REVOLUÇÕES  TECNOLÓGICAS

 

Darcy Ribeiro - O PROCESSO CIVILIZATÓRIO

  

1. REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA AGRÍCOLA

 

O primeiro processo civilizatório corresponde à Revolução Agrícola, que se desencadeou originalmente, há cerca de 10 mil anos passados sobre os povos da Mesopotâmia e do Egito e se repetiu, mais tarde, por efeito da difusão ou como desenvolvimentos independentes, na Índia (6000 a. C.), na China (5000 a. C.) na Europa (4500 a. C.), na África Tropical (3000 a. C.) e nas Américas (2500 a. C.).

Essa revolução tecnológica desdobrou-se em dois processos civilizatórios com os quais surgiram a agricultura e o pastoreio, determinando duas novas formações sócio-culturais: 1) Aldeias agrícolas indiferenciadas (não estratificadas em classes) dos povos que se fizeram lavradores de tubérculos ou de cereais, a exemplo das tribos da floresta tropical nas Américas, e de inúmeros povos tribais de outros continentes. Alguns deles combinaram, mais tarde, a agricultura com a criação de animais, mas ainda não os utilizavam na tração. 2) Hordas pastoris nômades dos povos que, posteriormente, se especializaram na criação de animais ajustando todo o seu modo de ser às condições de sobrevivência e de multiplicação dos rebanhos.

O homem vivera sempre em pequenos bandos móveis de coletores de raízes e frutos, de caçadores e pescadores, rigidamente condicionados ao ritmo das estações, engordando nas quadras de fartura e emagrecendo nos períodos de penúria. Só em regiões excepcionalmente dadivosas, como as costas marítimas, ricas em mariscos, e, por isso mesmo, muito disputadas, esses bandos podiam alcançar maiores concentrações. Ainda assim o montante de cada grupo era limitado pela capacidade de provimento alimentar nas quadras de maior escassez e pelas dificuldades de ordenar socialmente o convívio de unidades sociais maiores.

Nesse largo período de vida pré-agrícola, avaliado em meio milhão de anos, o homem dominara o fogo; aprendera a fabricar instrumentos de trabalho que compensaram suas carências físicas com meios de ataque e de defesa, e aumentaram sua eficiência produtiva. Desenvolvera idiomas, criara instituições sociais reguladoras da vida familiar e grupal e intensificadoras do sentimento de lealdade étnica. Acumulara patrimônios de saber e de crenças que explicavam sua experiência e orientavam sua ação, bem como fantasmagorias, através das quais procurava alcançar segurança emocional em face dos riscos a que estava sujeito e dos quais se tornara consciente, como a dor e a morte..

Em alguns núcleos, por efeito da acumulação de observações e de experimentos, através de milênios, surgiram as primeiras formas de agricultura. Estas se iniciam, provavelmente, pela horticultura de frutos e tubérculos nas áreas tropicais e, nas regiões temperadas e frias, pelo cultivo de cereais, uns e outros anteriormente coletados nos mesmos sítios. Tais procedimentos acabam por fixar-se como um processo produtivo novo que, permitindo reordenar intencionalmente a natureza, a colocava a serviço do homem para prover a massa principal de alimentos vegetais de que carecia.

A domesticação de animais, surgida em certas áreas, permitiria enriquecer a dieta humana com uma provisão regular de carne e também de leite e peles. Mais tarde, alguns dos animais domesticados proporcionariam uma nova fonte de energia muscular, além da humana, como montaria ou força de tração de arados e carros, multiplicando, dessa forma, a capacidade produtiva do homem e sua mobilidade espacial.

Tal como a agricultura, a domesticação de animais desenvolveu-se progressivamente, a partir de procedimentos ocasionais que familiarizaram o homem com as condições de sobrevivência e de reprodução dos animais. Segundo o testemunho etnográfico, os grupos caçadores têm gosto em levar para suas moradas, e entregar ao cuidado das mulheres e das crianças, filhotes dos animais que eles caçam, para serem criados como um brinquedo animado. Essa atividade está, provavelmente, na base da domesticação que, começando pelos cães de caça, se estenderia às aves, porcos e muitas outras crias de terreiro e, depois. a animais de maior porte, criados já em rebanhos, como as renas, os camelos, as ovelhas, os eqüinos e os bovinos, cujas condições de crescimento conduziriam ao pastoreio como atividade especializante.

O efeito crucial da agricultura e do pastoreio na esfera das relações do homem com a natureza foi um enorme incremento demográfico, causado pela relativa fartura alimentar que proporcionou.

 

ALDEIAS AGRÍCOLAS INDIFERENCIADAS E HORDAS PASTORIS NÔMADES

 

As sociedades estruturadas nos dois tipos de formação sócio-cultural as aldeias agrícolas indiferenciadas e as hordas pastoris nômades dedicam-se, essencialmente, à reprodução do seu modo de vida através de economias de subsistência

Tal como as economias precedentes de caça e coleta, essas novas economias agrícolas e pastoris incipientes ainda não ensejam condições de diferenciação de categorias sócio-econômicas capazes de estamentar as comunidades. O grupo étnico inteiro apenas dividido em famílias e distribuindo as atribuições produtivas segundo o sexo e a idade - devota-se às tarefas de subsistência como um esforço coletivo que ocupa igualitariamente todos os seus membros. O domínio tribal coletivo das áreas de caça, pesca e coleta, estendendo-se, depois, às áreas de cultivo e de pastoreio, permite manter cada família como unidade de produção e de consumo. Nessa etapa não há lugar ainda para a acumulação privada de bens, nem para a apropriação dos produtos do trabalho alheio. Os excedentes alimentares ou de outro tipo - geralmente produto da dadivosidade da natureza em certas quadras do ano - são destinados a gastos supérfluos, com atos de fé, ou ao consumo festivo. Mesmo quando esses bens são apropriados pelos chefes dos grupos familiares, revertem geralmente à coletividade, após sua morte, ou são transferidos segundo regras de parentesco classificatório que incluem grande parte, senão a totalidade, do grupo local.

A renovação institucional mais assinalável dessa etapa encontra-se, provavelmente, no aprofundamento da divisão de trabalho entre os sexos, que atribui às mulheres as tarefas relacionadas com a semeadura, a colheita e a preparação de alimentos cultivados. Essa nova carga de trabalho reacentua a linha tradicional que já atribui à mulher funções rotineiras e ao homem as tarefas mais cansativas. Assim como a ele cabia antes a caça. agora lhe incumbe a derrubada dos bosques e o preparo dos terrenos para a lavoura. Ambas são tarefas grandemente exigentes. mas episódicas, porque concentradas no tempo, ensejando-lhe oportunidades de refazer-se dos esforços despendidos em longos períodos de repouso. Às mulheres, todavia cabem novas tarefas cotidianas que, como a manutenção da casa, o preparo da comida, a coleta, o cuidado das crianças, exigem um esforço continuado e sem interrupções para repouso.

Simultaneamente com essa diferenciação de papéis produtivos surgem crenças e cultos destinados a impor a dominação masculina, que se vira virtualmente ameaçada. Com o apelo a mitos e ritos - como os do Jurupari entre os grupos Tupis do Brasil, de instituições como a casa dos homens e os sistemas de castigos a que ambos estão associados - perpetua-se uma precedência social que já não corresponde ao papel masculino na nova economia dos povos agricultores.

As hordas pastoris nômades não parecem enfrentar esses problemas, em virtude da relevância do papel masculino no sistema produtivo. Em conseqüência, nelas se aprofunda essa dominância que assume as formas patriarcais mais despóticas. Também nos grupos de economia mista, em que o cuidado dos animais de criação cabe aos homens, a precedência social destes se ressalva. Por último, a guerra age também como fator de fortalecimento da precedência masculina dentro das sociedades agrícolas e pastoris, determinando, desde muito cedo, o aparecimento de diferenciações sociais que ampliam e dignificam as antigas formas de chefia, cujas responsabilidades vinham sendo aumentadas. Agora lhes cumpre fazer face aos riscos de saque das safras e dos rebanhos e a condução das lutas pela conquista de novas áreas de cultivo e de pastagens.

Amplia-se, igualmente, na mesma etapa, o número de especialistas no trato com o sobrenatural, que são chamados ao exercício de funções mais complexas, como a salvaguarda do grupo contra variações estacionais e a garantia da fertilidade do solo e das sementes, junto aos povos agricultores, e da saúde e da multiplicação dos rebanhos, junto aos pastores.

Ainda no curso da Revolução Agrícola, algumas sociedades experimentam grandes progressos na sua capacidade produtiva, devidos à substituição da enxada pelo arado puxado por animais e ao uso de fertilizantes. A tecnologia geral se enriquece com a descoberta e a generalização da cerâmica, que introduz o hábito de consumir principalmente alimentos vegetais cozidos, e, também, com o surgimento da fiação e da tecelagem, que substitui as vestimentas de couro por tecidos de fibras vegetais e animais e enriquece a tralha doméstica com uma multiplicidade de utensílios.

Essas atividades artesanais recairão principalmente sobre as mulheres, tomando mais penosa sua rotina, que se vira aliviada com a substituição da coleta de frutos e tubérculos silvestres pela produção dos roçados. Ao homem incumbe, agora, menos que caçar e pescar, preparar a terra para a lavoura e cuidar dos animais domesticados.

Essa nova tecnologia agrícola e artesanal não supõe, ainda, o surgimento de especialistas de tempo integral e, por essa via, a estratificação da sociedade em classes econômicas. Todos se dedicam à produção de alimentos e apenas conhecem formas elementares de troca de produtos e serviços. Dentro de cada comunidade local, os novos membros alcançam direitos iguais aos de todos os outros, pelo mesmo processo através do qual aprendem a língua e se tomam herdeiros do patrimônio cultural comum. A qualidade de membro do grupo é que os faz usuários do domínio coletivo sobre a terra e o rebanho e co-participantes do esforço coletivo de provimento das condições de sobrevivência e de crescimento de sua sociedade. Cada indivíduo sabe fazer o mesmo que qualquer outro; dedica-se a tarefas idênticas - exceto os papéis já diversificados de chefes e sacerdotes -, convivendo em um pequeno mundo social em que todos os adultos se conhecem e se tratam pessoal e igualitariamente.

 

 

2. REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA URBANA

 

(Egito, Mesopotâmia:4.000 AC; Índia:2.800 AC; Palestina: 1.000 AC; Atenas: 600 AC; Rússia:1.000 AC)

 

Com o desenvolvimento da Revolução Agrícola, algumas sociedades foram acumulando inovações tecnológicas que ampliaram progressivamente a eficácia produtiva do trabalho humano, provocando alterações institucionais nos modos de relação entre os homens para a produção e nas formas de distribuição dos produtos do trabalho.

Essas sociedades aumentaram o número de plantas cultivadas, aprimoraram as qualidades genéticas destas e revolucionaram suas técnicas agrícolas com a adoção de métodos de trabalho e de instrumental mais eficazes para o preparo do solo destinado às lavouras, transporte e estocagem das safras. Algumas sociedades de economia pastoril ou mista também alcançaram os mesmos resultados mediante a seleção genética dos rebanhos e a especialização do criatório para obter animais de montaria e de tração ou para o provimento de carne, de leite e de lã.

As inovações mais importantes da Revolução Urbana consistem, porém, na descoberta das técnicas ainda incipientes de irrigação e de adubagem do solo que, controlando os dois fatores essenciais da produtividade agrícola, asseguram colheitas cada vez mais fartas. Outras inovações fundamentais foram: a generalização do uso do arado e de veículos de roda, ambos de tração animal, bem como de barcos à vela capacitados para a navegação costeira.

Com base em diferentes combinações dessa tecnologia diversos povos revolucionam sua capacidade de produção de alimentos, ensejando o advento das primeiras cidades e, nelas, de novas técnicas de fabrico de tijolos e ladrilhos, a arte da vidraria, a metalurgia do cobre e do bronze, os silos, a escrituração ideográfica, a numeração, o calendário e, por fim, a arquitetura monumental.

As sociedades vanguardeiras dessa revolução tecnológica, ampliando a capacidade de produção de cada lavrador, passaram a contar com excedentes de alimentos que permitiram desligar um número cada vez maior de pessoas das atividades de subsistência. Ensejou-se, desse modo, o surgimento de formas mais complexas de divisão social do trabalho através da especialização artesanal e do comércio, tanto interno como externo, entre lavradores e pastores.

Dentro de algumas dessas sociedades de tecnologia avançada, os prisioneiros de guerra já não são sacrificados nos cerimoniais de antropofagia ritual, mas apresados como trabalhadores cativos, surgindo, desse modo, o escravismo. A presença de escravos tomados a outros povos e despersonalizados para serem possuídos como instrumentos de produção afeta profundamente todo o modo de vida dessas sociedades, que deixam de ser igualitárias, ao mesmo tempo em que se transformam em comunidades multiétnicas caracterizadas pela polarização de escravos em contraposição a senhores e em competição com os trabalhadores livres.

Surgem as classes sociais, diferenciando os produtores das camadas parasitárias de apropriadores dos excedentes produzidos. Estas se concentram, de preferência, nas vilas que começam a configurar-se como cidades, atuando como exatores de impostos ou como intermediários entre os setores já diferenciados de lavradores e pastores ou entre todos eles e os artesãos. Também estes, à medida que se especializam no fabrico de instrumentos de trabalho, de objetos de uso comum e de bens supérfluos, tendem a abandonar as atividades de subsistência alimentar e, por isso, a se concentrarem nas cidades nascentes.

Em algumas sociedades, a propriedade individual de bens, circunscrita originariamente aos produtos do trabalho de cada indivíduo ou de cada família, se estende, progressivamente, com o aumento da capacidade produtiva, até fazer-se o principal sistema de ordenação da vida social. Acaba por abranger os próprios agentes da produção os animais de tração, os trabalhadores escravizados e, finalmente, a condição básica da produção agrícola, que é a terra.

Em outras sociedades, preservam-se as formas coletivas de propriedade, geralmente em associação com o desenvolvimento de técnicas novas, como o regadio, e a criação de instituições extrafamiliares reguladoras das atividades produtivas e de integração do artesanato com a agricultura em comunidades auto-suficientes. Nesses casos, a estrutura social pode evoluir para formas mais altas de comunitarismo.

Com base nessa diferenciação configuram-se dois modelos de sociedades: as regidas por princípios coletivistas, fundados na propriedade coletiva ou estatal da terra e em procedimentos não escravistas e as regidas por princípios privatistas, principalmente a propriedade privada e a escravização da força de trabalho. Essas linhas diferenciadoras devem ser classificadas como dois processos civilizatórios: estados rurais artesanais de modelo coletivista e estados rurais artesanais de modelo privatista.Com o alargamento das camadas servis e dos estratos correspondentes de amos liberados da obrigação de trabalhar, surge um modo peculiar de vida, sustentado por novos valores, não mais assentados na virilidade ou na operosidade, mas na riqueza ou no poder. Aos poucos, esses novos estratos se configuram como uma camada senhorial tendente a exercer domínio não apenas sobre seus escravos, mas sobre a sociedade inteira, a fim de preservar e ampliar sua condição privilegiada.

Um dos desafios principais com que se defrontaram essas primeiras sociedades estratificadas consistiu na necessidade de desenvolver princípios integradores capazes de dar unidade social e coesão moral a suas populações divididas em estratos sociais profundamente diferenciados e contrapostos, a fim de torná-las entidades políticas unificadas e operativas. A fonte básica dessa coesão foi encontrada nas velhas tradições religiosas, que para isso tiveram de ser redefinidas. a fim de resignar o pobre com sua pobreza e também com a riqueza dos ricos, a todos permitindo viver e interagir e encontrar gosto e significação para suas existências tão contrastantes.

Os especialistas no trato com o sobrenatural, cuja importância social vinha crescendo, tornam-se, agora, dominadores. Constituem não apenas os corpos eruditos que explicam o destino humano, mas também os técnicos que orientam o trabalho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes atividades agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo o saber tradicional, ajustando-o às novas necessidades, mas tentando fixá-la para todos os tempos. Esse caráter conservador era inarredável à sua posição de guardiões de verdades reveladas, cuja autoridade e cujo poder não se encontravam neles, mas nas divindades a que eram atribuídas.

Os xamãs convertem-se, assim, em sacerdotes e, para atender às novas funções, organizam-se em corpos burocráticos e institucionalizam em igrejas a antiga religiosidade co-participada. Estas se tornam, em seguida, as principais agências de ordenação da sociedade a partir de centros cerimoniais construídos com crescente magnificência.

Os dois modelos básicos de estados rurais artesanais configuram-se com o surgimento de unidades políticas supra-comunitárias, como centros de poder instalados em cidades que dominam populações rurais muito maiores que elas (80 a 90% da população total). Estas têm sua vida disciplinada por uma tradição milenar e não experimentam as alterações radicais que se desencadearam sobre as populações citadinas. Nelas, as unidades familiais e a solidariedade fundada no parentesco continuam representando o papel de princípios ordenadores da vida social; a existência permanece rotineira, marcada apenas pelo suceder das estações, cada uma das quais as obriga a reiterar as mesmas atividades. Homens e mulheres trabalham, sucessivamente, na lavoura, na criação de animais domésticos e nas indústrias caseiras de fabricação de artefatos. Há pouca margem para a especialização, já que todos conhecem as técnicas produtivas básicas, não obstante atribuídas segundo linhas de sexo e de idade. Tampouco há lugar para a competição aberta ou para o espírito aventureiro e renovador. O que prevalece é antes um profundo sentimento de que a vida é sempre igual, de que a tradição contém todo o saber, de que os bens terrenos são limitados. Ante as populações das cidades, desenvolvem um arraigado sentimento de aversão, fundado na idéia de que os citadinos são incapazes de dedicar-se a um trabalho verdadeiro, vivem da exploração dos camponeses e são os culpados das desgraças desencadeadas sobre o mundo rural, como as guerras e as pestes. Nas cidades nascentes começa um estilo de vida voltado para o futuro, pleno de elã expansionista e de ambição, informado por um saber explícito que, conquanto deificador da tradição, permite o cultivo de certo espírito de indagação. Uma mobilidade social maior estimula a competição pelo controle das fontes de riqueza, de poder e prestígio, entendidas todas elas de modo mais objetivo e enfrentadas de forma prática e combativa.

Como se vê, a Revolução Urbana não apenas aprofundou as diferenças entre os modos de vida agrícola e pastoril, mas também os contrapôs um ao outro, da maneira mais drástica.

O exercício das funções de poder instituidor e mantenedor da ordem social interna e de poder promotor do expansionismo étnico conduz o Estado a ampliar incessantemente seus serviços administrativos, de controle social, de repressão e de guerra. Para custeá-los, introduz tributos que consomem parcelas cada vez maiores da produção, ao mesmo tempo em que absorve massas crescentes de pessoas em atividades não produtivas, como a guerra, as edificações suntuárias e a burocracia. Simultaneamente, o Estado passa a assumir novas funções, antes exercidas por outros órgãos. A justiça deixa de ser matéria privativa da família ou do clã para se tomar atribuição de especialistas. A tranqüilidade social se torna, por igual, objeto das polícias estatais. Por fim, a atividade guerreira, outrora obrigação de todos os homens, passa a ser cumprida por chefes especializados e tropas permanentes mobilizáveis não só contra inimigos externos, mas, também, contra as ameaças de sublevação das classes subalternas.

Vemos, assim, que os progressos da Revolução Urbana, embora potencialmente mais libertários pela promessa de fartura com que acenavam, representaram para a maior parte das populações humanas a condenação à escravidão ou à vassalagem, desconhecidas antes.

Nos dez milênios em que vem atuando a Revolução Agrícola, e nos 6 mil anos que já dura a Revolução Urbana, elas acabaram por afetar todos os povos. Mesmo os grupos marginais que resistem, ainda hoje, à integração nos estilos de vida por elas criados, sofreram profundamente seus efeitos reflexos.

 

 

3. REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO REGADIO

 

A Revolução do Regadio, que provê as bases tecnológicas dos impérios teocráticos de regadio, que surgem primeiro na Mesopotâmia, com os impérios Acádio (2350 a. C.) e Babilônico (1800 a. C.); no Egito, na Índia, na China, na Indochina. Mais tarde, estruturam-se nas Américas com os maias (300 E. C.) e, finalmente, com os incas e os astecas, que o conquistador espanhol ainda encontrou pujantes e rapidamente esmagou. O Japão emerge também para a civilização no corpo de uma formação teocrática de regadio, inspirada no modelo chinês.

Seus requisitos tecnológicos. institucional e ideológicos, que se vinham acumulando, havia muito, nos estados rurais artesanais de modelo coletivista. configuram-se plenamente como civilizações baseadas na agricultura de regadio, através de complexos sistemas de comportas e canais, regidos por centros urbanos que, a seguir, se tornariam metropolitanos, como cabeças de extensas redes de cidades.

Algumas dessas civilizações brotaram da gestação de descobrimentos técnicos e institucionais desenvolvidos depois da sedentarização das comunidades agrícolas e de sua estruturação em sociedades estratificadas. Dentre eles tiveram papel decisivo os sistemas de engenharia hidráulica. que abriram novos horizontes à agricultura irrigada e adubada, dirigidos por governos centralizados, que propiciaram um prodigioso acréscimo da produtividade das áreas cultivadas, com o aumento correspondente dos excedentes alimentares. Essas disponibilidades não somente ensejaram novos ascensos demográficos, mas permitiram a manutenção de grandes massas desobrigadas das atividades de subsistência, aliciáveis para outras tarefas, que variavam desde a construção de grandes obras hidráulicas necessárias à irrigação em alta escala até a edificação de obras faraônicas e as guerras de conquista. Suas contribuições tecnológicas fundamentais, além da engenharia hidráulica, em que se assentava a agricultura de regadio em alta escala, foram a generalização da metalurgia do cobre e do bronze e a cerâmica, a invenção dos azulejos, de novas técnicas e novos materiais de construção, de novos procedimentos baseados na polia, na prensa e nos cabrestantes e, ainda, o desenvolvimento da escrita ideográfica e da notação numérica. Essas invenções, em combinação com outros elementos, conduziriam algumas sociedades humanas a avanços revolucionários, na linha da aceleração evolutiva, e, em outras, provocariam as mais profundas alterações reflexas, por via da atualização histórica.

O provimento das matérias-primas, sobretudo minérios, tornadas indispensáveis, levou os impérios teocráticos de regadio a melhorar as técnicas de transporte por terra e por mar e impôs vínculos externos, em que se combinavam e alternavam a guerra e o comércio. As manufaturas instaladas no campo e nas cidades se padronizaram e, em alguns casos, se orientaram para a produção mercantil. Onde a metalurgia se difundiu mais amplamente, a guerra passou a fazer-se com armas de metal e com carros de rodas reforçadas. O comércio, exigindo formas mais elevadas de troca, ensejou o surgimento, em certas áreas, da moeda metálica.

 

IMPÉRIOS TEOCRÁTICOS DE REGADIO

(Théos = deus; kratein = governar)

No plano sócio-político, essa nova formação caracterizou-se pelo poderio alcançado pela organização estatal, grandemente centralizada e poderosamente integradora de todas as forças de compulsão social, o que não ensejava qualquer oposição de interesses que lhe fosse inibitória. Tal concentração de forças foi atingida pela unificação, dentro de uma mesma entidade, dos controles políticos e militares, bem como da capacidade reguladora e integradora da religião, e, ainda, pela monopolização das atividades produtivas e comerciais. Por esse motivo, em tais formações não surgem igrejas independentes, nem empresariados privatistas que se oponham ao poder central. Ao contrário, todos se unificam nele, cada qual contribuindo com elementos de integração e fortalecimento do seu domínio.

Armados desse poder monolítico, os impérios teocráticos de regadio se capacitam a alargar as bases de sua economia interna através da ampliação portentosa dos sistemas de irrigação e de defesa contra inundações e da construção de enormes obras hidráulicas, a fomentar o crescimento das cidades através de programas de urbanização e da construção de aquedutos, diques e portos e, ainda, a edificar gigantescos templos, palácios e sepulcros, bem como amplíssimas redes de caminhos, monumentais muralhas defensivas e enormes canais de navegação.

A base econômica dessas estruturas imperiais era a apropriação das terras cultiváveis pelo Estado teocrático e o desenvolvimento de complexos sistemas administrativos de controle da força de trabalho.

A primeira condição foi alcançada mediante a atribuição ao faraó, ao inca ou seu equivalente, enquanto divindade viva, da propriedade nominal de todas as terras. Isso permitiria intervir na rotina de trabalho dos camponeses e regular a sucessão hereditária, de modo a fomentar a produtividade e criar procedimentos regulares de apropriação, depósito e distribuição dos excedentes. Dentro desse sistema, as terras de cultivo permaneceram entregues em usufruto às comunidades locais, sem a intermediação de proprietários individuais. Mas se conseguiu romper com a auto-suficiência das aldeias camponesas e transformá-las em parcelas ativas de um sistema econômico global.

A segunda condição foi preenchida com a criação de formas complexas de controle da totalidade da força de trabalho e de sua direção na realização de grandes obras através de um vasto corpo sacerdotal, tendente a estruturar-se como uma burocracia gerencial. A envergadura dos empreendimentos estatais e a complexidade técnica dos mesmos obrigaram esse corpo burocrático a especializar-se e, em certa medida, a secularizar-se, de modo a capacitar o pessoal necessário ao planejamento e à direção das obras de engenharia hidráulica, rodoviária e construtiva, à implantação de sistemas uniformes de pesos e medidas, de tributação, de medição e alocação de terras de cultivo, de recolhimento de excedentes de alimentos e sua distribuição, à criação de procedimentos contábeis de registro de bens e de sistemas de constrição e capatazia da mão-de-obra, ao exercício monopolístico do comércio exterior para o suprimento de certas matérias-primas, como minérios, madeiras e sal, além da implantação de instituições educacionais de transmissão formal do saber tradicional e também do técnico-científico.

Esse desenvolvimento organizacional fez crescer, ao lado da nobreza hereditária e dos corpos sacerdotais que originalmente se haviam incumbido dessas tarefas, um vasto corpo de servidores do Estado. Seu recrutamento, que de início devia proceder-se pela seleção de talentos, tendeu, depois, a circunscrever-se ao mesmo círculo social, em virtude da atuação de dois fatores: primeiro, a necessidade imperativa de capacitação dos corpos técnico-burocráticos através da educação formal; segundo, os impulsos de defesa dos privilégios e direitos adquiridos por parte das camadas dominantes. A burocracia foi-se fazendo, assim, uma casta, pela sucessão dos filhos aos pais nos mesmos postos, mediante o adestramento seletivo e a crescente vinculação com a nobreza e com o clero, bem como pela oposição de interesses entre todos esses estratos e o conjunto da população.

Um outro elemento organizacional dos impérios teocráticos de regadio foi a profissionalização de uma camada guerreira tornada indispensável para compensar a debilidade combativa das populações agrícolas sedentarizadas e, sobretudo, a vulnerabilidade dos sistemas de irrigação em face de ataques externos.

Nos impérios teocráticos de regadio, o camponês, permanecendo, embora, jungido à terra e obrigado a sofrer a extorsão dos excedentes que produzia, só encontrava acima dele, como estrutura dominante, a própria comunidade solidária dentro da qual vivia, e, num segundo plano, a burocracia real, representada por agentes apropriadores dos excedentes de produção, através da cobrança de tributos ou formas similares de captação de bens e de imposição de serviços forçados. Entretanto, mesmo essas formas de apropriação e de constrição encontravam certa justificativa social, porque não se destinavam ao enriquecimento de um senhor, mas, em grande parte, ao custeio de serviços públicos fundamentais, a cargo do poder central, como a construção e manutenção dos enormes sistemas de irrigação, de barragens e canais, da rede de transportes, da produção de instrumentos de trabalho, do comércio de matérias-primas e da guerra.

Mesmo quando aliciados para a edificação de obras faraônicas, como os templos e as pirâmides, o camponês e o artesão estavam contribuindo para o culto a valores, crenças e glórias que também para eles tinham sentido. Os próprios cativos trazidos de terras longínquas para trabalhar nessas obras podiam viver juntos, criar seus filhos e preservar a língua e os costumes que fossem compatíveis com a nova vida. O cativeiro dos judeus no Egito mostra-nos que essas massas avassaladas não se inseriam no sistema como propriedade de senhorios individuais, mas como povos vencidos e subjugados a um poder estatal que poderia libertá-los amanhã ou fixá-los em novas terras e assim integrá-los etnicamente como parte do campesinato e dos corpos de artesãos e soldados da macroetnia imperial. Todavia, a situação dos cativos concentrados nas minas e nas edificações ciclópicas, ainda que distinta do escravismo individual, era a da sujeição mais despótica.

O aliciamento dessas grandes massas humanas para o trabalho produtivo deve ter sido facilitado pelo próprio caráter do Estado-Igreja, polarizado em tomo de reis-divindades que outorgavam ao clero uma soma extraordinária de funções sociais, políticas e econômicas e atuavam em nome dos valores mais transcendentes. Com base na autoridade de porta-vozes de uma regência sagrada, os sacerdotes podiam compelir as massas trabalhadoras a produzir excedentes, ao pagamento de tributos e ao provimento de mão-de-obra para grandes empreendimentos públicos, com maior eficácia do que qualquer outro setor da sociedade.

Um exemplo do desenvolvimento extremo dessa atribuição aliciadora e coordenadora dão-nos os templos egípcios. Um deles, ao tempo de Ramsés III (1198-67 a.C.), atuou como uma vastíssima empresa financiadora e administradora de um enorme patrimônio produtivo. Contava com 750 mil acres de terras cultiváveis, 107 mil cativos engajados no trabalho, 500 mil cabeças de gado e uma frota de 88 navios, além de 53 fábricas e estaleiros. A esse papel econômico dentro do sistema egípcio, a Igreja acrescia outras funções gerais, como as de reguladora da vida social através de corpos de normas que atingiam todo indivíduo. Ela é que prescrevia e celebrava os ritos que marcavam sua existência, do nascimento à morte e para além dela, e que compunha e executava o calendário de atividades religiosas e produtivas. Era ainda ela que dirigia as instituições educativas que preparavam seu próprio corpo sacerdotal e os quadros superiores dos outros estratos dominantes. Somando a seu poderio econômico e às suas funções reguladoras o seu caráter de intermediária entre o mundo dos vivos e as forças sobrenaturais, a Igreja alcançava um extraordinário poder de compulsão e de disciplinamento. Fundida com o Estado, formava uma entidade política monolítica e todo-poderosa.

O aspecto mais negativo dessa forma de ordenação da sociedade era o seu custo, representado pela manutenção do corpo sacerdotal parasitário, a edificação de templos e, sobretudo, das tumbas reais, que absorviam a parcela maior do excedente produzido pela sociedade inteira. Avalia-se que a edificação da pirâmide de Quéops tenha ocupado 100 mil trabalhadores durante cerca de vinte anos. Sua alimentação e vestimenta, mesmo no padrão mais baixo, ao nível do desenvolvimento tecnológico egípcio. devem ter absorvido a capacidade de produção de excedentes de cerca de 3 milhões de camponeses.

Nessas grandes metrópoles cosmopolitas. as camadas diferenciadas de intelectuais - quase sempre sacerdotes - acrescentam à cultura societária, já bipartida num patrimônio rural e outro citadino, um conteúdo novo, de caráter erudito, mais especulativo e já capaz de desenvolver um corpo de conhecimentos explícitos distinto do saber vulgar, transmitido oralmente entre a população comum. Por seus esforços desenvolveram-se a escrita, as matemáticas, a astronomia, bem como, pela fusão do saber erudito com as técnicas correntes de produção, a arquitetura monumental, o aprimoramento da metalurgia do cobre e do bronze e, mais tarde, do ferro. Os artefatos de metal, que já eram um progresso em si - espadas, pontas de arado, ferragens de rodas e eixos -, passando a ser utilizados como ferramentas, possibilitam a fabricação de todo um complexo de bens materiais, como as pirâmides, os templos, os palácios, as casas, os barcos, os moinhos etc.

Duas tendências dissociativas manifestam-se, porém, nessas formações. Primeiro, o custo econômico da vasta camada parasitária, tendente a ampliar-se e a enriquecer pela acumulação de regalias, na forma de concessões de terras e de trabalhadores para exploração privada ou de atribuição a indivíduos do monopólio de certas atividades econômicas, sobretudo as comerciais, e, ainda, o crescimento dos gastos suntuários nos atos de fé, como a construção de templos e pirâmides. Segundo, o desenvolvimento do militarismo, que fortaleceu um componente societário capaz de impor sua hegemonia sobre os demais e tendeu a deformar o sistema econômico pela expansão do poderio imperial sobre áreas não exploráveis pela tecnologia do regadio, mas cuja posse era cobiçada pela existência de minérios ou para provimento de mão-de-obra cativa ou de tributos.

Assim é que, uma vez atingido certo nível de desenvolvimento e de exploração do seu contexto, essas formações monolíticas caíam todas em regressões feudais. Para tanto contribuíram ainda vários outros fatores, como o esgotamento das potencialidades da tecnologia de regadio sobre terras superexploradas, o desestímulo de empreender inovações técnicas em virtude da disponibilidade quase ilimitada de mão-de-obra e a carência de inquietações intelectuais ou o seu cerceamento pelo peso das tradições religiosas estatizadas, que faziam da intelectualidade um corpo de guardiões do saber sacramentado, só muito raramente capaz de criatividade.

 

 

4. REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA METALÚRGICA

A expansão dos impérios teocráticos de regadio se viu restringida por uma limitação essencial: a inviabilidade de generalizar a irrigação sobre as áreas conquistadas, em virtude das exigências ecológicas que lhe são inerentes. Entretanto, a tecnologia desenvolvida pelos impérios teocráticos de regadio, uma vez aprimorada e aplicada a sistemas produtivos novos, pôde florescer e expandir-se amplamente, atingindo extensas áreas e revolucionando o modo de vida de inúmeros povos. Foi uma nova revolução tecnológica, a Metalúrgica, responsável pela configuração de uma nova formação sócio-cultural: os impérios mercantis escravistas.Sua base tecnológica consistiu, essencialmente, na generalização e no aprimoramento da metalurgia, do ferro forjado para a fabricação de ferramentas, armas, machados, pontas de arado, rodas e eixos e partes metálicas de embarcações, e ainda da moeda cunhada, dos carros de transporte e de guerra, dos barcos mercantes e de guerra. do alfabeto fonético e da numeração decimal. A esses elementos. tomados de outras formações e transfigurados pela nova, ele acrescentou máquinas hidráulicas, moinhos movidos à água, o aqueduto, a nora, a mó rotativa, cabrestantes e gruas, bem como os faróis marítimos.

 

OS IMPÉRIOS MERCANTIS ESCRAVISTAS

Os impérios mercantis escravistas, como desenvolvimentos dos estados rurais artesanais de modelo privatista, caracterizam-se pela institucionalização da propriedade individual da terra, pelo incentivo à liberdade de comércio e pela mais ampla generalização do apresamento de prisioneiros de guerra para convertê-los em escravos pertencentes a senhorios individuais. São modelos característicos dessa formação. em sua maturidade, a civilização assíria (séculos XII a VII a. C.), a helênica (séculos V a I a. C.), a cartaginesa (séculos VII a II a. C.), a romana (séculos I a.C. a IV de nossa era) e a bizantina (séculos VI a X de nossa era). Todas essas civilizações são, porém, variantes de uma mesma formação sócio-cultural, fundada na escravidão da maior parte da mão-de-obra e no fomento do colonialismo mercantil.

. Com a técnica do ferro forjado, que se podia produzir em qualquer parte pela ampla distribuição do minério e a simplicidade do processo produtivo, generalizam-se os instrumentos de metal. Torna-se com isso possível abater as florestas para abrir extensas áreas de cultivo dependentes das chuvas, menos produtivas por unidade-área do que a agricultura de regadio, mas passíveis de expandir-se por amplíssimas regiões. Os mesmos efeitos foram alcançados no aprimoramento dos veleiros marítimos e dos carros de transporte e de guerra. A escrita fonética, facilitando a alfabetização, permitiu recrutar uma intelectualidade numerosa e independente do sacerdócio, ensejando a ampliação de todos os conhecimentos. A moeda cunhada, dando lugar à economia do dinheiro, alargou extraordinariamente os horizontes do comércio externo. Todos esses desenvolvimentos associados criaram um tipo de sociedade mais livre, que estimulava façanhas individuais, ensejando, aos tipos empreendedores, amplas oportunidades de enriquecimento.

O principal incentivador desse processo foi a economia mercantil que, por terra e por mar, vinculava centenas de comunidades, levando a cada uma delas as necessárias transformações internas para saltar da produção de subsistência para a produção de artigos de troca. Nas principais cidades de cada império mercantil escravista multiplicam-se as manufaturas organizadas como ergasterions, serrarias, carpintarias e marcenarias; estaleiros, metalúrgicas e caldeirarias; olarias e cerâmicas; vidrarias, curtumes, e oficinas de ourives, seleiros, correeiros, sapateiros, onde dezenas e até centenas de artesãos, na sua maioria escravos, produziam artigos padronizados para comércio.Expressões superiores dessa formação seriam alcançadas com a civilização grega, a expansão colonialista cartaginesa e, sobretudo, o Império Romano. Estas últimas, começando pela ampliação e multiplicação de cidades-estados regidas por patronatos de comerciantes, proprietários de terras agrícolas e de escravos, acabaram por estruturar-se em vastos sistemas unificados pela guerra e integrados pelo comércio. Após largos períodos de amadurecimento como cidades dominadoras dos territórios rurais circunvizinhos, fundadas na igualdade de sua camada patrícia, todas elas se entregaram ativamente à fundação de colônias externas, na Europa e na África. Aí concentraram mão-de-obra escrava apresada na guerra, instaurando os primeiros ergasterions e plantations destinados a produzir alimentos e manufaturas para exportação. Configurou-se, assim, um mercado internacional ativado por uma economia monetária e uma cultura erudita que se desenvolveram simultaneamente em várias cidades. O passo seguinte foi a disputa entre essas cidades-estados por áreas externas de dominação, que abriu o caminho para a constituição dos impérios mercantis escravistas.

O caráter mercantil escravista do novo sistema econômico, conduzindo a uma radicalização das formas de ordenação social, levou ao extremo as guerras de conquista e apresamento de escravos para prover mão-de-obra, bem como a competição interna pelo enriquecimento, estimulada pela economia de dinheiro. Em Atenas e em Roma, as massas de escravos alcançaram quatro quintas partes da população, e concentrações e percentagens ainda maiores nas colônias externas, distribuídas por todo o contorno europeu e africano do Mediterrâneo (G. Childe, 1946; K. Marx, 1966).

A racionalização dos procedimentos econômicos alcança, também, desenvolvimentos assimiláveis, liquidando com as sobrevivências das formas comunais de propriedade (ager publicus) e com as últimas instituições reguladoras fundadas no parentesco. Este, de classificatório - que designava os parentes colaterais e lineares com os mesmos nomes, formando grandes categorias de pessoas solidárias -, transforma-se em descritivo, que distingue com termos especiais os parentes lineares, restringindo a este o âmbito da solidariedade familiar e da herança. Mais tarde, dão-se novos passos nesse caminho de racionalização da conduta, através da secularização de uma série de setores antes regidos por critérios religiosos e da individualização das relações sociais. Institucionaliza-se a usura, cria-se a hipoteca sobre a terra e com ela a escravização por dívida; legaliza-se o regime de herança de bens através de testamento. Por fim, o empresariado se toma hegemônico em todos os setores, colocando os poderes do Estado a seu serviço.

A minoria rica torna-se cada vez mais poderosa, e as massas subalternas, livres ou escravas, cada vez mais miseráveis, agravando as tensões sociais até limites extremos. Legaliza-se o direito de o cidadão vender-se a si próprio e aos filhos, o que vem a ocorrer com certa freqüência nos períodos de penúria; generaliza-se a prática de submeter os devedores à servidão temporária e até mesmo a do apresamento de cidadãos da mesma etnia, nas guerras entre cidades, para fazê-los servir como escravos. Simultaneamente, escravos libertos, enriquecidos no comércio especulativo, se fazem senhores, estabelecendo como critério de qualificação social, acima da condição de plebeus ou de cidadãos, a condição de ricos e pobres. A cidadania, que fora uma função pública geral que fazia de todos os patrícios co-governadores de sua cidade, responsáveis pela justa condução da vida social e política, se dilui, tornando-se uma condição generalizada e irresponsável. A cidadania romana, antes limitada aos descendentes das antigas linhagens, generaliza-se a toda a camada não servil. Nessas novas condições, intensificam-se as tensões sociais e as disputas entre cidades-estados que se haviam aglutinado em impérios, até que o último deles, superestendido a ponto de cobrir todas as terras conhecidas, esgota as potencialidades do sistema.

Na derrocada dos impérios mercantis escravistas tiveram papel detonador da maior importância certas chefias pastoris nômades, parcialmente herdeiras da Revolução Urbana, que, em virtude de condições especiais - ecológicas e culturais -, se fizeram produtoras e consumidoras de instrumental metálico sem se fazerem agricultores sedentários. Nessas condições não perderam suas antigas qualidades guerreiras; pelo contrário, ativaram-nas até níveis extremos de audácia e combatividade.

Esses povos extra-imperiais, etnicamente coesos em torno de suas chefias, e irresistivelmente atraídos pelas riquezas acumuladas pelos povos cêntricos, é que deram o golpe de misericórdia na velha formação mercantil escravista, exausta de sua civilização, incapaz de novas crenças integradoras, com suas massas dependentes de escravos e de camponeses livres rebelados contra a sujeição despótica a que eram submetidos.

Aqui também, a desvinculação entre as classes subalternas e os estratos dominantes contribuiu para tomar a sociedade incapaz de defesa. Na Europa, toda a soberbia romana desaba diante da audácia de um punhado de bárbaros que, somando menos de meio milhão, assolaram, venceram e avassalaram 80 a 100 milhões de europeus e africanos romanizados. Esses bárbaros, nada tendo a dar à civilização dos povos que dominaram, porque sua vitória só se baseava em serem Herrenvölker, acabaram por inserir-se no que restava da velha formação. Seus chefes se fizeram as aristocracias e realezas das antigas províncias imperiais; seus guerreiros transformaram-se em massas sedentarizadas de camponeses ou em novos contingentes de artesãos citadinos. Muitos deles se romanizaram lingüisticamente e todos se romanizaram culturalmente.

Os antigos escravos se convertem em colonus, pagadores de foro pelo uso da terra e, finalmente, confluem para constituir o campesinato feudal, transformados todos em servos de senhorios locais ou em artesãos citadinos amparados por corporações. Essa transição do escravismo à servidão opera-se menos como uma evolução resultante da luta dos escravos contra seus senhores do que em virtude da deterioração do sistema econômico anterior, em que os escravos representavam papel fundamental como produtores de bens para o comércio. Na realidade, troca-se o escravo, que já não produz mercadorias vendáveis e deve ser alimentado e vestido, por servos atados à terra, que pagam tributos em bens ou em trabalho e se mantêm a si mesmos. Acresce, ainda, que a escravaria, desgastando-se rapidamente no trabalho, exige uma reposição constante através de guerras de conquista, impraticáveis na economia fechada de senhorios isolados.

Na cúpula situa-se a nobreza de sangue dos descendentes de invasores bárbaros, transformados em proprietários de feudos. Como seus servidores mais destacados seguem-se o clero e os vassalos, de onde se recrutam os corpos de cavaleiros senhoriais mais predispostos a prélios desportivos do que a guerras. Abaixo, encontra-se a população urbana, de pequenos mercadores e artesãos, estes últimos segmentados em mestres, oficiais e aprendizes, divididos por ofícios e dedicados à produção para um comércio local de trocas. Na base da pirâmide social situam-se os camponeses, presos à gleba, como servos ou dependentes O sistema econômico passa a atuar para manter e reproduzir essa mesma composição social, regida por um corpo de instituições destinadas a perpetuá-la.

Nesse mundo feudal, agitado apenas por novas invasões, como as muçulmanas, por guerras religiosas e por disputas entre nobres, acaba por implantar-se a paz da estagnação. A velha civilização romana que nele se dissolvera transforma-se numa mera tradição, tal como havia ocorrido antes com os impérios teocráticos de regadio quando caíram, também, em regressão feudal. Sua única força integradora será, de então por diante, uma religião herdada de um dos povos do contexto imperial romano que, no esforço por explicar o drama de sua própria dominação, redefiniria suas concepções tribais, fazendo-as mais inclusivas.

Assim, um grupo minoritário, detentor de uma fé consoladora de suas aflições, que não reconhecia privilégios étnicos nem graduações sociais, mas era capaz de falar aos homens de uma destinação mais nobre que a mera existência, se faz herdeiro do mundo greco-romano feudalizado, tal como outras minorias religiosas os budistas, os confucionistas e os hinduístas - alcançam a mesma dominância sobre diferentes contextos igualmente submersos no feudalismo.

A Igreja Católica converte-se paulatinamente na grande monopolizadora da vida econômica, organizada já não como um sistema mercantil, mas como um duplo sistema de apropriação dos poucos excedentes gerados, mediante a cobrança de dízimos e a obtenção de legados e doações, e a distribuição desses bens na “política de misericórdia" e na edificação de catedrais que vieram a ser, depois dos grandes castelos do feudalismo nascente, as únicas criações arquitetônicas da Idade Média. Sua riqueza cresce sem cessar pela monopolização das terras e dos rebanhos, pela ampliação das áreas de cultivo em poder das terras e dos rebanhos, pela ampliação das áreas de cultivo em poder das abadias, pela gerência das únicas obras capazes de proporcionar empregos e pela rapacidade dos mosteiros e das ordens religiosas. Simultaneamente, vai-se constituindo na grande força ordenadora da vida social, fundada agora não no igualitarismo do cristianismo primitivo. mas numa rígida estamentação social e no culto do conformismo, da disciplina e da obediência.

 

 

5. REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA PASTORIL

Com o amadurecimento da Revolução Pastoril que, armando alguns povos até então atrasados na história com uma nova tecnologia militar, lhes permite atacar áreas feudalizadas de altas civilizações e resistir à assimilação pelo povo conquistado, para configurar uma nova formação sócio-cultural: impérios despóticos salvacionistasEsse novo processo civilizatório configura-se, originalmente, como uma nova onda de expansão pastoril, fundada principalmente na aplicação da tecnologia do ferro à cavalaria de guerra. Seus elementos mais assinaláveis foram: a sela de montaria, dotada de estribos que deram maior segurança e mobilidade aos ginetes; a ferradura, que prolongou a vida útil dos animais e lhes permitiu enfrentar qualquer terreno; os freios de ferro, sob o comando de rédeas que possibilitaram uma direção firme e segura.

A essas inovações se acrescentaram mais tarde, no corpo das formações despóticas salvacionistas, diversos aperfeiçoamentos no sistema de tração dos animais de tiro, que multiplicaram sua força útil livrando-os da sufocação jugular dos velhos colares. Um destes foi um sistema de fixação dos varais em selas e, depois, a introdução do arnês rígido. Outras contribuições técnicas difundidas no mesmo ciclo foram os alambiques e, sobretudo, os novos modelos de moinhos eólicos e hidráulicos, aplicáveis à elevações de água, à moagem de cereais e à prensagem de sementes oleaginosas, e mais tarde ao martelamento de minérios e de metais, ao acionamento de serras e de foles, bem como a outros dispositivos. Dentre esses progressos tiveram caráter crucial, na etapa expansiva, os que revolucionaram a cavalaria de guerra e armaram os guerreiros de espadas e lanças mais eficientes, e, na etapa de construção das novas formações sócio-culturais, a propagação das novas formas de utilização da energia muscular animal com atafonas e almanjarras aperfeiçoadas para as tarefas de aração da terra e de transporte e de aplicação da energia dos ventos e das correntes de água a serviço do homem.

As primeiras dessas inovações tecnológicas exerceram um efeito vitalizador sobre antigas chefias pastoris nômades que se estavam integrando na tecnologia do ferro forjado, permitindo-lhes enfrentar os sistemas defensivos de sociedades mais desenvolvidas. Atacam áreas feudalizadas para as dinamizar e integrar numa formação totalmente distinta de todas as anteriores. Esses seriam os 1mpérios despóticos salvacionistas, estruturados segundo princípios ordenadores novos, em que representava um papel crucial um corpo de crenças religiosas de caráter messiânico. Essas crenças passam a operar como forças aliciadoras de todas as energias étnicas de suas populações para a destinação sagrada de impor ao mundo a verdade divina de que eram depositários. A essa missão divinal aliam-se, naturalmente. os interesses econômicos, em que importava sua transformação em senhorios de um mundo reordenado de conformidade com a palavra de seus profetas.

Aquela tecnologia nova de cavalaria de guerra e esta armadura ideológica os transformaria, de simples saqueadores da riqueza entesourada por outros povos ou exploradores de sociedades rurais artesanais sedentarizadas, em guerreiros invencíveis e em reformadores ensandecidos de fúria sagrada. Nessas circunstâncias, o inimigo deixava de ser visto como o objeto de saque do guerreiro vitorioso para ser tido como o ímpio, cuja só existência ofendia a Deus. Os povos pastoris, dinamizados por esse novo processo civilizatório, lançam-se, assim, sobre o mundo circundante, com todo o seu antigo vigor de guerreiros, que adestravam seus cavalos e a si próprios para as façanhas mais ousadas, robustecidos pela missão de salvadores, destinados a erradicar do mundo a impiedade e a heresia.

 

OS IMPÉRIOS DESPÓTICOS SALVACIONISTAS

A primeira dessas expansões salvacionistas dinamizou um conjunto de povos irânicos, transformando-os em instauradores de um vasto império que dominou por séculos (III a VII D. C.) o Irã e a Mesopotâmia e se estendeu até a Índia e China.

Um expansionismo salvacionista mais maduramente configurado se alçaria no século VII com o islamismo, que mobilizou as energias dos povos pastoris da Arábia e do Irã para lançá-los como os cruzados do maior movimento religioso de conquista que a história registra. Sua inspiração básica era o velho espírito de saque de terras e de bens das hordas pastoris, a que se somava, agora, um sentido de destinação sagrada, formulado por Maomé. A doutrina maometana, recolhida no Alcorão, sintetizava antigas tradições judaicas, helênicas e iranianas, redefinindo-as como uma nova religião universalista, orientada mais do que qualquer outra para o salvacionismo de conquista, como expansão da glória divina.

O islamismo se configura, assim, como um credo messiânico que põe mais empenho na expansão do domínio de Alá sobre todos os povos e terras do mundo do que no esforço missionário de converter almas para salvá-las da perdição. O próprio paraíso é descrito bizarramente como o jardim de repouso do guerreiro divinal, conseqüentemente, não desenvolve um Estado-Igreja assentado num corpo sacerdotal profissionalizado. Estrutura-se pela fusão, numa mesma unidade, do sistema político e do religioso, através da atribuição a cada homem válido de uma destinação de cruzado subjugador de povos infiéis, de colonizador das áreas conquistadas e de braço divinal impositor da submissão a Alá.

Esse espírito de missão divina, armando de fúria sagrada os guerreiros árabes muçulmanos, fez com que arremetessem em todas as direções como uma avalanche diante da qual sucumbiram inúmeras sociedades feudalizadas. Infundiu-lhes também a capacidade de resistir à amalgamação cultural em contextos mais evoluídos, como ocorrera antes com os antigos invasores pastoris. E. sobretudo, incutiu-lhes o vigor necessário para estruturar os povos conquistados em imensos sistemas imperiais despóticos integrados numa nova ordem moral, fundada na palavra do Profeta.

Em poucas décadas, o domínio muçulmano se alastrou por quase todo o Oriente Médio e daí para o Oeste, sobre o Norte da África, as ilhas mediterrâneas e a península Ibérica, e para o Leste, sobre a Alta Ásia, sobre a Índia e, para além dela, a Indonésia e a Indochina. Seu domínio se estenderia, mais tarde, por outras áreas, penetrando profundamente, de um lado, na África Tropical, do outro, na Eurásia e nos confins do Oriente. Essas últimas ondas seriam conduzidas por povos islamizados, como os turco-mongólicos que, a certa altura, se colocam no centro do expansionismo muçulmano como sua força mais dinâmica.

Através de ondas sucessivas implanta-se o Islã (isto é, submissão incondicional - à vontade de Alá) sobre uma área muito mais extensa que a de qualquer civilização imperial anterior, com uma capacidade de permanência também muito maior e com um poder de assimilação de povos e de aculturação compulsória jamais atingido antes. Seu domínio sobre a Ibéria, como Califado de Córdoba, se estendeu de 750 a 1350; sobre a Índia se prolongou por seis séculos. Mesmo quando caem, posteriormente, em regressão feudal. deixam transfigurados os povos que haviam dominado, tanto os do Oriente Próximo e do Norte da África como os da África Tropical ou da Eurásia, modelando uma das mais vastas configurações sócio-culturais modernas, que engloba mais de 900 milhões de pessoas, maior fenômeno religioso mundial deste final de milênio.

Através da construção de vastas estruturas de domínio imperial e de sujeição religiosa, atuaram como agentes de um dos mais vigorosos processos civilizatórios, cuja capacidade de atualização de povos atrasados na história para a modernização tecnológica, social e ideológica só teria paralelo no curso da Revolução Mercantil e da Revolução Industrial.

Seus mecanismos essenciais de expansão e aculturação compulsória foram a conquista, seguida da dominação mais despótica, a colonização escravista, a doutrinação religiosa e a miscigenação racial. Atuaram, freqüentemente, através da eliminação dos estratos dominantes das sociedades subjugadas e sua substituição por uma nova camada de caráter burocrático. Esta era integrada inicialmente por guerreiros, aos quais se atribuía o controle e exploração de extensas áreas; mais tarde, por corpos de funcionários cuidadosamente preparados para o exercício da dominação político-militar e das funções administrativas de organização econômica e de arrecadação de rendas.

No preparo dessa burocracia, apelaram largamente para sua experiência original de pastores nômades, sistematizando as práticas de adestramento de animais para aplicá-las a homens escravizados. Para tanto, capturavam crianças nas áreas conquistadas, selecionando-as inicialmente pelo vigor físico, e as encaminhavam para casas-criatórios, onde um meticuloso sistema de treinamento, de prêmios e de punições explorava as potencialidades de cada peça. Através desse procedimento, suscitavam o máximo de ambição e de espírito competitivo, levando seu adestramento a níveis extremos (A. J. Toynbee).

Essa forma despótica de preparação de quadros, assentada num recrutamento tão ampliável quanto se desejasse e numa disciplina educativa inalcançada por qualquer outro processo, permitia formar castas de funcionários e de guerreiros de uma eficiência a toda prova. Se, por um lado, desumanizava e alienava seus componentes, a alguns deles ensejava carreiras tão brilhantes que, entre as populações dominadas, se desenvolveu antes uma competição pelo ingresso nessas casas do que uma oposição ao sistema.

Por esse processo obtinham-se escravos superespecializados para o exercício das funções mais díspares, como eunucos - guardiões de haréns -, artesãos, conselheiros políticos, sábios e altos funcionários capacitados a atuar como fiéis exatores do seu sultão, que podiam chegar a exercer funções de grão-vizires. As casas-criatórios produziam, porém, principalmente guerreiros superadestrados, que se celebrizariam na história, fixando os conceitos de janízaros, de sipaios e, sobretudo, de mamelucos. Estes podiam alcançar os mais altos níveis de poder e de riqueza, mas permaneciam sempre presos ao seu estatuto de escravos, como peças possuídas por seus senhores, que através deles exerciam seu domínio.

Esses corpos de agentes superespecializados da dominação islâmica permitiram manter por séculos um poder de outra forma impraticável para simples guerreiros ensandecidos de fúria sagrada. Após a conquista e o saque, cumpria organizar as novas possessões, civilizar a gente, inclusive os seus próprios soldados e os descendentes destes. Essa tarefa de organização, bem como a colonização e introdução de novas técnicas produtivas, exigindo outras habilitações além do elã combativo, impuseram a criação e o aperfeiçoamento de instituições educacionais, a partir da tradição irânica das casas-criatórios.

Estas experimentam, assim, um grande desenvolvimento, até se configurarem como um procedimento generalizado de formação de quadros militares e administrativos. Napoleão ainda encontraria o Egito dominado por uma casta mameluca que se autoperpetuara após a queda do Império Otomano.

Novos esforços de revitalização salvacionista tiveram lugar entre os séculos X e XIII, com o movimento das cruzadas, que representou a primeira forma de expansão européia Ocidental. Fora impulsionado, porém, mais pela ambição de Conquista e enriquecimento dos senhores feudais franceses e da burguesia nascente das cidades italianas do que pelo elã salvacionista. Assim, ao chamamento papal para as cruzadas, não correspondeu um chihad - a guerra santa dos muçulmanos -, mas tão-somente uma irrupção messiânica. Milhares de camponeses europeus abandonaram os feudos e se puderam em marcha com suas mulheres e filhos rumo à Terra Santa, desorganizados e inermes como um exército maltrapilho que se mantinha da mendicância e da pilhagem. Só mais tarde as cruzadas se organizam como empreendimento guerreiro mercantil mais disciplinado e eficaz. Mas então seu motor fundamental já era a conquista de antigos domínios muçulmanos que haviam entrado em feudalização. Despertos por esses ataques, os muçulmanos reagiram, liquidando prontamente as colônias militares implantadas pelos cruzados em todo o Oriente Próximo, encerrando-se, assim, o primeiro ciclo do expansionismo salvacionista cristão europeu.

Em todas as áreas de dominação dos impérios despóticos salvacionistas implantou-se uma mesma ordenação básica. Suas linhas gerais foram, em primeiro lugar, a prática da concessão do usufruto vitalício, mas não transmissível, da terra aos vencedores das guerras de conquista, transformada, mais tarde, em propriedade livremente alienável. Segundo, a concessão às mesmas camadas das funções de exatores dos impostos imperiais sobre a terra e as pessoas. Terceiro, a adoção do escravismo e da servidão, que vinculava o camponês à gleba e fazia recair sobre ele uma taxação per capita. Quarto, uma ativação do comércio externo livre, ainda que sujeitando os mercadores a controles estatais e a confiscos. Quinto, o desenvolvimento de um artesanato produtor de artigos de luxo e de armas de guerra, através da criação de grandes manufaturas, freqüentemente estatizadas. Sexto, a instalação de empresas monopolísticas oficiais mediante concessões Imperiais para explorar certos ramos produtivos. Sétimo, a implantação de um vasto sistema cartorial de recenseamento e controle da população das áreas dominadas e de arrecadação de tributos.

 

 

6. REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA MERCANTIL

 

No corpo dos impérios despóticos salvacionistas (Islamismo) se foi desenvolvendo uma tecnologia produtiva e militar que alcançou o nível de uma nova revolução tecnológica nos albores do século XVI, fazendo amadurecer duas novas formações sócio-culturais: os impérios mercantis salvacionistas e o capitalismo mercantil.

Tal foi a Revolução Mercantil, fundada numa nova tecnologia da navegação oceânica, baseada no aperfeiçoamento dos instrumentos de orientação (bússola magnética montada em balancins, o quadrante, a balestilha, o astrolábio, cartas celestes e portolanos, cronômetros e outros) e de navegação (as naus e caravelas, a vela latina, o leme fixo, as carretilhas e os barcos de guerra). Baseava-se, por igual, na descoberta de procedimentos mecânicos, como as bielas-manivelas, os eixos-cardan etc., e numa nova metalurgia revolucionada com a descoberta de processos industriais de fundição do ferro, de laminação do aço, de trefilação de arames, de fusão de novas ligas metálicas e de produção de artefatos com tornos de rosca e mandril e com máquinas de talandrar, afiar e polir metais. Baseava-se, também, na renovação das artes de guerra com armas de fogo aperfeiçoadas - canhões, morteiros, espingardas - que em terra permitiram enfrentar a mobilidade das cavalarias armadas de arcos e lanças que haviam prevalecido no último milênio e, no mar, criavam a artilharia naval. Baseava-se, por igual, na generalização de outras técnicas, como modelos aperfeiçoados de moinhos de vento de cabeça móvel e de rodas hidráulicas horizontais impulsionadas pela força da gravidade, aplicáveis para acionar foles siderúrgicos, marteletes, serras, afiadoras e outras máquinas. Baseava-se, ainda, na instalação de fábricas de papel, de tipografias para a impressão de livros com tipos móveis, bem como na produção de instrumentos óticos. Algumas combinações dessas técnicas, como a do veleiro com canhões, tiveram efeitos extraordinários, permitindo o domínio da terra a partir do mar.

As potencialidades da nova revolução tecnológica realizaram-se através de dois processos civilizatórios: impérios mercantis salvacionistas, e capitalismo mercantil. Ambos tiveram de peculiar, em relação a todos os anteriores, seu caráter mundial, expresso tanto na sua projeção geográfica sobre a Terra inteira quanto na sua capacidade de estancar o desenvolvimento paralelo de outros processos civilizatórios.

Os impérios mercantis salvacionistas surgem na passagem do século XV ao XVI, na península Ibérica.

Avançada sobre o Atlântico, lança-se à conquista e à subjugação de novos mundos no além-mar. Portugal, que vinha explorando a costa africana desde o começo do século XV, descobre sucessivamente o Cabo Verde e a Costa do Ouro, contorna o Cabo da Boa Esperança e, afinal, estabelece a rota marítima para a Índia. Subjuga, a seguir, a costa ocidental e parte da oriental da Índia e de Málaga. Ocupa Aden e Ormuz, interceptando a antiga via das especiarias. Apodera-se do arquipélago de Sonda, da Indochina e do Brasil. A Espanha, atingindo as Antilhas com as expedições de Colombo, se expande, a partir daí, por todo o continente americano e implanta, também, domínios coloniais e feitorias no Extremo Oriente.

A Ibéria, bastião ocidental do domínio islâmico, vinha intensificando as lutas pela Reconquista desde o século XIV, mas só a completou no ano da descoberta da América. Essa guerra de emancipação, extremamente destruidora, conduzida sob a direção do papa e do rei, custou-lhe tantos sacrifícios que no seu decorrer toda a sociedade se transfigurou para servir a esse propósito, tornado obsessivo. As ordens religiosas se tomaram mais ricas e mais poderosas do que a nobreza, e a Igreja Católica se fez herdeira de boa parte da terra reconquistada aos infiéis. A Ibéria consegue do papa o titulo de domínio exclusivo sobre todas as terras que se descubram para além de uma linha imaginária, e a monarquia espanhola obtém os privilégios de erigir e dirigir a Santa Inquisição através de sacerdotes intermediários, de cristianizar o gentio.

Assim se estabeleceu uma estrutura de poder aristocrático-clerical que regeria, daí por diante, os destinos dos povos ibéricos. Entretanto, com a vitória sobre os núcleos islâmicos da Ibéria também se destrói o sistema agrário que haviam implantado com base numa agricultura de regadio de alta tecnologia e que permitira manter, por séculos, densas populações mesmo nas zonas mais áridas. À medida que os novos senhorios aristocrático-clericais se apossavam das antigas áreas intensamente cultivadas, transformavam-nas principalmente em pastagens para a criação de ovelhas, fazendo com que a penúria sucedesse à antiga fartura. Multidões de camponeses foram enxotados e reduzidos à mendicância, e a própria população entrou a diminuir drasticamente, tanto no campo como nas cidades. Nem todo o ouro saqueado da América. nos séculos seguintes, foi suficiente para compensar esse retrocesso.

A Ibéria, com um fanatismo religioso só comparável ao dos primeiros impulsos muçulmanos, se lança, com igual furor, à erradicação das heresias do seio de suas próprias populações, através da flagelação dos suspeitos de impiedade, das festas públicas de cremação de hereges e da expulsão de centenas de milhares de mouros e judeus.

Esse êxodo, concebido pela classe dominante como uma extraordinária oportunidade de enriquecimento pelo confisco e rateio dos bens de judeus e muçulmanos, resultou também num retrocesso econômico da maior gravidade. Efetivamente, o que se conseguiu foi erradicar da Ibéria, junto com as heresias, quase todos os setores intermédios de artesãos, pequenos granjeiros e comerciantes, compostos principalmente por "castas infiéis". A destruição desse estrato social fez cair imediatamente o nível técnico das atividades agrícolas e manufatureirãs, contribuindo decisivamente para tomar a Espanha e depois Portugal inaptos para a Revolução Industrial.

Os impérios coloniais ibero-americanos, estruturados como contraparte dessa formação mercantil salvacionista, por via da atualização histórica, conformar-se-iam nos moldes de um novo colonialismo escravista, inserido dentro de um sistema econômico unificado e interativo.

Os procedimentos fundamentais de dominação das colônias escravistas das Américas foram: a erradicação da antiga classe dominante local, a concessão de terras como propriedade latifundiária aos conquistadores, a adoção do escravismo e a implantação de patriciados burocráticos, representantes do poder real, como exatores de impostos. Nas áreas dos impérios teocráticos de regadio da Meso-América e do Altiplano Andino, onde se concentravam grandes contingentes de mão-de-obra, condicionados já à disciplina do trabalho, a escravização se institucionaliza sob a forma de mita e de encomienda de serviços. Nessa forma de conscrição, os índios eram entregues em usufruto à exploração mais desumana. Justificava-se e disfarçava-se o sistema, porém, em nome do zelo pela salvação eterna do gentio, pela atribuição da função de catequistas aos encornenderos. Mais tarde, a encomienda progride para uma forma de tributo pagável em dinheiro que os indígenas só podiam obter trabalhando nas minas e nas terras, sob as mais penosas condições. Para que esse regime de escravização, ainda mais opressivo e insidioso, pudesse funcionar, os caciques foram transformados em aliciadores da força de trabalho válida das comunidades indígenas para entregá-la à exploração dos encomenderos, como condição para que os velhos sobreviventes e as crianças pudessem continuar nas aldeias.

Sob esse sistema as populações dos antigos impérios teocráticos de regadio foram tão drasticamente reduzidas que a depopulação das colônias chegou a preocupar seriamente a Coroa. Temia-se, agora, o desastre econômico que poderia representar a perda daquela escravaria barata, porque custara apenas o preço da conquista, e aparentemente inesgotável, porque montara a milhões. Flagelada pelas pestes com que o europeu a contaminou e desgastada sob o peso do trabalho, a população indígena minguava em proporções tão alarmantes que ameaçava desaparecer e era sucedida por uma nova casta de mestiços resistentes à escravização, tendentes à rebeldia. Além de desgastada numericamente, aquela população se via degradada pela contingência de servir como mera força de trabalho que não existia para si própria, mas como produtora dos poucos artigos que interessavam à economia colonial e, sobretudo, como extratora de metais preciosos. Perde, assim, os altos níveis de qualificação tecnológica e de saber erudito que havia alcançado.

Nas outras áreas americanas restaurou-se o escravismo greco-romano em sua forma mais crua. Primeiro, pela escravização dos indígenas locais e, mais tarde, desgastados estes, pela transladação de enormes massas de negros da África.

Criou-se, desse modo, uma enorme força de trabalho escravo, de cuja capacidade de produção, nas condições mais espoliativas, passavam a viver espanhóis e portugueses.

Esse foi o maior movimento de atualização histórica de povos jamais levado a efeito, mediante a destribalização e deculturação de milhões de índios e negros e seu engajamento em novos sistemas econômicos, na qualidade de camadas subalternas. O poder deculturador e aculturador desse processo de atualização histórica foi ainda maior que o dos processos equivalentes de romanização e de islamização, como se constata pela uniformidade lingüística e cultural dos povos americanos, muito mais homogêneos, embora numérica e espacialmente maiores, do que as populações da própria península Ibérica e de qualquer outra área do mundo.

 

O CAPITALISMO MERCANTIL E OS COLONIALISMOS MODERNOS

Enquanto se processava a expansão salvacionista, as forças renovadoras da Revolução Mercantil avançavam através de um outro processo civilizatório: o capitalismo mercantil. Dotado de maiores potencialidades de tecnificação, de reordenação social e de progresso, era o esforço de restabelecimento do sistema mercantil europeu, primeiro no continente, depois em todo o mundo, que voltaria a ativar as economias regionais estagnadas durante o milênio de feudalização.

Seus desencadeadores foram um complexo de eventos e a adoção de novos procedimentos técnicos e institucionais que, ensejando o restabelecimento do comércio exterior, permitiram reimplantar manufaturas nas cidades italianas, francesas, flamengas e holandesas e, mais tarde, na Inglaterra e na Espanha, primeiro para o mercado interno e, posteriormente, para os de ultramar. À medida que cresciam os mercados, essas manufaturas se transformavam: de simples ajuntamentos de artesãos possuidores de seus instrumentos de trabalho e financiados por um capitalista a unidades maiores, com divisão interna do trabalho, em que o empresário já era proprietário dos meios de produção e pagava salários aos trabalhadores, lucrando com o acréscimo de produtividade de todos eles.

Inicialmente, essas manufaturas centralizadas instalaram-se no campo, para fugir ao controle dos grêmios artesanais urbanos. Ocupavam camponeses em fiações e tecelagens, depois em serrarias, refinarias de açúcar, fábricas de sabão, de tintas, de cerveja etc. e, mais tarde, em estaleiros, metalurgias e fábricas de papel. Riquezas monetárias acumuladas no comércio, na usura, na exploração das finanças públicas e nos monopólios estatais passaram a aplicar-se produtivamente nessas manufaturas, transladando-as progressivamente para as cidades, que voltaram a crescer. A necessidade de alimentar e vestir os trabalhadores urbanizados gerou uma procura crescente de bens, criando um mercado interno cada vez mais amplo para a produção agrícola e manufatureira. Os proprietários rurais, interessados em produzir para esse mercado, passaram a forçar o campesinato a uma produção maior. Os governos passam, então, a fomentar essas atividades, que se vão tomando a fonte principal de rendas públicas. Emprestam-lhe todo o apoio, através de medidas alfandegárias protecionistas e de reformas das instituições cerceadoras da liberdade de aliciamento de mão-de-obra ou da expansão do mercado interno. Derrogam-se, assim, as antigas normas que dificultavam a comercialização da produção agrícola, criando-se os mercados nacionais. Decreta-se o direito de cercar as propriedades fundiárias, acabando com os campos comunais. Liberam-se os cultivos e anulam-se os tradicionais direitos de pasto.

Por todos esses procedimentos desagregam-se as estruturas comunitárias em que primavam as atividades de subsistência as relações de mutualidade, para se imporem relações contratuais de trabalho definidas como legais e livres. Contingentes rurais cada vez maiores se desvinculam da economia ou são compelidos a fazê-lo para se converterem em mão-de-obra aliciável para o trabalho assalariado por haverem perdido as bases de provimento de sua subsistência.*

A reação dos camponeses a essa reforma estrutural espoca em guerras na defesa do antigo modus vivendi, ou na reivindicação da propriedade das terras para as trabalharem por conta própria como produtores para o mercado.

Nesse ambiente de renovação social tudo é posto em causa. A ordem social deixa de ser concebida como sagrada ou passa a ser definida em termos de reavaliação do conteúdo do sagrado.

A partir do século XIII, ondas sucessivas de levantes convulsionaram a Europa. Como insurreições de classes subalternas, estavam historicamente condenadas ao malogro pela impossibilidade de reordenar a sociedade inteira de acordo com seus interesses. Sua eclosão teve, no entanto, um papel decisivo na implantação de uma nova ordem capitalista mercantil, uma estrutura de poder liderada pelo empresariado capitalista, e no triunfo dos movimentos de Reforma.

Um processo simultâneo de desenraizamento e relocação de trabalhadores ocorria nas cidades, desligando os artesãos dos vínculos corporativos dos grêmios para torná-los assalariados dos novos empreendimentos. Como mão-de-obra mais qualificada, esses artesãos emprestaram à revolução tecnológica o concurso de sua destreza acumulada secularmente e acrescentaram à força de trabalho um estrato diferenciado de técnicos e especialistas. Em cada país, à medida que progredia a conversão da economia aos padrões capitalistas, foram sendo abolidas as corporações de ofício, os regulamentos de aprendizagem, as juntas de salário. Todas essas ordenações protetoras foram substituídas progressivamente pelo ideário liberal da igualdade perante a lei e do livre direito de contrato.

A combinação da disponibilidade de capital acumulado com a oferta de mão-de-obra livremente aliciável e de bens de subsistência oferecidos à venda tomou possível montar estruturas urbanas de produção e de comércio que se fariam cada vez mais amplas até dominarem todo o sistema econômico, convertendo-o em formações sócio-culturais capitalistas mercantis. Esse processo civilizatório experimentou uma aceleração prodigiosa quando a ele se somaram os resultados da expansão oceânica conduzida pelos povos ibéricos. Carreando para a Europa o produto do saque de dezenas de povos e, depois, os excedentes arrancados a milhões de escravos que tinham seu consumo supercomprimido nas minas e nas plantações tropicais, o capitalismo mercantil pôde saltar alguns séculos no seu processo de amadurecimento.

A formação capitalista mercantil implanta-se, primeiro, na Holanda (1609), onde assume a forma de república moderna de perfil oligárquico, governada por comerciantes e banqueiros. No curso dessas lutas, a Holanda apossa-se de diversos domínios coloniais portugueses e espanhóis na África (Cabo), nas Américas (Antilhas), no Oriente (Ceilão, Indonésia) e torna-se a principal potência européia. Cria a primeira organização bancária moderna (1609), que passa a atuar como financiadora e seguradora da expansão mercantil holandesa, alçada à condição de empório distribuidor da produção mundial nos mercados europeus.

Segue-se a Inglaterra, com a revolução de Cromwell (1652-79), que lhe permite estruturar-se também como uma formação capitalista mercantil revestida dos atributos institucionais de uma monarquia parlamentar. A Inglaterra alça-se também através da guerra contra os salvacionistas ibéricos e contra os holandeses, graças à apropriação de alguns dos seus antigos domínios coloniais na América do Norte, na Índia, na China e na África. Uma das fontes de sua modernização foi o ingresso de uma centena de milhares de perseguidos religiosos, que elevaram substancialmente a qualificação de sua força de trabalho e suas disponibilidades de capital financeiro. Mas seu enriquecimento se fez, nessa primeira etapa, principalmente através do saque pelo corso sustentado pelo Estado e, mais tarde, mediante o contrabando com as colônias americanas, principalmente com a exploração do tráfico negreiro por meio de contratos monopolísticos com as nações ibéricas, operados por companhias oficiais cujos principais acionistas eram as casas reais espanhola e inglesa. A eficiência capitalista aplicada ao tráfico negreiro permitiu organizar racionalmente as operações de caça de escravos no interior, de amontoamento de reservas na costa africana, de transporte marítimo, de depósito, distribuição e venda através de todas as Américas. Nesse processo, as nações européias, pioneiras do desenvolvimento capitalista mercantil, aliciaram, no curso de quase três séculos, mais de 100 milhões de africanos, uma terça parte dos quais deve ter chegado a seu destino para aí serem consumidos, em sua grande maioria, no trabalho escravo.

A integração da França à nova formação amadurece lentamente no nível econômico. Eclodiu, no plano político, com a revolução social de 1789, comandada, inicialmente, por lideranças antiaristocráticas e completada, mais tarde, por um regime militar que impõe as ordenações napoleônicas. Implanta-se, assim, o primeiro sistema estatal de instrução pública; derroga-se o regime legal anterior e delineia-se o modelo básico de instituições liberais capitalistas que seriam prontamente adotadas em todo o mundo. Esta última formação capitalista também se apropria de antigas áreas coloniais ibéricas, pela anexação, ao seu domínio colonial, de vastas áreas da América do Norte, do Canadá, da Indochina e do Senegal.

Para assumir essa posição pioneira, aquelas nações haviam reativado sua vida econômica interna, rompendo com as barreiras feudais que continham suas forças produtivas, e confiscado os bens eclesiásticos, os latifúndios das abadias e mosteiros, para integrá-los no sistema produtivo. Seus empresários aplicaram capitais nas manufaturas, que passaram a produzir para todo o mercado nacional e, depois, para exportação. Criaram-se, assim, grandes empresas de investimento nos setores mercantis, fabris, agrícolas e de obras públicas que, excedendo a capacidade financeira de um só capitalista, apelavam para vários processos de captação de recursos. E incentivaram a constituição de uma força de trabalho altamente qualificada, a partir do artesanato medieval.

Como efeito maior de todas essas mudanças, refez-se própria estratificação social, que opunha uma camada de proprietários aliciadores de mão-de-obra assalariada ou escrava e uma camada de despossuídos, conscritos como a força de trabalho do sistema, na posição de dois proletariados, um interno, outro externo.

Em sua expansão ultramarina, todas as formações capitalistas mercantis apelaram também para o colonialismo escravista, criando novas áreas de plantações tropicais. Mas, simultaneamente, inovaram o antigo modelo, complementando-o, primeiro com as colonizações mercantis, na forma de entre-postos comerciais implantados em países longínquos, com os quais não se pretendia transfigurar os povos autóctones, mas tão-somente traficar com eles, e, mais tarde, com colônias de povoamento, estabelecidas através da transladação de populações européias para além-mar. Estas últimas se destinavam, essencialmente, a aliviar a Europa dos excedentes populacionais gerados no próprio processo de integração da economia agrícola em padrões capitalistas. Em conseqüência, os pequenos núcleos de colônias de povoamento - que eram as menos prósperas das colônias na formação anterior - entram a crescer, tendo por objetivo menos prover lucros do que ocupar gente desenraizada e marginalizada, cuja presença começava a representar um risco permanente de insurreição.

Uma dessas colônias de povoamento, que crescera como economia ancilar dos ricos empreendimentos escravistas coloniais das Antilhas, amadureceria, pouco mais tarde, para o capitalismo mercantil. Era a América do Norte, onde uma ordenação capitalista incipiente, fundada nos próprios princípios que regeram a colonização, se fortificaria no curso da guerra de emancipação. Essas características se acentuariam, em virtude do caráter singular de sua implantação como uma extensão ultramarina da sociedade inglesa. Na América do Norte, se erige o modelo básico de República federativa moderna, estruturada como uma formação capitalista mercantil, tendente à industrialização. Contando com enormes áreas desertas para a autocolonização, a América do Norte só tardiamente se lança à expansão colonialista, mas o faz, também, pela apropriação de antigas áreas de domínio ibérico, como as Antilhas e as Filipinas, além de algumas ilhas do Pacífico.

Como se vê, a formação capitalista mercantil também nasce bipartida em dois complexos complementares. Primeiro, o complexo metropolitano das nações as estrutura por aceleração evolutiva como centros de poder e de comércio ultramarino. Segundo, o complexo colonial, implantado através de movimentos de atualização histórica, que gera as colônias mercantis e as colônias escravistas e as colônias de povoamento das Américas, da Austrália e da Nova Zelândia.

Por meio dessas duas faces complementares - a metropolitana e a colonial - o sistema passa a atuar gerando, numa delas, o capital e os capitalistas contrapostos a massas crescentes de assalariados, e, na outra, camadas gerenciais subalternas e massas escravizadas e avassaladas. Estas últimas não representavam para o sistema mais do que uma espécie de combustível humano explorado localmente ou importado da África para produzir artigos de exportação, metais preciosos e minérios. Não eram "propriamente trabalhadores, mas apenas trabalho", tal como aquele que seria oferecido amanhã pelas fontes inanimadas de energia (K. Marx). Nessa qualidade, propiciavam uma acumulação de capital muito maior do que a obtida pela exploração de assalariados e ensejavam a reversão para as economias metropolitanas, amadurecidas como estruturas capitalistas, de recursos cada vez mais vultosos.

A expansão oceânica européia, iniciada pelos ibéricos, torna-se, nesse passo, uma empresa coletiva que multiplica colônias escravistas, mercantis e de povoamento por todo o mundo, acelerando a ação do processo civilizatório capitalista mercantil. Nesse processo, milhares de povos atados a formações tribais, aldeãs, pastoris, rural-artesanais, bem como antigas civilizações, tanto as vigorosas como as já estagnadas em regressões feudais, foram integrados num sistema econômico de base mundial, como sociedades subalternas e culturas espúrias. Sua razão de existência deixara de constituir a natural reprodução do seu modo de ser, para se converter no fator de existência e no instrumento de prosperidade dos centros metropolitanos que geriam os seus destinos.

A espoliação desses povos possibilitou às cidades européias retomar e superar amplamente o brilho que haviam alcançado no esplendor do Império Romano, implantando-se como metrópoles suntuosas e opulentas. Deu, também, aos europeus nórdicos, até então marginais aos processos civilizatórios, um sentimento de superioridade e de destinação civilizadora que passou a justificar todas as formas de opressão colonial como o exercício necessário do papel de agentes civilizadores, convictos de que representavam uma ordem moral superior e o motor do progresso humano.

As riquezas que se acumularam com as novas atividades produtivas e com os saques de tesouros alheios elevaram a níveis jamais alcançados a economia de dinheiro metálico, tornando disponíveis capitais cada vez maiores para financiar novos empreendimentos.* Essa abrupta disponibilidade de metais preciosos provoca uma elevação constante de preços, que contribui fortemente para desorganizar as economias camponesas ainda sobreviventes. Dessa forma, novas massas são lançadas ao mercado de trabalho ou obrigadas a emigrar, ao mesmo tempo em que sobrevém uma violenta substituição das antigas camadas patronais conservadoras pelo empresariado de mentalidade capitalista.

Simultaneamente, a Europa se transfigura ideologicamente, aprofundando o movimento de renovação inaugurado com o Renascimento e intensificado pela Reforma. A alfabetização em massa nas línguas vernáculas, levada a efeito para ler a Bíblia, permitiria, de então por diante, recrutar a intelectualidade em bases muito mais amplas e assegurar-lhe maior liberdade de indagação e de pesquisa. Desse modo, a Europa pós-medieval, que redescobrira o mundo grego assumindo sua postura mercantil e sua atitude especulativa, pôde levar à frente o saber e as artes a partir do ponto em que haviam estagnado e pôde retomar também os modelos mercantis escravistas de estruturação política em seus conteúdos democráticos.

Nas áreas onde mais amadureceu a formação capitalista mercantil, a Igreja Católica, de um poder autônomo ordenador das estruturas sociais e legitimador da autoridade, reduz-se à instituição auxiliar modeladora de consciências individuais. Mas é prontamente chamada a atuar como sustentáculo espiritual da nova classe dominante. Teólogos reformistas dedicam-se, agora, a formular uma ideologia enobrecedora do enriquecimento conceituado como sinal de benesse divina dignificadora do trabalho e condenatória de antigas atitudes senhoriais de ócio e fruição, bem como da sua contraparte popular, a mendicância. Por todas essas formas de ação, a Igreja da Reforma ajuda a burguesia nascente a adotar o perfil ético que lhe corresponde e a destruir as bases morais do antigo sistema, que encarava a propriedade como mais passível de deveres que de direitos e a estamentação social rígida da Europa feudal como uma expressão da vontade divina (M. Weber).

Com o capitalismo mercantil estabelecem-se, assim, as bases para a despersonalização das relações de trabalho, transformando a mão-de-obra em um bem livremente negociável; entrona-se uma classe empresarial de novo tipo para a qual se prescrevem direitos mas não deveres; e implanta-se um regime econômico marcadamente racionalista e venal. Nesse ambiente liberto de peias religiosas tudo se põe em causa. As ciências e as artes experimentam um desenvolvimento sem paralelo, lançando-se as bases para uma nova revolução no plano da tecnologia. Uma onda de criatividade renova as velhas ordenações medievais através de uma geração de livres-pensadores que se ocupam da regulamentação racional das relações humanas, com base nos conceitos mais generosos de liberdade e de igualdade e com uma atitude de plena confiança no progresso humano. Opera-se, desse modo, uma primeira transição saintsimoniana do governo das pessoas, que prevalecera no mundo feudal, para um governo das coisas, que regeria o capitalismo. Mas só se consegue efetivar essa renovação coisificando as pessoas, a fim de tratá-las juridicamente como coisas.

Em sua forma plenamente amadurecida, a nova formação sócio-cultural assenta-se na propriedade privada das empresas, na mais aguda competição destas entre si e em face dos consumidores e na implantação de um regime de espontaneismo no plano econômico e de completa irresponsabilidade social para com o destino dos trabalhadores. Velhas tendências espoliativas e alienadoras surgidas com as primeiras formas de estratificação social, e que haviam alcançado extremos na formação mercantil escravista e, mais tarde, nas formações despóticas salvacionistas e mercantis salvacionistas, reimplantam-se e aprofundam-se mais ainda.

A riqueza social aumenta até níveis inatingidos antes, mas a pobreza das camadas despossuidas também se agrava como nunca. As populações européias crescem mais aceleradamente do que a capacidade do sistema para absorver os novos contingentes de mão-de-obra, transformando-os em "excedentes" que se devem exportar como emigrantes.

A Revolução Mercantil, que gerara o maior movimento expansionista da história humana, tendente a unificar o mundo inteiro num só sistema de intercâmbio econômico, experimenta, nesse passo, um movimento oposto de segmentação dos povos em entidades étnico-nacionais carregadas de hostilidade umas para com as outras. O mesmo processo civilizatório que alargara o mundo, pondo todos os povos em contato, e que ampliara o âmbito interno de cada sociedade, pelo rompimento de barreiras regionais, encontra seu termo nas fronteiras nacionais.

Configuram-se os espaços nacionais modernos. Cada um deles compreende uma comunidade que, durante gerações, participara das mesmas crenças e costumes. Seus membros passam agora a identificar-se como nações definidas em termos de entidades solidárias excludentes de todas as demais, com direito ao domínio político do território que ocupavam ou pleiteavam.

Após séculos de elaboração de sua forma, como resultante de múltiplas fusões de povos, essas etnias alcançavam, afinal, consciência de sua especificidade em virtude do poder aglutinador do sistema político, empenhado em reservar ao seu empresariado o monopólio do mercado nacional. Incentivada por essas forças aliciadoras, a intelectualidade passa a criar auto-imagens nacionais motivadoras, na forma de obras literárias redigidas em língua vernácula, com o propósito de ressaltar o valor de suas tradições, a qualidade de seus heróis e a superioridade de seu “vínculo de sangue". Por esses processos de organização e de afirmação nacionalista, as entidades étnico-nacionais se conformam como os quadros econômicos e sociais em que suas populações realizarão seu destino, em face das outras. Aquelas que se estruturaram precocemente como Estados e alcançaram maior desenvolvimento como economias capitalistas lançam-se à expansão. Estalam os conflitos. São as lutas nacionais que através de três séculos de crises, tensões, revoluções e guerras, irão configurando o quadro étnico europeu e correlacionando com ele todo o mundo extra-europeu, transformado em área de saque e de exploração.

 

 

7. REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA INDUSTRIAL

 

Os processos civilizatórios fundados na Revolução Mercantil ainda atuavam quando emergiu a Revolução Industrial e, com ela, dois novos processos civilizatórios.

Sua capacidade de reordenação das sociedades humanas só seria comparável à da Revolução Agrícola que, desde dez mil anos passados, vinha remodelando os povos.* Afetaria também todas as sociedades, acrescentando às que lograram Industrializar-se um poderio antes inimaginável e submetendo as demais a formas de dominação cada vez mais sutis e imperativas. Remodelaria internamente cada sociedade, tanto as diretamente industrializadas quanto às modernizadas reflexamente, alterando sua estratificação social e, com ela, as estruturas de poder e redefinindo profundamente sua visão do mundo e seus corpos de valores.

O efeito crucial da nova revolução tecnológica consistiria, porém, no lançamento das primeiras bases de uma futura civilização humana, afinal unificada pelo acesso de todos os povos à mesma tecnologia básica, pela sua incorporação às mesmas formas de ordenação da vida social e pela sua integração aos mesmos corpos de valores. Essa civilização humana unificada não se cristalizaria, contudo, no curso dessa revolução, que apenas conseguiria torná-la uma aspiração generalizada de todos os povos.

A tecnologia da Revolução Industrial não se expande como uma difusão de novos conhecimentos livremente adotáveis, mas como uma reordenação de povos que, situando os pioneiros da industrialização em posição superior de domínio e de riqueza, conduzia todos os demais à subordinação dentro de vastos complexos de nações dependentes e exploradas. Os povos atrasados na história, que haviam escapado às compulsões da Revolução Mercantil, seriam, assim, atingidos, onde quer que vivessem, e chamados a engajar-se na nova ordem econômica e social, como "proletariados externos" provedores de matérias-primas agrícolas e de minérios e consumidores de produtos industriais.

A Revolução Industrial surge no corpo das formações capitalistas mercantis pela acumulação de inventos mecânicos que permitiriam multiplicar fantasticamente a produtividade do trabalho humano. Por isso mesmo, implanta-se, primeiro, nas áreas em que se atendera mais completamente às exigências de renovação estrutural imposta pela Revolução Mercantil, desobstruindo resistências oligárquicas à alteração do Status quo. Tais condições encontravam-se quase idealmente amadurecidas na Inglaterra e nos Estados Unidos e, de forma mais rudimentar, na França, na Alemanha e nos países escandinavos.

As formações sócio-culturais geradas pela Revolução Industrial têm como classe dirigente uma burguesia urbana que desde a etapa anterior se vinha fortalecendo e forçando a reordenação da sociedade segundo seus interesses. Tal era o empresariado que crescera tirando proveito das oportunidades de enriquecimento ensejadas pela restauração do sistema mercantil europeu, pela apropriação dos bens eclesiásticos tornada possível pela Reforma, pelo confisco dos baronatos feudais e dos direitos comunitários do campesinato. A essa acumulação de recursos acrescentara-se, depois, a riqueza proveniente do saque colonial, da exploração maciça do escravismo e da monetarização das economias.

Inicialmente, esse empresariado atuava como os antigos mercadores, na exploração da usura, na especulação comercial com a escassez de bens, na monopolização de certas mercadorias e nos riscos marítimos. Agora se dedica, principalmente, à exploração da nova fonte de riqueza representada pela aplicação de capitais em sistemas fabris de produção em massa, movidos por novas fontes de energia inanimada, cuja expansão demandava uma reordenação mais radical na estrutura da sociedade. Com a nova tecnologia tornara-se possível e vantajosa a conversão de toda mão-de-obra, inclusive a escrava, em força de trabalho assalariado, e fizera-se necessário operar urgentemente essa conversão para liquidar as formas de produção artesanal, ainda sobreviventes em todo o mundo, a fim de atribuir novas funções aos trabalhadores. Impunha-se, também, elevar seu nível de produtividade e consumo com o objetivo de alargar o mercado dos produtos industriais para dar lugar a uma expansão continuada do sistema fabril.

Desde princípios do século XVIII, a Inglaterra, que havia ampliado seu poderio naval e o sistema capitalista mercantil de base mundial nele assentado, vinha acumulando aplicações tecnológicas de princípios científicos aos processos produtivos, na forma de fábricas e de explorações minerais. Conseguira, dessa forma, implantar uma economia industrial essencialmente urbana, que passara a produção agrícola para um segundo plano, gerara transformações radicais em sua estrutura social e lançara as bases da Revolução Industrial.

Essa renovação tecnológica enseja o amadurecimento do novo empresariado, que promove o recrutamento maciço de antigos artesãos desempregados e de trabalhadores rurais desalojados do campo. para organizá-los em fábricas, como operadores de engenhos mecânicos movidos por novos conversores de energia. Esse desenvolvimento processou-se em três passos, o primeiro dos quais com a invenção e a difusão das máquinas a vapor que utilizavam o carvão como combustível. Sua aplicação às minas, na forma de bombas de água e elevadores de carga, permitiu ampliar fantasticamente a produção de carvão.

Como mecanismo de conversão do vapor em energia mecânica, pôde ser atrelado a diversos dispositivos industriais para produzir máquinas operatrizes, com as quais se multiplicou a produtividade das tecelagens e metalúrgicas. Como locomotiva, revolucionou os transportes terrestres e, como navio a vapor, os marítimos. A partir de 1820, protótipos cada vez mais aperfeiçoados dessas máquinas multiplicaram-se na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França, de onde passam a ser exportados como mercadorias para todo o mundo, alargando as bases de expansão da civilização industrial.

Aos conversores de energia baseados em dispositivos de queima do carvão para produção de vapor acrescentaram-se depois outros conversores cada vez mais eficazes. Esse foi o segundo passo da Revolução Industrial, que se deu na passagem do século XIX ao XX com o surgimento e a generalização do uso de motores elétricos, fundados na energia hidráulica. O terceiro passo corresponde ao desenvolvimento e difusão, depois da Primeira Guerra Mundial, dos motores a explosão que utilizam combustíveis de petróleo.

A essas inovações da tecnologia industrial somaram-se aperfeiçoamentos dos processos produtivos agrícolas e pastoris, que tiveram um papel da maior relevância na ampliação das disponibilidades de alimentos, viabilizando o aumento populacional das áreas recém-modernizadas. Tais foram: a generalização das técnicas de cultivo anual de toda a terra arável através da rotação de culturas e do uso de fertilizantes; a melhora do sistema de aração e da erradicação de pragas; a mecanização das atividades agrícolas; a seleção de sementes; o aprimoramento genético dos rebanhos de gado de corte, de leite e de lã. Esses avanços foram acompanhados da difusão de plantas cultivadas originariamente nas Américas, como um novo tipo de algodão e, sobretudo, a batata, o milho, a mandioca, o amendoim, o cacau, o tomate e muitas outras, que enriqueceriam extraordinariamente a dieta humana.

Surgem, desse modo, os primeiros países "desenvolvidos" como economias capitalistas industriais, cujo objetivo supremo e cuja condição de existência passam a ser a expansão constante de sua riqueza e poder através da elevação da produtividade do trabalho, da maximização dos lucros e do domínio de mercados de escala mundial.

 

IMPERIALISMO INDUSTRIAL E NEOCOLONIALISMO

No desdobramento de suas potencialidades, o primeiro processo civilizatório fundado na Revolução Industrial vai impondo tamanhas alterações nos modos de ser das sociedades humanas que acaba por integrá-las todas num só sistema interativo e por configurar uma nova formação sócio-cultural, também bipartida em dois complexos tecnologicamente defasados e economicamente contrapostos, mas complementares: o superior, de algumas nações capitalistas mercantis, de dominação imperialista industrial, e o inferior, de áreas coloniais como o surgimento de uma nova forma de dependência: o neocolonialismo.Nos seus primeiros passos, o processo de industrialização é principalmente dissociativo e extremamente conflitivo.

Internamente, agrava ainda mais os efeitos deletérios da reordenação capitalista, aprofundando a diferenciação social. Provoca uma intensificação do êxodo rural-urbano, acumulando nas cidades enormes massas marginalizadas. Quando estas ameaçam desencadear uma pressão irresistível de reordenação do sistema, intensificam-se os movimentos migratórios induzidos pelas autoridades governamentais, a fim de se livrarem dos ”excedentes" populacionais. Essas transladações humanas e o consumo de gente em guerras sucessivas devem ter retirado do quadro europeu cerca de 100 milhões de pessoas no último século e meio, propiciando a indispensável distensão consolidadora do sistema capitalista industrial.* Se a essa redução se acrescentassem os efeitos constritores da restrição da natalidade, que então se generalizara nas nações industrializadas, o montante duplicaria.A Inglaterra e a França são as nações que primeiro amadurecem como formações sócio-culturais imperialistas industriais. A mesma façanha é cumprida, logo a seguir, pelos Estados Unidos. Este país, contando com imensas disponibilidades de terras virgens e de recursos naturais, consegue mesmo industrializar-se, incorporando à força de trabalho toda a sua população e, ainda, enormes contingentes europeus.

Graças ao constante crescimento da produtividade do trabalho e ao desgaste de seus excedentes populacionais, as nações precocemente industrializadas conseguem, a certa altura, elevar substancialmente o padrão de vida de suas populações; organizar regimes democrático-parlamentares que ensejam uma participação crescente do povo na formação dos órgãos do poder político; escolarizar toda a população em escolas públicas de nível elementar, e, mais tarde, levar parcelas crescentes à educação de nível médio e superior. Simultaneamente, melhoram os seus níveis de sanidade, alarga-se a expectativa de vida e formulam-se novos ideais de liberdade, de justiça e de igualdade.

Na ordem externa, impõe condições de extrema penúria aos povos já submetidos ao estatuto colonial. Suas populações são duplamente conscritas ao novo sistema produtivo, as classes dominantes na qualidade de estamentos gerenciais de interesses exógenos e a massa da população na condição de "proletariado externo" engajado na produção de matérias-primas. Sob o domínio do imperialismo industrial, o papel dos povos atrasados na história já não será o de prover tesouros pelo saque ou de abastecer o mercado mundial de ouro e prata e especiarias, e nem mesmo dos produtos tropicais clássicos, como o açúcar e outros. Sua função passa a ser o fornecimento de matérias-primas para a elaboração industrial, como os minérios, o petróleo, a borracha, o algodão, os couros, as lãs e diversas outras produzidas, predominantemente, por trabalhadores assalariados que são também consumidores. A esses produtos acrescentam-se novos gêneros de exportação, como o café, o cacau, a carne bovina, as frutas tropicais etc., requeridos em proporções crescentes pelos mercados das sociedades industrializadas. Assim, o mesmo progresso da industrialização, que multiplica fábricas nos países cêntricos do sistema, alarga, simultaneamente, as áreas de plantação e de pastoreio comerciais, de extrativismo florestal ou de exploração de minérios nos países periféricos.

A implantação imperialista se dá em três etapas: Na primeira etapa, atua pela exportação de manufaturas e pela conquista de fontes privatistas de matérias-primas ou de mercados cativos. Na segunda, correspondente à fusão das empresas em grandes monopólios controlados por agências financeiras, passa a atuar principalmente pela exportação de capitais na forma de equipamento modernizador da infra-estrutura produtiva das nações atrasadas e de capitais de empréstimo a governos.

Com esse procedimento, intensifica-se a exploração dos povos situados em posição subalterna dentro do sistema, porque esta passa a ser fomentada pelo próprio instrumental de industrialização, que provê ferrovias, portos, sistemas modernos de comunicação e maquinaria especializada para suas atividades produtivas. Sua subordinação à órbita da potência-líder também se acentua. Na terceira etapa, os procedimentos financeiros são suplantados em favor da instalação, nos países dependentes, de subsidiárias das grandes corporações monopolistas, como dispositivos de exploração de riquezas minerais e de produção industrial para o mercado interno, com o fim de drenar os capitais gerados nas nações pobres para enriquecer ainda mais as nações opulentas. O primeiro modelo de ruptura desse círculo de domínio foi configurado pela Alemanha (1850-1914), pelo Japão (l890- 1920) e, mais tarde, pela Itália (1920-40), que conformam o padrão tardio de desenvolvimento.Como se vê, o impacto da Revolução Industrial se imprime diferencialmente, conforme se exerça direta ou reflexamente sobre os povos. No primeiro caso, configura as sociedades modernas; no segundo, o contexto de nações subdesenvolvidas.

A condição de subdesenvolvimento não representa, por isso, simplesmente, o atraso diante do progresso .

Representa, isto sim, uma seqüela necessária das próprias forças renovadoras da Revolução Industrial que geram, simultaneamente, dois produtos: os núcleos industriais como economias de alto padrão tecnológico e a periferia neocolonial de nações estruturadas menos para atender às suas próprias necessidades do que para prover aqueles núcleos de bens e serviços em condições subalternas. Suas populações são degradadas pela deculturação ou pela deterioração de sua economia tradicional, perdendo os níveis de desenvolvimento tecnológico que haviam alcançado para se transformarem principalmente em força de trabalho utilizada nas formas mais primitivas, como combustível humano do processo produtivo.

O subdesenvolvimento não corresponde, pois, a uma crise de crescimento, mas a um trauma em que submergem sociedades subordinadas a centros industriais, que se vêem ativadas por intensos processos de modernização reflexa e de degradação cultural. Somam-se a isso a explosão demográfica e a urbanização acelerada e caótica, agravando ao extremo as tensões sociais, que essas sociedades não têm meios de superar ou mesmo de abrandar, porque não poderão exportar seus excedentes populacionais, como o fez a Europa no mesmo passo.

Acresce, ainda, que as nações subdesenvolvidas não são apenas atrasadas, são também as nações espoliadas da história, empobrecidas pelo saque que sofreram originalmente das suas riquezas entesouradas e pela sucção secular dos produtos do trabalho de seus povos, através de sistemas inigualitários de intercâmbio. Soma-se a tudo isso a deformação de sua classe dirigente que, posta a serviço da espoliação estrangeira, não se torna capaz de amadurecer como um empresariado renovador e competitivo.

 

EXPANSÃO SOCIALISTA

Com base nas forças renovadoras da Revolução Industrial, desencadeia-se, depois da Primeira Guerra Mundial, um processo civilizatório novo, responsável pela estruturação das formações socialistas.

Dois movimentos básicos de restruturação social: Um de natureza evolutiva, resultante da acumulação de mudanças institucionais que descaracterizam o regime capitalista, a ponto de configurar algumas sociedades industriais como uma nova formação, o socialismo evolutivo. O outro, de natureza revolucionária, conduzido intencionalmente como um esforço político de ruptura com os fatores inibitórios do desenvolvimento industrial autônomo: o socialismo revolucionário e o nacionalismo modernizador.Na construção do modelo teórico das formações socialistas evolutivas, o paradigma mais amadurecido é representado pelos países escandinavos, que se vêm estruturando como uma nova formação sócio-cultural graças à combinação de certos procedimentos coletivistas de produção e de consumo e à atribuição de maiores responsabilidades sociais ao Estado pelo destino de suas populações.

Outra via alternativa da evolução pós-capitalista é o socialismo revolucionário, tal como se configura na União Soviética, nas Repúblicas socialistas da Europa Oriental, na China, na Coréia do Norte, no Vietnã do Norte e em Cuba. A principal característica dessa formação sócio-cultural é sua racionalidade, enquanto concretização planejada de um projeto de reforma intencional das sociedades humanas, levada à prática através de movimentos revolucionários.

Com a formulação das doutrinas socialistas, especialmente do marxismo, prefigurou-se para as camadas assalariadas, sobretudo para o proletariado fabril, um modelo teórico de transformação intencional das sociedades e se definiu uma estratégia de combate que, pela primeira vez na história, prometia abrir às camadas subalternas perspectivas de concretizar velhas aspirações de reestruturação completa das bases da vida social. De acordo com essa teoria, a classe operária está destinada historicamente, a atuar como força motriz de uma revolução social que promoverá a suplantação de todas as formas de espoliação e de alienação dos homens, mediante a eliminação da propriedade privada dos meios de produção e a conseqüente erradicação da estrutura classista das sociedades e, com ela dos mecanismos de opressão do Estado.

O modelo teórico do socialismo marxista tem de peculiar seu duplo caráter de previsão de uma nova etapa da evolução humana e de projeto intencional de reordenação das sociedades segundo os interesses das categorias majoritárias da população.

Esse modelo foi inaugurado na Rússia, a partir de um projeto teórico de reordenação da sociedade. Sua elaboração constituiu um sério desafio, porque pela primeira vez se conseguia reestruturar racionalmente, por um ato de vontade, toda uma sociedade, a começar das suas bases. Tratava-se de atender objetivamente a antigas aspirações humanísticas dentro do enquadramento rígido dos fatores econômicos que fazem a prosperidade depender da capacidade de produção e o bem-estar depender de um difícil equilíbrio entre a necessidade de investimentos crescentes no parque produtivo e o desejo de alargar as facilidades de consumo popular.

O socialismo revolucionário e o socialismo evolutivo contrastam flagrantemente por seus perfis ideológicos. O primeiro, impregnado de ideais igualitaristas e de mística “utópica"; o segundo, imbuído de valores liberais e de uma antimística pessimista. O perfil ideológico do socialismo revolucionário, que procura explicitar-se como uma mística libertária e como o caminho do progresso para as sociedades atrasadas, não corresponde uma formulação equivalente do socialismo evolutivo. Essa antimística, porém, não significa uma ausência de ideologia, porque ela própria é a ideologia que não quer explicitar sua verdadeira função aliciadora em defesa de perpetuação da ordem social.

 

 

8. REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA TERMONUCLEAR E AS "SOCIEDADES FUTURAS"

 

Estamos, - com a implantação da tecnologia científica moderna de base termonuclear e eletrônica -, diante de transformações tão prodigiosas das forças produtivas e tão prenhes de conseqüências que devamos classificá-las como uma nova revolução tecnológica. A acumulação de desenvolvimentos no campo das ciências básicas e suas aplicações tecnológicas na forma de armas termonucleares, de aviões a retropropulsão, de baterias solares e, sobretudo, de dispositivos eletrônicos ultra-rápidos fundados na tecnologia dos transistores, que permitiram produzir o radar e os novos computadores, os reatores nucleares, a luz corrente, o radiotelescópio, os projéteis espaciais, e, ainda, os complexos industriais automatizados, os sistemas automáticos de produção química de sintéticos, os meios modernos de telecomunicação em massa, os sistemas cibernéticos de coordenação de informações e de simulação de situações para fixação de estratégias militares e econômicas... o impacto dessas inovações faz-se sentir na vida diária do homem comum do nosso tempo, principalmente através de uma torrente de novos materiais, de novos tipos de máquinas operatrizes automatizadas e de formas revolucionárias de comunicação em massa e de difusão. Já se faz sentir, também, como efeito da multiplicação da acuidade dos sentidos humanos através de instrumentos ultra-sensíveis e da duplicação da capacidade de ação humana, através da contração do espaço e da extensão do tempo em graus antes inimagináveis. Seus efeitos cruciais estão concentrados, porém, na tecnologia militar, que lida com potencialidades absolutas de destruição da vida na Terra. As promessas da nova tecnologia, de proporcionar prodigiosas fontes de energia e uma abundância teoricamente ilimitada de bens e de serviços, são ainda meras expectativas. Entretanto, à medida que essas promessas entrem a cumprir-se, terá início um novo movimento do processo evolutivo pela morte da economia da escassez e o advento da economia da abundância, no bojo da qual deverão transmudar-se todas as formas atuais de estratificação social.

Em face desses desenvolvimentos futuros, que propiciarão a generalização da prosperidade, a divisão da sociedade em classes econômicas (surgida como fruto dos primeiros acréscimos revolucionários da produtividade do trabalho humano e que só permitia o progresso pela escravização de extensas camadas) tenderá a reduzir-se cada vez mais, até se extinguir completamente. Contra essa tendência, porém, erguer-se-ão com o vigor desesperado da luta pela sobrevivência todos os interesses privatistas, cujos privilégios se assentam na desigualdade social. Supunha-se que esse embate se desse de forma catastrófica, em certo nível do amadurecimento da nova economia. Sua universalização é que está em causa, neste momento, bem como as vias pelas quais se efetivará e os modelos de sociedade que deverão configurar os povos.

Uma coisa é o protótipo viável de um machado de pedra polida, de um arado, de um veleiro, de um automóvel ou de um aparelho de televisão; outra coisa é a entrada em uso de milhões dessas inovações.

A designação de Revolução Termonuclear para essa onda emergente de inovações tecnológicas justifica-se tanto pelo caráter crucial do fator energético na evolução humana a que se refere como pelo impacto que a competição atômica entre a América do Norte e a União Soviética desencadeou sobre a humanidade, desde o fim da última guerra mundial. Essa competição conduziu a uma recolocação de recursos financeiros e humanos sem paralelo na história.

Década de 60: a América do Norte aplicou cerca de 75% do seu orçamento em atividades de defesa (84 mil milhões de dólares em 1966). Nelas já gastou mais de 897 mil milhões de dólares desde 1946 e ocupa um exército de 6 milhões de combatentes (NATO, SEATO etc.) espalhados pelo mundo, além de 350 mil cientistas e tecnólogos que representam cerca de novecentas diferentes especialidades. Como as inversões militares soviéticas e chinesas devem ser equivalentes, verifica-se que estamos diante de um fato novo e decisivo por sua magnitude e pela sua capacidade de afetar as sociedades humanas. Somente uma parcela dessa fantástica mobilização de recursos se aplica na tecnologia nuclear. A própria guerra que se prevê não se designa mais como atômica, mas como químico-bacteriológica-radiológica ou pela sigla sinistra QBR.A Revolução Termonuclear, mesmo nesses seus primeiros passos, colocou nas mãos das sociedades mais avançadas somas tão fantásticas de poder destrutivo, construtivo e constritivo que tanto pode conduzir o homem ao reino da fartura e da eqüidade como pode desencadear um processo de deterioração sócio-cultural e até biológica mais profundo que qualquer das regressões anteriores. Desde seus primeiros passos, a Revolução Termonuclear provocou a mobilização de todos os quadros científicos das respectivas áreas de influência para tarefas de investigação de natureza militar. As universidades e os centros de pesquisa assim conscritos perderam grande parte da autonomia e até mesmo a capacidade de exercer suas funções decisivas de núcleos de pensamento independente e de criatividade cultural livre. Naqueles primeiros momentos, os cientistas, tratados como um misto de sábios e de magos detentores dos segredos da bomba, experimentaram a ilusão de que assumiriam, afinal, as alavancas do poder. Foram, porém, reduzidos, progressivamente, a uma função meramente assessorial das altas hierarquias civis, militares e empresariais, nada predispostas a abdicar do poder que detinham. E, mais do que isso, viram-se submetidos aos sistemas mais vexatórios e opressivos de vigilância policial, ao mesmo tempo em que se defrontavam - já de mãos atadas - com os problemas éticos de agentes humanos do desencadear de forças naturais capazes de dar fim a todas as formas de vida.

A própria ciência, como fator cultural, se translada do plano ideológico para o adaptativo, convertendo-se, de uma expressão abstrata do esforço humano de compreensão da experiência, no mais eficaz dos agentes de ação sobre a natureza, de reordenação das sociedades e de configuração das personalidades humanas.

Para isso contribuem: Primeiro, o desenvolvimento exponencial experimentado pelos conhecimentos científicos no século XX, acompanhado de uma redução drástica do intervalo entre os progressos teóricos e suas aplicações práticas, de modo a fundir a ciência e a tecnologia numa entidade única no plano operativo. Entre as experiências de Faraday (1821) e a integração dos motores elétricos no sistema produtivo (1886), mediaram 65 anos. Entre os estudos de Maxwell e Hertz e a comercialização dos aparelhos de rádio passaram-se 35 anos (1887-1922). Mas entre as formulações teóricas e a comercialização tecnológica do radar (1935-40), da bomba atômica (1938-45), do transistor (1948-51) e da bateria solar (1953-55) mediaram períodos muito inferiores, como o revelam as datas.

Segundo, a profissionalização da ciência e da tecnologia avançada, que, de atividade lúdica ou inusitada nos princípios do século, se vai convertendo em ocupação ordinária de um contingente humano que deve estar alcançando 1 milhão de pessoas na década de 60. Seu ritmo de incremento é tão intenso quanto o dos operários fabris dos primeiros passos da Revolução Industrial.

Em terceiro lugar, a expansão fantástica da aplicação de recursos nas atividades de pesquisa científica e de desenvolvimento tecnológico de projetos. As despesas de tais programas por parte do governo norte-americano, que vinham crescendo na proporção de um dólar, em 1920, para quatro, em 1940, saltaram a 35, em 1950, e a 175, em 1960. Em números absolutos, essa progressão foi de 80 milhões de dólares, em 1920, para cerca de 16 mil milhões, em 1963. Tudo indica que os investimentos russos em pesquisa científica e tecnológica sejam ainda mais altos e que os chineses estejam se aproximando cada vez mais dessas magnitudes.

Os efeitos dos novos processos produtivos sobre as relações de trabalho apenas começam a tornar-se mensuráveis. Suas conseqüências mais singelas são as desconexões de caráter mecânico entre fontes de energia e máquinas, ou entre máquinas e matérias-primas, ou, ainda, entre máquinas e máquinas que compelem já à substituição periódica de setores inteiros do parque produtivo. Por exemplo, o desuso do equipamento químico-industrial ou dos parques de máquinas têxteis, inadaptáveis aos fios sintéticos. Mais grave são as desconexões humanas, representadas pelo desuso de especializações profissionais que se tomam arcaicas - como os antigos foguistas das locomotivas, substituídos por motores diesel e elétricos e que, em conseqüência, se vêem deslocados e obrigados a reajustamentos sucessivos, em muitos casos impossíveis.

Essa ordem de desajustamento tende a crescer cada vez mais, atingindo, primeiro, alguns setores da força de trabalho, produzindo, depois, massas de deslocados, e gerando, por último, multidões de marginalizados social e ocupacionalmente e, assim, condenados a viver como pensionistas do Estado. O controle das tendências dessas massas desajustadas à insubordinação consistirá num desafio muito mais agudo que aquele com que defrontaram as primeiras sociedades industriais, atenuado, então, pela exportação maciça dessas populações para áreas coloniais e pelos desgastes humanos em guerras. Os novos problemas sociais não admitem, porém, soluções tão singelas, porque põem em causa, de forma ainda mais dramática, a incompatibilidade da ordenação social com a tecnologia produtiva que opera e porque os impulsos de reordenação social já se exercem sobre as sociedades de um novo tipo, cujas populações são, provavelmente, mais capazes de autodefesa contra a opressão. A combatividade do novo negro norte-americano em sua luta contra a discriminação racial dá-nos uma medida dessa capacidade de autodefesa das camadas marginais das sociedades avançadas.

A fonte principal dessas tensões é a promoção dos trabalhadores, da condição de manuseadores de ferramentas à de operadores de máquinas e, finalmente, à de supervisores de sistemas produtivos ultracomplexos. Estes, além de exigir muito menor número de trabalhadores, não carecem de energia muscular nenhuma e não requerem qualquer adestramento profissional. Em compensação, exigem, de seus supervisores, uma qualificação educacional cada vez mais alta. Sua implantação na indústria importa, em primeiro lugar, na eliminação maciça de trabalhadores, e, a seguir, na proscrição progressiva da "aristocracia operária", constituída pelos trabalhadores grandemente especializados, para dar lugar a um contingente novo de operadores cada vez mais intelectualizados e mais parecidos com as velhas camadas de empregados burocráticos e com os engenheiros modernos.

Esse complexo de desconexões mecânicas e humanas requer, além de reajustamentos no parque fabril, na força de trabalho e nas instituições de previdência e amparo, uma revisão completa do sistema educacional. Transformando a escolaridade num drástico setor social, que exclua da vida produtiva os não-instruídos, toma-se imperativa a abertura do sistema escolar de todos os níveis à totalidade da população; impõe-se a revisão de todo o seu conteúdo curricular para ajustá-lo aos graus de integração das ciências na cultura, e toma-se indispensável o acesso de toda a força de trabalho a uma reeducação continuada e de alto padrão ao longo de toda a vida produtiva.

Ante esses desafios, essas sociedades tendem a reagir com esforços obstinados a fim de evitar que a revolução tecnológica ponha em risco os interesses investidos e ameace as estruturas tradicionais de poder. Para isso, condicionam a aplicação das potencialidades de multiplicação da produtividade à consolidação do regime vigente e procuram utilizar exaustivamente os novos e prodigiosos sistemas de comunicação em massa para conformar uma opinião pública submissa e disciplinada mediante uma doutrinação que a torne incapaz de qualquer opção radical.

Contribuirão decisivamente para uma reversão os movimentos de emancipação política, econômica e cultural em que estão empenhadas as nações subdesenvolvidas. Espocando, simultaneamente, em todo o mundo, ameaçam liquidar as bases neocoloniais do sistema imperialista, compelindo à criação de novas constelações internacionais. Desse modo caberá aos povos atrasados na história uma função civilizadora do povos mais evoluídos, tal como, no paradoxo de Hegel, cabia historicamente ao escravo o papel de combatente da liberdade.

As vantagens alcançadas pelas sociedades mais avançadas poderiam induzi-las a se fecharem sobre si mesmas para fruir seus progressos. Sua dependência do sistema mundial de intercâmbio obrigá-las-á, porém, a interagir com os povos mais atrasados. E esses, à medida que se tornem capazes de defender seus próprios interesses, imporão novas formas de interação cada vez menos espoliativas às relações internacionais.

Por todos esses caminhos, o que está em marcha é uma etapa evolutiva nova, que transmudará, mais uma vez, a condição humana agora de forma ainda mais radical, porque colocará, finalmente, a ação modeladora de uma revolução tecnológica sob o controle de uma política intencional de base científica. Assim, na medida em que a ciência se translada do plano ideológico para o adaptativo, confundida com a tecnologia, a intervenção racional humana é que passará a gerir a história.

Até essas atitudes, porém, muitos obstáculos terão de ser superados. Em primeiro lugar, o das carências elementares - como a fome, a falta de vestimenta, de moradia, de facilidades sanitárias mínimas contra enfermidades curáveis e o acesso a um mínimo de escolaridade - que afligem a quase-totalidade da espécie humana. Esse problema capital está intimamente relacionado com a orientação do esforço científico e tecnológico, voltado, hoje, predominantemente, para tarefas de destruição. Apenas uma percentagem irrelevante dos recursos investidos em pesquisa se dirige à busca de melhores soluções para os problemas representados por aquelas carências fundamentais de bens e de serviços. Temos um exemplo deles na composição do corpo de tecnólogos e cientistas norte-americanos: 140 mil se ocupam em pesquisas aeronáuticas, espaciais e de eletrônica militar, mas apenas 1200 se dedicam a problemas da indústria têxtil, 4 mil estudam cimento e problemas de edificação e 5 mil investigam metalurgia básica.

Soma-se a esse problema o peso das diferenças de classe e da discriminação racial, que continuam impondo condições desumanizadoras à maioria da espécie humana. A superação desses percalços, hoje aparentemente intransponíveis, pode fazer-se pela aceleração evolutiva acionada pela própria Revolução Termonuclear no curso do processo de modelação das sociedades futuras. Não será alcançada, porém, de forma espontaneista, porque importará num esforço extraordinário, só praticável através de um planejamento rigoroso e da mais completa cooperação internacional.

As características dessas sociedades futuras são, hoje, pouco previsíveis. Entretanto, algumas delas já são visíveis em nossos dias. Assim é que se pode afirmar que o sentido do desenvolvimento humano aponta para a configuração das sociedades futuras como formações socialistas de um novo tipo. Estas serão, com toda a probabilidade, sociedades não estratificadas em classes econômicas, embora de caráter infinitamente superior ao das comunidades tribais indiferenciadas de que a humanidade partiu há dez milênios e em que prevaleciam relações pessoais e igualitárias.

Uma característica já visível das sociedades futuras será a superação da diferença entre cidade e campo, pela industrialização das atividades agrícolas em curso e pela expansão das cidades sobre as áreas adjacentes. Outra característica será a superação da distância entre o trabalho braçal - praticamente proscrito - e o trabalho intelectual. A composição da força de trabalho será, majoritariamente, de pessoas com preparo de nível universitário, dedicadas a toda sorte de tarefas, principalmente as educacionais, assistenciais, culturais e recreativas, que experimentarão enorme expansão. Esses níveis mais altos de preparo educacional terão igualmente o efeito de fazer, da maioria dos homens, herdeiros do patrimônio cultural humano, tornado comum, e uma proporção ponderável deles capaz de criatividade artística e intelectual.

A ruptura entre o produtor e o produto do seu trabalho provocada pela mercantilização do artesanato e acelerada, mais tarde, pela industrialização será, dessa forma, superada, permitindo a cada pessoa exprimir-se no que faz. O desejo de beleza, que amanheceu tão cedo nas sociedades humanas expresso em toda sorte de artefatos mais perfeitos e trabalhos do que o necessário para serem operativos e foi tão cedo soterrado pela mecanização e pela especialização, voltará a florescer. Quebrar-se-ão, assim, os círculos fechados de artistas herméticos e de apreciadores eruditos para devolver a arte e a criatividade artística ao homem comum.

Tocqueville, ideólogo do liberalismo, apreensivo com o amadurecimento dessas tendências despersonalizadoras e despóticas, perceptíveis em seu tempo, registrou, em 1835, a seguinte antevisão das sociedades futuras:

Vejo uma multidão inenarrável de homens, iguais e semelhantes, que giram sem descanso sobre si mesmos com o único fim de satisfazer os pequenos e vulgares prazeres com que enchem suas almas. Cada um deles vive à parte, alheio ao destino de todos os demais. Seus filhos e seus amigos constituem para ele toda a espécie humana. Enquanto concidadãos, está junto deles sem vê-los; toca-os sem o sentir. só existe em si e para si mesmo. Se lhe resta uma família, pode-se dizer que já não lhe resta uma pátria. Acima de todos eles eleva-se um poder imenso e tutelar que se encarrega, sozinho, de garantir seus prazeres e de velar por eles. Este poder é absoluto, minucioso, regular, previdente e apacível. Pareceria um poder paternal se, como este, tivesse por objetivo preparar os homens para a idade viril; ao contrário, porém, busca apenas fixá-los irrevogavelmente na infância. Não lhe desgosta que os cidadãos gozem, sempre e quando só pensem em gozar. Trabalha com gosto para fazê-los felizes, mas quer ser o único agente, o único árbitro. Supre sua segurança, provê suas necessidades, facilita seus gozos, gestiona seus assuntos importantes, dirige sua indústria, regula suas sucessões, divide sua herança. Ah, se pudesse livrá-los inteiramente do incômodo de pensar e da dor de viver!

 Um dos principais imperativos que as sociedades futuras terão de enfrentar será o de pôr sob controle essas tendências ao despotismo que preocupavam Tocqueville. Para tanto, terão de situar no centro das preocupações coletivas, como o valor mais alto, o cultivo e o estímulo ao livre desenvolvimento da personalidade humana, o incentivo a todas as formas de expressão da criatividade e a exploração de todas as potencialidades humanas de desenvolver formas de conduta solidária e socialmente responsável.

Em 1859, Marx, o ideólogo do socialismo, também procurou prefigurar as sociedades futuras, mas o fez a partir de uma posição otimista, que não via a prosperidade ordenada como uma condenação, mas como uma liberação de todas as potencialidades humanas:

De fato, diz Marx, uma vez abandonada a estreita forma burguesa, que será a riqueza senão a universalidade de necessidades, capacidades, gozos, poderes de produção etc. dos indivíduos, produzida no intercâmbio universal? Que será, senão o desenvolvimento pleno do domínio humano sobre as forças da natureza, as de sua própria natureza, assim como da chamada natureza? Que será. senão a explicitação absoluta de suas faculdades criadoras, sem outro requisito prévio que a evolução histórica precedente, que tornará a totalidade dessa evolução - isto é, a evolução de todos os poderes humanos como tais, sem os medir com nenhuma vara previamente estabelecida - um fim em si mesmo'? Que será isto, senão uma situação na qual o homem não se reproduza a si mesmo de uma forma determinada, senão que produz sua totalidade; em que não procura perdurar como algo formado pelo passado, mas se coloca no movimento absoluto do devenir? 

O futuro imediato das sociedades mais avançadas será o de Tocqueville ou de Marx, conforme se desenvolvam as virtualidades de despotismo ou de liberdade de que estão prenhes.

O futuro mais longínquo, o do homem, será, certamente, o da antevisão de Marx. Este se cristalizará no curso de uma civilização que amadurecerá com o novo homem, já não adjetivável étnica, racial ou regionalmente. Essa será a civilização da humanidade.