REVOLUÇÕES TECNOLÓGICAS
Darcy
Ribeiro - O PROCESSO CIVILIZATÓRIO
1.
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA AGRÍCOLA
O
primeiro processo civilizatório corresponde à Revolução Agrícola, que se
desencadeou originalmente, há cerca de 10 mil anos passados sobre os povos da
Mesopotâmia e do Egito e se repetiu, mais tarde, por efeito da difusão ou como
desenvolvimentos independentes, na Índia (6000 a. C.), na China (5000 a. C.) na
Europa (4500 a. C.), na África Tropical (3000 a. C.) e nas Américas (2500 a.
C.).
Essa
revolução tecnológica desdobrou-se em dois processos civilizatórios com os
quais surgiram a agricultura e o pastoreio, determinando duas novas formações
sócio-culturais: 1) Aldeias agrícolas indiferenciadas (não estratificadas em
classes) dos povos que se fizeram lavradores de tubérculos ou de cereais, a
exemplo das tribos da floresta tropical nas Américas, e de inúmeros povos
tribais de outros continentes. Alguns deles combinaram, mais tarde, a
agricultura com a criação de animais, mas ainda não os utilizavam na tração.
2) Hordas pastoris nômades dos povos que, posteriormente, se especializaram na
criação de animais ajustando todo o seu modo de ser às condições de
sobrevivência e de multiplicação dos rebanhos.
O
homem vivera sempre em pequenos bandos móveis de coletores de raízes e frutos,
de caçadores e pescadores, rigidamente condicionados ao ritmo das estações,
engordando nas quadras de fartura e emagrecendo nos períodos de penúria. Só
em regiões excepcionalmente dadivosas, como as costas marítimas, ricas em
mariscos, e, por isso mesmo, muito disputadas, esses bandos podiam alcançar
maiores concentrações. Ainda assim o montante de cada grupo era limitado pela
capacidade de provimento alimentar nas quadras de maior escassez e pelas
dificuldades de ordenar socialmente o convívio de unidades sociais maiores.
Nesse
largo período de vida pré-agrícola, avaliado em meio milhão de anos, o homem
dominara o fogo; aprendera a fabricar instrumentos de trabalho que compensaram
suas carências físicas com meios de ataque e de defesa, e aumentaram sua eficiência
produtiva. Desenvolvera idiomas, criara instituições sociais reguladoras da
vida familiar e grupal e intensificadoras do sentimento de lealdade étnica.
Acumulara patrimônios de saber e de crenças que explicavam sua experiência e
orientavam sua ação, bem como fantasmagorias, através das quais procurava
alcançar segurança emocional em face dos riscos a que estava sujeito e dos
quais se tornara consciente, como a dor e a morte..
Em
alguns núcleos, por efeito da acumulação de observações e de experimentos,
através de milênios, surgiram as primeiras formas de agricultura. Estas se
iniciam, provavelmente, pela horticultura de frutos e tubérculos nas áreas
tropicais e, nas regiões temperadas e frias, pelo cultivo de cereais, uns e
outros anteriormente coletados nos mesmos sítios. Tais procedimentos acabam por
fixar-se como um processo produtivo novo que, permitindo reordenar
intencionalmente a natureza, a colocava a serviço do homem para prover a massa
principal de alimentos vegetais de que carecia.
A
domesticação de animais, surgida em certas áreas, permitiria enriquecer a
dieta humana com uma provisão regular de carne e também de leite e peles. Mais
tarde, alguns dos animais domesticados proporcionariam uma nova fonte de energia
muscular, além da humana, como montaria ou força de tração de arados e
carros, multiplicando, dessa forma, a capacidade produtiva do homem e sua
mobilidade espacial.
Tal
como a agricultura, a domesticação de animais desenvolveu-se progressivamente,
a partir de procedimentos ocasionais que familiarizaram o homem com as condições
de sobrevivência e de reprodução dos animais. Segundo o testemunho etnográfico,
os grupos caçadores têm gosto em levar para suas moradas, e entregar ao
cuidado das mulheres e das crianças, filhotes dos animais que eles caçam, para
serem criados como um brinquedo animado. Essa atividade está, provavelmente, na
base da domesticação que, começando pelos cães de caça, se estenderia às
aves, porcos e muitas outras crias de terreiro e, depois. a animais de maior
porte, criados já em rebanhos, como as renas, os camelos, as ovelhas, os eqüinos
e os bovinos, cujas condições de crescimento conduziriam ao pastoreio como
atividade especializante.
O
efeito crucial da agricultura e do pastoreio na esfera das relações do homem
com a natureza foi um enorme incremento demográfico, causado pela relativa
fartura alimentar que proporcionou.
ALDEIAS
AGRÍCOLAS INDIFERENCIADAS E HORDAS PASTORIS NÔMADES
As
sociedades estruturadas nos dois tipos de formação sócio-cultural as aldeias
agrícolas indiferenciadas e as hordas pastoris nômades dedicam-se,
essencialmente, à reprodução do seu modo de vida através de economias de
subsistência
Tal
como as economias precedentes de caça e coleta, essas novas economias agrícolas
e pastoris incipientes ainda não ensejam condições de diferenciação de
categorias sócio-econômicas capazes de estamentar as comunidades. O grupo étnico
inteiro apenas dividido em famílias e distribuindo as atribuições produtivas
segundo o sexo e a idade - devota-se às tarefas de subsistência como um esforço
coletivo que ocupa igualitariamente todos os seus membros. O domínio tribal
coletivo das áreas de caça, pesca e coleta, estendendo-se, depois, às áreas
de cultivo e de pastoreio, permite manter cada família como unidade de produção
e de consumo. Nessa etapa não há lugar ainda para a acumulação privada de
bens, nem para a apropriação dos produtos do trabalho alheio. Os excedentes
alimentares ou de outro tipo - geralmente produto da dadivosidade da natureza em
certas quadras do ano - são destinados a gastos supérfluos, com atos de fé,
ou ao consumo festivo. Mesmo quando esses bens são apropriados pelos chefes dos
grupos familiares, revertem geralmente à coletividade, após sua morte, ou são
transferidos segundo regras de parentesco classificatório que incluem grande
parte, senão a totalidade, do grupo local.
A
renovação institucional mais assinalável dessa etapa encontra-se,
provavelmente, no aprofundamento da divisão de trabalho entre os sexos, que
atribui às mulheres as tarefas relacionadas com a semeadura, a colheita e a
preparação de alimentos cultivados. Essa nova carga de trabalho reacentua a
linha tradicional que já atribui à mulher funções rotineiras e ao homem as
tarefas mais cansativas. Assim como a ele cabia antes a caça. agora lhe incumbe
a derrubada dos bosques e o preparo dos terrenos para a lavoura. Ambas são
tarefas grandemente exigentes. mas episódicas, porque concentradas no tempo,
ensejando-lhe oportunidades de refazer-se dos esforços despendidos em longos
períodos de repouso. Às mulheres, todavia cabem novas tarefas cotidianas que,
como a manutenção da casa, o preparo da comida, a coleta, o cuidado das crianças,
exigem um esforço continuado e sem interrupções para repouso.
Simultaneamente
com essa diferenciação de papéis produtivos surgem crenças e cultos
destinados a impor a dominação masculina, que se vira virtualmente ameaçada.
Com o apelo a mitos e ritos - como os do Jurupari entre os grupos Tupis do
Brasil, de instituições como a casa dos homens e os sistemas de castigos a que
ambos estão associados - perpetua-se uma precedência social que já não
corresponde ao papel masculino na nova economia dos povos agricultores.
As
hordas pastoris nômades não parecem enfrentar esses problemas, em virtude da
relevância do papel masculino no sistema produtivo. Em conseqüência, nelas se
aprofunda essa dominância que assume as formas patriarcais mais despóticas.
Também nos grupos de economia mista, em que o cuidado dos animais de criação
cabe aos homens, a precedência social destes se ressalva. Por último, a guerra
age também como fator de fortalecimento da precedência masculina dentro das
sociedades agrícolas e pastoris, determinando, desde muito cedo, o aparecimento
de diferenciações sociais que ampliam e dignificam as antigas formas de
chefia, cujas responsabilidades vinham sendo aumentadas. Agora lhes cumpre fazer
face aos riscos de saque das safras e dos rebanhos e a condução das lutas pela
conquista de novas áreas de cultivo e de pastagens.
Amplia-se,
igualmente, na mesma etapa, o número de especialistas no trato com o
sobrenatural, que são chamados ao exercício de funções mais complexas, como
a salvaguarda do grupo contra variações estacionais e a garantia da
fertilidade do solo e das sementes, junto aos povos agricultores, e da saúde e
da multiplicação dos rebanhos, junto aos pastores.
Ainda
no curso da Revolução Agrícola, algumas sociedades experimentam grandes
progressos na sua capacidade produtiva, devidos à substituição da enxada pelo
arado puxado por animais e ao uso de fertilizantes. A tecnologia geral se
enriquece com a descoberta e a generalização da cerâmica, que introduz o hábito
de consumir principalmente alimentos vegetais cozidos, e, também, com o
surgimento da fiação e da tecelagem, que substitui as vestimentas de couro por
tecidos de fibras vegetais e animais e enriquece a tralha doméstica com uma
multiplicidade de utensílios.
Essas
atividades artesanais recairão principalmente sobre as mulheres, tomando mais
penosa sua rotina, que se vira aliviada com a substituição da coleta de frutos
e tubérculos silvestres pela produção dos roçados. Ao homem incumbe, agora,
menos que caçar e pescar, preparar a terra para a lavoura e cuidar dos animais
domesticados.
Essa
nova tecnologia agrícola e artesanal não supõe, ainda, o surgimento de
especialistas de tempo integral e, por essa via, a estratificação da sociedade
em classes econômicas. Todos se dedicam à produção de alimentos e apenas
conhecem formas elementares de troca de produtos e serviços. Dentro de cada
comunidade local, os novos membros alcançam direitos iguais aos de todos os
outros, pelo mesmo processo através do qual aprendem a língua e se tomam
herdeiros do patrimônio cultural comum. A qualidade de membro do grupo é que
os faz usuários do domínio coletivo sobre a terra e o rebanho e
co-participantes do esforço coletivo de provimento das condições de sobrevivência
e de crescimento de sua sociedade. Cada indivíduo sabe fazer o mesmo que
qualquer outro; dedica-se a tarefas idênticas - exceto os papéis já
diversificados de chefes e sacerdotes -, convivendo em um pequeno mundo social
em que todos os adultos se conhecem e se tratam pessoal e igualitariamente.
2.
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA URBANA
(Egito,
Mesopotâmia:4.000 AC; Índia:2.800 AC; Palestina: 1.000 AC; Atenas: 600 AC; Rússia:1.000
AC)
Com
o desenvolvimento da Revolução Agrícola, algumas sociedades foram acumulando
inovações tecnológicas que ampliaram progressivamente a eficácia produtiva
do trabalho humano, provocando alterações institucionais nos modos de relação
entre os homens para a produção e nas formas de distribuição dos produtos do
trabalho.
Essas
sociedades aumentaram o número de plantas cultivadas, aprimoraram as qualidades
genéticas destas e revolucionaram suas técnicas agrícolas com a adoção de métodos
de trabalho e de instrumental mais eficazes para o preparo do solo destinado às
lavouras, transporte e estocagem das safras. Algumas sociedades de economia
pastoril ou mista também alcançaram os mesmos resultados mediante a seleção
genética dos rebanhos e a especialização do criatório para obter animais de
montaria e de tração ou para o provimento de carne, de leite e de lã.
As
inovações mais importantes da Revolução Urbana consistem, porém, na
descoberta das técnicas ainda incipientes de irrigação e de adubagem do solo
que, controlando os dois fatores essenciais da produtividade agrícola,
asseguram colheitas cada vez mais fartas. Outras inovações fundamentais foram:
a generalização do uso do arado e de veículos de roda, ambos de tração
animal, bem como de barcos à vela capacitados para a navegação costeira.
Com
base em diferentes combinações dessa tecnologia diversos povos revolucionam
sua capacidade de produção de alimentos, ensejando o advento das primeiras
cidades e, nelas, de novas técnicas de fabrico de tijolos e ladrilhos, a arte
da vidraria, a metalurgia do cobre e do bronze, os silos, a escrituração
ideográfica, a numeração, o calendário e, por fim, a arquitetura monumental.
As
sociedades vanguardeiras dessa revolução tecnológica, ampliando a capacidade
de produção de cada lavrador, passaram a contar com excedentes de alimentos
que permitiram desligar um número cada vez maior de pessoas das atividades de
subsistência. Ensejou-se, desse modo, o surgimento de formas mais complexas de
divisão social do trabalho através da especialização artesanal e do comércio,
tanto interno como externo, entre lavradores e pastores.
Dentro
de algumas dessas sociedades de tecnologia avançada, os prisioneiros de guerra
já não são sacrificados nos cerimoniais de antropofagia ritual, mas apresados
como trabalhadores cativos, surgindo, desse modo, o escravismo. A presença de
escravos tomados a outros povos e despersonalizados para serem possuídos como
instrumentos de produção afeta profundamente todo o modo de vida dessas
sociedades, que deixam de ser igualitárias, ao mesmo tempo em que se
transformam em comunidades multiétnicas caracterizadas pela polarização de
escravos em contraposição a senhores e em competição com os trabalhadores
livres.
Surgem
as classes sociais, diferenciando os produtores das camadas parasitárias de
apropriadores dos excedentes produzidos. Estas se concentram, de preferência,
nas vilas que começam a configurar-se como cidades, atuando como exatores de
impostos ou como intermediários entre os setores já diferenciados de
lavradores e pastores ou entre todos eles e os artesãos. Também estes, à
medida que se especializam no fabrico de instrumentos de trabalho, de objetos de
uso comum e de bens supérfluos, tendem a abandonar as atividades de subsistência
alimentar e, por isso, a se concentrarem nas cidades nascentes.
Em
algumas sociedades, a propriedade individual de bens, circunscrita
originariamente aos produtos do trabalho de cada indivíduo ou de cada família,
se estende, progressivamente, com o aumento da capacidade produtiva, até
fazer-se o principal sistema de ordenação da vida social. Acaba por abranger
os próprios agentes da produção os animais de tração, os trabalhadores
escravizados e, finalmente, a condição básica da produção agrícola, que é
a terra.
Em
outras sociedades, preservam-se as formas coletivas de propriedade, geralmente
em associação com o desenvolvimento de técnicas novas, como o regadio, e a
criação de instituições extrafamiliares reguladoras das atividades
produtivas e de integração do artesanato com a agricultura em comunidades
auto-suficientes. Nesses casos, a estrutura social pode evoluir para formas mais
altas de comunitarismo.
Com
base nessa diferenciação configuram-se dois modelos de sociedades: as regidas
por princípios coletivistas, fundados na propriedade coletiva ou estatal da
terra e em procedimentos não escravistas e as regidas por princípios
privatistas, principalmente a propriedade privada e a escravização da força
de trabalho. Essas linhas diferenciadoras devem ser classificadas como dois
processos civilizatórios: estados rurais artesanais de modelo coletivista e
estados rurais artesanais de modelo privatista.Com o alargamento das camadas
servis e dos estratos correspondentes de amos liberados da obrigação de
trabalhar, surge um modo peculiar de vida, sustentado por novos valores, não
mais assentados na virilidade ou na operosidade, mas na riqueza ou no poder. Aos
poucos, esses novos estratos se configuram como uma camada senhorial tendente a
exercer domínio não apenas sobre seus escravos, mas sobre a sociedade inteira,
a fim de preservar e ampliar sua condição privilegiada.
Um
dos desafios principais com que se defrontaram essas primeiras sociedades
estratificadas consistiu na necessidade de desenvolver princípios integradores
capazes de dar unidade social e coesão moral a suas populações divididas em
estratos sociais profundamente diferenciados e contrapostos, a fim de torná-las
entidades políticas unificadas e operativas. A fonte básica dessa coesão foi
encontrada nas velhas tradições religiosas, que para isso tiveram de ser
redefinidas. a fim de resignar o pobre com sua pobreza e também com a riqueza
dos ricos, a todos permitindo viver e interagir e encontrar gosto e significação
para suas existências tão contrastantes.
Os
especialistas no trato com o sobrenatural, cuja importância social vinha
crescendo, tornam-se, agora, dominadores. Constituem não apenas os corpos
eruditos que explicam o destino humano, mas também os técnicos que orientam o
trabalho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes atividades
agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo o saber tradicional,
ajustando-o às novas necessidades, mas tentando fixá-la para todos os tempos.
Esse caráter conservador era inarredável à sua posição de guardiões de
verdades reveladas, cuja autoridade e cujo poder não se encontravam neles, mas
nas divindades a que eram atribuídas.
Os
xamãs convertem-se, assim, em sacerdotes e, para atender às novas funções,
organizam-se em corpos burocráticos e institucionalizam em igrejas a antiga
religiosidade co-participada. Estas se tornam, em seguida, as principais agências
de ordenação da sociedade a partir de centros cerimoniais construídos com
crescente magnificência.
Os
dois modelos básicos de estados rurais artesanais configuram-se com o
surgimento de unidades políticas supra-comunitárias, como centros de poder
instalados em cidades que dominam populações rurais muito maiores que elas (80
a 90% da população total). Estas têm sua vida disciplinada por uma tradição
milenar e não experimentam as alterações radicais que se desencadearam sobre
as populações citadinas. Nelas, as unidades familiais e a solidariedade
fundada no parentesco continuam representando o papel de princípios ordenadores
da vida social; a existência permanece rotineira, marcada apenas pelo suceder
das estações, cada uma das quais as obriga a reiterar as mesmas atividades.
Homens e mulheres trabalham, sucessivamente, na lavoura, na criação de animais
domésticos e nas indústrias caseiras de fabricação de artefatos. Há pouca
margem para a especialização, já que todos conhecem as técnicas produtivas básicas,
não obstante atribuídas segundo linhas de sexo e de idade. Tampouco há lugar
para a competição aberta ou para o espírito aventureiro e renovador. O que
prevalece é antes um profundo sentimento de que a vida é sempre igual, de que
a tradição contém todo o saber, de que os bens terrenos são limitados. Ante
as populações das cidades, desenvolvem um arraigado sentimento de aversão,
fundado na idéia de que os citadinos são incapazes de dedicar-se a um trabalho
verdadeiro, vivem da exploração dos camponeses e são os culpados das desgraças
desencadeadas sobre o mundo rural, como as guerras e as pestes. Nas cidades
nascentes começa um estilo de vida voltado para o futuro, pleno de elã
expansionista e de ambição, informado por um saber explícito que, conquanto
deificador da tradição, permite o cultivo de certo espírito de indagação.
Uma mobilidade social maior estimula a competição pelo controle das fontes de
riqueza, de poder e prestígio, entendidas todas elas de modo mais objetivo e
enfrentadas de forma prática e combativa.
Como
se vê, a Revolução Urbana não apenas aprofundou as diferenças entre os
modos de vida agrícola e pastoril, mas também os contrapôs um ao outro, da
maneira mais drástica.
O
exercício das funções de poder instituidor e mantenedor da ordem social
interna e de poder promotor do expansionismo étnico conduz o Estado a ampliar
incessantemente seus serviços administrativos, de controle social, de repressão
e de guerra. Para custeá-los, introduz tributos que consomem parcelas cada vez
maiores da produção, ao mesmo tempo em que absorve massas crescentes de
pessoas em atividades não produtivas, como a guerra, as edificações suntuárias
e a burocracia. Simultaneamente, o Estado passa a assumir novas funções, antes
exercidas por outros órgãos. A justiça deixa de ser matéria privativa da família
ou do clã para se tomar atribuição de especialistas. A tranqüilidade social
se torna, por igual, objeto das polícias estatais. Por fim, a atividade
guerreira, outrora obrigação de todos os homens, passa a ser cumprida por
chefes especializados e tropas permanentes mobilizáveis não só contra
inimigos externos, mas, também, contra as ameaças de sublevação das classes
subalternas.
Vemos,
assim, que os progressos da Revolução Urbana, embora potencialmente mais
libertários pela promessa de fartura com que acenavam, representaram para a
maior parte das populações humanas a condenação à escravidão ou à
vassalagem, desconhecidas antes.
Nos
dez milênios em que vem atuando a Revolução Agrícola, e nos 6 mil anos que já
dura a Revolução Urbana, elas acabaram por afetar todos os povos. Mesmo os
grupos marginais que resistem, ainda hoje, à integração nos estilos de vida
por elas criados, sofreram profundamente seus efeitos reflexos.
3.
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO REGADIO
A
Revolução do Regadio, que provê as bases tecnológicas dos impérios teocráticos
de regadio, que surgem primeiro na Mesopotâmia, com os impérios Acádio (2350
a. C.) e Babilônico (1800 a. C.); no Egito, na Índia, na China, na Indochina.
Mais tarde, estruturam-se nas Américas com os maias (300 E. C.) e, finalmente,
com os incas e os astecas, que o conquistador espanhol ainda encontrou pujantes
e rapidamente esmagou. O Japão emerge também para a civilização no corpo de
uma formação teocrática de regadio, inspirada no modelo chinês.
Seus
requisitos tecnológicos. institucional e ideológicos, que se vinham
acumulando, havia muito, nos estados rurais artesanais de modelo coletivista.
configuram-se plenamente como civilizações baseadas na agricultura de regadio,
através de complexos sistemas de comportas e canais, regidos por centros
urbanos que, a seguir, se tornariam metropolitanos, como cabeças de extensas
redes de cidades.
Algumas
dessas civilizações brotaram da gestação de descobrimentos técnicos e
institucionais desenvolvidos depois da sedentarização das comunidades agrícolas
e de sua estruturação em sociedades estratificadas. Dentre eles tiveram papel
decisivo os sistemas de engenharia hidráulica. que abriram novos horizontes à
agricultura irrigada e adubada, dirigidos por governos centralizados, que
propiciaram um prodigioso acréscimo da produtividade das áreas cultivadas, com
o aumento correspondente dos excedentes alimentares. Essas disponibilidades não
somente ensejaram novos ascensos demográficos, mas permitiram a manutenção de
grandes massas desobrigadas das atividades de subsistência, aliciáveis para
outras tarefas, que variavam desde a construção de grandes obras hidráulicas
necessárias à irrigação em alta escala até a edificação de obras faraônicas
e as guerras de conquista. Suas contribuições tecnológicas fundamentais, além
da engenharia hidráulica, em que se assentava a agricultura de regadio em alta
escala, foram a generalização da metalurgia do cobre e do bronze e a cerâmica,
a invenção dos azulejos, de novas técnicas e novos materiais de construção,
de novos procedimentos baseados na polia, na prensa e nos cabrestantes e, ainda,
o desenvolvimento da escrita ideográfica e da notação numérica. Essas invenções,
em combinação com outros elementos, conduziriam algumas sociedades humanas a
avanços revolucionários, na linha da aceleração evolutiva, e, em outras,
provocariam as mais profundas alterações reflexas, por via da atualização
histórica.
O
provimento das matérias-primas, sobretudo minérios, tornadas indispensáveis,
levou os impérios teocráticos de regadio a melhorar as técnicas de transporte
por terra e por mar e impôs vínculos externos, em que se combinavam e
alternavam a guerra e o comércio. As manufaturas instaladas no campo e nas
cidades se padronizaram e, em alguns casos, se orientaram para a produção
mercantil. Onde a metalurgia se difundiu mais amplamente, a guerra passou a
fazer-se com armas de metal e com carros de rodas reforçadas. O comércio,
exigindo formas mais elevadas de troca, ensejou o surgimento, em certas áreas,
da moeda metálica.
IMPÉRIOS
TEOCRÁTICOS DE REGADIO
(Théos
= deus; kratein = governar)
No
plano sócio-político, essa nova formação caracterizou-se pelo poderio alcançado
pela organização estatal, grandemente centralizada e poderosamente integradora
de todas as forças de compulsão social, o que não ensejava qualquer oposição
de interesses que lhe fosse inibitória. Tal concentração de forças foi
atingida pela unificação, dentro de uma mesma entidade, dos controles políticos
e militares, bem como da capacidade reguladora e integradora da religião, e,
ainda, pela monopolização das atividades produtivas e comerciais. Por esse
motivo, em tais formações não surgem igrejas independentes, nem empresariados
privatistas que se oponham ao poder central. Ao contrário, todos se unificam
nele, cada qual contribuindo com elementos de integração e fortalecimento do
seu domínio.
Armados
desse poder monolítico, os impérios teocráticos de regadio se capacitam a
alargar as bases de sua economia interna através da ampliação portentosa dos
sistemas de irrigação e de defesa contra inundações e da construção de
enormes obras hidráulicas, a fomentar o crescimento das cidades através de
programas de urbanização e da construção de aquedutos, diques e portos e,
ainda, a edificar gigantescos templos, palácios e sepulcros, bem como amplíssimas
redes de caminhos, monumentais muralhas defensivas e enormes canais de navegação.
A
base econômica dessas estruturas imperiais era a apropriação das terras
cultiváveis pelo Estado teocrático e o desenvolvimento de complexos sistemas
administrativos de controle da força de trabalho.
A
primeira condição foi alcançada mediante a atribuição ao faraó, ao inca ou
seu equivalente, enquanto divindade viva, da propriedade nominal de todas as
terras. Isso permitiria intervir na rotina de trabalho dos camponeses e regular
a sucessão hereditária, de modo a fomentar a produtividade e criar
procedimentos regulares de apropriação, depósito e distribuição dos
excedentes. Dentro desse sistema, as terras de cultivo permaneceram entregues em
usufruto às comunidades locais, sem a intermediação de proprietários
individuais. Mas se conseguiu romper com a auto-suficiência das aldeias
camponesas e transformá-las em parcelas ativas de um sistema econômico global.
A
segunda condição foi preenchida com a criação de formas complexas de
controle da totalidade da força de trabalho e de sua direção na realização
de grandes obras através de um vasto corpo sacerdotal, tendente a estruturar-se
como uma burocracia gerencial. A envergadura dos empreendimentos estatais e a
complexidade técnica dos mesmos obrigaram esse corpo burocrático a
especializar-se e, em certa medida, a secularizar-se, de modo a capacitar o
pessoal necessário ao planejamento e à direção das obras de engenharia hidráulica,
rodoviária e construtiva, à implantação de sistemas uniformes de pesos e
medidas, de tributação, de medição e alocação de terras de cultivo, de
recolhimento de excedentes de alimentos e sua distribuição, à criação de
procedimentos contábeis de registro de bens e de sistemas de constrição e
capatazia da mão-de-obra, ao exercício monopolístico do comércio exterior
para o suprimento de certas matérias-primas, como minérios, madeiras e sal, além
da implantação de instituições educacionais de transmissão formal do saber
tradicional e também do técnico-científico.
Esse
desenvolvimento organizacional fez crescer, ao lado da nobreza hereditária e
dos corpos sacerdotais que originalmente se haviam incumbido dessas tarefas, um
vasto corpo de servidores do Estado. Seu recrutamento, que de início devia
proceder-se pela seleção de talentos, tendeu, depois, a circunscrever-se ao
mesmo círculo social, em virtude da atuação de dois fatores: primeiro, a
necessidade imperativa de capacitação dos corpos técnico-burocráticos através
da educação formal; segundo, os impulsos de defesa dos privilégios e direitos
adquiridos por parte das camadas dominantes. A burocracia foi-se fazendo, assim,
uma casta, pela sucessão dos filhos aos pais nos mesmos postos, mediante o
adestramento seletivo e a crescente vinculação com a nobreza e com o clero,
bem como pela oposição de interesses entre todos esses estratos e o conjunto
da população.
Um
outro elemento organizacional dos impérios teocráticos de regadio foi a
profissionalização de uma camada guerreira tornada indispensável para
compensar a debilidade combativa das populações agrícolas sedentarizadas e,
sobretudo, a vulnerabilidade dos sistemas de irrigação em face de ataques
externos.
Nos
impérios teocráticos de regadio, o camponês, permanecendo, embora, jungido à
terra e obrigado a sofrer a extorsão dos excedentes que produzia, só
encontrava acima dele, como estrutura dominante, a própria comunidade solidária
dentro da qual vivia, e, num segundo plano, a burocracia real, representada por
agentes apropriadores dos excedentes de produção, através da cobrança de
tributos ou formas similares de captação de bens e de imposição de serviços
forçados. Entretanto, mesmo essas formas de apropriação e de constrição
encontravam certa justificativa social, porque não se destinavam ao
enriquecimento de um senhor, mas, em grande parte, ao custeio de serviços públicos
fundamentais, a cargo do poder central, como a construção e manutenção dos
enormes sistemas de irrigação, de barragens e canais, da rede de transportes,
da produção de instrumentos de trabalho, do comércio de matérias-primas e da
guerra.
Mesmo
quando aliciados para a edificação de obras faraônicas, como os templos e as
pirâmides, o camponês e o artesão estavam contribuindo para o culto a
valores, crenças e glórias que também para eles tinham sentido. Os próprios
cativos trazidos de terras longínquas para trabalhar nessas obras podiam viver
juntos, criar seus filhos e preservar a língua e os costumes que fossem compatíveis
com a nova vida. O cativeiro dos judeus no Egito mostra-nos que essas massas
avassaladas não se inseriam no sistema como propriedade de senhorios
individuais, mas como povos vencidos e subjugados a um poder estatal que poderia
libertá-los amanhã ou fixá-los em novas terras e assim integrá-los
etnicamente como parte do campesinato e dos corpos de artesãos e soldados da
macroetnia imperial. Todavia, a situação dos cativos concentrados nas minas e
nas edificações ciclópicas, ainda que distinta do escravismo individual, era
a da sujeição mais despótica.
O
aliciamento dessas grandes massas humanas para o trabalho produtivo deve ter
sido facilitado pelo próprio caráter do Estado-Igreja, polarizado em tomo de
reis-divindades que outorgavam ao clero uma soma extraordinária de funções
sociais, políticas e econômicas e atuavam em nome dos valores mais
transcendentes. Com base na autoridade de porta-vozes de uma regência sagrada,
os sacerdotes podiam compelir as massas trabalhadoras a produzir excedentes, ao
pagamento de tributos e ao provimento de mão-de-obra para grandes
empreendimentos públicos, com maior eficácia do que qualquer outro setor da
sociedade.
Um
exemplo do desenvolvimento extremo dessa atribuição aliciadora e coordenadora
dão-nos os templos egípcios. Um deles, ao tempo de Ramsés III (1198-67 a.C.),
atuou como uma vastíssima empresa financiadora e administradora de um enorme
patrimônio produtivo. Contava com 750 mil acres de terras cultiváveis, 107 mil
cativos engajados no trabalho, 500 mil cabeças de gado e uma frota de 88
navios, além de 53 fábricas e estaleiros. A esse papel econômico dentro do
sistema egípcio, a Igreja acrescia outras funções gerais, como as de
reguladora da vida social através de corpos de normas que atingiam todo indivíduo.
Ela é que prescrevia e celebrava os ritos que marcavam sua existência, do
nascimento à morte e para além dela, e que compunha e executava o calendário
de atividades religiosas e produtivas. Era ainda ela que dirigia as instituições
educativas que preparavam seu próprio corpo sacerdotal e os quadros superiores
dos outros estratos dominantes. Somando a seu poderio econômico e às suas funções
reguladoras o seu caráter de intermediária entre o mundo dos vivos e as forças
sobrenaturais, a Igreja alcançava um extraordinário poder de compulsão e de
disciplinamento. Fundida com o Estado, formava uma entidade política monolítica
e todo-poderosa.
O
aspecto mais negativo dessa forma de ordenação da sociedade era o seu custo,
representado pela manutenção do corpo sacerdotal parasitário, a edificação
de templos e, sobretudo, das tumbas reais, que absorviam a parcela maior do
excedente produzido pela sociedade inteira. Avalia-se que a edificação da pirâmide
de Quéops tenha ocupado 100 mil trabalhadores durante cerca de vinte anos. Sua
alimentação e vestimenta, mesmo no padrão mais baixo, ao nível do
desenvolvimento tecnológico egípcio. devem ter absorvido a capacidade de produção
de excedentes de cerca de 3 milhões de camponeses.
Nessas
grandes metrópoles cosmopolitas. as camadas diferenciadas de intelectuais -
quase sempre sacerdotes - acrescentam à cultura societária, já bipartida num
patrimônio rural e outro citadino, um conteúdo novo, de caráter erudito, mais
especulativo e já capaz de desenvolver um corpo de conhecimentos explícitos
distinto do saber vulgar, transmitido oralmente entre a população comum. Por
seus esforços desenvolveram-se a escrita, as matemáticas, a astronomia, bem
como, pela fusão do saber erudito com as técnicas correntes de produção, a
arquitetura monumental, o aprimoramento da metalurgia do cobre e do bronze e,
mais tarde, do ferro. Os artefatos de metal, que já eram um progresso em si -
espadas, pontas de arado, ferragens de rodas e eixos -, passando a ser
utilizados como ferramentas, possibilitam a fabricação de todo um complexo de
bens materiais, como as pirâmides, os templos, os palácios, as casas, os
barcos, os moinhos etc.
Duas
tendências dissociativas manifestam-se, porém, nessas formações. Primeiro, o
custo econômico da vasta camada parasitária, tendente a ampliar-se e a
enriquecer pela acumulação de regalias, na forma de concessões de terras e de
trabalhadores para exploração privada ou de atribuição a indivíduos do
monopólio de certas atividades econômicas, sobretudo as comerciais, e, ainda,
o crescimento dos gastos suntuários nos atos de fé, como a construção de
templos e pirâmides. Segundo, o desenvolvimento do militarismo, que fortaleceu
um componente societário capaz de impor sua hegemonia sobre os demais e tendeu
a deformar o sistema econômico pela expansão do poderio imperial sobre áreas
não exploráveis pela tecnologia do regadio, mas cuja posse era cobiçada pela
existência de minérios ou para provimento de mão-de-obra cativa ou de
tributos.
Assim
é que, uma vez atingido certo nível de desenvolvimento e de exploração do
seu contexto, essas formações monolíticas caíam todas em regressões
feudais. Para tanto contribuíram ainda vários outros fatores, como o
esgotamento das potencialidades da tecnologia de regadio sobre terras
superexploradas, o desestímulo de empreender inovações técnicas em virtude
da disponibilidade quase ilimitada de mão-de-obra e a carência de inquietações
intelectuais ou o seu cerceamento pelo peso das tradições religiosas
estatizadas, que faziam da intelectualidade um corpo de guardiões do saber
sacramentado, só muito raramente capaz de criatividade.
4.
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA METALÚRGICA
A
expansão dos impérios teocráticos de regadio se viu restringida por uma
limitação essencial: a inviabilidade de generalizar a irrigação sobre as áreas
conquistadas, em virtude das exigências ecológicas que lhe são inerentes.
Entretanto, a tecnologia desenvolvida pelos impérios teocráticos de regadio,
uma vez aprimorada e aplicada a sistemas produtivos novos, pôde florescer e
expandir-se amplamente, atingindo extensas áreas e revolucionando o modo de
vida de inúmeros povos. Foi uma nova revolução tecnológica, a Metalúrgica,
responsável pela configuração de uma nova formação sócio-cultural: os impérios
mercantis escravistas.Sua base tecnológica consistiu, essencialmente, na
generalização e no aprimoramento da metalurgia, do ferro forjado para a
fabricação de ferramentas, armas, machados, pontas de arado, rodas e eixos e
partes metálicas de embarcações, e ainda da moeda cunhada, dos carros de
transporte e de guerra, dos barcos mercantes e de guerra. do alfabeto fonético
e da numeração decimal. A esses elementos. tomados de outras formações e
transfigurados pela nova, ele acrescentou máquinas hidráulicas, moinhos
movidos à água, o aqueduto, a nora, a mó rotativa, cabrestantes e gruas, bem
como os faróis marítimos.
OS
IMPÉRIOS MERCANTIS ESCRAVISTAS
Os
impérios mercantis escravistas, como desenvolvimentos dos estados rurais
artesanais de modelo privatista, caracterizam-se pela institucionalização da
propriedade individual da terra, pelo incentivo à liberdade de comércio e pela
mais ampla generalização do apresamento de prisioneiros de guerra para convertê-los
em escravos pertencentes a senhorios individuais. São modelos característicos
dessa formação. em sua maturidade, a civilização assíria (séculos XII a
VII a. C.), a helênica (séculos V a I a. C.), a cartaginesa (séculos VII a II
a. C.), a romana (séculos I a.C. a IV de nossa era) e a bizantina (séculos VI
a X de nossa era). Todas essas civilizações são, porém, variantes de uma
mesma formação sócio-cultural, fundada na escravidão da maior parte da mão-de-obra
e no fomento do colonialismo mercantil.
.
Com a técnica do ferro forjado, que se podia produzir em qualquer parte pela
ampla distribuição do minério e a simplicidade do processo produtivo,
generalizam-se os instrumentos de metal. Torna-se com isso possível abater as
florestas para abrir extensas áreas de cultivo dependentes das chuvas, menos
produtivas por unidade-área do que a agricultura de regadio, mas passíveis de
expandir-se por amplíssimas regiões. Os mesmos efeitos foram alcançados no
aprimoramento dos veleiros marítimos e dos carros de transporte e de guerra. A
escrita fonética, facilitando a alfabetização, permitiu recrutar uma
intelectualidade numerosa e independente do sacerdócio, ensejando a ampliação
de todos os conhecimentos. A moeda cunhada, dando lugar à economia do dinheiro,
alargou extraordinariamente os horizontes do comércio externo. Todos esses
desenvolvimentos associados criaram um tipo de sociedade mais livre, que
estimulava façanhas individuais, ensejando, aos tipos empreendedores, amplas
oportunidades de enriquecimento.
O
principal incentivador desse processo foi a economia mercantil que, por terra e
por mar, vinculava centenas de comunidades, levando a cada uma delas as necessárias
transformações internas para saltar da produção de subsistência para a
produção de artigos de troca. Nas principais cidades de cada império
mercantil escravista multiplicam-se as manufaturas organizadas como ergasterions,
serrarias, carpintarias e marcenarias; estaleiros, metalúrgicas e caldeirarias;
olarias e cerâmicas; vidrarias, curtumes, e oficinas de ourives, seleiros,
correeiros, sapateiros, onde dezenas e até centenas de artesãos, na sua
maioria escravos, produziam artigos padronizados para comércio.Expressões
superiores dessa formação seriam alcançadas com a civilização grega, a
expansão colonialista cartaginesa e, sobretudo, o Império Romano. Estas últimas,
começando pela ampliação e multiplicação de cidades-estados regidas por
patronatos de comerciantes, proprietários de terras agrícolas e de escravos,
acabaram por estruturar-se em vastos sistemas unificados pela guerra e
integrados pelo comércio. Após largos períodos de amadurecimento como cidades
dominadoras dos territórios rurais circunvizinhos, fundadas na igualdade de sua
camada patrícia, todas elas se entregaram ativamente à fundação de colônias
externas, na Europa e na África. Aí concentraram mão-de-obra escrava apresada
na guerra, instaurando os primeiros ergasterions e plantations destinados a
produzir alimentos e manufaturas para exportação. Configurou-se, assim, um
mercado internacional ativado por uma economia monetária e uma cultura erudita
que se desenvolveram simultaneamente em várias cidades. O passo seguinte foi a
disputa entre essas cidades-estados por áreas externas de dominação, que
abriu o caminho para a constituição dos impérios mercantis escravistas.
O
caráter mercantil escravista do novo sistema econômico, conduzindo a uma
radicalização das formas de ordenação social, levou ao extremo as guerras de
conquista e apresamento de escravos para prover mão-de-obra, bem como a competição
interna pelo enriquecimento, estimulada pela economia de dinheiro. Em Atenas e
em Roma, as massas de escravos alcançaram quatro quintas partes da população,
e concentrações e percentagens ainda maiores nas colônias externas, distribuídas
por todo o contorno europeu e africano do Mediterrâneo (G. Childe, 1946; K.
Marx, 1966).
A
racionalização dos procedimentos econômicos alcança, também,
desenvolvimentos assimiláveis, liquidando com as sobrevivências das formas
comunais de propriedade (ager publicus) e com as últimas instituições
reguladoras fundadas no parentesco. Este, de classificatório - que designava os
parentes colaterais e lineares com os mesmos nomes, formando grandes categorias
de pessoas solidárias -, transforma-se em descritivo, que distingue com termos
especiais os parentes lineares, restringindo a este o âmbito da solidariedade
familiar e da herança. Mais tarde, dão-se novos passos nesse caminho de
racionalização da conduta, através da secularização de uma série de
setores antes regidos por critérios religiosos e da individualização das relações
sociais. Institucionaliza-se a usura, cria-se a hipoteca sobre a terra e com ela
a escravização por dívida; legaliza-se o regime de herança de bens através
de testamento. Por fim, o empresariado se toma hegemônico em todos os setores,
colocando os poderes do Estado a seu serviço.
A
minoria rica torna-se cada vez mais poderosa, e as massas subalternas, livres ou
escravas, cada vez mais miseráveis, agravando as tensões sociais até limites
extremos. Legaliza-se o direito de o cidadão vender-se a si próprio e aos
filhos, o que vem a ocorrer com certa freqüência nos períodos de penúria;
generaliza-se a prática de submeter os devedores à servidão temporária e até
mesmo a do apresamento de cidadãos da mesma etnia, nas guerras entre cidades,
para fazê-los servir como escravos. Simultaneamente, escravos libertos,
enriquecidos no comércio especulativo, se fazem senhores, estabelecendo como
critério de qualificação social, acima da condição de plebeus ou de cidadãos,
a condição de ricos e pobres. A cidadania, que fora uma função pública
geral que fazia de todos os patrícios co-governadores de sua cidade, responsáveis
pela justa condução da vida social e política, se dilui, tornando-se uma
condição generalizada e irresponsável. A cidadania romana, antes limitada aos
descendentes das antigas linhagens, generaliza-se a toda a camada não servil.
Nessas novas condições, intensificam-se as tensões sociais e as disputas
entre cidades-estados que se haviam aglutinado em impérios, até que o último
deles, superestendido a ponto de cobrir todas as terras conhecidas, esgota as
potencialidades do sistema.
Na
derrocada dos impérios mercantis escravistas tiveram papel detonador da maior
importância certas chefias pastoris nômades, parcialmente herdeiras da Revolução
Urbana, que, em virtude de condições especiais - ecológicas e culturais -, se
fizeram produtoras e consumidoras de instrumental metálico sem se fazerem
agricultores sedentários. Nessas condições não perderam suas antigas
qualidades guerreiras; pelo contrário, ativaram-nas até níveis extremos de
audácia e combatividade.
Esses
povos extra-imperiais, etnicamente coesos em torno de suas chefias, e
irresistivelmente atraídos pelas riquezas acumuladas pelos povos cêntricos, é
que deram o golpe de misericórdia na velha formação mercantil escravista,
exausta de sua civilização, incapaz de novas crenças integradoras, com suas
massas dependentes de escravos e de camponeses livres rebelados contra a sujeição
despótica a que eram submetidos.
Aqui
também, a desvinculação entre as classes subalternas e os estratos dominantes
contribuiu para tomar a sociedade incapaz de defesa. Na Europa, toda a soberbia
romana desaba diante da audácia de um punhado de bárbaros que, somando menos
de meio milhão, assolaram, venceram e avassalaram 80 a 100 milhões de europeus
e africanos romanizados. Esses bárbaros, nada tendo a dar à civilização dos
povos que dominaram, porque sua vitória só se baseava em serem Herrenvölker,
acabaram por inserir-se no que restava da velha formação. Seus chefes se
fizeram as aristocracias e realezas das antigas províncias imperiais; seus
guerreiros transformaram-se em massas sedentarizadas de camponeses ou em novos
contingentes de artesãos citadinos. Muitos deles se romanizaram lingüisticamente
e todos se romanizaram culturalmente.
Os
antigos escravos se convertem em colonus, pagadores de foro pelo uso da terra e,
finalmente, confluem para constituir o campesinato feudal, transformados todos
em servos de senhorios locais ou em artesãos citadinos amparados por corporações.
Essa transição do escravismo à servidão opera-se menos como uma evolução
resultante da luta dos escravos contra seus senhores do que em virtude da
deterioração do sistema econômico anterior, em que os escravos representavam
papel fundamental como produtores de bens para o comércio. Na realidade,
troca-se o escravo, que já não produz mercadorias vendáveis e deve ser
alimentado e vestido, por servos atados à terra, que pagam tributos em bens ou
em trabalho e se mantêm a si mesmos. Acresce, ainda, que a escravaria,
desgastando-se rapidamente no trabalho, exige uma reposição constante através
de guerras de conquista, impraticáveis na economia fechada de senhorios
isolados.
Na
cúpula situa-se a nobreza de sangue dos descendentes de invasores bárbaros,
transformados em proprietários de feudos. Como seus servidores mais destacados
seguem-se o clero e os vassalos, de onde se recrutam os corpos de cavaleiros
senhoriais mais predispostos a prélios desportivos do que a guerras. Abaixo,
encontra-se a população urbana, de pequenos mercadores e artesãos, estes últimos
segmentados em mestres, oficiais e aprendizes, divididos por ofícios e
dedicados à produção para um comércio local de trocas. Na base da pirâmide
social situam-se os camponeses, presos à gleba, como servos ou dependentes O
sistema econômico passa a atuar para manter e reproduzir essa mesma composição
social, regida por um corpo de instituições destinadas a perpetuá-la.
Nesse
mundo feudal, agitado apenas por novas invasões, como as muçulmanas, por
guerras religiosas e por disputas entre nobres, acaba por implantar-se a paz da
estagnação. A velha civilização romana que nele se dissolvera transforma-se
numa mera tradição, tal como havia ocorrido antes com os impérios teocráticos
de regadio quando caíram, também, em regressão feudal. Sua única força
integradora será, de então por diante, uma religião herdada de um dos povos
do contexto imperial romano que, no esforço por explicar o drama de sua própria
dominação, redefiniria suas concepções tribais, fazendo-as mais inclusivas.
Assim,
um grupo minoritário, detentor de uma fé consoladora de suas aflições, que não
reconhecia privilégios étnicos nem graduações sociais, mas era capaz de
falar aos homens de uma destinação mais nobre que a mera existência, se faz
herdeiro do mundo greco-romano feudalizado, tal como outras minorias religiosas
os budistas, os confucionistas e os hinduístas - alcançam a mesma dominância
sobre diferentes contextos igualmente submersos no feudalismo.
A
Igreja Católica converte-se paulatinamente na grande monopolizadora da vida
econômica, organizada já não como um sistema mercantil, mas como um duplo
sistema de apropriação dos poucos excedentes gerados, mediante a cobrança de
dízimos e a obtenção de legados e doações, e a distribuição desses bens
na “política de misericórdia" e na edificação de catedrais que vieram
a ser, depois dos grandes castelos do feudalismo nascente, as únicas criações
arquitetônicas da Idade Média. Sua riqueza cresce sem cessar pela monopolização
das terras e dos rebanhos, pela ampliação das áreas de cultivo em poder das
terras e dos rebanhos, pela ampliação das áreas de cultivo em poder das
abadias, pela gerência das únicas obras capazes de proporcionar empregos e
pela rapacidade dos mosteiros e das ordens religiosas. Simultaneamente, vai-se
constituindo na grande força ordenadora da vida social, fundada agora não no
igualitarismo do cristianismo primitivo. mas numa rígida estamentação social
e no culto do conformismo, da disciplina e da obediência.
5.
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA PASTORIL
Com
o amadurecimento da Revolução Pastoril que, armando alguns povos até então
atrasados na história com uma nova tecnologia militar, lhes permite atacar áreas
feudalizadas de altas civilizações e resistir à assimilação pelo povo
conquistado, para configurar uma nova formação sócio-cultural: impérios despóticos
salvacionistasEsse novo processo civilizatório configura-se, originalmente,
como uma nova onda de expansão pastoril, fundada principalmente na aplicação
da tecnologia do ferro à cavalaria de guerra. Seus elementos mais assinaláveis
foram: a sela de montaria, dotada de estribos que deram maior segurança e
mobilidade aos ginetes; a ferradura, que prolongou a vida útil dos animais e
lhes permitiu enfrentar qualquer terreno; os freios de ferro, sob o comando de rédeas
que possibilitaram uma direção firme e segura.
A
essas inovações se acrescentaram mais tarde, no corpo das formações despóticas
salvacionistas, diversos aperfeiçoamentos no sistema de tração dos animais de
tiro, que multiplicaram sua força útil livrando-os da sufocação jugular dos
velhos colares. Um destes foi um sistema de fixação dos varais em selas e,
depois, a introdução do arnês rígido. Outras contribuições técnicas
difundidas no mesmo ciclo foram os alambiques e, sobretudo, os novos modelos de
moinhos eólicos e hidráulicos, aplicáveis à elevações de água, à moagem
de cereais e à prensagem de sementes oleaginosas, e mais tarde ao martelamento
de minérios e de metais, ao acionamento de serras e de foles, bem como a outros
dispositivos. Dentre esses progressos tiveram caráter crucial, na etapa
expansiva, os que revolucionaram a cavalaria de guerra e armaram os guerreiros
de espadas e lanças mais eficientes, e, na etapa de construção das novas
formações sócio-culturais, a propagação das novas formas de utilização da
energia muscular animal com atafonas e almanjarras aperfeiçoadas para as
tarefas de aração da terra e de transporte e de aplicação da energia dos
ventos e das correntes de água a serviço do homem.
As
primeiras dessas inovações tecnológicas exerceram um efeito vitalizador sobre
antigas chefias pastoris nômades que se estavam integrando na tecnologia do
ferro forjado, permitindo-lhes enfrentar os sistemas defensivos de sociedades
mais desenvolvidas. Atacam áreas feudalizadas para as dinamizar e integrar numa
formação totalmente distinta de todas as anteriores. Esses seriam os 1mpérios
despóticos salvacionistas, estruturados segundo princípios ordenadores novos,
em que representava um papel crucial um corpo de crenças religiosas de caráter
messiânico. Essas crenças passam a operar como forças aliciadoras de todas as
energias étnicas de suas populações para a destinação sagrada de impor ao
mundo a verdade divina de que eram depositários. A essa missão divinal
aliam-se, naturalmente. os interesses econômicos, em que importava sua
transformação em senhorios de um mundo reordenado de conformidade com a
palavra de seus profetas.
Aquela
tecnologia nova de cavalaria de guerra e esta armadura ideológica os
transformaria, de simples saqueadores da riqueza entesourada por outros povos ou
exploradores de sociedades rurais artesanais sedentarizadas, em guerreiros
invencíveis e em reformadores ensandecidos de fúria sagrada. Nessas circunstâncias,
o inimigo deixava de ser visto como o objeto de saque do guerreiro vitorioso
para ser tido como o ímpio, cuja só existência ofendia a Deus. Os povos
pastoris, dinamizados por esse novo processo civilizatório, lançam-se, assim,
sobre o mundo circundante, com todo o seu antigo vigor de guerreiros, que
adestravam seus cavalos e a si próprios para as façanhas mais ousadas,
robustecidos pela missão de salvadores, destinados a erradicar do mundo a
impiedade e a heresia.
OS
IMPÉRIOS DESPÓTICOS SALVACIONISTAS
A
primeira dessas expansões salvacionistas dinamizou um conjunto de povos irânicos,
transformando-os em instauradores de um vasto império que dominou por séculos
(III a VII D. C.) o Irã e a Mesopotâmia e se estendeu até a Índia e China.
Um
expansionismo salvacionista mais maduramente configurado se alçaria no século
VII com o islamismo, que mobilizou as energias dos povos pastoris da Arábia e
do Irã para lançá-los como os cruzados do maior movimento religioso de
conquista que a história registra. Sua inspiração básica era o velho espírito
de saque de terras e de bens das hordas pastoris, a que se somava, agora, um
sentido de destinação sagrada, formulado por Maomé. A doutrina maometana,
recolhida no Alcorão, sintetizava antigas tradições judaicas, helênicas e
iranianas, redefinindo-as como uma nova religião universalista, orientada mais
do que qualquer outra para o salvacionismo de conquista, como expansão da glória
divina.
O
islamismo se configura, assim, como um credo messiânico que põe mais empenho
na expansão do domínio de Alá sobre todos os povos e terras do mundo do que
no esforço missionário de converter almas para salvá-las da perdição. O próprio
paraíso é descrito bizarramente como o jardim de repouso do guerreiro divinal,
conseqüentemente, não desenvolve um Estado-Igreja assentado num corpo
sacerdotal profissionalizado. Estrutura-se pela fusão, numa mesma unidade, do
sistema político e do religioso, através da atribuição a cada homem válido
de uma destinação de cruzado subjugador de povos infiéis, de colonizador das
áreas conquistadas e de braço divinal impositor da submissão a Alá.
Esse
espírito de missão divina, armando de fúria sagrada os guerreiros árabes muçulmanos,
fez com que arremetessem em todas as direções como uma avalanche diante da
qual sucumbiram inúmeras sociedades feudalizadas. Infundiu-lhes também a
capacidade de resistir à amalgamação cultural em contextos mais evoluídos,
como ocorrera antes com os antigos invasores pastoris. E. sobretudo,
incutiu-lhes o vigor necessário para estruturar os povos conquistados em
imensos sistemas imperiais despóticos integrados numa nova ordem moral, fundada
na palavra do Profeta.
Em
poucas décadas, o domínio muçulmano se alastrou por quase todo o Oriente Médio
e daí para o Oeste, sobre o Norte da África, as ilhas mediterrâneas e a península
Ibérica, e para o Leste, sobre a Alta Ásia, sobre a Índia e, para além dela,
a Indonésia e a Indochina. Seu domínio se estenderia, mais tarde, por outras
áreas, penetrando profundamente, de um lado, na África Tropical, do outro, na
Eurásia e nos confins do Oriente. Essas últimas ondas seriam conduzidas por
povos islamizados, como os turco-mongólicos que, a certa altura, se colocam no
centro do expansionismo muçulmano como sua força mais dinâmica.
Através
de ondas sucessivas implanta-se o Islã (isto é, submissão incondicional - à
vontade de Alá) sobre uma área muito mais extensa que a de qualquer civilização
imperial anterior, com uma capacidade de permanência também muito maior e com
um poder de assimilação de povos e de aculturação compulsória jamais
atingido antes. Seu domínio sobre a Ibéria, como Califado de Córdoba, se
estendeu de 750 a 1350; sobre a Índia se prolongou por seis séculos. Mesmo
quando caem, posteriormente, em regressão feudal. deixam transfigurados os
povos que haviam dominado, tanto os do Oriente Próximo e do Norte da África
como os da África Tropical ou da Eurásia, modelando uma das mais vastas
configurações sócio-culturais modernas, que engloba mais de 900 milhões de
pessoas, maior fenômeno religioso mundial deste final de milênio.
Através
da construção de vastas estruturas de domínio imperial e de sujeição
religiosa, atuaram como agentes de um dos mais vigorosos processos civilizatórios,
cuja capacidade de atualização de povos atrasados na história para a
modernização tecnológica, social e ideológica só teria paralelo no curso da
Revolução Mercantil e da Revolução Industrial.
Seus
mecanismos essenciais de expansão e aculturação compulsória foram a
conquista, seguida da dominação mais despótica, a colonização escravista, a
doutrinação religiosa e a miscigenação racial. Atuaram, freqüentemente,
através da eliminação dos estratos dominantes das sociedades subjugadas e sua
substituição por uma nova camada de caráter burocrático. Esta era integrada
inicialmente por guerreiros, aos quais se atribuía o controle e exploração de
extensas áreas; mais tarde, por corpos de funcionários cuidadosamente
preparados para o exercício da dominação político-militar e das funções
administrativas de organização econômica e de arrecadação de rendas.
No
preparo dessa burocracia, apelaram largamente para sua experiência original de
pastores nômades, sistematizando as práticas de adestramento de animais para
aplicá-las a homens escravizados. Para tanto, capturavam crianças nas áreas
conquistadas, selecionando-as inicialmente pelo vigor físico, e as encaminhavam
para casas-criatórios, onde um meticuloso sistema de treinamento, de prêmios e
de punições explorava as potencialidades de cada peça. Através desse
procedimento, suscitavam o máximo de ambição e de espírito competitivo,
levando seu adestramento a níveis extremos (A. J. Toynbee).
Essa
forma despótica de preparação de quadros, assentada num recrutamento tão
ampliável quanto se desejasse e numa disciplina educativa inalcançada por
qualquer outro processo, permitia formar castas de funcionários e de guerreiros
de uma eficiência a toda prova. Se, por um lado, desumanizava e alienava seus
componentes, a alguns deles ensejava carreiras tão brilhantes que, entre as
populações dominadas, se desenvolveu antes uma competição pelo ingresso
nessas casas do que uma oposição ao sistema.
Por
esse processo obtinham-se escravos superespecializados para o exercício das funções
mais díspares, como eunucos - guardiões de haréns -, artesãos, conselheiros
políticos, sábios e altos funcionários capacitados a atuar como fiéis
exatores do seu sultão, que podiam chegar a exercer funções de grão-vizires.
As casas-criatórios produziam, porém, principalmente guerreiros
superadestrados, que se celebrizariam na história, fixando os conceitos de janízaros,
de sipaios e, sobretudo, de mamelucos. Estes podiam alcançar os mais altos níveis
de poder e de riqueza, mas permaneciam sempre presos ao seu estatuto de
escravos, como peças possuídas por seus senhores, que através deles exerciam
seu domínio.
Esses
corpos de agentes superespecializados da dominação islâmica permitiram manter
por séculos um poder de outra forma impraticável para simples guerreiros
ensandecidos de fúria sagrada. Após a conquista e o saque, cumpria organizar
as novas possessões, civilizar a gente, inclusive os seus próprios soldados e
os descendentes destes. Essa tarefa de organização, bem como a colonização e
introdução de novas técnicas produtivas, exigindo outras habilitações além
do elã combativo, impuseram a criação e o aperfeiçoamento de instituições
educacionais, a partir da tradição irânica das casas-criatórios.
Estas
experimentam, assim, um grande desenvolvimento, até se configurarem como um
procedimento generalizado de formação de quadros militares e administrativos.
Napoleão ainda encontraria o Egito dominado por uma casta mameluca que se
autoperpetuara após a queda do Império Otomano.
Novos
esforços de revitalização salvacionista tiveram lugar entre os séculos X e
XIII, com o movimento das cruzadas, que representou a primeira forma de expansão
européia Ocidental. Fora impulsionado, porém, mais pela ambição de Conquista
e enriquecimento dos senhores feudais franceses e da burguesia nascente das
cidades italianas do que pelo elã salvacionista. Assim, ao chamamento papal
para as cruzadas, não correspondeu um chihad - a guerra santa dos muçulmanos
-, mas tão-somente uma irrupção messiânica. Milhares de camponeses europeus
abandonaram os feudos e se puderam em marcha com suas mulheres e filhos rumo à
Terra Santa, desorganizados e inermes como um exército maltrapilho que se
mantinha da mendicância e da pilhagem. Só mais tarde as cruzadas se organizam
como empreendimento guerreiro mercantil mais disciplinado e eficaz. Mas então
seu motor fundamental já era a conquista de antigos domínios muçulmanos que
haviam entrado em feudalização. Despertos por esses ataques, os muçulmanos
reagiram, liquidando prontamente as colônias militares implantadas pelos
cruzados em todo o Oriente Próximo, encerrando-se, assim, o primeiro ciclo do
expansionismo salvacionista cristão europeu.
Em
todas as áreas de dominação dos impérios despóticos salvacionistas
implantou-se uma mesma ordenação básica. Suas linhas gerais foram, em
primeiro lugar, a prática da concessão do usufruto vitalício, mas não
transmissível, da terra aos vencedores das guerras de conquista, transformada,
mais tarde, em propriedade livremente alienável. Segundo, a concessão às
mesmas camadas das funções de exatores dos impostos imperiais sobre a terra e
as pessoas. Terceiro, a adoção do escravismo e da servidão, que vinculava o
camponês à gleba e fazia recair sobre ele uma taxação per capita. Quarto,
uma ativação do comércio externo livre, ainda que sujeitando os mercadores a
controles estatais e a confiscos. Quinto, o desenvolvimento de um artesanato
produtor de artigos de luxo e de armas de guerra, através da criação de
grandes manufaturas, freqüentemente estatizadas. Sexto, a instalação de
empresas monopolísticas oficiais mediante concessões Imperiais para explorar
certos ramos produtivos. Sétimo, a implantação de um vasto sistema cartorial
de recenseamento e controle da população das áreas dominadas e de arrecadação
de tributos.
6.
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA MERCANTIL
No
corpo dos impérios despóticos salvacionistas (Islamismo) se foi desenvolvendo
uma tecnologia produtiva e militar que alcançou o nível de uma nova revolução
tecnológica nos albores do século XVI, fazendo amadurecer duas novas formações
sócio-culturais: os impérios mercantis salvacionistas e o capitalismo
mercantil.
Tal
foi a Revolução Mercantil, fundada numa nova tecnologia da navegação oceânica,
baseada no aperfeiçoamento dos instrumentos de orientação (bússola magnética
montada em balancins, o quadrante, a balestilha, o astrolábio, cartas celestes
e portolanos, cronômetros e outros) e de navegação (as naus e caravelas, a
vela latina, o leme fixo, as carretilhas e os barcos de guerra). Baseava-se, por
igual, na descoberta de procedimentos mecânicos, como as bielas-manivelas, os
eixos-cardan etc., e numa nova metalurgia revolucionada com a descoberta de
processos industriais de fundição do ferro, de laminação do aço, de trefilação
de arames, de fusão de novas ligas metálicas e de produção de artefatos com
tornos de rosca e mandril e com máquinas de talandrar, afiar e polir metais.
Baseava-se, também, na renovação das artes de guerra com armas de fogo
aperfeiçoadas - canhões, morteiros, espingardas - que em terra permitiram
enfrentar a mobilidade das cavalarias armadas de arcos e lanças que haviam
prevalecido no último milênio e, no mar, criavam a artilharia naval.
Baseava-se, por igual, na generalização de outras técnicas, como modelos
aperfeiçoados de moinhos de vento de cabeça móvel e de rodas hidráulicas
horizontais impulsionadas pela força da gravidade, aplicáveis para acionar
foles siderúrgicos, marteletes, serras, afiadoras e outras máquinas.
Baseava-se, ainda, na instalação de fábricas de papel, de tipografias para a
impressão de livros com tipos móveis, bem como na produção de instrumentos
óticos. Algumas combinações dessas técnicas, como a do veleiro com canhões,
tiveram efeitos extraordinários, permitindo o domínio da terra a partir do
mar.
As
potencialidades da nova revolução tecnológica realizaram-se através de dois
processos civilizatórios: impérios mercantis salvacionistas, e capitalismo
mercantil. Ambos tiveram de peculiar, em relação a todos os anteriores, seu
caráter mundial, expresso tanto na sua projeção geográfica sobre a Terra
inteira quanto na sua capacidade de estancar o desenvolvimento paralelo de
outros processos civilizatórios.
Os
impérios mercantis salvacionistas surgem na passagem do século XV ao XVI, na
península Ibérica.
Avançada
sobre o Atlântico, lança-se à conquista e à subjugação de novos mundos no
além-mar. Portugal, que vinha explorando a costa africana desde o começo do século
XV, descobre sucessivamente o Cabo Verde e a Costa do Ouro, contorna o Cabo da
Boa Esperança e, afinal, estabelece a rota marítima para a Índia. Subjuga, a
seguir, a costa ocidental e parte da oriental da Índia e de Málaga. Ocupa Aden
e Ormuz, interceptando a antiga via das especiarias. Apodera-se do arquipélago
de Sonda, da Indochina e do Brasil. A Espanha, atingindo as Antilhas com as
expedições de Colombo, se expande, a partir daí, por todo o continente
americano e implanta, também, domínios coloniais e feitorias no Extremo
Oriente.
A
Ibéria, bastião ocidental do domínio islâmico, vinha intensificando as lutas
pela Reconquista desde o século XIV, mas só a completou no ano da descoberta
da América. Essa guerra de emancipação, extremamente destruidora, conduzida
sob a direção do papa e do rei, custou-lhe tantos sacrifícios que no seu
decorrer toda a sociedade se transfigurou para servir a esse propósito, tornado
obsessivo. As ordens religiosas se tomaram mais ricas e mais poderosas do que a
nobreza, e a Igreja Católica se fez herdeira de boa parte da terra
reconquistada aos infiéis. A Ibéria consegue do papa o titulo de domínio
exclusivo sobre todas as terras que se descubram para além de uma linha imaginária,
e a monarquia espanhola obtém os privilégios de erigir e dirigir a Santa
Inquisição através de sacerdotes intermediários, de cristianizar o gentio.
Assim
se estabeleceu uma estrutura de poder aristocrático-clerical que regeria, daí
por diante, os destinos dos povos ibéricos. Entretanto, com a vitória sobre os
núcleos islâmicos da Ibéria também se destrói o sistema agrário que haviam
implantado com base numa agricultura de regadio de alta tecnologia e que
permitira manter, por séculos, densas populações mesmo nas zonas mais áridas.
À medida que os novos senhorios aristocrático-clericais se apossavam das
antigas áreas intensamente cultivadas, transformavam-nas principalmente em
pastagens para a criação de ovelhas, fazendo com que a penúria sucedesse à
antiga fartura. Multidões de camponeses foram enxotados e reduzidos à mendicância,
e a própria população entrou a diminuir drasticamente, tanto no campo como
nas cidades. Nem todo o ouro saqueado da América. nos séculos seguintes, foi
suficiente para compensar esse retrocesso.
A
Ibéria, com um fanatismo religioso só comparável ao dos primeiros impulsos muçulmanos,
se lança, com igual furor, à erradicação das heresias do seio de suas próprias
populações, através da flagelação dos suspeitos de impiedade, das festas públicas
de cremação de hereges e da expulsão de centenas de milhares de mouros e
judeus.
Esse
êxodo, concebido pela classe dominante como uma extraordinária oportunidade de
enriquecimento pelo confisco e rateio dos bens de judeus e muçulmanos, resultou
também num retrocesso econômico da maior gravidade. Efetivamente, o que se
conseguiu foi erradicar da Ibéria, junto com as heresias, quase todos os
setores intermédios de artesãos, pequenos granjeiros e comerciantes, compostos
principalmente por "castas infiéis". A destruição desse estrato
social fez cair imediatamente o nível técnico das atividades agrícolas e
manufatureirãs, contribuindo decisivamente para tomar a Espanha e depois
Portugal inaptos para a Revolução Industrial.
Os
impérios coloniais ibero-americanos, estruturados como contraparte dessa formação
mercantil salvacionista, por via da atualização histórica, conformar-se-iam
nos moldes de um novo colonialismo escravista, inserido dentro de um sistema
econômico unificado e interativo.
Os
procedimentos fundamentais de dominação das colônias escravistas das Américas
foram: a erradicação da antiga classe dominante local, a concessão de terras
como propriedade latifundiária aos conquistadores, a adoção do escravismo e a
implantação de patriciados burocráticos, representantes do poder real, como
exatores de impostos. Nas áreas dos impérios teocráticos de regadio da
Meso-América e do Altiplano Andino, onde se concentravam grandes contingentes
de mão-de-obra, condicionados já à disciplina do trabalho, a escravização
se institucionaliza sob a forma de mita e de encomienda de serviços. Nessa
forma de conscrição, os índios eram entregues em usufruto à exploração
mais desumana. Justificava-se e disfarçava-se o sistema, porém, em nome do
zelo pela salvação eterna do gentio, pela atribuição da função de
catequistas aos encornenderos. Mais tarde, a encomienda progride para uma forma
de tributo pagável em dinheiro que os indígenas só podiam obter trabalhando
nas minas e nas terras, sob as mais penosas condições. Para que esse regime de
escravização, ainda mais opressivo e insidioso, pudesse funcionar, os caciques
foram transformados em aliciadores da força de trabalho válida das comunidades
indígenas para entregá-la à exploração dos encomenderos, como condição
para que os velhos sobreviventes e as crianças pudessem continuar nas aldeias.
Sob
esse sistema as populações dos antigos impérios teocráticos de regadio foram
tão drasticamente reduzidas que a depopulação das colônias chegou a
preocupar seriamente a Coroa. Temia-se, agora, o desastre econômico que poderia
representar a perda daquela escravaria barata, porque custara apenas o preço da
conquista, e aparentemente inesgotável, porque montara a milhões. Flagelada
pelas pestes com que o europeu a contaminou e desgastada sob o peso do trabalho,
a população indígena minguava em proporções tão alarmantes que ameaçava
desaparecer e era sucedida por uma nova casta de mestiços resistentes à
escravização, tendentes à rebeldia. Além de desgastada numericamente, aquela
população se via degradada pela contingência de servir como mera força de
trabalho que não existia para si própria, mas como produtora dos poucos
artigos que interessavam à economia colonial e, sobretudo, como extratora de
metais preciosos. Perde, assim, os altos níveis de qualificação tecnológica
e de saber erudito que havia alcançado.
Nas
outras áreas americanas restaurou-se o escravismo greco-romano em sua forma
mais crua. Primeiro, pela escravização dos indígenas locais e, mais tarde,
desgastados estes, pela transladação de enormes massas de negros da África.
Criou-se,
desse modo, uma enorme força de trabalho escravo, de cuja capacidade de produção,
nas condições mais espoliativas, passavam a viver espanhóis e portugueses.
Esse
foi o maior movimento de atualização histórica de povos jamais levado a
efeito, mediante a destribalização e deculturação de milhões de índios e
negros e seu engajamento em novos sistemas econômicos, na qualidade de camadas
subalternas. O poder deculturador e aculturador desse processo de atualização
histórica foi ainda maior que o dos processos equivalentes de romanização e
de islamização, como se constata pela uniformidade lingüística e cultural
dos povos americanos, muito mais homogêneos, embora numérica e espacialmente
maiores, do que as populações da própria península Ibérica e de qualquer
outra área do mundo.
O
CAPITALISMO MERCANTIL E OS COLONIALISMOS MODERNOS
Enquanto
se processava a expansão salvacionista, as forças renovadoras da Revolução
Mercantil avançavam através de um outro processo civilizatório: o capitalismo
mercantil. Dotado de maiores potencialidades de tecnificação, de reordenação
social e de progresso, era o esforço de restabelecimento do sistema mercantil
europeu, primeiro no continente, depois em todo o mundo, que voltaria a ativar
as economias regionais estagnadas durante o milênio de feudalização.
Seus
desencadeadores foram um complexo de eventos e a adoção de novos procedimentos
técnicos e institucionais que, ensejando o restabelecimento do comércio
exterior, permitiram reimplantar manufaturas nas cidades italianas, francesas,
flamengas e holandesas e, mais tarde, na Inglaterra e na Espanha, primeiro para
o mercado interno e, posteriormente, para os de ultramar. À medida que cresciam
os mercados, essas manufaturas se transformavam: de simples ajuntamentos de
artesãos possuidores de seus instrumentos de trabalho e financiados por um
capitalista a unidades maiores, com divisão interna do trabalho, em que o
empresário já era proprietário dos meios de produção e pagava salários aos
trabalhadores, lucrando com o acréscimo de produtividade de todos eles.
Inicialmente,
essas manufaturas centralizadas instalaram-se no campo, para fugir ao controle
dos grêmios artesanais urbanos. Ocupavam camponeses em fiações e tecelagens,
depois em serrarias, refinarias de açúcar, fábricas de sabão, de tintas, de
cerveja etc. e, mais tarde, em estaleiros, metalurgias e fábricas de papel.
Riquezas monetárias acumuladas no comércio, na usura, na exploração das
finanças públicas e nos monopólios estatais passaram a aplicar-se
produtivamente nessas manufaturas, transladando-as progressivamente para as
cidades, que voltaram a crescer. A necessidade de alimentar e vestir os
trabalhadores urbanizados gerou uma procura crescente de bens, criando um
mercado interno cada vez mais amplo para a produção agrícola e manufatureira.
Os proprietários rurais, interessados em produzir para esse mercado, passaram a
forçar o campesinato a uma produção maior. Os governos passam, então, a
fomentar essas atividades, que se vão tomando a fonte principal de rendas públicas.
Emprestam-lhe todo o apoio, através de medidas alfandegárias protecionistas e
de reformas das instituições cerceadoras da liberdade de aliciamento de mão-de-obra
ou da expansão do mercado interno. Derrogam-se, assim, as antigas normas que
dificultavam a comercialização da produção agrícola, criando-se os mercados
nacionais. Decreta-se o direito de cercar as propriedades fundiárias, acabando
com os campos comunais. Liberam-se os cultivos e anulam-se os tradicionais
direitos de pasto.
Por
todos esses procedimentos desagregam-se as estruturas comunitárias em que
primavam as atividades de subsistência as relações de mutualidade, para se
imporem relações contratuais de trabalho definidas como legais e livres.
Contingentes rurais cada vez maiores se desvinculam da economia ou são
compelidos a fazê-lo para se converterem em mão-de-obra aliciável para o
trabalho assalariado por haverem perdido as bases de provimento de sua subsistência.*
A
reação dos camponeses a essa reforma estrutural espoca em guerras na defesa do
antigo modus vivendi, ou na reivindicação da propriedade das terras para as
trabalharem por conta própria como produtores para o mercado.
Nesse
ambiente de renovação social tudo é posto em causa. A ordem social deixa de
ser concebida como sagrada ou passa a ser definida em termos de reavaliação do
conteúdo do sagrado.
A
partir do século XIII, ondas sucessivas de levantes convulsionaram a Europa.
Como insurreições de classes subalternas, estavam historicamente condenadas ao
malogro pela impossibilidade de reordenar a sociedade inteira de acordo com seus
interesses. Sua eclosão teve, no entanto, um papel decisivo na implantação de
uma nova ordem capitalista mercantil, uma estrutura de poder liderada pelo
empresariado capitalista, e no triunfo dos movimentos de Reforma.
Um
processo simultâneo de desenraizamento e relocação de trabalhadores ocorria
nas cidades, desligando os artesãos dos vínculos corporativos dos grêmios
para torná-los assalariados dos novos empreendimentos. Como mão-de-obra mais
qualificada, esses artesãos emprestaram à revolução tecnológica o concurso
de sua destreza acumulada secularmente e acrescentaram à força de trabalho um
estrato diferenciado de técnicos e especialistas. Em cada país, à medida que
progredia a conversão da economia aos padrões capitalistas, foram sendo
abolidas as corporações de ofício, os regulamentos de aprendizagem, as juntas
de salário. Todas essas ordenações protetoras foram substituídas
progressivamente pelo ideário liberal da igualdade perante a lei e do livre
direito de contrato.
A
combinação da disponibilidade de capital acumulado com a oferta de mão-de-obra
livremente aliciável e de bens de subsistência oferecidos à venda tomou possível
montar estruturas urbanas de produção e de comércio que se fariam cada vez
mais amplas até dominarem todo o sistema econômico, convertendo-o em formações
sócio-culturais capitalistas mercantis. Esse processo civilizatório
experimentou uma aceleração prodigiosa quando a ele se somaram os resultados
da expansão oceânica conduzida pelos povos ibéricos. Carreando para a Europa
o produto do saque de dezenas de povos e, depois, os excedentes arrancados a
milhões de escravos que tinham seu consumo supercomprimido nas minas e nas
plantações tropicais, o capitalismo mercantil pôde saltar alguns séculos no
seu processo de amadurecimento.
A
formação capitalista mercantil implanta-se, primeiro, na Holanda (1609), onde
assume a forma de república moderna de perfil oligárquico, governada por
comerciantes e banqueiros. No curso dessas lutas, a Holanda apossa-se de
diversos domínios coloniais portugueses e espanhóis na África (Cabo), nas Américas
(Antilhas), no Oriente (Ceilão, Indonésia) e torna-se a principal potência
européia. Cria a primeira organização bancária moderna (1609), que passa a
atuar como financiadora e seguradora da expansão mercantil holandesa, alçada
à condição de empório distribuidor da produção mundial nos mercados
europeus.
Segue-se
a Inglaterra, com a revolução de Cromwell (1652-79), que lhe permite
estruturar-se também como uma formação capitalista mercantil revestida dos
atributos institucionais de uma monarquia parlamentar. A Inglaterra alça-se
também através da guerra contra os salvacionistas ibéricos e contra os
holandeses, graças à apropriação de alguns dos seus antigos domínios
coloniais na América do Norte, na Índia, na China e na África. Uma das fontes
de sua modernização foi o ingresso de uma centena de milhares de perseguidos
religiosos, que elevaram substancialmente a qualificação de sua força de
trabalho e suas disponibilidades de capital financeiro. Mas seu enriquecimento
se fez, nessa primeira etapa, principalmente através do saque pelo corso
sustentado pelo Estado e, mais tarde, mediante o contrabando com as colônias
americanas, principalmente com a exploração do tráfico negreiro por meio de
contratos monopolísticos com as nações ibéricas, operados por companhias
oficiais cujos principais acionistas eram as casas reais espanhola e inglesa. A
eficiência capitalista aplicada ao tráfico negreiro permitiu organizar
racionalmente as operações de caça de escravos no interior, de amontoamento
de reservas na costa africana, de transporte marítimo, de depósito, distribuição
e venda através de todas as Américas. Nesse processo, as nações européias,
pioneiras do desenvolvimento capitalista mercantil, aliciaram, no curso de quase
três séculos, mais de 100 milhões de africanos, uma terça parte dos quais
deve ter chegado a seu destino para aí serem consumidos, em sua grande maioria,
no trabalho escravo.
A
integração da França à nova formação amadurece lentamente no nível econômico.
Eclodiu, no plano político, com a revolução social de 1789, comandada,
inicialmente, por lideranças antiaristocráticas e completada, mais tarde, por
um regime militar que impõe as ordenações napoleônicas. Implanta-se, assim,
o primeiro sistema estatal de instrução pública; derroga-se o regime legal
anterior e delineia-se o modelo básico de instituições liberais capitalistas
que seriam prontamente adotadas em todo o mundo. Esta última formação
capitalista também se apropria de antigas áreas coloniais ibéricas, pela
anexação, ao seu domínio colonial, de vastas áreas da América do Norte, do
Canadá, da Indochina e do Senegal.
Para
assumir essa posição pioneira, aquelas nações haviam reativado sua vida econômica
interna, rompendo com as barreiras feudais que continham suas forças
produtivas, e confiscado os bens eclesiásticos, os latifúndios das abadias e
mosteiros, para integrá-los no sistema produtivo. Seus empresários aplicaram
capitais nas manufaturas, que passaram a produzir para todo o mercado nacional
e, depois, para exportação. Criaram-se, assim, grandes empresas de
investimento nos setores mercantis, fabris, agrícolas e de obras públicas que,
excedendo a capacidade financeira de um só capitalista, apelavam para vários
processos de captação de recursos. E incentivaram a constituição de uma força
de trabalho altamente qualificada, a partir do artesanato medieval.
Como
efeito maior de todas essas mudanças, refez-se própria estratificação
social, que opunha uma camada de proprietários aliciadores de mão-de-obra
assalariada ou escrava e uma camada de despossuídos, conscritos como a força
de trabalho do sistema, na posição de dois proletariados, um interno, outro
externo.
Em
sua expansão ultramarina, todas as formações capitalistas mercantis apelaram
também para o colonialismo escravista, criando novas áreas de plantações
tropicais. Mas, simultaneamente, inovaram o antigo modelo, complementando-o,
primeiro com as colonizações mercantis, na forma de entre-postos comerciais
implantados em países longínquos, com os quais não se pretendia transfigurar
os povos autóctones, mas tão-somente traficar com eles, e, mais tarde, com colônias
de povoamento, estabelecidas através da transladação de populações européias
para além-mar. Estas últimas se destinavam, essencialmente, a aliviar a Europa
dos excedentes populacionais gerados no próprio processo de integração da
economia agrícola em padrões capitalistas. Em conseqüência, os pequenos núcleos
de colônias de povoamento - que eram as menos prósperas das colônias na formação
anterior - entram a crescer, tendo por objetivo menos prover lucros do que
ocupar gente desenraizada e marginalizada, cuja presença começava a
representar um risco permanente de insurreição.
Uma
dessas colônias de povoamento, que crescera como economia ancilar dos ricos
empreendimentos escravistas coloniais das Antilhas, amadureceria, pouco mais
tarde, para o capitalismo mercantil. Era a América do Norte, onde uma ordenação
capitalista incipiente, fundada nos próprios princípios que regeram a colonização,
se fortificaria no curso da guerra de emancipação. Essas características se
acentuariam, em virtude do caráter singular de sua implantação como uma
extensão ultramarina da sociedade inglesa. Na América do Norte, se erige o
modelo básico de República federativa moderna, estruturada como uma formação
capitalista mercantil, tendente à industrialização. Contando com enormes áreas
desertas para a autocolonização, a América do Norte só tardiamente se lança
à expansão colonialista, mas o faz, também, pela apropriação de antigas áreas
de domínio ibérico, como as Antilhas e as Filipinas, além de algumas ilhas do
Pacífico.
Como
se vê, a formação capitalista mercantil também nasce bipartida em dois
complexos complementares. Primeiro, o complexo metropolitano das nações as
estrutura por aceleração evolutiva como centros de poder e de comércio
ultramarino. Segundo, o complexo colonial, implantado através de movimentos de
atualização histórica, que gera as colônias mercantis e as colônias
escravistas e as colônias de povoamento das Américas, da Austrália e da Nova
Zelândia.
Por
meio dessas duas faces complementares - a metropolitana e a colonial - o sistema
passa a atuar gerando, numa delas, o capital e os capitalistas contrapostos a
massas crescentes de assalariados, e, na outra, camadas gerenciais subalternas e
massas escravizadas e avassaladas. Estas últimas não representavam para o
sistema mais do que uma espécie de combustível humano explorado localmente ou
importado da África para produzir artigos de exportação, metais preciosos e
minérios. Não eram "propriamente trabalhadores, mas apenas
trabalho", tal como aquele que seria oferecido amanhã pelas fontes
inanimadas de energia (K. Marx). Nessa qualidade, propiciavam uma acumulação
de capital muito maior do que a obtida pela exploração de assalariados e
ensejavam a reversão para as economias metropolitanas, amadurecidas como
estruturas capitalistas, de recursos cada vez mais vultosos.
A
expansão oceânica européia, iniciada pelos ibéricos, torna-se, nesse passo,
uma empresa coletiva que multiplica colônias escravistas, mercantis e de
povoamento por todo o mundo, acelerando a ação do processo civilizatório
capitalista mercantil. Nesse processo, milhares de povos atados a formações
tribais, aldeãs, pastoris, rural-artesanais, bem como antigas civilizações,
tanto as vigorosas como as já estagnadas em regressões feudais, foram
integrados num sistema econômico de base mundial, como sociedades subalternas e
culturas espúrias. Sua razão de existência deixara de constituir a natural
reprodução do seu modo de ser, para se converter no fator de existência e no
instrumento de prosperidade dos centros metropolitanos que geriam os seus
destinos.
A
espoliação desses povos possibilitou às cidades européias retomar e superar
amplamente o brilho que haviam alcançado no esplendor do Império Romano,
implantando-se como metrópoles suntuosas e opulentas. Deu, também, aos
europeus nórdicos, até então marginais aos processos civilizatórios, um
sentimento de superioridade e de destinação civilizadora que passou a
justificar todas as formas de opressão colonial como o exercício necessário
do papel de agentes civilizadores, convictos de que representavam uma ordem
moral superior e o motor do progresso humano.
As
riquezas que se acumularam com as novas atividades produtivas e com os saques de
tesouros alheios elevaram a níveis jamais alcançados a economia de dinheiro
metálico, tornando disponíveis capitais cada vez maiores para financiar novos
empreendimentos.* Essa abrupta disponibilidade de metais preciosos provoca uma
elevação constante de preços, que contribui fortemente para desorganizar as
economias camponesas ainda sobreviventes. Dessa forma, novas massas são lançadas
ao mercado de trabalho ou obrigadas a emigrar, ao mesmo tempo em que sobrevém
uma violenta substituição das antigas camadas patronais conservadoras pelo
empresariado de mentalidade capitalista.
Simultaneamente,
a Europa se transfigura ideologicamente, aprofundando o movimento de renovação
inaugurado com o Renascimento e intensificado pela Reforma. A alfabetização em
massa nas línguas vernáculas, levada a efeito para ler a Bíblia, permitiria,
de então por diante, recrutar a intelectualidade em bases muito mais amplas e
assegurar-lhe maior liberdade de indagação e de pesquisa. Desse modo, a Europa
pós-medieval, que redescobrira o mundo grego assumindo sua postura mercantil e
sua atitude especulativa, pôde levar à frente o saber e as artes a partir do
ponto em que haviam estagnado e pôde retomar também os modelos mercantis
escravistas de estruturação política em seus conteúdos democráticos.
Nas
áreas onde mais amadureceu a formação capitalista mercantil, a Igreja Católica,
de um poder autônomo ordenador das estruturas sociais e legitimador da
autoridade, reduz-se à instituição auxiliar modeladora de consciências
individuais. Mas é prontamente chamada a atuar como sustentáculo espiritual da
nova classe dominante. Teólogos reformistas dedicam-se, agora, a formular uma
ideologia enobrecedora do enriquecimento conceituado como sinal de benesse
divina dignificadora do trabalho e condenatória de antigas atitudes senhoriais
de ócio e fruição, bem como da sua contraparte popular, a mendicância. Por
todas essas formas de ação, a Igreja da Reforma ajuda a burguesia nascente a
adotar o perfil ético que lhe corresponde e a destruir as bases morais do
antigo sistema, que encarava a propriedade como mais passível de deveres que de
direitos e a estamentação social rígida da Europa feudal como uma expressão
da vontade divina (M. Weber).
Com
o capitalismo mercantil estabelecem-se, assim, as bases para a despersonalização
das relações de trabalho, transformando a mão-de-obra em um bem livremente
negociável; entrona-se uma classe empresarial de novo tipo para a qual se
prescrevem direitos mas não deveres; e implanta-se um regime econômico
marcadamente racionalista e venal. Nesse ambiente liberto de peias religiosas
tudo se põe em causa. As ciências e as artes experimentam um desenvolvimento
sem paralelo, lançando-se as bases para uma nova revolução no plano da
tecnologia. Uma onda de criatividade renova as velhas ordenações medievais
através de uma geração de livres-pensadores que se ocupam da regulamentação
racional das relações humanas, com base nos conceitos mais generosos de
liberdade e de igualdade e com uma atitude de plena confiança no progresso
humano. Opera-se, desse modo, uma primeira transição saintsimoniana do governo
das pessoas, que prevalecera no mundo feudal, para um governo das coisas, que
regeria o capitalismo. Mas só se consegue efetivar essa renovação
coisificando as pessoas, a fim de tratá-las juridicamente como coisas.
Em
sua forma plenamente amadurecida, a nova formação sócio-cultural assenta-se
na propriedade privada das empresas, na mais aguda competição destas entre si
e em face dos consumidores e na implantação de um regime de espontaneismo no
plano econômico e de completa irresponsabilidade social para com o destino dos
trabalhadores. Velhas tendências espoliativas e alienadoras surgidas com as
primeiras formas de estratificação social, e que haviam alcançado extremos na
formação mercantil escravista e, mais tarde, nas formações despóticas
salvacionistas e mercantis salvacionistas, reimplantam-se e aprofundam-se mais
ainda.
A
riqueza social aumenta até níveis inatingidos antes, mas a pobreza das camadas
despossuidas também se agrava como nunca. As populações européias crescem
mais aceleradamente do que a capacidade do sistema para absorver os novos
contingentes de mão-de-obra, transformando-os em "excedentes" que se
devem exportar como emigrantes.
A
Revolução Mercantil, que gerara o maior movimento expansionista da história
humana, tendente a unificar o mundo inteiro num só sistema de intercâmbio econômico,
experimenta, nesse passo, um movimento oposto de segmentação dos povos em
entidades étnico-nacionais carregadas de hostilidade umas para com as outras. O
mesmo processo civilizatório que alargara o mundo, pondo todos os povos em
contato, e que ampliara o âmbito interno de cada sociedade, pelo rompimento de
barreiras regionais, encontra seu termo nas fronteiras nacionais.
Configuram-se
os espaços nacionais modernos. Cada um deles compreende uma comunidade que,
durante gerações, participara das mesmas crenças e costumes. Seus membros
passam agora a identificar-se como nações definidas em termos de entidades
solidárias excludentes de todas as demais, com direito ao domínio político do
território que ocupavam ou pleiteavam.
Após
séculos de elaboração de sua forma, como resultante de múltiplas fusões de
povos, essas etnias alcançavam, afinal, consciência de sua especificidade em
virtude do poder aglutinador do sistema político, empenhado em reservar ao seu
empresariado o monopólio do mercado nacional. Incentivada por essas forças
aliciadoras, a intelectualidade passa a criar auto-imagens nacionais
motivadoras, na forma de obras literárias redigidas em língua vernácula, com
o propósito de ressaltar o valor de suas tradições, a qualidade de seus heróis
e a superioridade de seu “vínculo de sangue". Por esses processos de
organização e de afirmação nacionalista, as entidades étnico-nacionais se
conformam como os quadros econômicos e sociais em que suas populações
realizarão seu destino, em face das outras. Aquelas que se estruturaram
precocemente como Estados e alcançaram maior desenvolvimento como economias
capitalistas lançam-se à expansão. Estalam os conflitos. São as lutas
nacionais que através de três séculos de crises, tensões, revoluções e
guerras, irão configurando o quadro étnico europeu e correlacionando com ele
todo o mundo extra-europeu, transformado em área de saque e de exploração.
7.
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA INDUSTRIAL
Os
processos civilizatórios fundados na Revolução Mercantil ainda atuavam quando
emergiu a Revolução Industrial e, com ela, dois novos processos civilizatórios.
Sua
capacidade de reordenação das sociedades humanas só seria comparável à da
Revolução Agrícola que, desde dez mil anos passados, vinha remodelando os
povos.* Afetaria também todas as sociedades, acrescentando às que lograram
Industrializar-se um poderio antes inimaginável e submetendo as demais a formas
de dominação cada vez mais sutis e imperativas. Remodelaria internamente cada
sociedade, tanto as diretamente industrializadas quanto às modernizadas
reflexamente, alterando sua estratificação social e, com ela, as estruturas de
poder e redefinindo profundamente sua visão do mundo e seus corpos de valores.
O
efeito crucial da nova revolução tecnológica consistiria, porém, no lançamento
das primeiras bases de uma futura civilização humana, afinal unificada pelo
acesso de todos os povos à mesma tecnologia básica, pela sua incorporação às
mesmas formas de ordenação da vida social e pela sua integração aos mesmos
corpos de valores. Essa civilização humana unificada não se cristalizaria,
contudo, no curso dessa revolução, que apenas conseguiria torná-la uma aspiração
generalizada de todos os povos.
A
tecnologia da Revolução Industrial não se expande como uma difusão de novos
conhecimentos livremente adotáveis, mas como uma reordenação de povos que,
situando os pioneiros da industrialização em posição superior de domínio e
de riqueza, conduzia todos os demais à subordinação dentro de vastos
complexos de nações dependentes e exploradas. Os povos atrasados na história,
que haviam escapado às compulsões da Revolução Mercantil, seriam, assim,
atingidos, onde quer que vivessem, e chamados a engajar-se na nova ordem econômica
e social, como "proletariados externos" provedores de matérias-primas
agrícolas e de minérios e consumidores de produtos industriais.
A
Revolução Industrial surge no corpo das formações capitalistas mercantis
pela acumulação de inventos mecânicos que permitiriam multiplicar
fantasticamente a produtividade do trabalho humano. Por isso mesmo, implanta-se,
primeiro, nas áreas em que se atendera mais completamente às exigências de
renovação estrutural imposta pela Revolução Mercantil, desobstruindo resistências
oligárquicas à alteração do Status quo. Tais condições encontravam-se
quase idealmente amadurecidas na Inglaterra e nos Estados Unidos e, de forma
mais rudimentar, na França, na Alemanha e nos países escandinavos.
As
formações sócio-culturais geradas pela Revolução Industrial têm como
classe dirigente uma burguesia urbana que desde a etapa anterior se vinha
fortalecendo e forçando a reordenação da sociedade segundo seus interesses.
Tal era o empresariado que crescera tirando proveito das oportunidades de
enriquecimento ensejadas pela restauração do sistema mercantil europeu, pela
apropriação dos bens eclesiásticos tornada possível pela Reforma, pelo
confisco dos baronatos feudais e dos direitos comunitários do campesinato. A
essa acumulação de recursos acrescentara-se, depois, a riqueza proveniente do
saque colonial, da exploração maciça do escravismo e da monetarização das
economias.
Inicialmente,
esse empresariado atuava como os antigos mercadores, na exploração da usura,
na especulação comercial com a escassez de bens, na monopolização de certas
mercadorias e nos riscos marítimos. Agora se dedica, principalmente, à exploração
da nova fonte de riqueza representada pela aplicação de capitais em sistemas
fabris de produção em massa, movidos por novas fontes de energia inanimada,
cuja expansão demandava uma reordenação mais radical na estrutura da
sociedade. Com a nova tecnologia tornara-se possível e vantajosa a conversão
de toda mão-de-obra, inclusive a escrava, em força de trabalho assalariado, e
fizera-se necessário operar urgentemente essa conversão para liquidar as
formas de produção artesanal, ainda sobreviventes em todo o mundo, a fim de
atribuir novas funções aos trabalhadores. Impunha-se, também, elevar seu nível
de produtividade e consumo com o objetivo de alargar o mercado dos produtos
industriais para dar lugar a uma expansão continuada do sistema fabril.
Desde
princípios do século XVIII, a Inglaterra, que havia ampliado seu poderio naval
e o sistema capitalista mercantil de base mundial nele assentado, vinha
acumulando aplicações tecnológicas de princípios científicos aos processos
produtivos, na forma de fábricas e de explorações minerais. Conseguira, dessa
forma, implantar uma economia industrial essencialmente urbana, que passara a
produção agrícola para um segundo plano, gerara transformações radicais em
sua estrutura social e lançara as bases da Revolução Industrial.
Essa
renovação tecnológica enseja o amadurecimento do novo empresariado, que
promove o recrutamento maciço de antigos artesãos desempregados e de
trabalhadores rurais desalojados do campo. para organizá-los em fábricas, como
operadores de engenhos mecânicos movidos por novos conversores de energia. Esse
desenvolvimento processou-se em três passos, o primeiro dos quais com a invenção
e a difusão das máquinas a vapor que utilizavam o carvão como combustível.
Sua aplicação às minas, na forma de bombas de água e elevadores de carga,
permitiu ampliar fantasticamente a produção de carvão.
Como
mecanismo de conversão do vapor em energia mecânica, pôde ser atrelado a
diversos dispositivos industriais para produzir máquinas operatrizes, com as
quais se multiplicou a produtividade das tecelagens e metalúrgicas. Como
locomotiva, revolucionou os transportes terrestres e, como navio a vapor, os marítimos.
A partir de 1820, protótipos cada vez mais aperfeiçoados dessas máquinas
multiplicaram-se na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França, de onde passam
a ser exportados como mercadorias para todo o mundo, alargando as bases de
expansão da civilização industrial.
Aos
conversores de energia baseados em dispositivos de queima do carvão para produção
de vapor acrescentaram-se depois outros conversores cada vez mais eficazes. Esse
foi o segundo passo da Revolução Industrial, que se deu na passagem do século
XIX ao XX com o surgimento e a generalização do uso de motores elétricos,
fundados na energia hidráulica. O terceiro passo corresponde ao desenvolvimento
e difusão, depois da Primeira Guerra Mundial, dos motores a explosão que
utilizam combustíveis de petróleo.
A
essas inovações da tecnologia industrial somaram-se aperfeiçoamentos dos
processos produtivos agrícolas e pastoris, que tiveram um papel da maior relevância
na ampliação das disponibilidades de alimentos, viabilizando o aumento
populacional das áreas recém-modernizadas. Tais foram: a generalização das técnicas
de cultivo anual de toda a terra arável através da rotação de culturas e do
uso de fertilizantes; a melhora do sistema de aração e da erradicação de
pragas; a mecanização das atividades agrícolas; a seleção de sementes; o
aprimoramento genético dos rebanhos de gado de corte, de leite e de lã. Esses
avanços foram acompanhados da difusão de plantas cultivadas originariamente
nas Américas, como um novo tipo de algodão e, sobretudo, a batata, o milho, a
mandioca, o amendoim, o cacau, o tomate e muitas outras, que enriqueceriam
extraordinariamente a dieta humana.
Surgem,
desse modo, os primeiros países "desenvolvidos" como economias
capitalistas industriais, cujo objetivo supremo e cuja condição de existência
passam a ser a expansão constante de sua riqueza e poder através da elevação
da produtividade do trabalho, da maximização dos lucros e do domínio de
mercados de escala mundial.
IMPERIALISMO
INDUSTRIAL E NEOCOLONIALISMO
No
desdobramento de suas potencialidades, o primeiro processo civilizatório
fundado na Revolução Industrial vai impondo tamanhas alterações nos modos de
ser das sociedades humanas que acaba por integrá-las todas num só sistema
interativo e por configurar uma nova formação sócio-cultural, também
bipartida em dois complexos tecnologicamente defasados e economicamente
contrapostos, mas complementares: o superior, de algumas nações capitalistas
mercantis, de dominação imperialista industrial, e o inferior, de áreas
coloniais como o surgimento de uma nova forma de dependência: o
neocolonialismo.Nos seus primeiros passos, o processo de industrialização é
principalmente dissociativo e extremamente conflitivo.
Internamente,
agrava ainda mais os efeitos deletérios da reordenação capitalista,
aprofundando a diferenciação social. Provoca uma intensificação do êxodo
rural-urbano, acumulando nas cidades enormes massas marginalizadas. Quando estas
ameaçam desencadear uma pressão irresistível de reordenação do sistema,
intensificam-se os movimentos migratórios induzidos pelas autoridades
governamentais, a fim de se livrarem dos ”excedentes" populacionais.
Essas transladações humanas e o consumo de gente em guerras sucessivas devem
ter retirado do quadro europeu cerca de 100 milhões de pessoas no último século
e meio, propiciando a indispensável distensão consolidadora do sistema
capitalista industrial.* Se a essa redução se acrescentassem os efeitos
constritores da restrição da natalidade, que então se generalizara nas nações
industrializadas, o montante duplicaria.A Inglaterra e a França são as nações
que primeiro amadurecem como formações sócio-culturais imperialistas
industriais. A mesma façanha é cumprida, logo a seguir, pelos Estados Unidos.
Este país, contando com imensas disponibilidades de terras virgens e de
recursos naturais, consegue mesmo industrializar-se, incorporando à força de
trabalho toda a sua população e, ainda, enormes contingentes europeus.
Graças
ao constante crescimento da produtividade do trabalho e ao desgaste de seus
excedentes populacionais, as nações precocemente industrializadas conseguem, a
certa altura, elevar substancialmente o padrão de vida de suas populações;
organizar regimes democrático-parlamentares que ensejam uma participação
crescente do povo na formação dos órgãos do poder político; escolarizar
toda a população em escolas públicas de nível elementar, e, mais tarde,
levar parcelas crescentes à educação de nível médio e superior.
Simultaneamente, melhoram os seus níveis de sanidade, alarga-se a expectativa
de vida e formulam-se novos ideais de liberdade, de justiça e de igualdade.
Na
ordem externa, impõe condições de extrema penúria aos povos já submetidos
ao estatuto colonial. Suas populações são duplamente conscritas ao novo
sistema produtivo, as classes dominantes na qualidade de estamentos gerenciais
de interesses exógenos e a massa da população na condição de
"proletariado externo" engajado na produção de matérias-primas. Sob
o domínio do imperialismo industrial, o papel dos povos atrasados na história
já não será o de prover tesouros pelo saque ou de abastecer o mercado mundial
de ouro e prata e especiarias, e nem mesmo dos produtos tropicais clássicos,
como o açúcar e outros. Sua função passa a ser o fornecimento de matérias-primas
para a elaboração industrial, como os minérios, o petróleo, a borracha, o
algodão, os couros, as lãs e diversas outras produzidas, predominantemente,
por trabalhadores assalariados que são também consumidores. A esses produtos
acrescentam-se novos gêneros de exportação, como o café, o cacau, a carne
bovina, as frutas tropicais etc., requeridos em proporções crescentes pelos
mercados das sociedades industrializadas. Assim, o mesmo progresso da
industrialização, que multiplica fábricas nos países cêntricos do sistema,
alarga, simultaneamente, as áreas de plantação e de pastoreio comerciais, de
extrativismo florestal ou de exploração de minérios nos países periféricos.
A
implantação imperialista se dá em três etapas: Na primeira etapa, atua pela
exportação de manufaturas e pela conquista de fontes privatistas de matérias-primas
ou de mercados cativos. Na segunda, correspondente à fusão das empresas em
grandes monopólios controlados por agências financeiras, passa a atuar
principalmente pela exportação de capitais na forma de equipamento
modernizador da infra-estrutura produtiva das nações atrasadas e de capitais
de empréstimo a governos.
Com
esse procedimento, intensifica-se a exploração dos povos situados em posição
subalterna dentro do sistema, porque esta passa a ser fomentada pelo próprio
instrumental de industrialização, que provê ferrovias, portos, sistemas
modernos de comunicação e maquinaria especializada para suas atividades
produtivas. Sua subordinação à órbita da potência-líder também se
acentua. Na terceira etapa, os procedimentos financeiros são suplantados em
favor da instalação, nos países dependentes, de subsidiárias das grandes
corporações monopolistas, como dispositivos de exploração de riquezas
minerais e de produção industrial para o mercado interno, com o fim de drenar
os capitais gerados nas nações pobres para enriquecer ainda mais as nações
opulentas. O primeiro modelo de ruptura desse círculo de domínio foi
configurado pela Alemanha (1850-1914), pelo Japão (l890- 1920) e, mais tarde,
pela Itália (1920-40), que conformam o padrão tardio de desenvolvimento.Como
se vê, o impacto da Revolução Industrial se imprime diferencialmente,
conforme se exerça direta ou reflexamente sobre os povos. No primeiro caso,
configura as sociedades modernas; no segundo, o contexto de nações
subdesenvolvidas.
A
condição de subdesenvolvimento não representa, por isso, simplesmente, o
atraso diante do progresso .
Representa,
isto sim, uma seqüela necessária das próprias forças renovadoras da Revolução
Industrial que geram, simultaneamente, dois produtos: os núcleos industriais
como economias de alto padrão tecnológico e a periferia neocolonial de nações
estruturadas menos para atender às suas próprias necessidades do que para
prover aqueles núcleos de bens e serviços em condições subalternas. Suas
populações são degradadas pela deculturação ou pela deterioração de sua
economia tradicional, perdendo os níveis de desenvolvimento tecnológico que
haviam alcançado para se transformarem principalmente em força de trabalho
utilizada nas formas mais primitivas, como combustível humano do processo
produtivo.
O
subdesenvolvimento não corresponde, pois, a uma crise de crescimento, mas a um
trauma em que submergem sociedades subordinadas a centros industriais, que se vêem
ativadas por intensos processos de modernização reflexa e de degradação
cultural. Somam-se a isso a explosão demográfica e a urbanização acelerada e
caótica, agravando ao extremo as tensões sociais, que essas sociedades não têm
meios de superar ou mesmo de abrandar, porque não poderão exportar seus
excedentes populacionais, como o fez a Europa no mesmo passo.
Acresce,
ainda, que as nações subdesenvolvidas não são apenas atrasadas, são também
as nações espoliadas da história, empobrecidas pelo saque que sofreram
originalmente das suas riquezas entesouradas e pela sucção secular dos
produtos do trabalho de seus povos, através de sistemas inigualitários de
intercâmbio. Soma-se a tudo isso a deformação de sua classe dirigente que,
posta a serviço da espoliação estrangeira, não se torna capaz de amadurecer
como um empresariado renovador e competitivo.
EXPANSÃO
SOCIALISTA
Com
base nas forças renovadoras da Revolução Industrial, desencadeia-se, depois
da Primeira Guerra Mundial, um processo civilizatório novo, responsável pela
estruturação das formações socialistas.
Dois
movimentos básicos de restruturação social: Um de natureza evolutiva,
resultante da acumulação de mudanças institucionais que descaracterizam o
regime capitalista, a ponto de configurar algumas sociedades industriais como
uma nova formação, o socialismo evolutivo. O outro, de natureza revolucionária,
conduzido intencionalmente como um esforço político de ruptura com os fatores
inibitórios do desenvolvimento industrial autônomo: o socialismo revolucionário
e o nacionalismo modernizador.Na construção do modelo teórico das formações
socialistas evolutivas, o paradigma mais amadurecido é representado pelos países
escandinavos, que se vêm estruturando como uma nova formação sócio-cultural
graças à combinação de certos procedimentos coletivistas de produção e de
consumo e à atribuição de maiores responsabilidades sociais ao Estado pelo
destino de suas populações.
Outra
via alternativa da evolução pós-capitalista é o socialismo revolucionário,
tal como se configura na União Soviética, nas Repúblicas socialistas da
Europa Oriental, na China, na Coréia do Norte, no Vietnã do Norte e em Cuba. A
principal característica dessa formação sócio-cultural é sua racionalidade,
enquanto concretização planejada de um projeto de reforma intencional das
sociedades humanas, levada à prática através de movimentos revolucionários.
Com
a formulação das doutrinas socialistas, especialmente do marxismo,
prefigurou-se para as camadas assalariadas, sobretudo para o proletariado
fabril, um modelo teórico de transformação intencional das sociedades e se
definiu uma estratégia de combate que, pela primeira vez na história, prometia
abrir às camadas subalternas perspectivas de concretizar velhas aspirações de
reestruturação completa das bases da vida social. De acordo com essa teoria, a
classe operária está destinada historicamente, a atuar como força motriz de
uma revolução social que promoverá a suplantação de todas as formas de
espoliação e de alienação dos homens, mediante a eliminação da propriedade
privada dos meios de produção e a conseqüente erradicação da estrutura
classista das sociedades e, com ela dos mecanismos de opressão do Estado.
O
modelo teórico do socialismo marxista tem de peculiar seu duplo caráter de
previsão de uma nova etapa da evolução humana e de projeto intencional de
reordenação das sociedades segundo os interesses das categorias majoritárias
da população.
Esse
modelo foi inaugurado na Rússia, a partir de um projeto teórico de reordenação
da sociedade. Sua elaboração constituiu um sério desafio, porque pela
primeira vez se conseguia reestruturar racionalmente, por um ato de vontade,
toda uma sociedade, a começar das suas bases. Tratava-se de atender
objetivamente a antigas aspirações humanísticas dentro do enquadramento rígido
dos fatores econômicos que fazem a prosperidade depender da capacidade de produção
e o bem-estar depender de um difícil equilíbrio entre a necessidade de
investimentos crescentes no parque produtivo e o desejo de alargar as
facilidades de consumo popular.
O
socialismo revolucionário e o socialismo evolutivo contrastam flagrantemente
por seus perfis ideológicos. O primeiro, impregnado de ideais igualitaristas e
de mística “utópica"; o segundo, imbuído de valores liberais e de uma
antimística pessimista. O perfil ideológico do socialismo revolucionário, que
procura explicitar-se como uma mística libertária e como o caminho do
progresso para as sociedades atrasadas, não corresponde uma formulação
equivalente do socialismo evolutivo. Essa antimística, porém, não significa
uma ausência de ideologia, porque ela própria é a ideologia que não quer
explicitar sua verdadeira função aliciadora em defesa de perpetuação da
ordem social.
8.
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA TERMONUCLEAR E AS "SOCIEDADES FUTURAS"
Estamos,
- com a implantação da tecnologia científica moderna de base termonuclear e
eletrônica -, diante de transformações tão prodigiosas das forças
produtivas e tão prenhes de conseqüências que devamos classificá-las como
uma nova revolução tecnológica. A acumulação de desenvolvimentos no campo
das ciências básicas e suas aplicações tecnológicas na forma de armas
termonucleares, de aviões a retropropulsão, de baterias solares e, sobretudo,
de dispositivos eletrônicos ultra-rápidos fundados na tecnologia dos
transistores, que permitiram produzir o radar e os novos computadores, os
reatores nucleares, a luz corrente, o radiotelescópio, os projéteis espaciais,
e, ainda, os complexos industriais automatizados, os sistemas automáticos de
produção química de sintéticos, os meios modernos de telecomunicação em
massa, os sistemas cibernéticos de coordenação de informações e de simulação
de situações para fixação de estratégias militares e econômicas... o
impacto dessas inovações faz-se sentir na vida diária do homem comum do nosso
tempo, principalmente através de uma torrente de novos materiais, de novos
tipos de máquinas operatrizes automatizadas e de formas revolucionárias de
comunicação em massa e de difusão. Já se faz sentir, também, como efeito da
multiplicação da acuidade dos sentidos humanos através de instrumentos
ultra-sensíveis e da duplicação da capacidade de ação humana, através da
contração do espaço e da extensão do tempo em graus antes inimagináveis.
Seus efeitos cruciais estão concentrados, porém, na tecnologia militar, que
lida com potencialidades absolutas de destruição da vida na Terra. As
promessas da nova tecnologia, de proporcionar prodigiosas fontes de energia e
uma abundância teoricamente ilimitada de bens e de serviços, são ainda meras
expectativas. Entretanto, à medida que essas promessas entrem a cumprir-se, terá
início um novo movimento do processo evolutivo pela morte da economia da
escassez e o advento da economia da abundância, no bojo da qual deverão
transmudar-se todas as formas atuais de estratificação social.
Em
face desses desenvolvimentos futuros, que propiciarão a generalização da
prosperidade, a divisão da sociedade em classes econômicas (surgida como fruto
dos primeiros acréscimos revolucionários da produtividade do trabalho humano e
que só permitia o progresso pela escravização de extensas camadas) tenderá a
reduzir-se cada vez mais, até se extinguir completamente. Contra essa tendência,
porém, erguer-se-ão com o vigor desesperado da luta pela sobrevivência todos
os interesses privatistas, cujos privilégios se assentam na desigualdade
social. Supunha-se que esse embate se desse de forma catastrófica, em certo nível
do amadurecimento da nova economia. Sua universalização é que está em causa,
neste momento, bem como as vias pelas quais se efetivará e os modelos de
sociedade que deverão configurar os povos.
Uma
coisa é o protótipo viável de um machado de pedra polida, de um arado, de um
veleiro, de um automóvel ou de um aparelho de televisão; outra coisa é a
entrada em uso de milhões dessas inovações.
A
designação de Revolução Termonuclear para essa onda emergente de inovações
tecnológicas justifica-se tanto pelo caráter crucial do fator energético na
evolução humana a que se refere como pelo impacto que a competição atômica
entre a América do Norte e a União Soviética desencadeou sobre a humanidade,
desde o fim da última guerra mundial. Essa competição conduziu a uma recolocação
de recursos financeiros e humanos sem paralelo na história.
Década
de 60: a América do Norte aplicou cerca de 75% do seu orçamento em atividades
de defesa (84 mil milhões de dólares em 1966). Nelas já gastou mais de 897
mil milhões de dólares desde 1946 e ocupa um exército de 6 milhões de
combatentes (NATO, SEATO etc.) espalhados pelo mundo, além de 350 mil
cientistas e tecnólogos que representam cerca de novecentas diferentes
especialidades. Como as inversões militares soviéticas e chinesas devem ser
equivalentes, verifica-se que estamos diante de um fato novo e decisivo por sua
magnitude e pela sua capacidade de afetar as sociedades humanas. Somente uma
parcela dessa fantástica mobilização de recursos se aplica na tecnologia
nuclear. A própria guerra que se prevê não se designa mais como atômica, mas
como químico-bacteriológica-radiológica ou pela sigla sinistra QBR.A Revolução
Termonuclear, mesmo nesses seus primeiros passos, colocou nas mãos das
sociedades mais avançadas somas tão fantásticas de poder destrutivo,
construtivo e constritivo que tanto pode conduzir o homem ao reino da fartura e
da eqüidade como pode desencadear um processo de deterioração sócio-cultural
e até biológica mais profundo que qualquer das regressões anteriores. Desde
seus primeiros passos, a Revolução Termonuclear provocou a mobilização de
todos os quadros científicos das respectivas áreas de influência para tarefas
de investigação de natureza militar. As universidades e os centros de pesquisa
assim conscritos perderam grande parte da autonomia e até mesmo a capacidade de
exercer suas funções decisivas de núcleos de pensamento independente e de
criatividade cultural livre. Naqueles primeiros momentos, os cientistas,
tratados como um misto de sábios e de magos detentores dos segredos da bomba,
experimentaram a ilusão de que assumiriam, afinal, as alavancas do poder.
Foram, porém, reduzidos, progressivamente, a uma função meramente assessorial
das altas hierarquias civis, militares e empresariais, nada predispostas a
abdicar do poder que detinham. E, mais do que isso, viram-se submetidos aos
sistemas mais vexatórios e opressivos de vigilância policial, ao mesmo tempo
em que se defrontavam - já de mãos atadas - com os problemas éticos de
agentes humanos do desencadear de forças naturais capazes de dar fim a todas as
formas de vida.
A
própria ciência, como fator cultural, se translada do plano ideológico para o
adaptativo, convertendo-se, de uma expressão abstrata do esforço humano de
compreensão da experiência, no mais eficaz dos agentes de ação sobre a
natureza, de reordenação das sociedades e de configuração das personalidades
humanas.
Para
isso contribuem: Primeiro, o desenvolvimento exponencial experimentado pelos
conhecimentos científicos no século XX, acompanhado de uma redução drástica
do intervalo entre os progressos teóricos e suas aplicações práticas, de
modo a fundir a ciência e a tecnologia numa entidade única no plano operativo.
Entre as experiências de Faraday (1821) e a integração dos motores elétricos
no sistema produtivo (1886), mediaram 65 anos. Entre os estudos de Maxwell e
Hertz e a comercialização dos aparelhos de rádio passaram-se 35 anos
(1887-1922). Mas entre as formulações teóricas e a comercialização tecnológica
do radar (1935-40), da bomba atômica (1938-45), do transistor (1948-51) e da
bateria solar (1953-55) mediaram períodos muito inferiores, como o revelam as
datas.
Segundo,
a profissionalização da ciência e da tecnologia avançada, que, de atividade
lúdica ou inusitada nos princípios do século, se vai convertendo em ocupação
ordinária de um contingente humano que deve estar alcançando 1 milhão de
pessoas na década de 60. Seu ritmo de incremento é tão intenso quanto o dos
operários fabris dos primeiros passos da Revolução Industrial.
Em
terceiro lugar, a expansão fantástica da aplicação de recursos nas
atividades de pesquisa científica e de desenvolvimento tecnológico de
projetos. As despesas de tais programas por parte do governo norte-americano,
que vinham crescendo na proporção de um dólar, em 1920, para quatro, em 1940,
saltaram a 35, em 1950, e a 175, em 1960. Em números absolutos, essa progressão
foi de 80 milhões de dólares, em 1920, para cerca de 16 mil milhões, em 1963.
Tudo indica que os investimentos russos em pesquisa científica e tecnológica
sejam ainda mais altos e que os chineses estejam se aproximando cada vez mais
dessas magnitudes.
Os
efeitos dos novos processos produtivos sobre as relações de trabalho apenas
começam a tornar-se mensuráveis. Suas conseqüências mais singelas são as
desconexões de caráter mecânico entre fontes de energia e máquinas, ou entre
máquinas e matérias-primas, ou, ainda, entre máquinas e máquinas que
compelem já à substituição periódica de setores inteiros do parque
produtivo. Por exemplo, o desuso do equipamento químico-industrial ou dos
parques de máquinas têxteis, inadaptáveis aos fios sintéticos. Mais grave são
as desconexões humanas, representadas pelo desuso de especializações
profissionais que se tomam arcaicas - como os antigos foguistas das locomotivas,
substituídos por motores diesel e elétricos e que, em conseqüência, se vêem
deslocados e obrigados a reajustamentos sucessivos, em muitos casos impossíveis.
Essa
ordem de desajustamento tende a crescer cada vez mais, atingindo, primeiro,
alguns setores da força de trabalho, produzindo, depois, massas de deslocados,
e gerando, por último, multidões de marginalizados social e ocupacionalmente
e, assim, condenados a viver como pensionistas do Estado. O controle das tendências
dessas massas desajustadas à insubordinação consistirá num desafio muito
mais agudo que aquele com que defrontaram as primeiras sociedades industriais,
atenuado, então, pela exportação maciça dessas populações para áreas
coloniais e pelos desgastes humanos em guerras. Os novos problemas sociais não
admitem, porém, soluções tão singelas, porque põem em causa, de forma ainda
mais dramática, a incompatibilidade da ordenação social com a tecnologia
produtiva que opera e porque os impulsos de reordenação social já se exercem
sobre as sociedades de um novo tipo, cujas populações são, provavelmente,
mais capazes de autodefesa contra a opressão. A combatividade do novo negro
norte-americano em sua luta contra a discriminação racial dá-nos uma medida
dessa capacidade de autodefesa das camadas marginais das sociedades avançadas.
A
fonte principal dessas tensões é a promoção dos trabalhadores, da condição
de manuseadores de ferramentas à de operadores de máquinas e, finalmente, à
de supervisores de sistemas produtivos ultracomplexos. Estes, além de exigir
muito menor número de trabalhadores, não carecem de energia muscular nenhuma e
não requerem qualquer adestramento profissional. Em compensação, exigem, de
seus supervisores, uma qualificação educacional cada vez mais alta. Sua
implantação na indústria importa, em primeiro lugar, na eliminação maciça
de trabalhadores, e, a seguir, na proscrição progressiva da "aristocracia
operária", constituída pelos trabalhadores grandemente especializados,
para dar lugar a um contingente novo de operadores cada vez mais
intelectualizados e mais parecidos com as velhas camadas de empregados burocráticos
e com os engenheiros modernos.
Esse
complexo de desconexões mecânicas e humanas requer, além de reajustamentos no
parque fabril, na força de trabalho e nas instituições de previdência e
amparo, uma revisão completa do sistema educacional. Transformando a
escolaridade num drástico setor social, que exclua da vida produtiva os não-instruídos,
toma-se imperativa a abertura do sistema escolar de todos os níveis à
totalidade da população; impõe-se a revisão de todo o seu conteúdo
curricular para ajustá-lo aos graus de integração das ciências na cultura, e
toma-se indispensável o acesso de toda a força de trabalho a uma reeducação
continuada e de alto padrão ao longo de toda a vida produtiva.
Ante
esses desafios, essas sociedades tendem a reagir com esforços obstinados a fim
de evitar que a revolução tecnológica ponha em risco os interesses investidos
e ameace as estruturas tradicionais de poder. Para isso, condicionam a aplicação
das potencialidades de multiplicação da produtividade à consolidação do
regime vigente e procuram utilizar exaustivamente os novos e prodigiosos
sistemas de comunicação em massa para conformar uma opinião pública submissa
e disciplinada mediante uma doutrinação que a torne incapaz de qualquer opção
radical.
Contribuirão
decisivamente para uma reversão os movimentos de emancipação política, econômica
e cultural em que estão empenhadas as nações subdesenvolvidas. Espocando,
simultaneamente, em todo o mundo, ameaçam liquidar as bases neocoloniais do
sistema imperialista, compelindo à criação de novas constelações
internacionais. Desse modo caberá aos povos atrasados na história uma função
civilizadora do povos mais evoluídos, tal como, no paradoxo de Hegel, cabia
historicamente ao escravo o papel de combatente da liberdade.
As
vantagens alcançadas pelas sociedades mais avançadas poderiam induzi-las a se
fecharem sobre si mesmas para fruir seus progressos. Sua dependência do sistema
mundial de intercâmbio obrigá-las-á, porém, a interagir com os povos mais
atrasados. E esses, à medida que se tornem capazes de defender seus próprios
interesses, imporão novas formas de interação cada vez menos espoliativas às
relações internacionais.
Por
todos esses caminhos, o que está em marcha é uma etapa evolutiva nova, que
transmudará, mais uma vez, a condição humana agora de forma ainda mais
radical, porque colocará, finalmente, a ação modeladora de uma revolução
tecnológica sob o controle de uma política intencional de base científica.
Assim, na medida em que a ciência se translada do plano ideológico para o
adaptativo, confundida com a tecnologia, a intervenção racional humana é que
passará a gerir a história.
Até
essas atitudes, porém, muitos obstáculos terão de ser superados. Em primeiro
lugar, o das carências elementares - como a fome, a falta de vestimenta, de
moradia, de facilidades sanitárias mínimas contra enfermidades curáveis e o
acesso a um mínimo de escolaridade - que afligem a quase-totalidade da espécie
humana. Esse problema capital está intimamente relacionado com a orientação
do esforço científico e tecnológico, voltado, hoje, predominantemente, para
tarefas de destruição. Apenas uma percentagem irrelevante dos recursos
investidos em pesquisa se dirige à busca de melhores soluções para os
problemas representados por aquelas carências fundamentais de bens e de serviços.
Temos um exemplo deles na composição do corpo de tecnólogos e cientistas
norte-americanos: 140 mil se ocupam em pesquisas aeronáuticas, espaciais e de
eletrônica militar, mas apenas 1200 se dedicam a problemas da indústria têxtil,
4 mil estudam cimento e problemas de edificação e 5 mil investigam metalurgia
básica.
Soma-se
a esse problema o peso das diferenças de classe e da discriminação racial,
que continuam impondo condições desumanizadoras à maioria da espécie humana.
A superação desses percalços, hoje aparentemente intransponíveis, pode
fazer-se pela aceleração evolutiva acionada pela própria Revolução
Termonuclear no curso do processo de modelação das sociedades futuras. Não
será alcançada, porém, de forma espontaneista, porque importará num esforço
extraordinário, só praticável através de um planejamento rigoroso e da mais
completa cooperação internacional.
As
características dessas sociedades futuras são, hoje, pouco previsíveis.
Entretanto, algumas delas já são visíveis em nossos dias. Assim é que se
pode afirmar que o sentido do desenvolvimento humano aponta para a configuração
das sociedades futuras como formações socialistas de um novo tipo. Estas serão,
com toda a probabilidade, sociedades não estratificadas em classes econômicas,
embora de caráter infinitamente superior ao das comunidades tribais
indiferenciadas de que a humanidade partiu há dez milênios e em que
prevaleciam relações pessoais e igualitárias.
Uma
característica já visível das sociedades futuras será a superação da
diferença entre cidade e campo, pela industrialização das atividades agrícolas
em curso e pela expansão das cidades sobre as áreas adjacentes. Outra característica
será a superação da distância entre o trabalho braçal - praticamente
proscrito - e o trabalho intelectual. A composição da força de trabalho será,
majoritariamente, de pessoas com preparo de nível universitário, dedicadas a
toda sorte de tarefas, principalmente as educacionais, assistenciais, culturais
e recreativas, que experimentarão enorme expansão. Esses níveis mais altos de
preparo educacional terão igualmente o efeito de fazer, da maioria dos homens,
herdeiros do patrimônio cultural humano, tornado comum, e uma proporção
ponderável deles capaz de criatividade artística e intelectual.
A
ruptura entre o produtor e o produto do seu trabalho provocada pela mercantilização
do artesanato e acelerada, mais tarde, pela industrialização será, dessa
forma, superada, permitindo a cada pessoa exprimir-se no que faz. O desejo de
beleza, que amanheceu tão cedo nas sociedades humanas expresso em toda sorte de
artefatos mais perfeitos e trabalhos do que o necessário para serem operativos
e foi tão cedo soterrado pela mecanização e pela especialização, voltará a
florescer. Quebrar-se-ão, assim, os círculos fechados de artistas herméticos
e de apreciadores eruditos para devolver a arte e a criatividade artística ao
homem comum.
Tocqueville,
ideólogo do liberalismo, apreensivo com o amadurecimento dessas tendências
despersonalizadoras e despóticas, perceptíveis em seu tempo, registrou, em
1835, a seguinte antevisão das sociedades futuras:
Vejo
uma multidão inenarrável de homens, iguais e semelhantes, que giram sem
descanso sobre si mesmos com o único fim de satisfazer os pequenos e vulgares
prazeres com que enchem suas almas. Cada um deles vive à parte, alheio ao
destino de todos os demais. Seus filhos e seus amigos constituem para ele toda a
espécie humana. Enquanto concidadãos, está junto deles sem vê-los; toca-os
sem o sentir. só existe em si e para si mesmo. Se lhe resta uma família,
pode-se dizer que já não lhe resta uma pátria. Acima de todos eles eleva-se
um poder imenso e tutelar que se encarrega, sozinho, de garantir seus prazeres e
de velar por eles. Este poder é absoluto, minucioso, regular, previdente e apacível.
Pareceria um poder paternal se, como este, tivesse por objetivo preparar os
homens para a idade viril; ao contrário, porém, busca apenas fixá-los
irrevogavelmente na infância. Não lhe desgosta que os cidadãos gozem, sempre
e quando só pensem em gozar. Trabalha com gosto para fazê-los felizes, mas
quer ser o único agente, o único árbitro. Supre sua segurança, provê suas
necessidades, facilita seus gozos, gestiona seus assuntos importantes, dirige
sua indústria, regula suas sucessões, divide sua herança. Ah, se pudesse livrá-los
inteiramente do incômodo de pensar e da dor de viver!
Um
dos principais imperativos que as sociedades futuras terão de enfrentar será o
de pôr sob controle essas tendências ao despotismo que preocupavam Tocqueville.
Para tanto, terão de situar no centro das preocupações coletivas, como o
valor mais alto, o cultivo e o estímulo ao livre desenvolvimento da
personalidade humana, o incentivo a todas as formas de expressão da
criatividade e a exploração de todas as potencialidades humanas de desenvolver
formas de conduta solidária e socialmente responsável.
Em
1859, Marx, o ideólogo do socialismo, também procurou prefigurar as sociedades
futuras, mas o fez a partir de uma posição otimista, que não via a
prosperidade ordenada como uma condenação, mas como uma liberação de todas
as potencialidades humanas:
De
fato, diz Marx, uma vez abandonada
a estreita forma burguesa, que será a riqueza senão a universalidade de
necessidades, capacidades, gozos, poderes de produção etc. dos indivíduos,
produzida no intercâmbio universal? Que será, senão o desenvolvimento pleno
do domínio humano sobre as forças da natureza, as de sua própria natureza,
assim como da chamada natureza? Que será. senão a explicitação absoluta de
suas faculdades criadoras, sem outro requisito prévio que a evolução histórica
precedente, que tornará a totalidade dessa evolução - isto é, a evolução
de todos os poderes humanos como tais, sem os medir com nenhuma vara previamente
estabelecida - um fim em si mesmo'? Que será isto, senão uma situação na
qual o homem não se reproduza a si mesmo de uma forma determinada, senão que
produz sua totalidade; em que não procura perdurar como algo formado pelo
passado, mas se coloca no movimento absoluto do devenir?
O
futuro imediato das sociedades mais avançadas será o de Tocqueville ou de
Marx, conforme se desenvolvam as virtualidades de despotismo ou de liberdade de
que estão prenhes.
O futuro mais longínquo, o do homem, será, certamente, o da antevisão de Marx. Este se cristalizará no curso de uma civilização que amadurecerá com o novo homem, já não adjetivável étnica, racial ou regionalmente. Essa será a civilização da humanidade.