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Os
motores da história
Entrevista
com Paul Virilio
Próteses corporais, sexo cibernético, declínio da realidade dos fatos, anulação dos tempos locais, poluição das distâncias físicas: o filósofo e urbanista Paul Virilio (ex-diretor da École d’Architecture de Paris) discute a amplitude das novas tecnologias e aponta para os riscos totalitários da colônia global multimidiática. (As notas de rodapé estão embutidas no próprio texto). Apud:
"Tecnociência e cultura: ensaios sobre o tempo presente" - Hermetes
Reis de Araújo (org.) - Estação Liberdade - São Paulo, 1998. |
Entrevistador
- O título do seu livro, "A arte do
motor", soa
como uma síntese da experiência estética e material da cultura contemporânea.
Gostaríamos de começar esta entrevista perguntando sobre ele.
Paul Virilio - Nós não percebemos que
a história moderna foi escandida, organizada por cinco motores. Primeiro, o
motor a vapor, na ocasião de uma revolução da informação e da criação da
primeira máquina, ou seja, da máquina que serviu à revolução industrial.
Foi o motor a vapor que permitiu o trem e, portanto, a visão do mundo através
do trem, a visão em desfile, que já é a visão do cinema. Cada motor modifica
o quadro de produção de nossa história e também modifica a percepção e a
informação. O segundo motor, o motor de explosão, propiciou o desenvolvimento
do automóvel e do avião. Voando, o homem obteve uma informação e uma visão
inéditas do mundo: a visão aérea. O motor de explosão possibilitou uma
infinidade de máquinas, as máquinas-veículo e também toda uma série de máquinas
de produção industrial. O terceiro motor, o elétrico, deu origem à turbina e
favoreceu a eletrificação, permitindo, por exemplo, uma visão da cidade à
noite. Evidentemente ele favoreceu também o cinema. O cinema é uma arte do
motor. Certamente as primeiras máquinas e câmeras foram manuais, mas sabemos
que elas foram eletrificadas rapidamente. O desenvolvimento do cinema, que
modificou a relação do homem com o
mundo, está diretamente relacionado com a invenção do motor elétrico. O
quarto motor é o motor-foguete que permitiu ao homem escapar da atração
terrestre. Através dele temos os satélites que servem à transmissão do
sistema de segurança. Satelizando os homens, ele permitiu a visão da Terra a
partir de uma outra terra: a Lua.
Assim, cada motor modificou a informação sobre o
mundo e nossa relação com ele. Eu creio que isto nunca foi dito. Nós
esquecemos que a arte é sempre uma arte do motor. De uma certa maneira, as
artes primitivas eram ligadas ao metabolismo, ou seja, ao pintor, ao escultor
etc., mas desde que inventamos a máquina nós inventamos um meio diferente de
perceber e de conceber o mundo. O último motor é o motor informático, é o
motor à inferência lógica, aquele do software,
que vai favorecer a digitalização da imagem e do som, assim como a
realidade virtual. Ele vai modificar totalmente a relação com o real, na
medida em que permite duplicar a realidade através de uma outra realidade, que
é uma realidade imediata, funcionando em tempo real, live.
Desse modo, dizer “a arte do motor” significa
dizer que toda arte moderna é ligada à invenção de motores: motor à vapor,
motor de explosão, motor elétrico, motor-foguete e motor eletrônico. Gostaria
de lembrar que Babbage (
- Charles Babbage, matemático inglês (1792-1871). Escreveu o Tratado
da economia das máquinas e das
manufaturas (1832). Seus trabalhos o levaram a imaginar máquinas de
calcular combinando as possibilidades das calculadoras e dos cartões perfurados),o inventor da calculadora bem antes de Turing (-
Alain Turing (1912-1954), matemático e lógico inglês, participou da concepção
das máquinas calculadoras inglesas e, após a guerra, do desenvolvimento de
alguns dos primeiros computadores. Em 1937, concebeu a máquina universal na
qual, através de um autômato abstrato capaz de efetuar todos os cálculos
imagináveis, ele demonstrou a existência de problemas insolúveis para todo método
calculatório) e de Neumann (-
John von Neumann, matemático húngaro (1903-1957), autor dos Fundamentos
matemáticos da mecânica quântica (1932). Publicou em 1944, com Oskar
Morgenstern, a Teoria dos jogos e do
comportamento econômico. Considerado o fundador da informática por ter
elaborado os planos do EDVAC (Electronic Discreet Variable Automatic Calculator),
o primeiro documento onde se encontram a descrição e os princípios de
funcionamento dos computadores. Nos seus projetos de trabalho imaginou uma máquina
auto-reprodutiva, visando contribuir para os
estudos em genética), chamava a sua máquina calculadora de motor analítico.
Nós mantemos o termo motor para falar hoje do motor de inferência lógica que
permite a realidade virtual e os sistemas de espaço virtual.
-
As transformações nesta comunidade
de motores ocorreram com uma rapidez impressionante: esta história tem 250, 300
anos.
- Sem dúvida. Tudo isto começa com Huygens (-
Físico, matemático e astrônomo holandês, Christiaan Huygens (1629-1695) foi
o autor da primeira exposição
completa de cálculo de probabilidades: De
ratiociniis in ludo aleae. Atribui-se a ele o primeiro grande tratado de dinâmica:
o Horologium oscillatorium (1673) e se passa no espaço de
aproximadamente três séculos.
-
E
não foi fácil para a cultura humana absorver estas transformações.
- Exatamente, e eu creio que nós não entendemos
nada da arte-vídeo, por exemplo, nem das instalações-vídeo e do cinema se nós
não compreendemos toda esta história. Eu trabalhei bastante sobre o cinema,
que é uma arte do motor, uma arte da maquinaria elétrica. A filmagem é
maquinada pelo motor.
-
No livro “A arte do motor” o
senhor diz que a midiatização generalizada da informação é uma grave ameaça
que pesa sobre as sociedades contemporâneas, pois ela implica uma “derrota
dos fatos” e o fim das crenças entre tempos locais (de cada região ou grupo
social) e o tempo universal.
- Todas as sociedades
antigas viviam em tempos locais. Toda a história da humanidade se fez de tempos
locais. Aqueles que viviam em Paris viviam no tempo local de Paris e aqueles que
viviam no Brasil, viviam no seu tempo local - e eu falo do tempo histórico, da
duração, e não do clima, pois este continua a existir.
Recentemente eu dei uma entrevista, pelo telefone,
para a TV Globo: nós estávamos no tempo mundial. Mesmo a Globo estando no
Brasil e eu na França, nós fizemos uma entrevista, mas não como esta que faço
com vocês, hoje, em Paris, no tempo local - agora são 16 horas e nós estamos
juntos aqui no boulevard Raspail. Com a Globo, ocorreu uma entrevista em que
eram 17 horas em Paris e não sei que horas no Brasil. Portanto, nós somos a
primeira geração a viver um tempo mundial, O live, o tempo real, é um tempo mundial. Doravante o tempo local é
bem menos importante politicamente, economicamente, do que o tempo mundial. Haja
vista o problema da bolsa e do tratamento por satélite dos dados financeiros.
Mas no passado, havia um único tempo universal.
Trata-se do tempo da astronomia. Quando Galileu ou Kepler falavam de astronomia
eles se referiam a um espaço cósmico único, “o cosmos” e não “os
cosmos” , e também a um tempo único, o tempo universal. Ora, doravante, este
tempo único, universal, astronômico, se transformou no tempo do próprio
mundo. Existe assim uma desqualificação do tempo local mas também do espaço
local, em proveito do tempo mundial e de um não-lugar. Nesta entrevista telefônica
com o Brasil, nós estávamos juntos no tempo mundial, os brasileiros e eu, mas
nós não estávamos juntos em nenhum lugar no espaço: nós estávamos
separados. Existe nesse fato uma verdadeira revolução filosófica e que diz
respeito ao fim do hic et nunc (aqui e
agora), ao fim do aqui e agora. Nós não dizemos o “ser filosófico”,
mas “ser aqui e agora”. O ser e o hic
et nunc são ligados na filosofia. Mas, doravante, temos as tecnologias da
teleaudição, da teleação, o telefone, a televisão, o zapping, assim como o
teletato, as possibilidades de tocar à distância e de se sentir um ao outro à
distância, tão longe quanto se quiser. Doravante nós entramos no fim do hic
et nunc. Podemos estar aqui e lá, podemos agir em outro lugar, de uma
maneira total, instantânea, e não simplesmente por uma mensagem. A realidade
virtual permite isto, ou seja, a teleoperação, o teleoperador. Basta ter uma
roupa com captores dotada de um meio de enviar e de receber sinais, assim como
um videocapacete para poder teleouvir, telever, teletocar, e mesmo tentar, tal
como ocorreu entre TIMOTHY LEARY e uma japonesa, fazer amor entre o Japão e os
Estados Unidos, através de captores sensoriais. É o que chamamos de cibernética
sexual. Portanto, a derrota dos fatos é a derrota do hic et nunc, do aqui e agora concreto, que se refere ao estar junto
concretamente, sem intervalo de espaço e de tempo. Nessa entrevista, agora, nós
estamos no mesmo lugar, juntos no tempo e no espaço locais: existe, portanto,
um fato. Mas quando se tem a deslocalização e a destemporalização do tempo e
do espaço locais, quando entramos no tempo mundial, ingressamos no virtual. Ou
seja, o atual cessa em proveito da virtualidade. Existe aí uma revolução
filosófica, um paradoxo filosófico, que se reduz numa frase que utilizamos
freqüentemente no teletrabalho, na teleconferência: “se reunir à distância”.
“Se reunir à distância” é um paradoxo total que implica a derrota do
factual. Neste momento nós estamos aqui, no factual, e por isso eu posso, por
exemplo, sentir o perfume de vocês, nós podemos brigar e até mesmo dar e
receber tapas. E isto é bom! No tempo mundial vocês não podem me bater,
somente me enviar injúrias. Existe, portanto, a derrota do factual em proveito
do virtual. É assim, o começo de uma comunidade virtual que destrói a
comunidade real, que começa a desdobrá-la, tal como quando se coloca um cartaz
sobre um outro cartaz. Antes existia somente um cartaz que era a realidade.
Agora, sobre esta, pode-se colocar uma realidade virtual.
-
O senhor analisa estes fenômenos em
termos de “concorrência” com a realidade. Mas será que não se pode pensar
estas novas tecnologias em termos de um “acréscimo” do real?
- Existe um prejuízo real. E eu creio que não
podemos nos esquecer disto. Estamos vivenciando um prejuízo do fato, a derrota
dos fatos. É a chegada de um
mundo virtual a partir do qual o mundo real será desqualificado, desacreditado.
Ele vai concorrer com o mundo virtual. Neste nosso momento aqui, o mundo real não
está concorrendo com nada. Alguém como eu, por exemplo, que não tem nenhuma
experiência de cibersexualidade, não pode colocar em concorrência o amor
feito virtualmente e aquele feito com uma mulher de fato. Isto não é possível.
Mas se no futuro eu me habituo à virtualidade, existirá então um prejuízo:
meu encontro com o ser real será desqualificado. Alguma coisa vai se perder
disto que era fundamental no fato de fazer amor. Atualmente eu estou escrevendo
um texto justamente sobre esse assunto. É um texto terrível, de modo algum
engraçado ou erótico, mas sim monstruoso. Pois a cibersexualidade me parece
ser alguma coisa que vai contra a sobrevivência da espécie humana. Creio que
ela põe em questão a reprodução da espécie tal como fazem a engenharia genética,
os bebês de proveta, as manipulações genéticas, etc. Creio que temos aqui um
problema grave. Por isso, quando se diz que tudo isto não passa de “bugiganga
para se divertir”’ eu digo “não, trata-se de um problema ontologicamente
grave.”
-
Neste sentido não se tem mesmo noção
dos riscos que estamos correndo, daquilo que estaríamos perdendo.
- Não, não se tem. É diferente de quando, por
exemplo, nos locomovemos de trem ou de avião em vez de irmos a pé para algum
lugar. Pois nesse caso nós sabemos o que perdemos. Quando se passeia de carro
por uma cidade, se sabe o que se perde. Um dia de verão numa bela cidade é uma
coisa agradável: andar em Roma no verão ou na primavera, por exemplo. Mas, se
atravessarmos Roma de carro, nós sabemos o que estamos perdendo. Enquanto que
com a realidade virtual, não se sabe o que se perde, não existe equivalente.
Na verdade nós nos engajamos numa tecnologia da virtualidade sem compreender os
prejuízos trágicos dela decorrentes: a perda do real, a sua desqualificação.
Dou ainda um outro exemplo, que é ligado não mais à realidade virtual, mas a
um veículo. O oceano Atlântico ou o Pacífico eram lugares de exercício do
homem através dos grandes navegadores e dos barcos transportadores de
especiarias entre a Europa e a América. O oceano era também o infinito marítimo
de Melville, de Moby Dick, vivíamos na grande aventura do mar. A partir do
momento em que o avião começa a ser utilizado, o Atlântico, por exemplo, será
desacreditado, servindo somente como um terreno de jogo e de travessia para
navegadores solitários, como se ele fosse um espaço qualquer. O mar não é
mais praticado, ele se torna algo semelhante a um hipódromo, através do qual
tem-se a desqualificação do cavalo que corre em círculos. Todo mundo corre o
risco de ser desqualificado. O prejuízo que traz a tecnologia do último motor,
o motor informático, concerne a todos.
-
O culto do imediato parece eliminar
toda operação seqüencial do mundo, toda distância, todo segredo. Será que
as pessoas e os sistemas políticos estariam ficando submetidos ao imperativo do
“tudo contemporâneo”?
- Alguma coisa se perde
com a tecnologia do tempo mundial e do imediato, e alguma coisa se polui:
trata-se da distância. A distância é uma substância do mundo. A natureza é
também a sua grandeza natural. Um exemplo: a “natureza de uma garrafa” não
está somente no vidro com líquido dentro, ou seja, na sua substância, mas
também na sua proporção, na sua distância, no seu tamanho. Uma garrafa com
200 metros de altura não é mais uma garrafa. A mesma coisa pode ser dita de um
homem. Ser um homem corresponde a medir algo entre 1,10 m e 2,50 m, digamos. Mais alto do que isso não existe homem. Dessa forma,
aquilo que é poluído pelas tecnologias novas não é somente a substância - a
água, o ar, a fauna, a flora que se destroem, por exemplo, através dos
detritos industriais - mas também a distância. O TGV
(Trem de Alta
Velocidade), que vai, em duas horas, de Paris a Lyon, polui e aliena a distância
entre estas duas cidades. Toda a paisagem que está entre elas é esmagada por
esta rapidez. Neste caso, alguma coisa da grandeza natural da França se perde.
Quando tomamos o avião supersônico e chegamos ao Japão em 14 horas, por
exemplo, alguma coisa da natureza-grandeza do mundo se reduz; numa teleconferência
que faço com Tóquio instantaneamente, eu desconsidero o fuso horário, eu
reduzo o mundo a nada. Podemos assim imaginar que para as gerações futuras,
através das telecomunicações banalizadas, da realidade virtual, das
tecnologias de tele-ação instantânea entre antípodas, o sentimento de
encarceramento, de fechamento no mundo, será insuportável à espécie humana.
A Terra será muito pequena e não por razões demográficas, mas porque as
nossas tecnologias terão poluído a grandeza natural do mundo. Uma tragédia cósmica
está sendo preparada.
Eu enviei uma fita cassete para a Eco 92, na qual eu discutia esse problema e muita gente, inclusive físicos, concordou comigo sobre aquilo que chamo de “ecologia cinza”, que não é a mesma coisa que a ecologia verde. Esta é a ecologia das substâncias, da luta contra a poluição e a degradação das substâncias, contra uma respiração ruim, contra Chernobil, etc. Mas existe uma outra ecologia, sem cor, sem sabor, sem substância, que é a ecologia das distâncias, a ecologia cinza. Ela diz respeito à poluição da relação com o mundo e com os indivíduos. Quando faço amor à distância eu poluo a distância existente entre eu e o outro, a relação com o outro. Alguma coisa se perde neste afastamento entre os dois seres. Eu creio que a derrota dos fatos caminha junto com a derrota das distâncias. É por isso que eu digo que nós nos transformamos menos em cidadãos do que em contemporâneos Nós somos contemporâneos no fato de teleagir, nós somos contemporâneos do ato de fazer amor no caso da cibersexualidade, mas nós não somos cidadãos, nós não estamos juntos. No telefone com o Brasil, eu e os brasileiros somos contemporâneos no tempo mundial, mas nós não somos cidadãos da mesma cidade. Quando dizemos cidadão, queremos dizer do solo, da mesma cidade, se referindo ao espaço local e real. Contemporâneo se refere, entretanto, ao tempo real e mundial.
-
E isto nos afasta de uma suposta “ágora
catódica”, ou de cristal líquido...
- Sem dúvida. Ela não existe.
-
Em seus livros o senhor sublinha que a
corrida é sempre eliminatória. Em proveito da redução das distâncias, os
espaços são eliminados e a lentidão é conjurada, passando a ser associada
aos mais desmunidos. E o Terceiro Mundo, que é lento’? É possível inverter
a lógica eliminatória?
- Eu espero que ainda seja possível, mas eu não
acredito nisso. Por quê? Porque por trás de tudo isto que eu disse até aqui,
existe uma lei. Uma lei que se impõe a nós e que se chama a lei do menor esforço.
Toda a história das ciências e das técnicas da espécie humana é ligada à
lei do menor esforço. Ou seja, o homem é submisso ao peso, ao esforço e ao
cansaço. E todas as ciências e as técnicas desenvolvem unicamente meios de
evitar o cansaço, e de realizar um menor esforço. Por exemplo, se nós domamos
os cavalos é para economizar o cansaço de andar a pé. Isto é evidente. Na
domesticação do cavalo já temos a lei do menor esforço. Quando se inventa o
trem se trata também de poupar um cansaço, pois se locomover a cavalo durante
um dia inteiro é cansativo, enquanto que tomar o trem é bem menos cansativo,
pode-se mesmo dormir dentro dele durante uma longa viagem.Tomemos um outro
exemplo desta lei: quando se está diante de uma escada e de um elevador, os
jovens, os velhos, as mulheres, os fascistas,
os esquerdistas, os gênios, os que ganharam o prêmio Nobel, os idiotas,
todos enfim, tomam o elevador. E isto é terrível! Isto leva ao fim que nós
falávamos anteriormente. A lei do menor esforço impõe que se deva produzir
somente máquinas para acelerar. Seria preciso inventar uma máquina de
desacelerar, mas isto não existe. Nada mais fácil hoje do que inventar um TGL,
um trem de grande lentidão, que demoraria, por exemplo, oito dias para ir de
Paris a Lyon, ao invés de três horas. Mas ninguém inventou este trem, não
existe a liberdade para inventá-lo. Nenhum poder pode inventar a máquina de
desacelerar. Entretanto, existem os psicotrópicos. Na química, ao contrário
da física, existem máquinas para desacelerar o ritmo. Talvez esteja aí uma
das razões da droga. A droga química - e não a eletrônica sobre a qual
falaremos mais tarde - pode não
ser somente um excitante mas também um desacelerador. Talvez esteja aí a
explicação para o exponencial da droga química.
Desde a noite dos tempos, a corrida sempre foi
eliminatória, não somente para os homens, mas também para os animais.
Na sociedade animal são os mais rápidos que
devoram os mais lentos. Há diversas maneiras de ser forte, basta pensarmos na
massa física de um elefante que não precisa ser rápido, assim como nos músculos
e nas garras do leão, do tigre, etc. Mas existem também os animais para quem a
potência está na velocidade e não na massa: a gazela que corre rápido, o pássaro
que voa. De todo modo, a lei do menor esforço aparece também como sendo uma
lei animal, e é por isso que ela é muito grave.
Por fim, a corrida
elimina a nós mesmos, pois nela perde-se alguma coisa: por exemplo, perde-se
peso. Quando nós fazemos “jogging” nós perdemos peso. A corrida elimina
ainda o território. Basta olhar a diferença entre um lugar no campo onde se
pode correr e uma pista de corrida. Um hipódromo, um autódromo e um velódromo
são espaços puros, marcados por linhas retas e curvas. Trata-se de um espaço
instrumental, pois a velocidade da corrida eliminou as asperezas, as pequenas
flores, os acidentes da paisagem. Para ir rápido é preciso tornar liso o espaço
como se nele não houvesse mais a natureza. Desse modo, há sempre uma eliminação.
-
O senhor propõe “a
escrita contra a tela” como uma forma de
resistência contra a corrida eliminatória do complexo militar-internacional.
Mas como promover a escrita contra a tela numa sociedade como a brasileira, por
exemplo, onde grande parte da população é
analfabeta?
- Ah! esta é uma grande questão, e eu não tenho realmente uma resposta.
-
Na verdade, com uma grande parte da
população analfabeta, a televisão tem um papel e um poder bastante
importantes no Brasil.
- Sim, mas estou falando da escrita contra a tela e
não contra a imagem: quando fazemos um desenho num livro trata-se da escrita.
Quando eu me refiro à escrita, estou falando do traço, da memória. Não
podemos nos esquecer que a escrita tem a potência de conservar o ser, e não é
por acaso que falamos em Santas Escrituras, a Bíblia ou o Alcorão. A escrita
é a memória do ser. Não existe ser sem memória. Assim, eliminar a escrita é
eliminar a memória do ser, é matá-lo. Temos aqui novamente uma situação
muito grave.
-
Pois o traço seria ainda uma substância.
- Sim. Eu creio que a palavra é bastante
desenvolvida no Brasil, país onde há uma jubilação da palavra, como ocorre
na música, por exemplo. É preciso que exista o traço desta palavra. Hoje, a
única coisa que resiste à tela é a música. A televisão não pode resistir a
um belo concerto de rock que ela emite. A tela não pode resistir a um bom
concerto de música brasileira ou Mozart.
Podemos considerar a palavra latina como sendo uma música, uma bela música que eu amo através dos seus cantos. É preciso conservar isto. Como? Eu não sei. Mas trata-se de guardar a memória da palavra. A música é uma memória da palavra, e, aliás, não é por acaso que a primeira música começa com a arte vocal, com a voz e não com instrumentos. A palavra se transformou em canção e depois em instrumental através do piano, do violão, etc. Temos aí uma potência, mas desde que haja traço, desde que a palavra em seu sentido fundamental seja conservada pela população. Se a população não perde a palavra, conservando-a no canto e na expressão popular, ela é salva. Se amanhã, através dos americanismos, dos anglicismos, a língua se perder, se ela derivar da tela e do slogan publicitário, não haverá mais esperanças.
-
No livro “Guerra pura” o senhor disse que a América do Sul e que alguns países da África
eram laboratórios da sociedade futura. Pois nestes continentes é possível ver
um tipo de “endocolonização”, quer dizer, um subdesenvolvimento da
economia civil em proveito do reforço de uma classe militar que se transformou
numa superpolícia interna, contra a população (um fato expresso pelo conceito
de Segurança Nacional, por exemplo). Nesta última década, com o
desenvolvimento do complexo militar-informacional, o senhor acredita que nós
entramos numa era de ampliação planetária desta endocolonização que o
senhor havia indicado na época do Guerra pura?
- Acredito. Eu gostaria de lembrar que a
endocolonização se opõe à
exocolonização. Esta última é a conquista, ou seja, ela implica
conquistar os países longínquos e submetê-los. Após ter colonizado os povos
de longe, temos a endocolonização, quer dizer, a colonização do próprio
povo. Hoje nós entramos também na era da endocolonização porque ingressamos
na era da cibernética social. As tecnologias do tempo real, os multimídias, as
estradas eletrônicas, a realidade virtual, tudo isso equivale a uma domesticação
dos comportamentos que concerne o mundo inteiro, através da transmissão
instantânea por satélite. Portanto, nós nos dirigimos em direção a uma colônia
global. De uma certa maneira nós produzimos técnicas totalitárias, sejam elas
a informática ou a bomba atômica, para lutar contra a sociedade totalitária,
o nazismo e o stalinismo. Como dizia Einstein, se inventamos duas bombas, a
bomba atômica e a bomba informática, foi porque lutávamos contra o darwinismo
social e o totalitarismo de Hitler e, em seguida, através da guerra fria,
contra o militarismo do stalinismo. Mas, infelizmente, para resistir ao
totalitarismo, foram inventadas duas máquinas totalitárias: por um lado, a
bomba atômica - e a ameaça absoluta sobre o mundo ao nível da ecologia, ao nível
de um poder louco, o poder do botão vermelho - e por outro, a bomba informática.
A informática nasceu em torno de Alain Turing e, mais tarde, em torno de von
Neumann nos Estados Unidos, para decodificar as máquinas dos alemães - a Máquina
Enigma - e para decodificar as mensagens secretas dos japoneses. Portanto, a
informática nasceu da guerra total. A Segunda Guerra Mundial foi uma guerra
total que inventou armas totalitárias: a arma atômica e a informática, sem
falar dos mísseis, entre outras. Através da sociedade de multimídia e da
“imediatidade” generalizada, nós entramos na era da cibernética social. Ou
seja, do condicionamento a domicílio das populações.
O condicionamento da
televisão não é nada ao lado do condicionamento das multimídias, ao lado do
capacete e das roupas da realidade virtual, etc. Nós entramos na possibilidade
da droga eletrônica. Não mais uma sujeição química com picadas, mas pelos
olhos, pelas vibrações, pelos captores, que são fenômenos de domesticação,
fenômenos coloniais. Pois a cada vez que se quer submeter um homem ou uma
mulher, eles são domesticados. Um soldado para ser domesticado deve manipular
armas a partir de exercícios ritmados - hip! Sentido! hop! Continência! -, a
partir de ordens dadas sem parar, na intenção de tornar suas atividades atos
reflexos. A eletrônica faz a mesma coisa. Os jogos eletrônicos são ritmados
por música militar. Trata-se igualmente de uma domesticação. Os filmes do gênero
Rambo entre outros, não contam a história de um homem forte ou de uma mulher
bela. Eles contam ritmos, eles narram a velocidade. Não se suporta mais um
filme lento, tem-se necessidade unicamente de montagens cut, rápidas, em que se cortam os planos e estes são telescopados.
E tudo vai muito rápido, como no videogame. É esta a nova colonização, a
colonização dos hábitos, dos costumes, dos ritmos, quer dizer, daquilo que
nos é próprio. Neste momento, nós conversamos e nossos ritmos são aqueles da
nossa saúde; se bebemos muito café ou bebida alcoólica ficamos excitados, mas
isto não vai muito longe, não nos impede de dormir. Enquanto que através da
cibernética social estamos constantemente sob controle, sob uma mensagem -
através de um telefone celular, de uma secretária eletrônica, etc. -, estamos
o tempo todo condicionados a reflexos: perde-se a reflexão em proveito do
reflexo. Tudo vai se dar em termos de reflexão ou de reflexo. A reflexão é a
memória e o raciocínio, enquanto que o reflexo é desprovido de reflexão.
-
E as conseqüências dessa situação...
- São terríveis. Trata-se de uma escravidão.
-
O ritmo de vida do homem superexcitado corresponde a viver todo o tempo
numa atividade-reflexo.
- Constantemente! A alienação do trabalho muito
comentada em relação às fábricas do passado implicava gestos repetitivos tal
qual mostra Carlitos no filme “Tempos Modernos”, sempre obrigado a fazer os
mesmos gestos. Evidentemente, hoje em dia isto não é tão aparente. Mas
quando eu vejo uma criança brincar com videogames eu volto a pensar no exemplo
de Carlitos. Ambos são parecidos. A diferença é que Carlitos produzia carros
e a criança produz somente gestos e sinais que a condicionam, tal qual um
animal é condicionado. Tal qual um animal de circo, ensinado a saltar para
obter um pouco de açúcar: ele salta, ele recebe açúcar, ele salta, ele
recebe açúcar . . . eu ganhei, eu perdi, eu ganhei, eu perdi... Não podemos
ser pela democracia e ao mesmo tempo por estes objetos. Desse modo, as rnultimídias
e as estradas eletrônicas são, na realidade, endocolonizações do mundo
inteiro, através de grupos de pressão industrial, sejam eles americanos,
japoneses, amanhã franceses, amanhã brasileiros, este não é o problema.
Foram domesticados os animais, os escravos, os soldados, os operários e os
empregados domésticos através de gestos e de rituais. Agora se domestica todo
mundo. O tempo mundial é a domesticação mundial.
-
A garantia para democracia passa pela democratização da cultura técnica.
O senhor acha que isto poderia ser realizável?
- A cultura técnica é ainda mais mal repartida do
que a cultura artística. Se existe uma arte do motor, existe uma cultura da
arte que é relativamente repartida. Ou seja, muita gente sabe quem foi Mozart e
Leonardo da Vinci. Mas quando se fala em motor de inferência lógica, quando se
fala de Jaron Lanier (músico,
artista plástico e empresário norte-americano; pesquisador em informática,
criou o termo “Virtual Reality”; fundador da Virtual Programming Language,
empresa pioneira na fabricação de equipamentos para redes de realidade virtual
(como o Dataglove, o Eyephone, etc.),
de Howard Rheingold (jornalista e
escritor norte-americano, especialista em informática), pouca gente conhece. Mesmo os ministros não
conhecem. Quando houve a guerra do Golfo eu fui consultado por ministros, pois
eles não conhecem as questões técnicas da guerra. A guerra do Golfo foi
extraordinária no sentido em que ela foi feita com materiais. Ela não foi
feita pelos homens que foram ridículos dos dois lados, tanto os americanos,
franceses e aliados quanto os iraquianos: eles não serviam para nada. O que
contava eram os mísseis, os superaviões furtivos, os satélites, os
computadores. Nesta guerra, os responsáveis políticos não conheciam nada!
Tudo estava nas mãos dos militares. Quando escrevi o livro “Guerra
e cinema” e um outro intitulado “A
máquina da visão”, eu pensava que os políticos deveriam conhecer as máquinas
de guerra, mas eles assinavam decretos desconhecendo justamente a máquina que
iria realizar a guerra. Eles não conheciam o que utilizavam. Acontece a mesma
coisa com os produtos técnicos e com as multimídias. Não se sabe o que são.
A cultura artística é popularizada, democratizada, mesmo sabendo que ela pode
ser melhorada, enquanto que a cultura técnica não começou nem mesmo ser
repartida. Eu posso lhes dizer que na França existem apenas umas vinte pessoas
que conhecem os domínios de que trato em meus livros. É ridículo! Deveriam
existir ao menos vinte, trinta ou quarenta mil pessoas. Isto é grave, é
irresponsável!
É preciso dividir com todos a cultura técnica
assim como se faz com a cultura artística. Democracia é divisão. E divisão
da crítica também. Eu não sou contra a técnica, eu sou um crítico de arte
da técnica. Quando um músico diz que gosta mais de uma interpretação de
Schubert por tal músico que por outro, isto não quer dizer que ele não goste
de Schubert, mas sim que ele tem um ouvido crítico e que escolhe o melhor.
Quando me trazem um objeto técnico eu não digo que ele é ruim. Eu digo que se
deve jogar fora, por exemplo, os videogames como os Sega, jogos feitos para as
crianças de oito anos. Eu não tenho nada contra os jogos eletrônicos para um
adulto, pois se ele quer se embrutecer ele tem essa escolha. Mas a criança que
é deixada em frente à tevê não tem escolha. Não sou contra a técnica, ela
nos deu objetos maravilhosos. O que quero sublinhar é que se nós não somos
capazes de ter uma crítica desta arte do motor, ficamos como a1guém que gosta
de música, mas sem ter julgamento de valor, achando que tudo em música é bom,
é genial. E quando se diz que tudo é bom é porque não se tem nenhum
julgamento, nenhum livre-arbítrio, mantendo-se condicionado.
Amar é escolher. É dizer isto e não aquilo. Amar
isto, isto e isto, é igual a zero. Não existe divisão democrática da cultura
técnica. O que é muito grave.
-
Após a eliminação de toda a extensão,
esta corrida eliminatória atinge isto que o senhor chama ele “o último
planeta”, ou seja, o corpo. Ora,
depois do início do século se tem a impressão que nós não cessamos de
invadir novas extensões e de modificá-las. Como se a eliminação das distâncias
ocorresse de maneira paralela à descoberta de extensões ainda desconhecidas;
como se o último planeta não parasse de se deslocar. Poderíamos dizer que se
trata de um movimento em direção ao infinito? Que a busca do domínio do corpo
e dos espaços seja paralela à descoberta de novas fronteiras a ultrapassar?
- O último planeta é a imagem do homem que pesa,
ou seja, do último planeta a ser conquistado pela técnica. Eu gostaria de
lembrar que a tecnologia conquistou o planeta Terra, ela redefiniu os territórios
através das estradas de ferro, das redes elétricas, das turbinas, das usinas,
etc. Ora, hoje, a miniaturização das técnicas permite equipar o corpo do
homem. A roupa utilizada para fazer amor à distância é feita de fibras óticas
e de um sistema de captores. Enquanto que a minha roupa serve para me proteger
do frio, esta outra é “uma roupa de dados”, ou seja, de informação. Com
ela eu me visto de informações que vão constantemente me tratar, me
interrogar, reagir, que fazem parte de uma espécie de dupla técnica: trata-se
de um “revestimento” técnico, de informação, que me chama a interagir tal
qual meus próprios nervos e veias. Trata-se de uma pele artificial. Aliás, nas
pesquisas que estão sendo feitas sobre a cibersexualidade se busca uma pele
artificial. Uma pele vibrátil, que transpire e que sinta, e não simplesmente
um revestimento de fios e de cabos. Busca-se uma pele artificial capaz de registrar todas as
sensações e de transmiti-las à distância: uma pele virtual. Como se a partir
dela eu pudesse dar um tapa ou beijar uma mulher e sentir tudo na pele, mesmo
estando longe, a dois mil quilômetros de distância.
Pode-se dizer que o homem está só, exposto à técnica
tal como o planeta foi exposto a ela. A miniaturização o coloca à beira da
terceira revolução. A primeira revolução a dos transportes. A técnica,
através das vias férreas, dos canais, das linhas aéreas, etc., permitiu a
invasão do espaço do mundo e sua conquista pela indústria. A segunda revolução,
e nós estamos nela neste momento, é da transmissão instantânea: trata-se do
imaterial, com os satélites, as redes eletrônicas, as multimídias. Ora, a
terceira revolução que se prepara é a da transplantação. Nela a miniaturização
dos objetos técnicos permitirá engoli-los e não somente transplantar um
estimulador cardíaco ou um fígado artificial, mas também uma memória
artificial no cérebro. O que se busca é acrescentar uma memória artificial,
exterior ao cérebro, e não somente a memória neuronal, da inteligência, da
lembrança e da nostalgia. O projeto é claro: alimentar o homem com uma
tecnologia-micróbio. Tal como se alimentou o homem com elementos químicos,
tentar-se-á amanhã alimentá-lo com elementos técnicos, ou seja, com micromáquinas,
com nano-máquinas. Assim caminhamos em direção a um homem artificial que é
transplantado. Ele já existe entre nós. A técnica é um tipo de alimento novo
que de uma certa maneira vai no mesmo sentido que os alucinógenos e as drogas
químicas. É por isso que eu disse que nesse momento existem dois tipos de
drogas: por um lado, as químicas, que os países do terceiro mundo possuem e
que fazem a sua fortuna (o narco-capitalismo é a fortuna do terceiro
mundo e talvez até mesmo a sua última fortuna). Por outro lado, nos países
desenvolvidos, se tenta, através da realidade virtual e destas tecnologias de
excitantes artificiais, conforme eu
analiso em “Do super-homem
ao homem superexcitado”, inventar uma droga técnica capaz de
concorrer com a droga química. Uma droga que não apresente o risco do desgaste
fisiológico da droga química, mas que produza os mesmos benefícios tanto em
termos financeiros quanto em termos de sensações e imagens.
- Neste capítulo, justamente, o senhor fala de um “desemprego”
de certos órgãos do corpo face à criação dos órgãos artificiais.
- Sim, e isso é muito grave, pois da mesma forma que o homem natural
foi considerado inútil, suas performances serão consideradas ultrapassadas.
Por exemplo, o homem nu era considerado como sendo um primata sem nenhum valor -
tal como o homem nu com sua flecha -, enquanto que o homem equipado, com sua
espada, seu cavalo, sua roupa - o conquistador -,era considerado o mestre. Mas
atualmente é o olho nu e cada órgão do corpo que é desqualificado, e não
mais somente o homem nu, o primata em relação ao homem desenvolvido, ao
engenheiro, etc. Cada órgão do ser é considerado
como sendo primitivo face às próteses técnicas capazes de irem mais longe nas
performances. Assim é preciso proteger o “olho nu” tal qual era necessário
proteger o homem nu no momento do processo de Valladolid, de Las Casas (Bartolomeu
de Las Casas, padre dominicano espanhol que defendeu os índios contra a
escravização e
o extermínio nas encomiendas”). Pois o olho nu é sagrado! Assim como o homem nu é sagrado! Se
amanhã eu nascesse e, sendo um bebê,
me colocassem um capacete eletrônico, eu diria para jogá-lo fora.
Existe uma escravidão em relação à técnica de cada um dos sentidos: o
olho, a audição, o tato, etc. Tem-se uma espécie de endocolonização não somente
das populações, mas do corpo humano, que é investido e fagocitado pela técnica.
Há uma invasão, através da terceira revolução, aquela da transplantação,
de cada um de nossos órgãos. Cada um dos nossos sentidos está ameaçado de
uma colonização, de uma microcolonização.
E eu não estou exagerando.
-
Desse modo, “a aterrissagem”
das técnicas sobre o corpo, esta colonização do corpo por organismos sintéticos
miniaturizados que o senhor analisa, parece ser solidária com as mudanças
radicais das noções de natureza e
artifício. Será que, no limite, estaríamos vivendo numa época em que a oposição
entre estes dois termos perdeu completamente o sentido?
- Sem dúvida. De todo modo, em todos os sentidos nós estamos no limite. A grandeza deste fim de milênio é que nós chegamos ao limite: ao limite atômico, ao limite em relação à poluição do planeta, à técnica, à demografia. A demografia é a terceira bomba, após as bombas atômica e informática. A bomba demográfica explodirá no terceiro milênio. Nós estamos no limite. Nosso final de século está no limite de muitas coisas, o que é ao mesmo tempo maravilhoso, trata-se de uma grande época; mas também de um grande perigo. Será que os homens são capazes de compreender o que está em jogo? Esta é a grande questão.