LIÇÕES  DE  HUMANISMO  DOS  ÍNDIOS  DO  BRASIL

 

DARCY  RIBEIRO

 

Em 1947, o General Cândido Rondon convidou um jovem antropólogo para uma pesquisa de três meses entre os índios cadiuéu no sul do Mato Grosso. Só que este jovem antropólogo se chamava Darcy Ribeiro e era, segundo ele próprio, um exagerado. Ficou oito meses entre os cadiuéu. Voltou e ficou mais nove. Depois foi conviver com os índios do Xingu, do Alto Araguaia, do norte do Pará e do sul do Brasil: ao todo, dez anos de vida intensamente ligados aos índios brasileiros, cinco dos quais participando do cotidiano das aldeias. Dessa longa convivência Darcy Ribeiro guarda saudades e algumas lições.

 

Quero lembrar primeiro que não existe o índio. Nossos índios têm muito em comum, mas são tremendamente diferentes uns dos outros. Só para dar uma idéia: quase todas as línguas européias - o russo, o alemão, o francês - pertencem a um só tronco: o Indo-Europeu. E imagine que entre os índios brasileiros foram registrados mais de trinta troncos diferentes, cada um deles dividido em dezenas de línguas, e línguas às vezes absolutamente diferentes umas das outras.

Há uma coisa importante a notar: os índios não representam uma condição prístina da humanidade, não são fósseis da espécie humana como muita gente pensa. Foi no último milhão de anos que se deu o processo de humanização, que se verificaram as primeiras condutas culturais, o uso do fogo, enfim, a sapientização - a capacidade de se comunicar através de símbolos verbais. Neste espaço de um milhão de anos, os índios só se diferenciaram de nós nos últimos dez mil anos. Eles tiveram também um longo processo de crescimento. E vamos encontrar neles, hoje, uma estrutura de espírito e uma estrutura verbal que são iguais ou melhores do que as nossas. Possuem línguas tão complexas como as nossas, com as mais ricas capacidades de variações. É claro que uma língua primitiva como a inglesa, por exemplo, é melhor que a dos nossos índios para exprimir certas coisas. Isto porque o povo inglês teve uma experiência mais rica e a experiência de um povo se reflete toda na sua língua. Os índios tiveram uma experiência mais restrita, mas a estrutura verbal e mental é a mesma.

Um outro dado importante para compreender o índio. O índio em seu estado original representa a condição humana que não passou pela mais terrível das experiências humanas: a estratificação social, que é a mó que esfacela as criaturas. Há seis mil anos atrás surge a primeira cidade e, com ela, as classes sociais, surge o primeiro camponês. A condição humana então se biparte toda: em urbana e rural, em senhor e escravo, surgem os sacerdotes, os guerreiros. Nós, civilizados, já passamos por essa mó e somos hoje o bagaço dela. Os índios ainda não são o bagaço dessa mó. Por isso eles têm uma integridade de espírito que nós não temos. Meses e meses viajei com índios e caboclos num mesmo grupo. Pude observar que os índios se comportam com muito mais integridade. O índio é um homem dono de si, cheio de orgulho de si mesmo, com total confiança na sua capacidade espiritual, aberto e curioso.

 

Chegava num grupo indígena e eles logo queriam saber: “Quem é o senhor de fósforo?”  Nenhum caboclo jamais me perguntou como é que se fabricam fósforos. Os índios sempre querem saber  tudo: “Quem é o senhor do metal?”  “Quem é o senhor do sal?”  Isto é: quem fez essa faca, como se faz o sal. Ele pergunta a seu modo, não concebe o processo industrial das coisas, atribui tudo ao Yara, ao Senhor.  Mas está confiante de que seu espírito é tão capaz como o meu de compreender qualquer coisa. Ele acha que há explicação e que ele pode entender. Já o caboclo, produto da estratificação social, quem é? É um que sabe que não sabe e está conformado em não saber: quem sabe é o doutor lá. O seu espírito está quebrado no mais profundo de si mesmo, ele se sente tão pouca coisa que outro pode manipulá-lo e usá-lo. O índio, pelo menos perante si mesmo, sabe que vale muito.

 

O cesto, a flecha, a vida: pessoalmente assinados

 

E quanto mais afastado da civilização e suas estratificações, mais íntegro ele se mostra.

Na linguagem corrente, cultura é o atributo do homem culto. Para o antropólogo, cultura é tudo o que humaniza e faz o homem crescer. Neste sentido, todo o homem tem cultura. Um camponês tem cultura, tem sabedoria. Ele é o culto que lê na cor das plantas o que se passa na roça. Que lê na cor da terra todos os possíveis usos daquela terra. Lembro um fato que mostra o quanto eu, intelectual de cidade, me sentia às vezes ignorante nos primeiros contatos com culturas indígenas.

Eu estava numa aldeia de índios e cada dia que passava mais me convencia: caí no meio de um bando de loucos. Nunca tinha visto coisa mais doida do que aquela vida deles: cada dia acordavam numa hora diferente. Às vezes acordavam às três da manhã e faziam aquela barulheira. Outro dia era às seis, e a mesma farra. Às vezes passavam quase toda a noite batendo caixa e, em outras, iam dormir às sete da tarde. Um povo não pode viver tão desorganizado assim. Que pauta havia organizado aquela bagunça? Comecei a investigar. Por que vocês hoje bateram caixa à meia noite? Nada, não vinha resposta coerente. Eles nem entendiam a minha dúvida. Passaram-se meses até que um dia percebi tudo. É que a lua cada dia nasce numa hora um pouco diferente do dia anterior. E quando a lua está boa, tudo fica claro e um pode ver a cara do outro. E, se um pode ver a cara do outro, pode-se ficar conversando, curtindo, batendo tambor até às onze, meia-noite, até às três da manhã. Mas às vezes não tem lua e todo mundo vai dormir às sete. Lá pelas duas da manhã ela aparece e fica tudo claro e todo o mundo se levanta e vai curtir, conversar, bater tambor. Só que eu, pobre vítima da luz elétrica e dos horários, fiquei meses para entender um mundo onde a regra é a lua.

Nas expedições, eu sempre fazia um esforço para não cair nas casas dos caboclos: ia direto para a dos índios. Nas aldeias dos índios a casa é mais limpa, a fartura é maior e a vida mais agradável. Uma das razões é a seguinte: uma casa de camponeses brasileiros paga caro o seu vínculo à civilização. O camponês vive escravizado porque dedica mais da metade da sua energia para comprar roupa, medicamentos, ferramentas. Então o custo do que para eles é obrigatório exige um grande esforço - entrar na mata, tirar seringa, tirar óleo de copaiba; que são as mercadorias que ele precisa produzir para entrar no jogo do consumo. Então a produção mercantil escraviza o homem porque ou ele leva alguma coisa para vender ou não obtém nada.

Numa estrutura tribal, a tribo como um todo se dedica a reproduzir suas próprias condições, fazendo e refazendo suas ferramentas, roupas, alimentos, tudo enfim o que consomem. Desobrigados de uma produção mercantil, eles trabalham para si mesmos, e tem fartura e lazer. Daí o gosto e a beleza que eles põem na confecção dos mais simples objetos de uso diário.,

Não havendo pressões para produzir coisas vendáveis, os objetos não se estandartizam. Quando uma índia faz uma cesta para carregar mandioca, ou um índio faz uma flecha, todo mundo sabe que foi fulano quem fez: as características deles estão no objeto fabricado. Eu levava uma flecha de uma aldeia para outra e ela era reconhecida: essa flecha é do fulano, tá na cara. E, como a flecha expressa e glorifica seu autor, ele se empenha em fazê-la bem. Para fazer a cesta, a índia corta e seca a palha do jeito dela, decide o tamanho segundo a sua altura, seu jeito de carregar. Ela se imprime toda na cesta. E são bem maiores o gosto e a beleza de fazer.

 

O  veneno é veneno. E a cuia é do menino

 

Nas relações entre pais e filhos nunca vi dois vícios bem comuns entre nós: chantagem e autoritarismo.   Um belo exemplo de respeito de um pai pelo seu filho eu vi uma vez descendo um rio com um colega. Ele viu um índio Ticuna com uma cuia, muito bonita, pintada de preto por dentro e toda pirografada por fora. Eis o diálogo que se deu:

- Eu queria comprar esta cuia.

- Não. Não é minha. É do menino.

- Onde está ele?

- Por aí.

- Dou essa faca pela cuia.

- Mas é do menino.

- A faca e o facão.

- É do menino.

- A faca, o facão e a tesoura.

- Mas é do menino.

Deixou de fazer um negócio que poucos pais civilizados deixariam de fazer só para não substituir a vontade do filho pela sua. Não usou sua autoridade contra  o filho. Mesmo num caso em que a vantagem do filho seria evidente.

Tive também várias provas de quanto os filhos acreditam nos pais. Uma vez, numa aldeia dos Caapora, entre Pará e Maranhão, estava observando uma mãe índia e seu filho junto ao tipiti. O tipiti é um cesto longo onde elas espremem a massa da mandioca para fazer farinha. A índia estava sentada na ponta da alavanca apertando o tipiti. Ela apertava e escorria um líquido, o tucupi, que é ácido prússico, um veneno mortal. Pois um indiozinho de uns dois anos e meio estava embaixo do cesto brincando de encher as conchas da mão com o líquido venenoso que escorria. Fiquei nervoso:

- Tire seu filho daí, se ele bebe isso, morre.

-  Mas ele não bebe. Ele sabe que não é bom.

E brincou com o líquido venenoso o tempo que quis.

Outro fato. Na Amazônia faz muito frio de madrugada e debaixo de cada rede há sempre um foguinho. E as crianças de um ano, um ano e meio, sempre estão por ali engatinhando entre os fogos. No começo eu protestava:

- Mas eles vão terminar se queimando!

Ninguém me fazia caso e nunca ninguém se queimou. Nós é que achamos que criança não sabe, não é um ser, não tem vontade e mãe só se sente mãe na medida em que toma conta, em que imprime sua vontade. Entre os índios a criança sabe que fogo é de fato perigoso. Como eles conseguem isso? Não sei. Talvez simplesmente não mentindo. Não há possibilidade de mentira entre eles. E como a mãe nunca faz chantagem, o filho sabe que pode confiar e atua bem. A mãe índia não fica como a nossa: não come, meu filho, que essa bala é azeda, faz mal; ele um dia come, vê que é doce e faz bem e não acredita mais. Nós já nascemos com relações inautênticas.

A criança fica muito chegada à mãe até três, quatro anos. A mulher tem na tribo uma carga muito grande de trabalhos. Apanha lenha, traz água, mantém o fogo, colhe na roça. A vida lhe pesa e ela não pode fazer tudo com duas crianças. Por isso ela nunca se permite ter outro filho enquanto o seu não faz quatro anos e pode viver sozinho. E usa várias técnicas de evitar filhos.

Nestes primeiros quatro anos o filho fica muito ligado à mãe. A coisa mais típica de uma mãe índia é a tipóia, essa faixa de pano a tiracolo. Ali a criança vive nela até aprender a andar. E para ali volta mesmo depois que caminha. A faixa faz com que a mãe tenha as mãos livres e a criança fica livre também para curtir o corpo da mãe: mama, mexe nos cabelos, gira de um lado para outro. Outra coisa que sempre chamou atenção: esta criança nunca está nervosa ou ansiosa. Nunca vi uma criança chorar por mais de um minuto.

E em anos de mato, só uma vez vi uma criança ser castigada.

Filmei duas cenas lindas neste sentido. Uma é de uma mãe dando banho no filho e depois secando a criança no vento, balançando-a no ar, para lá e para cá. Outra é de uma criança tentando disputar a fruta do bacuri com um papagaio. Os três, mãe, criança e papagaio estão na maior intimidade, em paz, sem ansiedades.

 

O homossexual é respeitado. E o incendiário também.

 

É difícil para nós conceber como funciona uma sociedade sem ordem, sem mando, praticamente sem autoridade. Nunca tivemos experiência disso. Em todos os lugares você encontra alguém mandando, uma regra já prescrita. Claro que os índios também têm os seus costumes, há expectativas de determinados comportamentos. Mas tudo isso funciona com uma grande liberdade de opções para cada pessoa e com uma impossibilidade prática de despotismo. Entre os índios brasileiros não se encontra esta figura do chefe tribal mandão e sangrento, emitindo raios e ordenando escalpos. E isso em todas as tribos que trabalhei.

Os índios Caapor, por exemplo, nunca entendiam porque os brancos estavam sempre querendo saber quem era o capitão. Terminaram traduzindo para a língua deles: akang (cabeça) e pitang (vermelho) = cabeça vermelha. Percebendo que o capitão devia ser algo importante, começaram a pintar a cabeça de vermelho, só para impressionar. Nós projetamos neles a idéia de que sempre deve existir uma autoridade.

Outro fato vem comprovar essa ausência de autoritarismo. Eu andava de uma aldeia para outra numa expedição grande, com uma carga que exigia dez homens para carregar. Cada vez que estava para partir, era indispensável contratar e pagar carregadores índios ou ordenar que me ajudassem, mesmo porque eles não tinham capitão... Mas eu estava parando na casa de uma espécie de líder do grupo, um índio mais velho, dono de uma roça maior e que, portanto, tinha uma casa mais farta e podia ser mais generoso. De tarde os outros índios iam chegando da mata e ficavam por ali conversando.

De repente o dono da casa disse: amanhã você vai, eu vou com você. Outro índio soube e disse: você vai, ele vai, eu também vou com você. E assim todos os outros. Mas o dono da casa nunca disse: olha, turma, ele está precisando e vocês vão ter que ajudar. Cada um, por sua vontade, colocado o problema, se dispôs a partir comigo. Ninguém manda em ninguém. Não existe pau mandado  entre os índios.

Outro belo exemplo destas relações não repressivas eu encontrei no Xingu. No Xingu as casas são imensas, podem ter até 40 metros de comprimento, 14 de largura e 9 de altura. Elas são como que enormes cestos de vara e palha, primorosamente trançados. E que, de repente, pode virar enorme chama. É grande o perigo de incêndio. Pois lá tinha um menino que simplesmente pôs fogo na aldeia. E o engraçado é que ninguém pensou em castigá-lo, matá-lo, mandar para psiquiatra. Seu único castigo foi ficar pela vida toda com um apelido: o incendiário. E isso sempre era lembrado na base da brincadeira. Todos apontavam o menino na maior gozação: Olha lá o incendiariozinho!... Era a atração da aldeia.

A mesma atitude de respeito se nota em relação aos homossexuais. Há documentos já do século passado sobre a existência de homossexualismo entre tribos do Brasil. Inclusive entre os cadiuéu  que eu estudei. Eles chamam o homossexual de kudina. O kudina é um homem mulher, ou um homem que decidiu ser mulher. Ele se veste como mulher, pinta o corpo como uma mulher - e menstrua.

Entre os índios, a mulher menstruada - flechada pela lua, na linguagem deles - está em estado de impureza, pelo que é intocável e perigosa. Então, para maior segurança dos homens, ela se retira para um ranchinho isolado durante a menstruação. O ranchinho vira um ninho de fofocas, e por isso os kudina resolvem menstruar também e ficam uns dias lá, numa boa, fofocando o dia inteiro.

Mas o kudina é uma figura absolutamente aceita, integrada no grupo. Significa apenas a possibilidade de condução humana que a tribo incorporou e até institucionalizou. O grupo reconhece que eles são em geral grandes artistas. São tão aceitos como os guerreiros. Estes sim hoje andam um tanto confusos, vagando pela tribo, esperando a guerra. Mas não há mais guerra e eles não fazem coisa nenhuma.

De uma forma geral todos os índios se mostram muito livres em suas manifestações de afeto. Entre nós, um homem mal pode apertar a mão de outro, mulher a gente deve abraçar de leve. Os índios vivem agarrados uns com os outros. Curtem se tocar e conversar bem juntinho. inclusive os homens. Mal eu chegava numa aldeia, eles logo me cercavam e vinham se encostando. Uma amiga achou os índios uns desmunhecados porque não paravam de se encostar no marido dela.

A própria estrutura da família entre eles é totalmente diferente da nossa, e também não leva ao autoritarismo. Na  nossa, o amor é o cimento da família. Ora, o amor e o trabalho são as duas coisas mais bonitas da vida. Mas o amor pode ocorrer várias vezes na vida, e até simultaneamente. Nossa estrutura pretende que o amor seja sempre um só. E quer usar o amor como cimento de uma coisa tão mais séria que é criar filho. Os filhos exigem 14 anos de atenção e nesse tempo o amor pode fracassar, mas é preciso agüentar firme por causa dos meninos. Então nós usamos um cimento errado. O cimento indígena é muito melhor. Entre os Bororó, por exemplo, uma família é um conjunto de mulheres com seus irmãos e seus filhos; o filho leva o nome da mãe. E quem é o pai? É a pessoa que teve uma relação com a sua mãe. Este pai, enquanto casado, mora no clã da mãe. Mas é do outro clã, para onde sempre volta. O pai é aquela pessoa com quem o menino vai conversar livremente: é o companheirão, em cuja clã ele poderá casar. A autoridade para ele é o tio. Uma estrutura, portanto, diferente da nossa. Mas também se poderia dizer que eles têm, sob outras formas, muitos costumes semelhantes aos nossos. Eles têm a sua forma de psiquiatria, por exemplo. E, na próxima vez, eu gostaria de falar do xamã, o pagé, o feiticeiro - o psiquiatra?... 

 Artigo publicado na Revista "Psicologia Atual"- número 4

Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 1922 e formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo em 1946. Como etnólogo, dirigiu a seção de estudos do Serviço de Proteção ao Índio, criou no Rio o Museu do Índio. Foi Ministro da Educação, criou e organizou a Universidade de Brasília.Foi Professor na Fundação Getúlio Vargas. Lecionou na Faculdade de Humanidades e Ciências da Universidade da República Oriental do Uruguai (durante o exílio político).Escreveu inúmeras obras, sendo considerado um dos maiores antropólogos do Mundo. Entre outras, destacam-se: O Processo Civilizatório, A Universidade Necessária, A Civilização e as Américas, A Política Indigenista Brasileira, Línguas e Culturas Indígenas do Brasil, Arte Plumária dos Índios Kaapor, Religião e Mitologia Kadiwéu, O Dilema da América Latina, Diários Índios, Os Índios e a Civilização etc. etc.Da Academia Brasileira de Letras. Senador da República pelo Estado do Rio de Janeiro. Faleceu no dia 17-02-1997, com 74 anos de idade.