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A perigosa sedução das tecnologiasGILBERTO DUPASO telefone móvel e a Internet, símbolos da interconectividade, passam a condição de felicidade |
O capitalismo global resistirá aos choques sociais futuros resultantes da automação radical? A manipulação genética deve ter limites? Enfim, a quem cabe controlar a técnica?
As características essenciais do capitalismo sempre foram flexibilidade ilimitada, capacidade de mudança e profunda adaptação. Foi o que ocorreu no final da década de 60, quando começou a se evidenciar uma excessiva acumulação do capital Os processos fordistas, que fizeram a revolução industrial, haviam reduzido fortemente os custos pela produção em série e em grande escala. Com o final da Segunda Guerra, esse modelo utilizado pelas grandes corporações norte-americanas espalhou-se pelo mundo inteiro, convertendo-se em novo paradigma tecnológico. A conseqüente expansão da acumulação levou a uma produção superior à demanda dos mercados.
Por outro lado, as reconstruções japonesa e européia e a forte organização da classe trabalhadora em o mundo acabaram acarretando certa descapitalização das corporações.
Após a crise do petróleo, a retomada do ciclo de acumulação passou a exigir saltos tecnológicos radicais, aumento de eficiência e, especialmente, barateamento das matérias-primas e da força de trabalho. A redução dos custos salariais, fundamental para um novo equilíbrio da equação do capital, acabou sendo obtida por meio da fragmentação das cadeias produtivas, progressivamente viabilizada pelos avanços da tecnologia da informação.
Uma nova distribuição espacial da produção possibilitou ao capital incorporar as reservas de mão-de-obra barata dispersas pelos países da periferia, ao mesmo tempo em que se beneficiava de condições flexíveis desses países quanto à poluição, ao manejo de substâncias tóxicas e à evasão fiscal.
O desenvolvimento vertiginoso dos softwares, a difusão maciça da tecnologia de informática, o computador pessoal e os programas empacotados acabaram se convertendo em instrumentos decisivos na determinação de como se organiza e comanda a produção global. Esse poder, derivado da nova liderança tecnológica, consolidou a hegemonia econômica norte-americana nessa nova etapa do capitalismo. Finalmente, a conexão por redes globais e a liderança na Internet constituíram-se no elo final desse novo paradigma.
A quantidade e a qualidade das idéias que circulam pela Internet capturam instantaneamente o amplo espectro do estado da arte nos diferentes campos e viabiliza a apropriação dos conhecimentos globais.
As novas tecnologias geram produtos radica]mente novos. Ondas de entusiasmo, apoiadas e lançadas por todos os meios de comunicação, propagam-se em tempo real. O telefone móvel e a Internet, símbolos da interconectividade, passam a ser condição de felicidade. O homem volta a sentir-se rei exibindo seu controle sobre a natureza e a sua intimidade com a mercadoria. Essa relação atinge momentos de excitação fervorosa, de transe religioso e submissão, como no observar encantado das propriedades mágicas de um celular.
Tecnologia da informação e automação estão hoje presentes em todos os lugares. Compõem as cenas da vida cotidiana, instaladas em nossa intimidade. São filhas do desejo, muito mais que um simples instrumento dele. Tornaram-se aliadas ambíguas e desconcertantes, exceto para quem delas tira seus objetivos de lucro e domínio.
As novas técnicas operam com enorme autonomia, trazem importantes vantagens, mas podem facilmente se perverter, tomando-se nefastas e agredindo o próprio homem. Nossa sociedade foi induzida a ser permissiva para que a técnica se imponha como dotada de um poder próprio, difuso, transnacional, controlado - para o bem e para o mal - pelas grandes empresas mundiais que a construíram e a exploram.
O que está em causa é menos a irresponsabilidade de alguns cientistas que não hesitariam em "passar por cima de sua ignorância", negligenciando a imprevisibilidade das conseqüências e seus efeitos irreversíveis, e mais o poder do sistema tecnocientífico sobre uma economia entregue a seu dinamismo e obcecada por seus avanços.
É o caso da terapia genética e dos alimentos transgênicos. Ao longo deste século, o homem conquistou o que jamais pôde pretender: com a entrada na era nuclear, o poder de destruir o mundo; com o acesso à manipulação do DNA,o poder de transformar sua raça.
Parte essencial de um sistema, as tecnologias adquiriram enorme autonomia, tendendo a nos fazer renunciar ao exercício da liberdade de decisão. No entanto, tecnologia é uma produção do livre arbítrio do homem e de sua cultura e deve ser referida a seus valores e éticas. O vetor tecnológico pode ter o rumo que a sociedade humana desejar, se ela não renunciar à sua obrigação de organizar-se em função dos interesses da maioria de seus cidadãos.
Entre outros assuntos vitais ligados à evolução da técnica, deve caber à sociedade - de maneira democrática e informada por uma ética própria -, e não aos gestores das grandes corporações, definir o grau de automação desejável para que não se destrua o mercado de trabalho de seus cidadãos; ou o nível de manipulação genética seguro para os alimentos que consumirão.
Antes que os danos sejam irreversíveis, é preciso garantir à sociedade civil mecanismos para o controle do seu futuro.
Gilberto Dupas, 57, economista, é coordenador da Área de Assuntos Internacionais do Instituto de Estudos Avançados, da USP (Universidade de São Paulo) e autor, entre outros livros, de "Economia Global e Exclusão Social" - Paz e Terra)
Desenvolvimento tecnológico e (des)funcionalidade do capitalismo
Bernard Appy
Os riscos para a humanidade decorrentes da perda de controle do desenvolvimento tecnológico acrescentam mais um item à extensa lista de defeitos dos sistemas econômicos orientados exclusivamente pelo mercado.
Em um texto recente, Bill Joy - cientista chefe da Sun Microsystems, uma das poucas empresas de software capazes de desafiar a Microsoft - faz previsões assustadoras sobre os riscos do desenvolvimento tecnológico nas próximas décadas. Segundo o autor, a perda de controle ou o mau uso das tecnologias de ponta do século XXI - engenharia genética, robótica, e nanotecnologia - podem facilmente levar à extinção da humanidade.
Seus argumentos seguem duas vertentes. Em primeiro lugar, com o rápido avanço dos computadores - que em trinta anos devem atingir a capacidade de processamento do cérebro humano -, haverá um grande aumento no uso de robôs, que passarão a assumir cada vez mais o trabalho hoje realizado pelos homens. Com o passar do tempo, o trabalho humano tende a tornar-se desnecessário - e, no limite, os próprios homens podem tornar-se supérfluos.
A segunda linha de argumentos diz respeito à possibilidade de produção de armas de destruição em massa a partir das novas tecnologias, que são adequadas para a criação de organismos ou mecanismos capazes de se auto-reproduzir. Para o autor, o uso destas tecnologias por grupos terroristas, ou mesmo a perda de controle de pesquisas realizadas com fins pacíficos, podem levar à extinção da humanidade, ou mesmo de toda a vida na Terra.
Bill Joy lembra que, enquanto as armas de destruição em massa do século XX foram desenvolvidas pelos governos, as novas tecnologias do século XXI vêm sendo desenvolvidas por empresas privadas com fins de lucro — o que toma muito mais difícil, ou mesmo impossível, o seu controle. A sugestão do autor é a de limitar o desenvolvimento das novas tecnologias até que se estabeleçam mecanismos adequados de controle sobre os resultados do desenvolvimento tecnológico.
Obviamente não tenho condições de avaliar se as previsões de Bill Joy são realistas ou não. A razão pela qual descrevi suas idéias é que, se estas são razoáveis, então temos mais um item para acrescentar à longa lista de questionamentos sobre a funcionalidade do capitalismo - ou seja, à capacidade do capitalismo de atender às necessidades humanas.
Não há dúvida de que o capitalismo é provavelmente o sistema econômico mais favorável ao desenvolvimento tecnológico e ao aumento da produtividade. Todos os grandes economistas (e particularmente Marx) reconhecem a importância do capitalismo para o extraordinário crescimento econômico dos últimos séculos.
Se a funcionalidade do livre funcionamento do mercado para o desenvolvimento tecnológico e o crescimento econômico é inquestionável, as criticas à sua desfuncionalidade também são muitas. Longe de querer esgotar o assunto, vale a pena lembrar algumas falhas do mercado livre, começando por sua incapacidade em generalizar a melhoria dos padrões de vida para toda a humanidade.
Como todos sabem, o desenvolvimento tecnológico propiciado pelo capitalismo não foi apropriado na forma de uma melhoria do padrão de vida de todas as pessoas. Ao contrário, a conseqüência deste desenvolvimento foi um radical aprofundamento das diferenças de padrão de vida entre os homens. O motor da economia de livre mercado não é a generalização dos avanços nos padrões de vida, mas sim a criação de novas necessidades para aqueles que já dispõem de um padrão de vida superior.
Em um texto da década de 20 chamado "As Possibilidades Econômicas de Nossos Netos", Keynes prenunciou o grande crescimento econômico das décadas seguintes e previu que a maior facilidade dos homens em obter o necessário para seu sustento reduziria a necessidade de trabalho, liberando tempo para o desenvolvimento intelectual, moral e cultural das pessoas. Seu único temor era que a maior abundância e a menor pressão pela sobrevivência levasse as pessoas a se acomodarem e ficarem deprimidas - como certas senhoras americanas de classe alta na época.
O que os netos (e bisnetos) dos contemporâneos de Keynes vemos hoje é que as pessoas não estão trabalhando menos - pois a pressão competitiva do capitalismo exige uma dedicação cada vez maior dos trabalhadores - e que o aumento da abundância levou sim a um contingente cada vez maior de pessoas deprimidas - que têm acesso aos bens materiais mas não têm uma razão para viver.
Nestas semanas em que o governo e a imprensa comemoram a retomada do crescimento econômico, é bom lembrar que o crescimento econômico é desejável e necessário, mas não deve ser o único objetivo de uma sociedade.
No caso das economias capitalistas, as distorções resultantes do livre funcionamento do mercado podem ser socialmente mais custosas que os benefícios do crescimento. Se Bill Joy estiver correto, então o custo de deixar o desenvolvimento tecnológico ser dirigido exclusivamente pelo mercado pode ser ainda muito mais elevado - levando, no limite, à extinção da humanidade.