Uma máquina de bater chamada

 

Félix Savón

 

Sérgio Villar

In : “Zero Hora”- 11.09.2000 – pg. 58.

Quando tinha apenas 12 anos, Félix caminhava cinco quilômetros de sua modesta casa em San Vicente, Cuba, até o rio mais próximo para buscar água. As latas de 30 litros cada eram carregadas nos ombros.

No começo, o corpo ficava dolorido. Aos poucos, porém, o peso foi diminuindo. Os músculos, enrijecendo. O trabalho duro colaborou para o início da carreira de um dos maiores nomes do esporte cubano: o boxeador FéIix Savón. Hexacampeão mundial amador, o peso pesado chega a Sydney para tentar conquistar sua terceira medalha de ouro em Olimpíada e igualar a marca do compatriota Teófilo Stevenson.

Duvidar disso? Loucura. Savón é um pugilista fora de série. Da estirpe de Stevenson, Muhammad Ali, Joe Frazier, George Foreman e Mike Tyson. Sim, Félix Savón Fabré tem tanta força nos punhos como Tyson. Mas com vantagens. É mais alto (l m 98cm) e técnico do que o americano. A diferença básica, porém, está na mente. Savón é um homem que pensa. Na Eide (escola especial para captação de talentos esportivos), aprendeu bem mais do que soquear sacos de areia e jabear.

O boxeador nascido em setembro de 1967 dedicou-se aos estudos e aprendeu a valorizar os princípios da revolução cubana de 1959. Nunca aceitou profissionalizar-se. E bem que foi tentado a isso. Recebeu ofertas milionárias para lutar fora de seu país, principalmente nos Estados Unidos. Recusou todas. Perguntado sobre a razão, Savón explica de forma direta:

- Ninguém pode me oferecer mais do que eu já possuo. Tenho gratidão pelo meu país e não há dinheiro no mundo o suficiente que pague isso.

Ao contrário da maioria dos boxeadores da primeira linha do mundo, que são movidos por milhões de dólares, Savón faz questão de manter uma vida humilde baseada em um convívio familiar sólido. Casado com a professora Maria Dranguet, dedica as horas de folga para os dois filhos, chamados curiosamente de Mano Félix e Félix Mano.

Ídolo dos cubanos, Savón não é exatamente um superstar. Dispensa paparicos. Prefere ficar em casa. Em sua sala, as visitas podem admirar muitos troféus e medalhas, conquistadas desde os 14 anos, e uma foto ao lado do presidente de Cuba, Fidel Castro.

O sossegado Savón, entretanto, transforma-se quando pisa no ringue. Dono de um estilo agressivo, é sempre dele a iniciativa do combate. Com um potente direto e jabs de esquerda que mais parecem marteladas, o cubano é uma máquina de socos. Nos Jogos de Atlanta, em 1996, só para ter uma idéia de sua eficiência, superou seu oponente na luta final por 20 a 2.

Este ano, perdeu uma competição nacional - fato raro em sua trajetória vencedora. A derrota, entretanto, o motivou ainda mais para a Olimpíada de Sydney. Ele só pensa no ouro. E baterá forte para alcançá-lo. Azar de seus adversários.


Reivindicações sociais e minorias são destaques


DO ENVIADO A CANBERRA



Além da política esportiva, uma outra discussão marca a última edição dos Jogos neste século.
Sydney pretende entrar para a história como a Olimpíada que melhor conseguiu capitalizar anseios sociais, como o ecológico. O Comitê Organizador foi capaz de suspender a construção do estádio Olímpico para salvar uma espécie de sapo que ali vivia. A piscina principal evita o desperdício de energia ao limitar, ao máximo, o sistema de refrigeração apenas ao público, evitando que ele entre em conflito com o aquecimento da água. A Vila Olímpica já é considerada o maior subúrbio movido a energia solar do mundo. Nem a chuva foi esquecida. Será, sim, reaproveitada por sistemas de coleta que farão com que a água seja utilizada no estádio principal dos Jogos. Todas as medidas fazem parte de um "pacote verde" prometido já na campanha da então candidata Sydney, em 1993. Desde então, cada passo organizacional foi vigiado de perto por instituições ecológicas. Não que isso tenha evitado ou vá evitar protestos na porta do Socog (Comitê Organizador dos Jogos de Sydney).
O Greenpeace recentemente publicou o último "boletim verde" dos Jogos. Rebaixou a nota dos organizadores de sete (de um ano atrás) para seis. "Houve sucessos memoráveis e falhas desapontadoras", afirmou a entidade.
Uma de suas principais reclamações diz respeito à baía Homebush, onde estará o Parque Olímpico, coração dos Jogos.
O Greenpeace afirma que a tão alardeada limpeza da área que estava contaminada por substâncias tóxicas não foi completa. "Fizeram o trabalho apenas nos locais da Olimpíada. Mas para os que vivem na região o perigo continua existindo", diz a entidade. A instituição reclama também da arena construída para o vôlei de praia em Bondi Beach, a mais famosa de Sydney. Diz que não houve o planejamento necessário e que o meio ambiente local pode acabar prejudicado. Mas não é só na parte ecológica que a cidade pretende se destacar das Olimpíadas anteriores. O politicamente correto abrange ainda uma revisão da história do país.
O Socog alardeia seu papel de promover um "reencontro" entre os australianos, destacando em tudo, a começar pelo logo oficial, a cultura aborígene embora também eles, os aborígenes, prometam protestos durante a realização do evento.
De acordo com o comitê, em Sydney, pela primeira vez na história olímpica, serão hasteadas bandeiras de minorias originais de diversas regiões do mundo, incluindo a de populações aborígines australianas.
Atletas descendentes desses povos são promovidos e fotografados como exemplos da "democracia olímpica".
Entre eles, o nome mais famoso é o da corredora australiana Cathy Freeman, favorita, ao lado da francesa Marie-Jose Perec, à medalha de ouro nos 400 m rasos nos Jogos de Sydney. Como Cathy mesmo coloca: "Eu sou australiana em primeiro lugar. Mas também sou aborígine".
(RD) FSP 10.09.2000


 

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