exportar toras de madeira, minérios não processados, fibras naturais, tecidos simples, objetos de uso doméstico? Evidentemente não pode haver nenhuma dúvida de que os países que fabricarem os produtos do primeiro grupo ficarão mais ricos do que os que ficarem com os produtos do segundo. Em outras palavras, a divisão internacional do trabalho vai determinar que países serão desenvolvidos e que países serão subdesenvolvidos no mundo que está sendo forjado atualmente.

A nova divisão internacional do trabalho, gestada em organismos como o FMI (Fundo Monetário Internacional), a OMC (Organização Mundial de Comércio), a OCDE (Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico), o Banco Mundial, é muito desfavorável ao nosso país. A percepção disso levou Celso Furtado a fazer esta grave observação:

“De acordo com a lógica da ordem econômica internacional emergente, parece ser relativamente modesta a taxa de crescimento que corresponde ao Brasil. Nessas condições, o processo de formação de um sistema econômico já não se inscreve mais naturalmente em nosso destino nacional”(1992, p. 13).

De fato, o processo de industrialização foi interrompido, a economia brasileira está sendo totalmente desnacionalizada, o Estado nacional está sendo obrigado a abrir mão de todos os elementos indispensáveis ao controle da economia e do próprio território, a fim de que nosso desenvolvimento fique inteiramente controlado pelo capital estrangeiro.

Esse ajuste econômico fere frontalmente os interesses do conjunto da população brasileira. O ritmo de crescimento da economia foi inteiramente submetido ao jogo da especulação financeira. A economia está estagnada há anos e sem perspectivas de sair dessa situação calamitosa em um futuro previsível. Mas isso não impede que os especuladores ostentem ganhos extraordinários nas bolsas e que bancos nacionais e internacionais apresentem lucros nunca vistos em suas operações. Só com a crise do Real, no começo de 1999, quatorze bancos lucraram dois e meio bilhões de reais — uma taxa de 1.296% de lucro!

No outro lado da medalha, o que se observa é o aumento do desemprego, o congelamento dos salários, o declínio da previdência social, o sucateamento dos serviços públicos. Em uma palavra: uma piora considerável nas condições de vida da maioria da população.

Para justificar-se, a elite governante apresenta a situação como sendo uma crise passageira, decorrente da necessidade de ajustar a nossa defasada economia às exigências da globalização do sistema capitalista internacional.

Há duas mentiras nesse discurso: nem a globalização requer inelutavelmente o ajuste que está sendo realizado, nem a promessa de que se trata de uma situação passageira corresponde à verdade. Pelo contrário, ajustando-se subordinadamente ao sistema globalizado, todos os problemas econômicos e sociais decorrentes do nosso subdesenvolvimento irão se agravar, tomando praticamente impossível o funcionamento de um regime democrático. Do Brasil que temos, caminharemos, se não houver uma ruptura política, para um regime de “apartheid social” (separação física das populações, como aconteceu na África do Sul até a vitória de Nelson Mandela) e de democracia restrita, com controles rigorosos e violentos sobre a massa da população.

O Brasil que temos explica-se, portanto, por um lado, pela incapacidade que tivemos até agora, enquanto classes populares, de superar as contradições herdadas do passado, e, por outro lado, pela exacerbação dos efeitos dessas contradições em decorrência da submissão das elites governantes às exigências das forças que controlam a transição do capitalismo para a etapa da globalização.

In: “Brasil 500 anos: por um Jubileu de Justiça e Esperança” - CESEP


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