NEOLIBERALISMO E RELIGIÃO

JungMo Sung

 Por que neoliberalismo e religião? Por que não simplesmente neoliberalismo e ética? Aliás, já tratado brilhantemente pelo Manfredo A. de Oliveira, no seu artigo “Neoliberalismo e ética”.

Ou então, a relação com a doutrina social da Igreja? A tentativa de relacionar neoliberalismo com a religião ou fazer uma critica teológica do neoliberalismo não é querer “forçar a barra” para justificar algumas posições teológicas insustentáveis numa sociedade secularizada?

Esse tipo de questionamento costuma vir tanto dos defensores do neoliberalismo (que não aceitam nem a discussão ética) quanto dos cientistas sociais de tradição marxista, ligados ou não aos movimentos eclesiais. Mesmo muitos dos que trabalham o tema fé e política “desconfiam” ou têm dificuldades em articular estes dois assuntos aparentemente tão distantes: a economia neoliberal e a religião.

Não tenho pretensão de, nesse pequeno artigo, solucionar todos os problemas subjacentes às questões levantadas acima. Quero simplesmente contribuir ao debate apresentando justificativas da importância dessa nova forma de abordagem crítica do neoliberalismo. Tentaremos fazer isso em duas perspectivas: a epistemológica e a política.

 

1.  Perspectiva Epistemológica

 

A grande parte da população brasileira não sabe o que significa “o neoliberalismo” e nem está muito acostumada a ouvir essa palavra. O que se apregoa é a liberalização da economia, a possibilidade de comprar produtos importados e a esperança de que o mercado, livre da corrupção e das mazelas do Estado, possa finalmente levar o Brasil ao Primeiro Mundo, ao paraíso do consumo.

O que as pessoas “normais” experimentam é a atração e, até mesmo, a fascinação que as mercadorias - nas vitrines ou nas propagandas - exercem sobre elas. As promessas e propostas dos neoliberais aparecem como o caminho mais curto para a realização do desejo de posse destes objetos fascinantes.

Júlio Ribeiro, uma das pessoas mais conceituadas no mundo da propaganda, após muitos anos de experiência e de convivência neste meandro tão nebuloso do desejo-mercadoria-propaganda, diz que “as pessoas não estão interessadas nos produtos em si. Estão interessadas no benefício que podem tirar desses produtos. Um Rolex torna a pessoa distinta. Um carro esporte torna o dono mais jovem. Um creme de beleza engana a morte. Sem esse fascínio, ninguém vai investir o seu dinheiro no produto”

Tornar-se distinto, diferente, superior, “enganar” o envelhecimento e a morte e fascinação são questões essenciais e constitutivas de todas as religiões.

Um outro publicitário importante, Nizan Guanaes, percebeu também esta religiosidade existente em torno da mercadoria. Elogiando o trabalho de marketing do tênis Nike, ele diz: “Nike é sublime. (...) Nike não é um tênis, um calçado, é um modelo de vida. Nike é um estilo e uma visão de mundo. Seus anúncios são evangélicos. Não vendem apenas, doutrinam. Não convencem só, convertem. (...) Nike faz o boy do Terceiro Mundo se sentir tão bem quanto se tivesse cheirando cola. Por isso um monte de boy que não podia ter Nike tem Nike. Porque se ele não tiver ele morre”.

O que mata alguém: a falta de comida ou de Nike? Nessa pergunta está talvez a grande dificuldade das “esquerdas” em compreender o povo e o modo como ele age e vota politicamente. É claro que a falta de comida mata; e isso todos nós sabemos. O que temos dificuldade em compreender é que a falta de sonhos e de ilusões também mata! E que nas nossas sociedades modernas capitalistas a religião não é mais, como nas sociedades e culturas pré-modernas, a grande produtora e socializadora de sonhos e ilusões (ou utopias) e, portanto, do sentido da existência. Esta função é exercida hoje pelo mercado.

É também por compreender esse tipo de coisa que Guanaes diz que “não há coisa mais útil para o homem do que a ilusão. Ilusão é gênero de primeira necessidade. É o que nos mantém vivos. É por isso que no Brasil há televisão em lugares onde não tem comida. Sonhar é uma necessidade fisiológica do homem. Nike é sonho”.

Não quero discutir aqui a diferença entre ilusão, sonho, utopias e outros termos congêneres, nem o problema da alienação. Só quero lembrar que a economia, por se tratar de relações sociais e interpessoais, não se esgota em números ou em “materialidades”. Há algo mais que precisamos compreender. Algo esse que o paradigma da racionalidade moderna-marxista, de influência positivista, tem muita dificuldade de ver e muito mais de compreender.

Na verdade, essa questão já está presente no primeiro capítulo do livro O Capital, de Marx, na sua famosa teoria sobre o fetiche da mercadoria. É interessante notar que, na sua maturidade, ao analisar a economia capitalista e, em particular, a mercadoria, Marx se defronta novamente com a religião e a teologia.

Num texto de 1844, “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, ele havia afirmado que a crítica da religião estava, no essencial, terminada e que a religião era “consciência invertida do mundo”, porque o próprio mundo - o Estado, a Sociedade - era invertido. A explicação da religião não estaria na própria esfera religiosa, mas sim no mundo, nas relações sociais.

Mais tarde, ao analisar a mercadoria, ele diz que “à primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial, evidente. Analisando-a, vê-se que ela é uma coisa muito complicada, cheia de sutileza metafísica e manhas teológicas”. Fala também no “caráter místico” da mercadoria e que para “encontrar uma analogia, temos de nos deslocar à região nebulosa do mundo da religião”. Para desvendar o mistério da mercadoria nas sociedades capitalistas, Marx elaborou o seu conceito de fetiche da mercadoria.

Se na juventude ele explicou a religião a partir das relações sociais, na sua análise econômica ele explica a mercadoria com uma analogia ao mundo da religião. Estabelece-se aqui uma “circularidade” entre religião e economia que merece muito mais atenção do que tem sido dado. Não quero entrar aqui na discussão sobre o uso dos símbolos bíblicos em Marx , mas somente mostrar que, pelo visto acima, não se pode compreender a dinâmica da economia capitalista e, em especial, o neoliberalismo sem referência à sua religiosidade intrínseca.

É claro que para introduzirmos a questão religiosa na análise econômica, precisamos também repensar o próprio conceito e a função social da religião e da teologia nas sociedades modernas. Mas esse é um assunto a ser tratado em outro lugar.

 

2.   Perspectiva Política

 

Nesta perspectiva, um fato que chama a atenção é o pessimismo do neoliberalismo em comparação com o desenvolvimentismo, o modelo vigente antes da avalanche neoliberal. Enquanto que no desenvolvimentismo se propagava uma visão otimista do crescimento econômico como a solução dos problemas sociais do país, no neoliberalismo prevalece o que eu denominei, num outro trabalho, de “pessimismo otimista”. O discurso não está mais centrado no desenvolvimento, mas no ajuste e nos sacrifícios necessários. O “otimismo” fica por conta da promessa de um futuro paradisíaco para os que sobreviverem à “travessia do deserto”.

A legitimação ideológica não se dá mais pela promessa otimista, mas pela negação de todas as outras alternativas. Se no passado alguns diziam que “fora da Igreja não há salvação”, hoje se diz, por exemplo, que “não há salvação fora da competitividade”, título de um artigo de Antônio Trevisan. Não há salvação fora do mercado e da sua lógica da competitividade. E o grande inimigo da “salvação” passa a ser então a intervenção do Estado e da sociedade civil na liberdade do mercado.

“A abertura do mercado leva à competitividade e esses dois movimentos inibem o poder do Estado e ampliam as iniciativas do setor privado”. Porém Trevisan reconhece que “se competitividade é produzir mais com menos mão-de-obra, o desemprego transpõe o nível da ameaça e se torna realidade”. Se não há salvação fora da competitividade e da abertura de mercado (o eixo da receita neoliberal), “a quem caberá a responsabilidade de arcar com os custos sociais provocados pelo desemprego estrutural resultante do aumento da competitividade?”

Há duas posições básicas entre os defensores da idéia de que fora do mercado não há salvação. A primeira e mais cínica : os custos sociais fazem parte da dinâmica do progresso. Não se pode fazer nada contra essa “lei”. O segundo grupo, no qual está Trevisan, defende que a responsabilidade deve ser assumida pelos empregados, através de impostos que seriam repassados, pelo Estado, aos marginalizados. Só que, com o aumento do desemprego estrutural, os impostos e as intervenções do Estado tendem a aumentar, o que vai radicalmente contra a lógica da “não há salvação fora do mercado”. Sendo assim, esse desejo de cumprir a responsabilidade social fica só em paliativos ou em retóricas.

Se os ajustes neoliberais só tendem a aumentar os problemas sociais e os sofrimentos dos pobres, além da ansiedade na classe média, como os defensores desses ajustes logram apoios políticos tão expressivos? Não há contradição em o povo depositar suas esperanças nos pessimistas que falam dos sacrifícios necessários?

“Esperança” e “sacrifícios”, talvez esteja nestas duas palavras o segredo do nosso enigma. Alguns dizem que o neoliberalismo está quebrando as esperanças do povo. Não acredito. Talvez esteja quebrando as nossas esperanças de superação do capitalismo por um outro sistema social, mas não do povo. Porque o povo não vive sem esperança. Quando não é mais possível nenhuma esperança “histórica”, se busca uma esperança mágica. Pois sem esperança o presente se toma insuportável e não se pode viver. Quem quer dominar inteligentemente não quebra esperanças, substitui-as.

Esperanças mágicas e ilusórias (mas que permitem continuar vivendo) têm muito a ver com o sacrifício. Essa palavra quer dizer “fazer sagrado”, “tornar algo sagrado”. E o sagrado tem a ver com “irracionalidade” (para além da lógica racional) e com fascinação, medo e violência.

Fascinação da mercadoria, promessas e esperanças mágicas de que o livre mercado vai possibilitar o acesso ao mundo fascinante do consumo e reconhecimento de que sem sacrifícios não se alcança a salvação são componentes desta “salada religioso-econômica”. O mais importante é que a sua lógica não entra em contradição com a lógica sacrificial de muitas religiões e, em particular, do cristianismo na versão da cristandade.

Para o povo, não há muita dificuldade em associar a lógica sacrificial neoliberal com certas soteriologias (teologia da salvação) que ensinam que sem sacrifícios (de Jesus e também nossos) e sem certos rituais mágicos (como sacramentos, por exemplo), não há salvação.

Podemos dizer que o capitalismo, hoje na sua versão neoliberal, é a encarnação da religiosidade sacrificial presente em todas as épocas e que nos tempos bíblicos era materializada, por exemplo, no culto ao Moloc. Se tudo isso que dissemos faz algum sentido, podemos entender um pouco melhor porque o povo e as elites se sentem fascinados ou imobilizados diante do neoliberalismo.

 

3.   Desafios

 

Eu me identifico com uma corrente de pensamento na América Latina que diz que a modernidade não se caracteriza fundamentalmente pela secularização, mas sim pela idolatria. Isto é, não houve uma separação radical entre o mundo sagrado-religioso e o mundo econômico-político ou então um “desencantamento” do mundo. O que houve na verdade foi um deslocamento do sagrado: do âmbito religioso tradicional para o mercado, no capitalismo. Isso porque mitos, religiosidade, utopias, o absoluto que dá sentido à história e outras “coisas” desse tipo são essenciais ao funcionamento de qualquer sociedade. E a constituição de algo ou alguém como o absoluto gera necessariamente sacrifícios de vidas humanas. Como dizia o velho Horkheimer: “qualquer ser limitado - e a humanidade é limitada - que se considera como o último, o mais elevado e único, se converte em um ídolo faminto de sacrifícios sanguinários e que tem, ademais, a capacidade demoníaca de mudar a identidade e de admitir nas coisas um sentido distinto”. É sempre importante lembrarmos que o ídolo só é ídolo para quem não o cultua. Para os que estão fascinados, os idólatras, o ídolo é o fundamento da sua existência e de suas esperanças.

Se tudo isso tem um certo fundamento, a nossa crítica ao capitalismo neoliberal não pode se reduzir a uma critica “racional” e agressiva. Aliás, numa relação de fascinação e devoção, a agressividade de terceiros só tende a aumentar a adesão ao objeto ou à pessoa criticada.

Sabemos que precisamos criticar o neoliberalismo, mas ainda não sabemos muito bem como fazer de uma forma mais eficaz. Talvez um dos grandes desafios imediatos que temos hoje seja exatamente o de compreender melhor a complexa relação entre a religião e a economia-política nas sociedades modernas.

Um segundo desafio poderia ser o de construir uma linguagem religiosa que não somente envie o cristão ao mundo da política, mas seja capaz de articular dentro do seu discurso os problemas e desafios da economia e política modernas. Não é uma tentativa de “reencantar” o mundo ou de voltar a uma cristandade do tipo medieval, mas de reconhecer que um discurso religioso só terá força social se for capaz de articular idéias coerentes sobre política e economia sem perder a sua identidade de linguagem religiosa.

In: “Cadernos de Fé e Política”, n.13, Petrópolis, RJ.


Religião do consumo

 

Por Frei Betto

 

O "Financial Times", de Londres, noticiou que a Young & Rubicam, uma das maiores agências de publicidade do mundo, divulgou a lista das dez grifes mais reconhecidas por 45.444 jovens e adultos de 19 países. São elas: Coca-Cola (35 milhões de unidades vendidas a cada hora), Disney, Nike, BMW, Porsche, Mercedes-Benz, Adidas, Rolls-Royce, Calvin Klein e Rolex.

"As marcas constituem a nova religião. As pessoas se voltam a elas em busca de sentido", declarou um diretor da Young & Rubicam. Disse ainda que essas grifes "possuem paixão e dinamismo necessários para transformar o mundo e converter as pessoas em sua maneira de pensar".

A Fitch, consultoria londrina de design, no ano passado realçou o caráter "divino" dessas marcas famosas, assinalando que, aos domingos, as pessoas preferem o shopping à missa ou ao culto. Em favor de sua tese, a empresa evocou dois exemplos: desde 1991, cerca de 12 mil pessoas celebraram núpcias nos parques da DisneyWorld, e estão virando moda os féretros marca Halley, nos quais são enterrados os motoqueiros fissurados em produtos Halley-Davidson.

A tese não carece de lógica. Marx já havia denunciado o fetiche da mercadoria. Ainda engatinhando, a Revolução Industrial descobriu que as pessoas não querem apenas o necessário. Se dispõem de poder aquisitivo, adoram ostentar o supérfluo. A publicidade veio ajudar o supérfluo a impor-se como necessário.

A mercadoria, intermediária na relação entre seres humanos (pessoa-mercadoria-pessoa), passou a ocupar os pólos (mercadoria-pessoa-mercadoria). Se chego à casa de um amigo de ônibus, meu valor é inferior ao de quem chega de BMW. Isso vale para a camisa que visto ou o relógio que trago no pulso. Não sou eu, pessoa humana, que faço uso do objeto. É o produto, revestido de fetiche, que me imprime valor, aumentando a minha cotação no mercado das relações sociais. O que faria um Descartes neoliberal proclamar: "Consumo, logo existo". Fora do mercado não há salvação, alertam os novos sacerdotes da idolatria consumista.

Essa apropriação religiosa do mercado é evidente nos shopping-centers, tão bem criticados por José Saramago em A Caverna. Quase todos possuem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas. São os templos do deus mercado. Neles não se entra com qualquer traje, e sim com roupa de missa de domingo. Percorrem-se os seus claustros marmorizados ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Ali dentro tudo evoca o paraíso: não há mendigos nem pivetes, pobreza ou miséria. Com olhar devoto, o consumidor contempla as capelas que ostentam, em ricos nichos, os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode pagar à vista, sente-se no céu; quem recorre ao cheque especial ou ao crediário, no purgatório; quem não dispõe de recurso, no inferno. Na saída, entretanto, todos se irmanam na mesa "eucarística" do McDonald’s.

A Young & Rubicam comparou as agências de publicidade aos missionários que difundiram pelo mundo religiões como o cristianismo e o islamismo. "As religiões eram baseadas em idéias poderosas que conferiam significado e objetivo à vida", declarou o diretor da agência inglesa.

A fé imprime sentido subjetivo à vida, objetivando-a na prática do amor, enquanto um produto cria apenas a ilusória sensação de que, graças a ele, temos mais valor aos olhos alheios. O consumismo é a doença da baixa auto-estima. Um são Francisco de Assis ou Gandhi não necessitava de nenhum artifício para centrar-se em si e descentrar-se nos outros e em Deus.

O pecado original dessa nova "religião" é que, ao contrário das tradicionais, ela não é altruísta, é egoísta; não favorece a solidariedade, e sim a competitividade; não faz da vida dom, mas posse. E o que é pior: acena com o paraíso na Terra e manda o consumidor para a eternidade completamente desprovido de todos os bens que acumulou deste lado da vida.

A crítica do fetiche da mercadoria data de oito séculos antes de Cristo, conforme este texto do profeta Isaías: "O carpinteiro mede a madeira, desenha a lápis uma figura, trabalha-a com o formão e aplica-lhe o compasso. Faz a escultura com medidas do corpo humano e com rosto de homem, para que essa imagem possa estar num templo de cedro. O próprio escultor usa parte dessa madeira para esquentar e assar seu pão; e também fabrica um deus e diante dele se ajoelha e faz uma oração, dizendo: "Salva-me, porque tu és o meu deus!" (44, 13-17).

Da religião do consumo não escapa nem o consumo da religião, apresentada como um remédio miraculoso, capaz de aliviar dores e angústias, garantir prosperidade e alegria. Enquanto isso, Ele tem fome e não lhe dão de comer (Mateus 25, 31-40).

Frei Betto é escritor, autor do romance "Hotel Brasil" (Ática), entre outros livros.( In: Correio da Cidadania, 31.03 a 07.04.2001)


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