Manifesto
do Chefe Seathl
Seathl
(1790-1866) era um índio da família lingüística Salish; liderou os Duwamish
e as tribos Suquamish, Samanish, Skopamish e Stakmish, que habitavam a costa
noroeste do Pacífico. Em 1854, o então presidente dos Estados Unidos, Franklin
Pierce, fizera chegar a este sua vontade de comprar o território dos Duwamish.
Recebeu como resposta a seguinte carta, escrita por Seathl, em 1855:
"O
Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra. Manda,
também, palavras de amizade e cordialidade. É gentil da sua parte, mesmo
sabendo que ele tem pouca necessidade de retorno da nossa amizade.
Mas
consideraremos sua proposta. Pois sabemos que se nós não vendermos, o homem
branco poderá aparecer, com armas de fogo, e ficar com nossa terra. O Grande
Chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seathl diz, com a mesma certeza
com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do
ano. Minha palavra é como as estrelas. Elas não empalidecem.
Como
é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é
estranha para nós. Se não somos donos da pureza do ar e do brilho da água,
como é possível comprá-los?
Cada
torrão desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo reluzente de um
pinheiro, cada punhado da areia das praias, cada véu de neblina na densa
floresta, cada clareira e inseto a
zumbir, são sagrados na tradição e consciência do meu povo. A seiva que
percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os
mortos do homem branco esquecem sua terra de origem, quando vão caminhar entre
as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe
do homem vermelho. Somos parte da Terra e ela é parte de nós. As flores
perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo e a grande águia são nossos
irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do
potro, e o homem - todos pertencem à mesma família.
Deste
modo, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que quer comprar nossa
terra, pede muito de nós. O Grande Chefe diz que irá reservar para nós um
lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus
filhos. Portanto nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas não
será fácil, esta terra é sagrada para nós.
Esta
água brilhante, que corre nos rios e riachos, não é apenas água, mas o
sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se
de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada, e
que cada reflexo do espírito, no espelho das límpidas águas dos lagos, nos
fala de acontecimentos e lembranças da vida de meu povo. O murmúrio das águas
é a voz de meus ancestrais. Os rios são nossos irmãos. Eles saciam nossa
sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes
vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios
são nossos irmãos e seus também e, portanto, vocês devem, daqui por diante,
dar aos rios a mesma bondade que dedicariam a um irmão.
O
homem vermelho sempre temeu o avanço do homem branco, como a névoa da montanha
corre antes do sol da manhã. Mas as cinzas dos nossos pais são sagradas. Suas
sepulturas são solo sagrado e, portanto, estas colinas, estas árvores, esta
porção do mundo são sagradas para nós. Sabemos que o homem branco não
compreende nosso modo de viver. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo
significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem á noite e tira da
terra tudo aquilo de que necessita. A Terra não é sua irmã, mas sua inimiga.
E depois que a conquista, ele simplesmente prossegue seu caminho. Deixa para trás
os túmulos de seus antepassados e não se importa. Rapta da terra aquilo que
seria de seus filhos e não se importa. Esquece as sepulturas de seus pais e os
direitos de seus filhos. Trata sua mãe, a Terra, e seu irmão, o Céu, como
coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites
coloridos. Sua voracidade devorará a Terra e deixará para trás somente um
deserto.
Não
sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades causa
dor aos olhos do homem vermelho. Mas talvez seja porque o homem vermelho é um
selvagem e nada entende.
Não
há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se
possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o farfalhar das asas de um
inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreenda. O barulho
parece apenas insultar os ouvidos. E que resta da vida, se um homem não pode
escutar o choro solitário de uma ave, a conversa dos sapos em volta de uma
lagoa, à noite? Sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o
suave murmúrio do vento, acariciando a face do lago, e o próprio aroma do
vento, limpo por uma chuva do meio-dia, ou perfumado pelos pinheiros.
O
ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as criaturas compartilham o
mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos participam da mesma respiração.
O homem branco parece não sentir o ar que respira. Como um animal agonizando há
vários dias, é insensível ao mau cheiro.
Mas,
se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso
para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que ele mantém. O
vento que deu a nosso bisavô seu primeiro sopro de vida também recebe seu último
suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e
sagrada, feita santuário, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir
sentir o vento adoçado pelas flores dos prados.
Portanto,
vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitá-la,
vou impor uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como
seus irmãos.
Sou
um selvagem e não compreendo qualquer outra maneira de agir.
Tenho visto milhares de bisões
apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros de
um trem ao passar. Sou um selvagem e não compreendo como pode ser, um fumegante
cavalo de ferro, mais importante que o bisão, sacrificado por nós apenas para
permanecermos vivos.
O
que é o homem sem os animais? Se todos os animais se acabassem, o homem
morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais,
breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.
Vocês
devem ensinar ás suas crianças, que o solo a seus pés são as cinzas de
nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi
enriquecida com as vidas de nossos ancestrais. Ensinem às suas crianças o que
ensinamos às nossas: que a Terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer com a
Terra, acontecerá aos filhos e filhas da terra. Se os homens cospem no chão,
desprezando o solo, estão desprezando a si mesmos.
De
uma coisa sabemos: a Terra não pertence ao homem; é o homem que pertence á
Terra. Disto temos certeza: todas as coisas estão interligadas como o sangue
que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a Terra,
recairá sobre os filhos da Terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é
meramente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido a si mesmo fará.
Mas
consideraremos sua oferta de ir à reserva que você tem para o meu povo.
Viveremos isolados e em paz. Pouco importa onde passaremos o final de nossas
vidas. Nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Nossos guerreiros
sucumbem sob e peso da vergonha, e depois da derrota tornaram ociosos seus dias,
contaminando seus corpos com doces e bebidas fortes.
Pouco
importa onde passaremos o final de nossos dias. Eles não são muitos. Poucas
horas mais, poucos invernos mais. E nenhuma das crianças, filhas das grandes
tribos, que viveram nesta terra, ou que agora perambulam em pequenos grupos nas
florestas, sobrará para lamentar diante dos túmulos de um povo, outrora tão
forte e esperançoso quanto o seu. Mas por que eu deveria lamentar a passagem do
meu povo? Tribos são feitas de homens, nada mais. Homens vêm e vão, como as
ondas do mar.
Nem
mesmo o homem branco com seu Deus, com quem anda e com quem conversa de amigo
para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos
irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos - e o homem branco
poderá vir a descobrir um dia: o nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julguem que
O podem possuir, da mesma forma como desejam possuir nossa terra. Mas não
podem. Ele é o Deus de toda a humanidade. Sua compaixão é igual tanto para
com o homem vermelho quanto para com o homem branco. A Terra é preciosa para
Ele e feri-la, é desprezar seu Criador.
Os
homens brancos também passarão; talvez mais breve
do que
todas as
outras tribos. Continuem
contaminando suas camas. Em uma determinada noite serão sufocados pelos próprios
dejetos.
Mas,
quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força
de Deus que os trouxe a esta terra e, por alguma razão especial, lhes deu o domínio
sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós,
pois não conseguimos imaginar quando todos os bisões forem massacrados, os
cavalos selvagens domados, os recantos mais secretos da densa floresta
impregnados do mau cheiro de muitos homens, e a visão das colinas ondulantes
cortada por fios que falam.
Onde
está o arvoredo? Acabou. Onde estará a águia? Desapareceu. Que é dizer adeus
ao potro veloz e à caça? É o final da vida e o inicio da sobrevivência.
Deus
vos deu, por algum motivo especial, o domínio sobre os animais, as florestas e
sobre o homem vermelho. Mas esse desígnio é para nós um enigma. Compreendê-lo-íamos
talvez se conhecêssemos os sonhos do homem branco, se soubéssemos quais as
esperanças que transmite a seus filhos e filhas nas longas noites de inverno e
quais as visões de futuro que oferece às suas mentes para que se possam
formular desejos para o dia de amanhã.
Somos,
porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos. E por serem
ocultos, temos de andar, sozinhos, por nosso próprio caminho. Pois, acima de
tudo, apreciamos o direito de cada um viver conforme deseja. Portanto,
consideraremos sua oferta de comprar nossa terra. Se concordarmos, será para
garantirmos a reserva que vocês prometeram. Lá, talvez, poderemos sobreviver
nossos derradeiros dias como desejamos.
Quando
o último homem vermelho desaparecer desta terra, e sua memória for apenas a
sombra de uma nuvem se movendo sobre as pradarias, estas praias e florestas
ainda estarão mantendo os espíritos do meu povo, pois nós amamos esta terra
como o recém-nascido ama a batida do coração de sua mãe.
Portanto,
se lhes vendermos nossa terra, amem-na como nós a amamos. Protejam-na como nós
a cuidamos. Guardem, na memória das suas almas, como era esta terra quando vocês
se apossaram dela. E com todas as suas forças, com todas as suas almas, seu
poder e seu coração, preservem esta terra para as suas crianças, e a amem
como Deus ama a todos.
Uma
coisa nós sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é sagrada para
Ele. Nem mesmo o homem branco pode esquivar-se do destino comum a todos nós.
Apesar de tudo, podemos ser irmãos. Veremos..."
(Em
1855, o Chefe Seathl entregou sua terra (hoje cidade de Seattle, em sua
homenagem), sendo o primeiro signatário do tratado de Port Elliot, pelo qual
seu povo se submeteu às imposições governamentais dos EUA, passando a viver
confinado numa reserva. Em 1890, foi erguido um monumento pelo povo de Seattje
sobre sua lápide).
- Traduzido por Rafael José Altenhofen