DO BRASIL “QUE TEMOS” AO BRASIL “QUE QUEREMOS”

 

Prof. Dr. Plínio de Arruda Sampaio

 

Plínio de Arruda Sampaio nasceu em São Paulo, em 1930. Formado em direito pela USP (1954), fez mestrado em Desenvolvimento Econômico Internacional, na Universidade de Cornell. nos Estados Unidos (1975). Foi presidente da Juventude Estudantil Católica (JEC), de São Paulo, na década de 50. Deputado Federal em três legislaturas (1962-1964; 1985-1986; 1986-1990); Relator do capítulo do Poder Judiciário na Assembléia Nacional Constituinte. Foi líder da Bancada Federal do Partido dos Trabalhadores e candidato a Governador do Estado de São Paulo. nas eleições de 1990.

 

O BRASIL QUE QUEREMOS

 

A parte da proposta foi organizada em torno de seis itens:

1-Os vários “Projetos de Brasil”;

2-Dificuldades do povo para formular o seu projeto;

3-Objetivos de um projeto popular;

4-A condição básica para alcançar os objetivos;

5-Viabilidade do projeto popular;

6-Obstáculos à execução do projeto popular.

  

1.    Os vários projetos de Brasil

 

As brasileiras e os brasileiros que, não se conformando com o Brasil que temos, debruçaram-se sobre os problemas do país, na busca de alternativas a uma realidade inaceitável, coincidem todos na idéia de que eles não serão resolvidos sem transformações socioeconômicas pro­fundas, que criem as bases de uma sociedade mais igualitária e dotada de maior autonomia no plano econômico.

Para determinar a natureza e o conteúdo dessas transformações é que se necessita esboçar as linhas gerais do Brasil que queremos.

Mas é preciso muita atenção para entrar no debate deste tema, pois não há acordo entre os brasileiros a respeito do projeto político apto a fazer a passagem do Brasil que temos para o Brasil que queremos. Nem seria possível essa concordância, uma vez que a população está dividida entre classes sociais com interesses muito distintos e até antagônicos.

As classes dominantes usam o seu poderosíssimo dispositivo de comunicação para difundir um discurso enganoso sobre os “assuntos de interesse geral de todos”, porque uma das estratégias da dominação dessas classes sobre o povo consiste precisamente em apresentar seus interesses específicos como se fossem interesse geral do país.

Convém, por isso, antes de explorar as linhas gerais do Brasil que queremos, examinar os vários projetos das classes dominantes.

 

1.1.  O projeto das oligarquias rurais

 

Oligarquia, como a palavra diz, é o governo de um pequeno grupo. Durante todo o Império e a República Velha, um período que cobre mais de cem anos, o Brasil foi governado pelos grandes senhores de terra —um grupo pequeno, mas muito poderoso — e essas elites só pensavam em organizar uma economia que lhes permitisse desfrutar padrões de consumo e estilos de vida típicos dos ricos da Europa. Para isso, monta­ram uma economia agrária apta a exportar para os mercados europeus. Com as divisas provenientes desse comércio, elas importavam os pro­dutos que lhes proporcionavam o padrão de consumo desejado. De acordo com esse modelo de organização da economia, o Estado só deveria intervir nos assuntos econômicos para preservar a riqueza e a renda das “classes produtoras” — os ricos fazendeiros e senhores de engenho.

No plano da organização social, o projeto das elites era muito claro: estabelecer uma sociedade, com linhas divisórias intransponíveis entre as classes sociais.

No plano político, a participação era restrita às pessoas de posses. No Império e na República Velha só votavam os homens, e só os homens que possuíssem um patrimônio superior a determinados limites.

 

1.2.  O projeto das elites urbanas

 

A partir da revolução de 1930, que marcou o fim do poder hegemônico das oligarquias rurais, as posições relativas das classes dominantes sofreram importantes modificações. As oligarquias rurais dos vários Estados, mas especialmente dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, que eram as mais fortes, perderam muito do seu poder para elites urbanas — banqueiros, industriais, grandes comerciantes. Não foram, contudo, excluídas do círculo do poder. Formou-se um novo bloco de poder, no qual elas participavam em posição subordinada. Esse bloco fez então um pacto político com as classes médias urbanas — profissionais liberais, militares, professores — e com o operariado fabril urbano, que, embora ainda reduzido, começava a crescer e a organizar-se nos centros mais importantes. Os cientistas políticos chamam esse novo esquema de divisão do poder político de “pacto populista”, por causa do novo tipo de relações entre as classes dominantes e a massa popular urbana. Foi esse pacto que forneceu a base de sustentação para o projeto de se industrializar o país.

Esse projeto, fruto de uma composição política entre classes sociais pouco estruturadas e com interesses distintos e até antagônicos, estava cheio de contradições. Por isso, durante todo o período em que foi o eixo condutor das políticas econômicas do Estado, as políticas do Esta­do oscilaram de um lado para outro, em função das disputas entre as facções internas do bloco de poder. De modo geral, pode-se dizer que as principais facções eram os industrialistas, os agraristas, os nacionalistas e os entreguistas. Elas formavam, ao sabor das flutuações do jogo político, as mais estranhas combinações. Industrialistas e agraristas se dividiram em tomo de questões como: “confisco cambial” (um expediente usado para transferir renda da agricultura para o setor industrial); protecionismo (consiste no processo de taxar ou até mesmo proibir as importações para reservar mercado cativo para os industriais locais) ou liberalização do comércio exterior, câmbio livre ou administrado, em­presas estatais ou entrega ao capital estrangeiro; planejamento econômico ou livre iniciativa do mercado.

Ficou famoso na época o debate entre Roberto Simonsen, líder dos industriais paulistas e defensor do planejamento estatal, e Eugênio Gudin, um renomado professor de economia, guru (até hoje) do liberalismo econômico, que defendia o mercado como único reitor da economia.

Nacionalistas e entreguistas, por seu lado, se digladiaram em tomo da estatização ou privatização de empresas e serviços públicos. Marcou época a disputa pela criação da Petrobrás como empresa estatal.

Mas embora divididas quanto à política econômica, as classes proprietárias mantiveram-se sempre unidas no boicote à legislação. trabalhista e à liberdade sindical. Para se ter uma idéia disso, basta lembrar que elas conseguiram bloquear a extensão da legislação trabalhista ao campo até 1961! (Na verdade, esta legislação não entrou plenamente em vigor ate hoje!)

Entretanto, apesar de todas essas incoerências e vacilações, o projeto populista provocou uma transformação completa na economia e na sociedade brasileira. De uma economia agrária-exportadora e de uma sociedade rural, passamos, em apenas cinco décadas, a uma economia industrial — a oitava do mundo — e a uma sociedade majoritariamente urbana.

O preço pago para conseguir esses resultados foi altíssimo, tanto em termos humanos como em termos ecológicos.

A transferência de renda da agricultura para a indústria desintegrou a economia rural, provocando uma migração massiva da população do campo para as cidades. Parte dessa população pôde ser absorvida pela indústria nascente, mas parte não encontrou lugar na fábrica e foi obrigada a buscar meios de vida precários e informais, nascendo daí o subemprego, as favelas, os bairros da periferia.

A necessidade de conseguir divisas para montar o parque fabril exigiu um sobre-esforço exportador que significou o estímulo a atividades mineradoras e extrativistas (madeira, borracha) e à expansão acelerada das áreas plantadas com produtos exportáveis. Não houve um planejamento adequado e, menos ainda, uma fiscalização eficaz dessas atividades, de modo que elas significaram desmatamento brutal e desordenado, erosão acelerada dos solos, poluição dos rios, destruição da fauna, devastação do habitat dos povos indígenas.

Podemos distinguir duas grandes etapas nesse período da nossa história: em uma primeira etapa, que vai aproximadamente dos anos trinta à metade dos anos cinqüenta, os nacionalistas preponderaram, de modo que os centros decisórios nacionais fortaleciam-se à medida que a industrialização avançava; em uma segunda etapa, que vai, aproximadamente, de 1955 a 1980, os entreguistas prevaleceram e os capitais estrangeiros passaram a dominar praticamente todos os campos da produção industrial. O curioso é que essa desnacionalização se deu no bojo de um discurso nacionalista. De fato, tanto Juscelino Kubitschek como os militares que assumiram o poder em 1964 proclamaram-se defensores da nação, do desenvolvimento econômico do Brasil, da transformação do país em uma potência econômica e política.

Apesar das diferenças e disputas internas, prevaleceu, durante todo o período de 1930 a 1980, uma linha de intervenção do Estado e de compromisso com a manutenção de certos padrões de consumo dos setores mais organizados do operariado urbano. Tendo em vista essa característica e o fato de que Getúlio Vargas foi a figura política referencial em todo o período, os cientistas políticos englobam todo esse período no que chamam de “A era Vargas”.

 

1.3.  Os projetos dos modernizantes

 

A Era Vargas foi golpeada de morte na segunda metade dos anos setenta, quando o sistema capitalista mundial entrou em crise.

As mudanças aconteceram no centro do capitalismo: flutuação do dólar; aumento enorme da dívida externa americana, criando uma mas­sa de dinheiro sem lastro na produção e dando origem à brutal especulação financeira dos nossos dias; crescimento extraordinário do poder das transnacionais; revolução tecnológica.

Toda as vezes que há mudança no centro do sistema capitalista, as relações centro-periferia se alteram. Como o Brasil é — e sempre foi — um país situado na periferia do capitalismo, o primeiro efeito das mu­danças ocorridas no centro foi o de inviabilizar o modelo de desenvolvi­mento intervencionista da Era Vargas.

As classes dominantes demoraram a perceber o tamanho da mudança e para atinar o que fazer diante dela.

A primeira reação foi a de “fugir pra a frente”. No governo do General Geisel (1974-1979), o Brasil assumiu uma enorme dívida ex­terna e usou-a para completar a industrialização. Logo se tomou impossível seguir adiante, porque os credores externos exigiram o pagamento da dívida antes que os investimentos começassem a dar retorno.

Houve ainda uma segunda — e mais tímida — tentativa de “fuga para a frente” com o Plano Cruzado, no começo do governo Sarney. O governo fez baixar a inflação e estimulou o surgimento de pequenas empresas, provocando cena animação na economia. Mas durou muito pouco. Em apenas poucos meses, o plano foi estrangulado pela “comunidade financeira internacional” — o conjunto formado pelas instituições financeiras internacionais como o FMI, o Banco Mundial, a Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos e os grandes bancos internacionais. Os capitalistas brasileiros foram cúmplices desse processo. Esconderam produtos, atrapalharam a comercialização, recusaram-se a investir, frustrando o combate à inflação, que era essencial pra o êxito do plano. Quando o Cruzado já estava exausto, o governo decretou a moratória e deixou de pagar a dívida externa. Mas, nessas alturas, o plano já estava morto.

A reação da comunidade financeira internacional à moratória não demorou: ela “gelou” o Brasil, negando-se a emprestar dinheiro ao país enquanto ele não encontrasse meio de pagar a dívida e enquanto não se ajustasse às exigências da nova ordem econômica internacional. Essas exigências são as que formam parte do “Consenso de Washington” (os economistas chamam assim a “receita econômica” do FMI para os países subdesenvolvidos) e incluem: liberalização do mercado exterior e das aplicações de capital, privatização das empresas estatais, nova lei de patentes, desregulamentação da economia.

Durante toda a década de oitenta, as classes dominantes vagaram de uma política a outra, sem saber o que fazer, cuidando apenas de preservar a sua riqueza — o que, isto sim, souberam fazer com muita eficácia, passando para a conta do Tesouro brasileiro as dívidas que as empresas privadas haviam feito no exterior na época do “milagre brasileiro”, ou seja, naqueles sete anos (1967-1973) em que a economia brasileira atingiu taxas superiores a 10%. Essa medida arrebentou financeiramente o Estado brasileiro, mas deu à classe empresarial a liquidez de que ela necessitava para negociar um novo trato com o capital estrangeiro.

Na década de oitenta, a Era Vargas estava inviabilizada, mas, embora agonizante, se mantinha viva, porque as classes dominantes ainda não haviam conseguido um consenso sobre o novo modelo de economia do país. Isso só foi acontecer no final dos anos oitenta, após o susto que leva­ram com a votação de Lula, nas eleições de 1989. Foi aí que elas se unificaram, elegendo Fernando Collor para fazer a abertura do comércio exterior, começar a privatização e arrebentar a estrutura do Estado brasileiro.

A Era Vargas morreu nessa ocasião, mas o corpo ficou insepulto, porque Collor era incompetente demais para dar um mínimo de coerência às ações da sua administração. Entretanto, seus três anos de governo não foram desperdiçados pelas classes dominantes: durante esse tempo as coisas ficaram mais claras, tanto no plano internacional — com a autodissolução da União Soviética e com a crise do socialismo em todo o mundo — quanto no plano interno — com a quebra do poder de negociação dos sindicatos, em decorrência da liberalização da economia. As classes dominantes tiveram então condições e tempo para tecer novas alianças internas e externas e para conceber um outro projeto de Brasil. O resultado dessas tratativas foi o governo FHC.

A primeira frase do programa de governo de FHC diz: “O Brasil não é mais um país subdesenvolvido, é um país injusto” (1994). E as primeiras palavras que ele pronunciou após a eleição foram: “Meu governo vai virar a página da Era Vargas e colocar o Brasil na modernidade”. (Entrevista coletiva televisada. Janeiro 1995.)

O significado dessas afirmações só se toma claro quando se analisa como surgiu e em que consiste o projeto da modernidade.

As transformações ocorridas no sistema capitalista mundial colocaram para as classes dominantes o seguinte dilema: ou prosseguir no processo de construção nacional ou ceder às exigências da comunidade financeira internacional e abrir mão dele.

No primeiro caso seria preciso tomar duas decisões graves: romper com a comunidade econômica internacional e admitir a participação das classes populares no poder.

No segundo caso: abandonar definitivamente qualquer projeto de autonomia econômica, ceder a todas as exigências externas e alijar definitivamente as classes populares, não apenas da limitada participação que elas têm hoje no plano político, mas até mesmo do poder de pressão que os sindicatos tinham adquirido no período da Era Vargas.

As classes dominantes optaram pelo segundo caminho e, unificadas em torno dele, lançaram-se decididamente no que Leo Lince denominou “um processo de restauração oligárquica”, ou seja, na montagem de um dispositivo de dominação política semelhante à que vigorava no Brasil antes da revolução de 1930 e que se caracterizava por reservar o poder político a uma pequena minoria.

 

Em que consiste o projeto das classes dominantes?

Esse projeto recebeu o nome de “modernizante”, porque visa a introduzir na economia e na sociedade os padrões tecnológicos e de consumo, vigentes nos países mais adiantados do sistema capitalista.

No plano econômico, isso significa a abertura completa da nossa economia aos capitais estrangeiros. Eles poderão investir nos setores que quiserem, vender e comprar o que quiserem, entrar e sair quando quiserem, sem se sujeitar a quaisquer restrições.

Além disso, o Estado deixará de intervir na economia. Quem regulará a produção será o mercado. Os preços, a oferta de emprego, os salários, os investimentos aumentarão ou se reduzirão em obediência exclusiva às leis do mercado.

Esperam as classes dominantes que, por uma série de traços positivos da economia brasileira — tais como a enorme dotação de recursos naturais do país, o tamanho do seu mercado potencial, o grau de desenvolvimento das suas forças produtivas —, os capitalistas estrangeiros venham investir massivamente no país, acelerando o crescimento da economia. Esta é a aposta que fizeram. Uma aposta evidentemente temerária. Primeiro, porque essas vantagens todas não constituem os principais determinantes dos investimentos estrangeiros; segundo, porque a maior parte dos capitais que vierem para a Brasil não se aplicarão em setores de ponta, mas naqueles que proporcionarem maior lucro a curto prazo. Estes são os setores de baixo conteúdo tecnológico, que só podem competir nos mercados mundiais porque seu preço é fixado em função da sobre-exploração da mão-de-obra e da degradação da natureza. Mas isso, que é gravíssimo, não preocupa muito as classes dominantes. Para elas, o que importa é que o ingresso massivo de capitais estrangeiros lhes permitirá acesso aos padrões de consumo moderno e a criação de um excedente suficiente para manter a pressão social das classes trabalhadoras e dos “inempregáveis” em níveis compatíveis com a estabilidade política.

Esse é o verdadeiro modelo modernizante que surge claramente de toda análise que ultrapasse o discurso enganoso do governo. (Mas convém deixar registrado que a traição das classes dominantes não foi suficiente até agora para assegurar sequer a realização das metas rebaixadas que elas fixaram para si próprias.)

No plano político, o projeto das classes dominantes consiste em institucionalizar um sistema de “democracia restrita”. Isso deverá ser conseguido por meio de uma combinação de dois elementos: de um lado, o poder judiciário, encarregado de assegurar o cumprimento de uma legislação civil e penal que obstaculiza qualquer movimento ou pressão por uma distribuição mais eqüitativa da riqueza e da renda; e, de outro lado, a mídia, encarregada de “fabricar consensos” favoráveis à manutenção do poder dos ricos, mediante sofisticadas técnicas de manipula­ção da opinião pública.

No plano das relações entre as classes sociais, o projeto das classes dominantes traz implícito o sistema do “apartheid social”, que consiste na separação física entre os membros das classes dominantes e a massa da população. Isso se consegue mediante o isolamento da população rica em espaços de uso exclusivo — espaços protegidos por altos muros e por polícias privadas fortemente armadas. Os condomínios fechados, as marinas exclusivas, os “shoppings” acessíveis apenas a clientes selecionados, os heliportos, os carros blindados, as firmas de segurança são os embriões do tipo de sociedade sonhada pelas classes dominantes.

Obviamente não é esse o Brasil que queremos, o Brasil que responde às aspirações de liberdade, justiça social, participação política, prosperidade material e aprofundamento cultural da imensa maioria do povo brasileiro.

 

 

2. Dificuldades das classes populares para gestar um projeto

alternativo

 

As classes populares têm aspirações que podem ser a base de um projeto alternativo ao das classes dominantes, mas essas aspirações ainda não constituem esse novo projeto. Para isso, é preciso definir objetivos claros e uma estratégia para atingi-los. As classes populares ainda não conseguiram cumprir estes dois requisitos. No entanto, nada é mais importante do que isto para o futuro do nosso pais, pela seguinte razão: a humanidade está vivendo, nesta passagem de século, um momento histórico da mesma natureza daquele do final século XVIII (Revolução Francesa, fim do domínio da aristocracia, vitória final do capitalismo sobre o feudalismo, ascensão da burguesia como classe dominante das sociedades capitalistas), ou seja: estamos vivendo os anos finais de um longo ciclo histórico e anos iniciais de outro ciclo longo da história. São momentos dessa natureza que abrem e fecham oportunidades para os povos. Alguns os aproveitam e tornam-se autônomos, independentes, protagonistas da própria história. Outros “perdem o bonde da história” e permanecem durante séculos em uma condição inferior, sem autonomia para organizar sua própria economia e conseqüentemente sem condições de beneficiar-se dos avanços materiais e espirituais da civilização.

Foi no bojo das transformações do final do século XVIII e começo do século XX que o Brasil tornou-se independente de Portugal, mas a forma como se processou a nossa independência impediu que “pegássemos o bonde” da primeira onda da industrialização. As instituições políticas, sociais e econômicas do período colonial eram incompatíveis com as exigências das sociedades industrializadas, e o Brasil, embora tivesse se tornado independente nas primeiras décadas do século XIX, não ha­via conseguido superar inteiramente aquelas instituições. Por isso, só pôde incorporar-se ao primeiro surto de industrialização com cem anos de atraso, pois a Primeira Revolução Industrial é um acontecimento do final do século XVIII e nossas primeiras indústrias começaram a se instalar no final do século XIX. Foram necessários mais sessenta anos para dar início à Segunda Revolução Industrial, pois esta começou por volta de 1870 e só tomamos decididamente esse rumo a partir da Revolução de 1930. Gastamos cinco décadas para incorporá-la (1930-1980). Quando conseguimos atingir essa meta, a humanidade alçava-se a um novo estágio da economia — a etapa pós-industrial — deixando novamente o Brasil pra trás.

Fazendo uma leitura “realista” da situação criada por essa nova “virada” da história, as classes dominantes tomaram a decisão de renunciar ao projeto de construção nacional. Preferiram entregar o país ao capital estrangeiro a lutar ao lado do povo para assegurar um lugar decente na nova ordem econômica, social e política que se está gestando atualmente. Essa decisão fatídica deixou o povo brasileiro em uma encruzilhada fatal: assumir o projeto nacional que as classes dominantes abandonaram e enfrentar um período de enormes sacrifícios e lutas ou aceitar submissamente a decisão das classes dominantes e vegetar, em uma posição subalterna, durante todo o tempo do novo ciclo histórico que está se iniciando.

Celso Furtado viu esse dilema com grande lucidez e por isso escreveu:

“Em meio milênio de história, partindo de uma constelação de feitorias, de populações indígenas desgarradas, de escravos transplanta­dos de outro continente, de aventureiros europeus e asiáticos em busca de melhor destino, chegamos a um povo de extraordinária polivalência cultural, um país sem paralelo pela vastidão territorial e homogeneidade lingüística e religiosa. Mas nos falta a experiência de provas cruciais como as que conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou a estar ameaçada. E nos falta também um verdadeiro conhecimento de nos­sas possibilidades, e principalmente de nossas debilidades. Mas não ignoramos que o tempo histórico se acelera, e que a contagem desse tem-pose faz contra nós” (1992, p. 35).

Construir o Brasil que queremos é, portanto, preparar-se para enfrentar uma dura luta, pois esse projeto não consiste em uma série de políticas públicas formuladas por técnicos, mas na definição de objetivos históricos que se contrapõem ao movimento natural da história, uma vez que, se nos lembramos da advertência de Celso Furtado, citada no início desta análise, a construção da nação já não se inscreve mais no curso natural da nossa história.

O que não acontece naturalmente só poderá acontecer se houver uma vontade política suficientemente forte para mudar o rumo natural das coisas.

A conclusão disso é que: ou o povo brasileiro, reunido em um grande movimento cívico-político, decide “remar contra a maré da história” ou esta maré nos imporá novamente um destino de subordinação, de privações, de injustiças e sofrimentos.

 

 

3.    Objetivos de um projeto popular para o Brasil

 

Os elementos que precisamos articular para pensar o Brasil que queremos são: consciência da encruzilhada histórica em que se encontra o nosso país; o conhecimento das nossas possibilidades; e os valores éticos, espirituais e culturais que inspiram nosso esforço.

Com base neles, podemos projetar uma imagem do futuro que se quer construir.

Assim, o Brasil que queremos será uma sociedade de pessoas iguais em direitos e deveres. Essa igualdade será assegurada tanto pelas instituições destinadas a executar as leis como por uma distribuição eqüitativa da riqueza e da renda. Essa distribuição permitirá abolir a pobreza, garantindo a todos os habitantes do país o acesso a bens e serviços materiais e culturais indispensáveis a uma vida digna, nos termos do que se entende por isso em nossa civilização. Permitirá ainda reduzir drasticamente as distâncias entre as camadas sociais situadas nos escalões superiores e inferiores da pirâmide de distribuição da renda.

Viveremos, conseqüentemente, em uma sociedade mais homogênea, portadora de valores humanistas da civilização ocidental e baseada em nexos de solidariedade que ligarão as classes sociais e as regiões do país.

O Brasil que queremos será uma nação independente, soberana, dotada de autonomia suficiente para tomar as medidas que assegurem a consecução dos objetivos acima referidos.

Vamos, portanto, retomar em outras bases o projeto de construção nacional, a fim de completar a transição entre o Brasil-colônia de ontem para o Brasil-nação de amanhã — tendência que expressa contradição básica da nossa sociedade e que, no entender de Caio Prado Jr., constitui a essência da nossa história.

As linhas gerais de uma estratégia destinada a atingir esses objetivos são bastante simples: reformas estruturais para distribuir a riqueza hoje concentrada em uma camada extremamente reduzida da população (reforma agrária e reforma urbana); políticas agrícolas, industriais e de rendas destinadas a garantir pleno emprego e uma produção suficiente para abastecer a população; política de ciência e tecnologia que submeta a modernização tecnológica às necessidades e ao ritmo de desenvolvi­mento nacional; política internacional voltada para unificar o bloco das nações subdesenvolvidas em torno de medidas de preservação de sua autonomia e de suas culturas.

A visão do Brasil que queremos, aqui resumida, tem várias e importantes implicações.

A primeira delas é a de que, para concretizar esse projeto, as classes populares precisam arrebatar o poder político das classes dominantes. Não se trata, portanto, de um programa de reformas do modelo de modernização que aquelas classes estão implantando nem de uma proposta técnica que possa ser realizada com as instituições vigentes. Para que uma sociedade igualitária possa surgir no Brasil, é preciso que a atual correlação das forças políticas que dá sustentação ao Estado brasileiro seja substancialmente alterada.

Em razão disso, não há lógica em discutir a viabilidade do projeto do Brasil que queremos, no contexto das instituições e leis atuais, bem como das normas impostas pelo FMII e outros parâmetros que balizam o raciocínio dos que pensam saídas para o Brasil dentro da lógica do atual sistema. A discussão racional da viabilidade do Brasil que queremos consiste em verificar se os objetivos aqui referidos são compatíveis com as possibilidades concretas da nossa sociedade, nesta conjuntura da história do mundo e do Brasil.

 

 

4.    A condição básica para alcançar os objetivos: completar a construção da nação

 

A condição básica para alcançar os objetivos acima resumidos é completar a construção da nação brasileira.

Para examinar essa condição com cuidado, convém precisar —sempre dentro da visão do Brasil que queremos — o que se deve entender por completar a construção da nação.

Plínio Sampaio Jr., em um ensaio denominado “O Impasse da Formação Nacional” (1999), desenvolveu sobre este aspecto um raciocínio que pode ser assim resumido: o projeto de retomada da construção nacional interrompida é uma elaboração de democratas em contraposição à tradição oligárquica. Desse modo, a nação a que nos referimos não é essa entidade cheia de ambigüidades que a classe dominante brasileira estava construindo e acabou por abandonar no meio da construção. Sob o comando das forças populares, a estruturação do Estado brasileiro como uma nação independente, soberana e livre, é um meio de submeter o desenvolvimento do nosso país à vontade da maioria do povo. Assim, a construção da nação não se justifica pelo fato de que formamos uma “raça brasileira”, nem de que dispomos de enormes recursos naturais, ou de que temos o destino manifesto de “grande potência”. Todas essas concepções correspondem a um nacionalismo estreito e escondem a natureza autoritária e hierarquizada de nossa formação social. Não é por nenhum desses motivos que devemos nos empenhar na construção da nação, mas porque desejamos resolver os problemas concretos da população e formar uma sociedade homogênea, portadora dos valores humanistas da civilização ocidental.

“Nesta abordagem, o espaço nacional não passa de um instrumento para proteger a coletividade dos efeitos destrutivos das transformações que se irradiam do centro do sistema capitalista mundial e para planejar a internalização das estruturas e dos dinamismos da civilização ocidental de modo condizente tanto com o aumento progressivo do grau de autonomia e criatividade de nossa sociedade quanto com a elevação da riqueza e do bem-estar da totalidade do povo” (Sampaio Jr., 1999, p. 417).

A idéia da construção nacional sofre duas objeções.

Primeira: a nação é uma forma ultrapassada de organização do poder político, uma vez que, com a globalização, os Estados nacionais serão substituídos, mais dia menos dia, por formas de poder político supra-nacionais.

Segunda: o projeto de nação, originário da burguesia, traduz uma concepção limitada e egoísta de organização do poder político e, portanto, uma concepção incompatível com uma visão mais ampla da solidariedade que deve unir todos os povos da terra.

A essas objeções pode-se responder que a nação é um instrumento que vale para determinada situação histórica. Na situação atual do mundo, esse instrumento constitui a única alternativa que as sociedades têm para evitar o impacto destruidor da globalização. Quando essa conjuntura histórica modificar-se e o movimento socialista conseguir abalar o centro do capitalismo internacional, soará a hora dos Estados nacionais e será necessário criar formas supra-nacionais de organização do poder político das massas populares.

 

 

5.    Viabilidade do projeto nacional

 

Delineada, em suas tinhas muito gerais, a imagem do Brasil que queremos, surge, de modo imediato, a pergunta: é possível concretizar essa imagem? Terá a economia brasileira, sem receber capitais e tecnologia estrangeira, a capacidade de produzir uma variedade de bens e serviços suficientemente grande para que todos possam ter acesso a uma vida de qualidade?

A resposta é sim.

O potencial produtivo de uma economia é dado por três fatores: a) a relação entre os recursos naturais e o tamanho da população; b) a magnitude e o nível tecnológico do seu parque produtivo e da sua infra-estrutura econômica; c) a capacidade intelectual da sua população.

 

 

5.1. Recursos naturais

 

Quanto à relação recursos naturais/população, podemos nos valer novamente de Celso Furtado:

“Em poucas áreas do mundo a relação homem/recursos naturais, inclusive solo e água para agricultura, é tão favorável como entre nós” (1992, p. 85).

Não é o caso de descrever aqui todos os imensos recursos naturais de que dispomos, em termos de extensão de terras aráveis, dimensão dos depósitos minerais, volume de água utilizável na agricultura, biodiversidade etc. Qualquer levantamento demonstrará a enorme desproporção entre o que temos dentro do nosso território e o quanto se requer para transformar isso tudo em alimentos, vestuário, habitação e bens de consumo para atender às necessidades dessa população. Pode-se contar nos dedos as matérias-primas e os produtos que teríamos de importar para suprir carências do nosso patrimônio natural para produzir tudo quanto o povo brasileiro necessita para ter um padrão de vida confortável.

 

5.2. Infra-estrutura

 

Quanto ao grau de desenvolvimento da infra-estrutura, cabe assinalar que nossa capacidade de produção de energia — petróleo, gás natural, energia hidroelétrica, energia de biomassa — é perfeitamente com­patível com as quantidades requeridas para sustentar o modelo. Nesse aspecto, aliás, o Brasil leva grande vantagem sobre muitas nações industrializadas, pelo fato de que nosso clima e a vastidão do nosso território favorecem sobremaneira a produção de energia a partir da biomassa (álcool de cana-de-açúcar, dendê, madeira).

Essa rede de transportes rodoviários, ferroviários, fluviais e de navegação costeira é grande, embora insuficiente para atender a um volume de produção muito superior ao atual. Essa rede, em razão da prioridade que se deu, durante séculos, ao objetivo de exportar, é incoerente e descola­da das necessidades de transporte de uma economia voltada para o bem­estar da população. Mas isso pode ser corrigido, a um custo compatível com nossas possibilidades, dentro de um prazo relativamente curto.

O sistema de telecomunicações desenvolveu-se rapidamente na década de setenta, chegando a cobrir praticamente todo o território nacional. Esse ritmo foi quebrado na hora em que as classes dominantes decidiram “modernizar” o país, entregando a Telebrás e a Embratel a monopólios estrangeiros. Mas, se é verdade que isso coloca o problema de retomar o controle desse setor da economia, não é menos verdade que já demonstramos ter capacidade para responder ao desafio de construir uma rede de telecomunicações compatível com nossas necessidades.

Nestes cinqüenta anos, o Brasil construiu uma enorme infra-estrutura econômica. Ela se encontra atualmente defasada em alguns pontos, mas não constitui, de modo algum, um “ponto de estrangulamento” (os economistas chamam de ponto de estrangulamento a falta de energia, de estradas, de portos, de linhas telefônicas, em uma proporção tal que não há como aumentar a produção rapidamente). Pelo contrário, nossa infra-estrutura já é bem grande e pode ser atualizada rapidamente, sendo de se considerar ainda que, nesta etapa de retomada do crescimento, o reacondicionamento e a ampliação dessa infra-estrutura constituem fatores de dinamização da atividade econômica e uma oportunidade formidável para aumentar rapidamente a oferta de empregos.

 

5.3. Parque produtivo

 

O parque produtivo brasileiro compõe-se de três grandes panes: o setor agrícola, o setor industrial e o setor de serviços.

 

Setor agrícola

 

O    setor agrícola divide-se em dois tipos de unidades produtivas: — unidades modernas, integradas no complexo agro-industrial (chama-se complexo agro-industrial o conjunto das empresas que produzem as sementes, os adubos, os defensivos, as máquinas e os instrumentos indispensáveis à produção, além das empresas que processam os produtos agrícolas e animais, como os grandes laticínios, os moinhos de grãos, e as que comercializam os produtos agrícolas); — unidades não integradas nesse complexo, constituídas, em sua maioria, pela agricultura familiar tradicional.

Essa estrutura terá de ser totalmente alterada para que a economia agrícola possa responder, com sistemas produtivos menos agressivos à natureza, a uma demanda de alimentos muito superior à atual, uma vez que, de acordo com o projeto do Brasil que queremos, essa demanda não será apenas a dos segmentos sociais de rendas mais elevadas, mas uma demanda formada pela totalidade da população.

Do ponto de vista que aqui nos interessa, ou seja, do ponto de vista da capacidade de resposta do setor agrícola, não há dúvida de que o grau de desenvolvimento das forças produtivas do campo brasileiro é suficiente para assegurar a consecução do objetivo de assegurar uma dieta alimentar adequada a todos os habitantes do país, sem necessidade alguma da injeção de capitais ou de tecnologias estrangeiras.

 

Setor industrial

 

O setor industrial brasileiro requer uma análise mais detida. Nos vários estudos que se fizeram recentemente, constatou-se que, nos anos oitenta, o parque industrial brasileiro encontrava-se no nível que os especialistas chamam de “estado da arte”, ou seja, as fábricas brasileiras estavam no mesmo nível tecnológico das fábricas dos países industrializados, tanto em termos de equipamentos quanto dos processos produtivos. Por outro lado, abrangiam todos os setores da produção industrial: produtos básicos, intermediários, e de consumo. Em resumo: em 1980, o Brasil havia conseguido completar a sua “revolução industrial”.

De 1980 para cá, essa indústria ficou tecnologicamente atrasada, pois as técnicas produtivas foram revolucionadas pela informática, pela eletrônica, pela robotização (substituição de trabalho humano por “robots”, que são tipos especiais de computadores), pelos novos mate­riais, pela biotecnologia, mas nossas fábricas não acompanharam essa evolução. Desse modo, os produtos manufaturados brasileiros perde­ram competitividade nos mercados externos.

Para quem visualiza o desenvolvimento como incorporação dos padrões de consumo dos países industrializados, isto é fatal, pois, para introduzir esse padrão de consumo em nossa sociedade, é preciso importar os produtos correspondentes e, para tanto, é preciso exportar uma enormidade. Daí a obsessão das classes dominantes em modernizar a nossa indústria, em introduzir aqui, no mais breve prazo possível, as últimas tecnologias inventadas. Daí também esse esforço para diminuir o “custo Brasil”, pois, para poder exportar, é preciso fixar um preço mais barato aos nossos produtos e, como a nossa tecnologia é atrasada, esse preço mais barato só pode ser conseguido pagando salários menores do que os industriais de outros países.

Mas, para quem não está obcecado com a importação dos padrões de consumo modernos, e sim com a bem-estar de toda a população, o atraso do parque industrial brasileiro não é visto como algo catastrófico. Pelo contrário, pode constituir até, no contexto da estratégia de desenvolvimento, uma vantagem. Com efeito, estamos diante de um parque produtivo defasado quando comparado aos mais modernos, porém perfeitamente apto a produzir uma extensa gama de produtos de consumo e de bens intermediários e de base, típicos da civilização moderna. O capital investido na construção e no equipamento dessas fábricas ainda não foi inteiramente amortizado, de modo que sua substituição por equipamentos mais modernos significará perda de capital. A tecnologia produtiva desse parque já está plenamente incorporada pelos empresários, pelos técnicos e pelos operários brasileiros. Além disso, essas fábricas adotam processos produtivos que empregam muita gente. Havendo de­manda para os produtos que elas fabricam e financiamento adequado, o atual parque industrial brasileiro poderá expandir-se muito rapidamente. Essas duas condições dependem apenas do tipo de política que o Estado brasileiro adotar. Isso quer dizer que, utilizando 100% a capacidade das fábricas atualmente existentes e construindo novas fábricas tecnicamente iguais às que o Brasil já possui hoje, será possível atender à demanda interna dos bens-salário — aqueles bens que estão ao alcance do poder de compra da massa assalariada e que são mais do que suficientes para cobrir as necessidades de conforto material, implícitas no que se entende por vida civilizada.

A primeira conseqüência deste raciocínio é libertar-nos de dois fantasmas: a dependência de capitais e de tecnologia do exterior; e o risco de escassez de produtos que obrigue a uma redução do padrão de consumo da massa popular

Quanto ao primeiro fantasma, pode-se fazer, sem medo, uma afirmação categórica: a concretização do projeto nacional, tal como aqui foi descrito, não depende nem dos capitais nem da tecnologia do exterior, Isto não quer dizer, obviamente, que esses elementos sejam inúteis nem que possamos ignorar os avanços tecnológicos destas últimas décadas, mas simplesmente que não dependemos deles para deflagrar e realizar as primeiras etapas de um processo de desenvolvimento voltado para as necessidades da maioria do nosso povo e para fortalecer a autonomia da nossa nação.

Quanto ao fantasma da escassez de bens de consumo, pode-se afirmar que é totalmente descabido o risco de que, optando por um caminho nacional, o Brasil venha a sofrer a escassez de bens de consumo que tem atingido os países africanos ou mesmo Cuba.

Os reduzidos setores sociais, formados pelos muito ricos, pelos ricos e pelos estratos superiores das classes médias certamente serão privados de alguns dos bens e serviços que hoje consomem, mas estes são bens de luxo, de custo de produção elevadíssimo, inadmissíveis em uma sociedade voltada para valores humanistas e preocupada com o equilíbrio ecológico. A imensa maioria da população desfrutará de uma qualidade de vida bem superior à atual ou a que lhe proporcionaria o modelo de modernização das classes dominantes caso este conseguisse afirmar-se (o que não está acontecendo).

 

Setor de serviços

 

O setor de serviços abrange a rede comercial e a rede bancária. Ambas estão suficientemente desenvolvidas, não colocando empeci­lho algum à viabilidade da alternativa popular de desenvolvimento do Brasil.

 

5.4. Recursos humanos

 

Finalmente, quanto ao terceiro fator definitório do potencial produtivo de uma economia — a capacidade intelectual do seu povo — cabem duas considerações. Por um lado, estamos diante de um povo muito pouco instruído: as taxas de analfabetismo são elevadas, o período de escolaridade médio da população é muito baixo, as escolas são de nível insatisfatório. Sem dúvida, este é um sério obstáculo para o desenvolvimento e aponta para a necessidade de compatibilizar o ritmo da introdução da tecnologia mais moderna em nossa economia com o tempo requerido para educar a população, pois, de outro modo, a tecnologia moderna servirá como elemento de diferenciação, e não de homogeneização da sociedade.

Por outro lado, é preciso assinalar que o povo brasileiro tem demonstrado grande capacidade de aprendizado e de adaptação rápida ao uso de novos instrumentos e novos processos de produção. Além disso, o Brasil já dispõe da estrutura básica para realizar um extraordinário esforço educativo e vencer em pouco tempo esse obstáculo ao seu desenvolvimento.

 

6.    Obstáculos à concretização do projeto nacional

 

Demonstrar que um projeto histórico é viável não é o mesmo que dar por certa sua concretização. Para isto, é preciso superar obstáculos.

 

6.1. A dependência

 

Este obstáculo diz respeito à posição do país diante dos centros do capitalismo mundial.

O Brasil que queremos supõe um grau superior de autonomia dos centros decisórios brasileiros para fixar as políticas econômicas, sociais e de relações internacionais. Isso provocará reações negativas nos centros do capitalismo, envolvendo a possibilidade de vários tipos de retaliações.

Esse confronto não precisa ser buscado, mas não pode ser recusado. Para poder enfrentá-lo, é preciso, antes de tudo, ter um conceito claro a respeito da necessidade de manter o país atualizado diante dos avanços da tecnologia produtiva e da tecnologia militar.

Empresas transnacionais e empresas estatais dos países mais desenvolvidos do mundo monopolizam essas tecnologias e as utilizam como instrumentos de controle político e de exploração econômica das nações subdesenvolvidas. Isso explica a pressão que o governo norte-americano exerceu sobre o governo brasileiro para que este abrisse o setor da informática aos capitais estrangeiros, firmasse a lei de patentes e o trata­do de não-proliferação de armas nucleares, e entregasse a vigilância do espaço aéreo da Amazônia a uma firma norte-americana.

Para construir o Brasil que queremos, não podemos aceitar essas imposições, mas, por outro lado, não podemos desconsiderar a necessidade de acompanhar a evolução científica e tecnológica da humanidade.

Rompendo com a dependência, entraremos em confronto direto com os centros do capitalismo e seremos excluídos do mercado tecnológico. Já demonstramos que o Brasil tem possibilidades de resistir a esse ataque. Mas ficou claro também que isso não significa resistir à modernização tecnológica. Pelo contrário, por meio de uma adequada política de ciência e tecnologia, precisaremos criar uma capacidade própria de inovação tecnológica, e, por meio de uma política externa inteligente, precisaremos encontrar brechas no bloqueio tecnológico para nos mantermos atualizados, no plano do conhecimento, e para introduzir, no país, aquelas técnicas que contribuírem para melhorar o padrão de vida de todos. Esta foi a política adotada por países como a Rússia, a China, o Japão como forma de vencer a barreira do atraso tecnológico. As críticas que possam ser feitas a esses regimes derivam de outros aspectos de suas políticas, e não da sua política de atualização tecnológica, que foi inegavelmente exitosa.

Não será fácil vencer o obstáculo do enfrentamento com os centros do capitalismo internacional porque há, no país, há cinco séculos, uma verdadeira “cultura da submissão”, especialmente entre as classes mais ricas e intelectualmente preparadas. Nem com a independência do país, no século passado, essa cultura foi superada, porque as classes dirigentes de então logo se submeteram à tutela dos capitais ingleses e, posteriormente, dos capitais norte-americanos. O sistema de educação monta­do por essas classes dirige-se a ocultar a dependência externa atrás de um ufanismo injustificado e a apresentar a dependência como uma condição inelutável da modernidade do país. Pra as nossas classes dominantes, romper com o imperialismo — e esta é a palavra tecnicamente correta — é cair na barbárie. A mídia reforça essa educação submissa.

Daí a importância de uma campanha cívica para fazer com que os brasileiros passem a acreditar em suas próprias forças e se disponham a assumir a tarefa de realizar, sem tutores externos, o seu projeto de nação.

 

6.2.  O consumismo

 

O segundo maior obstáculo para a implantação do projeto nacional é a mentalidade consumista. Para examinar essa dificuldade, convém começar com uma pergunta: o que se deve entender pelo objetivo de assegurar a todos os brasileiros o acesso de todos os habitantes aos bens e serviços materiais e culturais indispensáveis a uma vida digna dentro do nosso marco civilizatório?

Engana-se quem imagina que isso significa a reprodução, em nossa terra, do consumismo desbragado dos países desenvolvidos.

Não se trata de organizar uma economia para transplantar aqui esse padrão de consumo por três motivos básicos. Primeiro: porque nossa economia, por mais que seja posta em marcha forçada, não tem condições de gerar a produção que se requer para que cada brasileiro possa consumir a quantidade de bens e serviços que consome um norte-americano médio ou um europeu médio. Segundo: porque, se nos pusermos a buscar essa meta, estaremos cometendo um verdadeiro crime ecológico, pois, se os níveis de poluição causados pelo consumismo das nações desenvolvidas forem generalizados, o mundo enfrentará em pouco tempo uma catástrofe ecológica. Terceiro: porque o tipo de sociedade que o consumismo gerou não acrescentou nada, antes está contribuindo poderosamente para a destruição dos valores morais e espirituais mais importantes da civilização ocidental.

O Brasil que queremos não está empenhado em reproduzir aqui sociedades individualistas, competitivas, racistas, desperdiçadoras, intelectualmente medíocres e desprovidas de espiritualidade que surgiram da obsessão com o consumo de coisas.

O padrão de consumo que a economia brasileira pode oferecer a todos será necessariamente um padrão frugal, em comparação com o consumo médio dos norte-americanos e dos europeus, mas perfeitamente adequado para uma sociedade preocupada com a cultura e com os valores morais e espirituais mais elevados que a sociedade soube criar

Celso Furtado colocou isso de maneira magistral:

“O objetivo deixaria de ser a reprodução dos padrões de consumo das minorias abastadas para ser a satisfação das necessidades funda­mentais do conjunto da população e a educação concebida como desenvolvimento das potencialidades humanas nos planos ético, estético e da ação solidária. A criatividade humana, hoje orientada de forma obsessiva para a inovação técnica a serviço da acumulação econômica e do poder militar, seria dirigida para a busca da felicidade, esta entendida como a realização das potencialidades e aspirações dos indivíduos e das comunidades vivendo solidariamente” (1992, p.77).

O problema que surge é que consumistas não são apenas os que consomem desbragadamente, mas também aqueles que não têm condições financeiras para consumir praticamente nada além do indispensável para sobrevivência, mas que sonham com o consumo dos ricos. Décadas de propaganda massiva, patrocinada pelo capitalismo norte-americano e veiculada através do imenso aparato daquilo que hoje se denomina “indústria cultural”, conseguiram esse triste resultado.

O consumismo consiste, no fundo, em uma forma de ver a vida, uma forma pobre, equivocada, mas que só pode ser combatida com outra forma de ver a vida.

O esforço para implantar o Brasil que queremos consiste não apenas na luta pelo poder político, mas em um grande movimento de recuperação de valores morais e espirituais sufocados pela civilização consumista. Em outras palavras: a implantação do Brasil que queremos não constitui tarefa exclusiva dos partidos, mas também das Igrejas, sindicatos, entidades cívicas.

 

6.3. As agências alienadoras

 

Diz-se que uma pessoa é “alienada”, quando está submetida à exploração ou quando sua consciência está sujeita a formas de pensamento que bloqueiam o seu desenvolvimento como ser humano.

O terceiro grande obstáculo à concretização do projeto nacional está formado por um bloco de agências sociais que alienam a consciência do povo, isto é: confundem e dividem o povo. A mais importante dessas “fábricas de alienação” é a mídia, seguindo-se as Igrejas aliena­das e o sistema de ensino.

 

A mídia

 

Os mais poderosos meios de comunicação de massas, compreendendo as redes nacionais de televisão, as emissoras radiofônicas de alcance nacional, as cadeias de jornais e revistas de circulação nacional, encontram-se nas mãos de oito grupos empresarias, estreitamente associados a grupos industriais, financeiros e comerciais e aos políticos mais influentes no círculo das classes dominantes. Esse formidável aparelho de informação e de transmissão de conceitos e de valores desinforma, confunde e divide o povo. Ele opera, na verdade, como uma força repressora de tipo especial: não usa a violência física, mas, por um lado, induz ao conformismo, e, de outro lado, açula a massa contra tudo o que contraria os interesses das classes dominantes, a fim de justificar a vio­lência física que estas exercem sobre os dissidentes, através de leis in­justas, aplicadas por um corpo judicial alienado e executadas de forma truculenta pelas corporações policiais.

Institutos de pesquisa de opinião, firmas de propaganda e de relações públicas, agências de notícias fazem parte desse conjunto e utilizam as mais requintadas técnicas psicossociais para manipular a opinião pública e dirigi-la para o apoio aos interesses dos grupos econômicos e políticos que os financiam. Em um estudo recente, Noam Chomsky, o famoso ativista dos direitos humanos norte-americano, qualificou a mídia como “máquina de fabricar o consenso” em sociedades de massas, embrutecidas pelo consumismo.

A estratégia de concretização do Brasil que queremos passa, portanto, pela democratização da mídia.

 

As Igrejas alienadas

 

As Igrejas alienadas constituem outro sério obstáculo ao projeto nacional, porque oferecem às massas oprimidas pelo sistema dominante a falsa alternativa da fuga para a vida depois da morte ou para a intervenção direta do sobrenatural na solução de problemas individuais.

 

O sistema educativo

 

A esse conjunto de agências sociais alienantes, soma-se o sistema educativo. Esse sistema constitui o primeiro elo do “apartheid social” que caracteriza a sociedade brasileira, pois divide a juventude do país em dois compartimentos estanques: os que estudam em escolas boas e os que estudam em escolas deficientes.

Os do primeiro grupo capacitam-se para o exercício das funções de maior prestígio social, mais agradáveis e mais bem remuneradas; os do segundo, para as de menor prestígio social, mais desagradáveis e de remuneração mais baixa. Em outras palavras, a divisão social do trabalho, base da divisão entre as classes e segmentos de classe na sociedade brasileira, começa na escola.

As escolas privadas e as “boas” universidades públicas (acessíveis unicamente a quem tenha cursado escolas privadas nos cursos básicos e secundários) educam seus alunos para “vencer na vida”, o que significa fazer carreira em uma grande empresa ou montar um grande negócio. Essa concepção falsa de “vencer na vida” é condição para consumir desbragadamente.

As escolas públicas, tanto de ensino fundamental quanto médio, fornecem aos seus alunos uma instrução rudimentar, suficiente apenas para que possam desempenhar as funções subalternas. Mas não deixam de incutir neles a paixão pelo consumismo — uma aspiração falsa e que, ainda por cima, a imensa maioria deles jamais terá condições de alcançar.

Os objetivos das nossas escolas são inaceitáveis. Em um país democrático (e o Brasil que queremos será uma sociedade democrática) o sistema educativo orienta-se para a formação de cidadãs e de cidadãos aptos para entender e participar plenamente do debate político do país e para transmitir às gerações jovens os elementos básicos da cultura universal e nacional. A preparação técnica e profissional insere-se no bojo desse pro­cesso educativo mais amplo e só nesse contexto deixa de ser alienante para se converter em um elemento de aprimoramento da cultura da nação.

 

6.4. O controle da elite dominante sobre a população

 

Há ainda um obstáculo de outra natureza à concretização do Brasil que queremos. Dele pouco se fala. Mas é preciso examiná-lo atentamente e elaborar uma estratégia para superá-lo. Trata-se do controle social, sorrateiro, porém tremendamente efetivo, que as classes dominantes exercem sobre a população, especialmente nas pequenas cidades do interior e nos distritos rurais.

Nessas comunidades, grandes fazendeiros, comerciantes de porte, industriais e autoridades públicas formam um conjunto que detém o poder econômico, os veículos locais de comunicação de massas, o comando sobre as agências prestadoras de serviço (Santas Casas, creches, asilos de velhos), o controle sobre as forças policiais. Esse formidável dispositivo de dominação é utilizado, quase sempre com muita sutileza, para manter os dissidentes dentro de limites muito estreitos. A grande arma desse dispositivo de dominação é de natureza econômica: o dissidente que ultrapassa os limites considerados toleráveis perde o emprego, se for empregado, ou a freguesia, se for comerciante, profissional liberal ou trabalhador autônomo. Isso basta para amedrontar a maioria e permite minimizar o emprego da violência física, embora esta não seja de modo algum descartada. A prova disso é o número de lideranças rurais assassinadas por jagunços a mando de fazendeiros.

A eficácia do sistema repousa na sutileza. Aparentemente não existe coação alguma, de modo que muitos, desde que não incomodem o sistema, podem viver na ilusão de que a sociedade é democrática.

Um dos disfarces consiste em permitir a representação formal da dissidência na esfera política. Em mais de um terço dos municípios brasileiros, os partidos contrários ao sistema dominante têm diretórios e representantes na Câmara Municipal. Uma análise objetiva da atuação desses diretórios e da sua evolução numérica nestes quinze anos de “democracia” mostrará como eles estão, em sua maioria, sitiados pelo poder dos oligarcas locais. O que vale para as dissidências políticas, vale para dissidências sociais, como os movimentos de mulheres, de negros e de ambientalistas.

Até hoje, as forças populares não se debruçaram seriamente sobre essa realidade. Tanto os partidos como os sindicatos e os movi­mentos de pressão social ainda não dedicaram o esforço que se requer para adaptar suas estruturas de organização e seus métodos de ação (geralmente concebidos para o trabalho político e social em grandes centros urbanos) a um tipo de luta que permita superar esse controle férreo das classes dominantes sobre o povo, especialmente nas comunidades de menor pode.

 

6.5. A rigidez do quadro institucional

 

Finalmente, é preciso considerar o obstáculo representado pela dificuldade de conduzir uma luta política contra a institucionalidade vigente, respeitando os limites que esta fixa para a oposição política.

A opção que as forças populares fizeram, após a fracassada experiência da luta armada, foi pela luta dentro da ordem institucional. O pressuposto dessa opção foi que, com a implantação do regime democrático, haveria espaço para avançar e conquistar o poder político. Esse pressuposto não se concretizou. Temos hoje uma democracia de facha­da, pois todos os instrumentos requeridos para uma disputa política verdadeira — ou seja, para uma disputa política travada em condições mínimas de igualdade — estão monopolizados pelas classes dominantes.

A legalidade vigente — herdada em larga medida do período ditatorial — consagra injustiças flagrantes e faz com que o movimento social, na busca da justiça, se veja obrigado, em muitas ocasiões, a violar alguma lei. Os exemplos mais evidentes disso são as ocupações de terras rurais e de terrenos urbanos por famílias que não têm outra alternativa para encontrar um lugar para se estabelecer e os saques de pessoas famintas nos supermercados. Nos dois casos, a lei punitiva serve apenas para manter uma situação injusta. Todos sabem disso, o que não impede que a justiça seja rápida na sua aplicação e a polícia é implacável e truculenta na sua execução.

O dilema das forças populares, no atual estágio do processo político brasileiro, é o de encontrar formas de avançar sem transgredir a institucionalidade injusta das classes dominantes a ponto de provocar reações que elas ainda não têm condições de enfrentar, pois isso poderia conduzir a um quadro institucional mais difícil que o atual.

Não há receitas fáceis para superar esse obstáculo. Um roteiro útil foi dado por Florestan Fernandes: na situação atual, as forças populares devem recusar a cooptação; não se deixarem esmagar; conseguir vitórias para o povo. Esse roteiro deve ser aplicado como um método de determinar o que fazer diante de cada situação concreta da luta popular. Deve ser também a base de um grande esforço de revisão das estratégias, táticas, métodos de trabalho e estilos de ação, tanto dos partidos populares como dos sindicatos e movimentos destinados a substituir o in­desejável Brasil que temos pelo Brasil que queremos.

A análise, tanto dos obstáculos à implantação desse projeto como das condições concretas da luta pra torná-lo uma realidade, mostra que essa formidável empreitada histórica não se resume a um plano de conquista do poder político, mas envolve igualmente uma dimensão cultural que não pode ser minimizada. A grande “virada” histórica que precisa ser dada no Brasil consiste exatamente na integração desses dois planos da ação humana, a fim de que o projeto nacional penetre no imaginário da população e influencie na sua vida cotidiana.

 

 

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