A rua, as pessoas, o lucro

Clóvis Rossi

 

PRAGA - O Centro de Congressos de Praga, local do Encontro Anual-2000 do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial, transformou-se ontem em uma espécie de aquário às avessas.

De suas grandes janelas de vidro, os “peixes”, em vez de serem observados eram atentos espectadores do que se passava lá fora.

“Peixes”, no caso, eram as autoridades e assessores que participam do encontro anual. Muitos deles, em vez de prestar atenção aos discursos de praxe, preferiram postar-se junto das vidraças ou nos terraços para ver à meia distância os seus inimigos, os manifestantes anti-FMI, anti-Banco Mundial, anticapitalismo, antiglobalização, devidamente bloqueados pela polícia.

Prova, no detalhe, de que essa turma ganhou a batalha de propaganda. Abriram, meio à força, meio na galhofa, o seu espaço na agenda global, o que dá um ar de realidade ao grito desafiador que entoavam:

“London/Seattle/continue the battle” (em português, perde a rima: “Londres/Seattle/a batalha continua”).

Tanto ganharam a batalha publicitária - e, no mundo moderno, é nesse espaço que se travam as guerras - que acabaram tendo uma espécie de porta-voz involuntário no Interior do Centro de Congressos.

Foi o presidente tcheco, Vaclav Havel, que criticou, no discurso de abertura do encontro anual, um mundo que tolera “o culto do lucro material como valor supremo”.

É esse também o discurso da maioria dos manifestantes. Uma das faixas que carregam (desde Seattle, aliás) é exatamente: “People, not profit” (“Pessoas, não lucros”).

É difícil não simpatizar com o anárquico clamor da rua em um mundo em que, como disse Trevor Manuel, ministro sul-africano das Finanças, “bilhões de pessoas acordam cada manhã para a fome, a doença, a pobreza e o desespero”.

In: Folha de São Paulo, 27/09/2000


A praga da pobreza

FREI BETTO

 

A REUNIÃO do FMI e do Banco Mundial em Praga é como a fazenda presidencial em Buritis, cercada de pobres por todos os lados.

Há quem considere que a pobreza estraga a paisagem. Como seria bom viver sem a vizinhança de favelas, de famílias sob viadutos, de crianças espelhando olhos ameaçadores no vidro de nossos carros.

Deus fez os pobres? Não há, em toda a Bíblia, um só versículo de exaltação da pobreza. Deus fez o jardim do Éden, cujas flores foram esmagadas pela ambição humana. Reduzido a mercado, o Paraíso transformou-se em inferno para bilhões de excluídos

Quanto maior a acumulação de uns poucos, maior a privação de muitos. A pobreza alastra-se como uma praga. Há quem defenda que há excesso de bocas. Não é verdade. Somos bilhões de habitantes neste mundo que produz grãos o suficiente para alimentar o dobro da população mundial. A carência não é de bens. É de justiça.

Globaliza-se a miséria. Mas suas vítimas já não aceitam o confinamento geográfico no Terceiro Mundo. Nem o psicológico. Acabou-se o desvalido abnegado. São 2,8 bilhões de pessoas, obrigadas a sobreviver com menos de US$2 por dia. Sem ter o que perder, fazem no mundo o que os sem-terra fazem no Brasil: ocupam espaços. Invadem os países ricos em busca de vida melhor. Há 43 milhões de latino-americanos ilegais nos EUA.

Agora os pobres ocupam também os espaços simbólicos. Seu clamor fez-se ouvir em Seattle, em dezembro do ano passado, em Washington, em abril deste ano, e, de novo, ressoa na reunião do FMI/Banco Mundial em Praga. Essas duas instituições controlam a economia mundial. Funcionam “como um braço do Tesouro dos EUA”, afirma o indiano Ajit Singh, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Os países pobres, como o Brasil, malgrado a subserviência de nossos ministros, jamais tiveram vez nessas instituições. Elas controlam a nossa economia, fiscalizam as nossas contas e ditam ordens a nossos governos sem que haja o menor benefício para os nossos pobres. Só os credores internacionais saem no lucro. Por desvendar essa lógica perversa, o plebiscito da dívida e(x)terna suscitou tanta ira em quem troca a soberania nacional por uma lata de caviar.

Em Praga, os manifestantes elevam a voz dos que não têm voz. A desregulamentação da economia, a livre movimentação do capital especulativo e o fortalecimento dos oligopólios só aumentam a abissal desigualdade entre os poucos ricos e a incontável multidão de excluídos. Basta lembrar que apenas quatro pessoas - Bill Gates, Larry Ellison, Paul Allen e Warren Buffett -  têm em mãos uma riqueza superior à renda de 42 nações, com 600 milhões de habitantes!

A estabilidade econômica, novo nome do arrocho, produz estagnação e emperra o desenvolvimento. Segundo James D. Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, 20% da população mundial controla 80% das riquezas. Nos próximos 25 anos, a população do planeta pulará para 8 bilhões de pessoas, a grande maioria vivendo em regiões pobres. É o que ele considera uma ameaça de “fratura social”.

Enquanto os países ricos fecham seus mercados aos produtos dos países pobres, estes escancaram portos e portas à entrada das mercadorias procedentes do Primeiro Mundo. Se este consumisse produtos agrícolas oriundos dos países pobres, o Terceiro Mundo teria uma renda adicional de, no mínimo, US$40 bilhões.

O que é viver na pobreza? No Brasil, os altos escalões do governo não têm idéia do que seja isso. Quando muito, sobrevoam de helicóptero áreas atingidas pelo flagelo da fome. Ou mandam filmar, como em Buritis, a reação dos pobres em luta por seus direitos. Não para se inteirar dela, mas para engrossar os arquivos policiais.

O Banco Mundial encarregou Deepa Narayana, especialista em desenvolvimento social, de responder à questão. O resultado de sua pesquisa assinala que pobreza não é só falta de renda. É também falta de poder e uma insegurança engendrando violência e descrédito nas instituições públicas.

No Brasil, há duas atitudes diante da pobreza. Uma, do governo, que a cada dois ou três meses inventa um novo plano para combatê-la ou muda o nome de velhos projetos, rebatizando-os em lançamentos demagógicos, sem que se verifiquem resultados práticos. As verbas ficam no papel ou quase nunca chegam ao destino final.

A outra é dos próprios pobres, como os sem-terra. Eles levam à prática o que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso defende em suas obras e a professora Ruth Cardoso, em sua tese de doutorado: a organização dos excluídos em movimentos sociais, que se assumem como sujeitos históricos na construção da cidadania e da democracia.

É uma vergonha para a frágil democracia brasileira que a Igreja Católica sirva de mediadora para que assentados rurais sejam levados a sério pelo governo. Que democracia é essa que cerca o povo organizado com tropas federais? Enquanto o Incra investiga as contas do MST, latifundiários e usineiros gabam-se de não pagar impostos ou de ter suas dividas jogadas para baixo do tapete.

A voz dos pobres da América Latina e do Caribe ressoará, de novo, em Nova York, junto à ONU, no próximo 12 de outubro, dia do Grito dos Excluídos do Continente. E, em janeiro, Porto Alegre abrigará o Fórum Social Mundial, que fará um diagnóstico dos países subdesenvolvidos, enquanto em Davos os ricos do mundo estarão debatendo como superar a marca olímpica de 20% de aumento de suas fortunas, alcançada nos últimos 12 meses. 

Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, 56, frade dominicano e escritor, é assessor de movimentos pastorais e populares, membro do conselho consultivo do Centro pela Justiça Global e autor de “Hotel Brasil” (Ática), entre Outros livros. In:Folha de São Paulo


RETORNAR