Mas
onde está escrito que a riqueza capitalista é acessível a todo mundo?
Uma garota russa entrevistada pela TV resumiu numa
frase a falta de fé no futuro do seu pais: “Estamos passando de um socialismo
que nunca tivemos para um capitalismo que nunca teremos”. Não sei se a frase
foi inventada por sua cabeça loira de 16 ou 17 anos ou se estava repetindo um
conceito lido ou ouvido em outro lugar, mas a idéia de um socialismo ou de um
capitalismo como objetivos inalcançáveis é rica e pode ser aplicada a várias
outras nações do mundo, inclusive a este nosso gigante aparentemente
adormecido.
A
garota quis dizer que o socialismo real soviético nunca atingiu de fato os padrões
sonhados pelo marxismo e, ao contrário, teve algumas de suas melhores intenções
engolidas por uma burocracia sanguinária. De agora em diante, uma realidade
igualmente brutal espera os russos: o capitalismo, ou ao menos uma versão razoável
de capitalismo, está muito distante. E talvez nunca venha a ser alcançada.
Nós já vimos esse filme. Há muito sonhamos com
um regime de liberdade e de riqueza na medida do capitalismo dos EUA, do Canadá
e da Europa Ocidental. Todo mundo sonha, é claro, com um capitalismo à
francesa, à americana ou mesmo à australiana. Mas onde está escrito que tal
estado de bem-aventurança é acessível a todo mundo?
A menina russa — uma menina sofrida e inteligente
— já “sacou” ou já foi informada de que a coisa não é tão fácil
assim. Chegar a um sistema como o dos EUA, por exemplo, exige uma história
longa, coerente e solidária na busca de tal objetivo. Quanto aos países mais
ricos da Europa, todos conhecemos os sacrifícios enfrentados por seus povos
para chegar onde chegaram. Só no século 20 foram duas guerras “mundiais”
travadas basicamente em solo europeu. Há ali cidades inteiras que foram
reconstruídas praticamente do zero há apenas 50 anos. Os russos também
tiveram guerras dentro de seu país, mas infelizmente estavam no rumo errado.
A garota russa sabe de uma
coisa que nós, brasileiros, que nunca fomos socialistas nem quase socialistas,
também conhecemos. Essa coisa se poderia chamar a grande ilusão do capitalismo
pleno. Consiste em marchar eternamente, como um Sísifo subindo sem cessar a
montanha, na direção de um horizonte que continuamente se afasta.
Que a esquerda tome consciência desta ironia histórica:
ao contrário do que imaginaram Marx e Engels, o capitalismo não é uma droga,
é um objetivo desejado e por vezes inatingível. A garota russa que o diga.
Publicado em Zero Hora de 01.09.200, pg. 15 – página de OPINIÃO
O Brasil e o banheiro do avião
MARILENE
FELINTO
Sentar-se
nos aviões conforme a sua classe social: a “econômica”, a “executiva”
ou a primeira classe. A atmosfera é de constrangimento no vôo internacional
quando, tendo a aeronave decolado, os comissários de bordo fecham a cortina que
separa a primeira classe e a executiva da econômica, anunciando que os quatro
“toaletes” reservados a esta última estão na parte traseira da aeronave.
Há algo de aviltante nesse recado -uma porta se fecha, com todas as
chaves e letras, para quem não pode pagar pelo espaço encerrado atrás dela.
Como o interior do avião é pequeno, espalha-se no ar a carga de discriminação.
O vôo era da Transbrasil, de São Paulo para o Porto, com conexão em
Lisboa. Logo anoiteceria, e a frieza dos comissários daria a tônica do
atendimento reservado à classe econômica.
Não bastasse, nesses vôos internacionais, a pessoa passar 10, 12 horas
sentada numa cadeira de assassinar corpos humanos, os comissários tratam com
ligeiro desleixo os passageiros, como se todos fossem iguais e obrigados a
dominar a complexa parafernália de botões, papéis, toalhas e avisos nos
banheiros apertados, nas poltronas desconfortáveis.
O
mais revoltante é o tratamento reservado aos idosos. Exemplo: dona Francisca,
63, estava meio perdida no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos.
Vinha de Manaus, já tendo viajado mais de seis horas, e ia para a Suíça -no
nosso vôo, também com conexão em Lisboa- visitar a filha casada com um suíço.
No balcão do check in, pediu-nos ajuda: para encontrar a sala de
embarque ali e, depois, no aeroporto de Lisboa. Era de estatura muito baixa,
toda simples e pobre, toda desinformação, dor de cabeça, cansaço e
ansiedade.
Estava
claro que dona Francisca sofria ali uma dupla segregação: porque era pobre e
porque não sabia de nada. Nem reclinar a poltrona, nem abrir ou fechar a porta
do toalete, nem mexer-se no compartimento estreito. Tinha vergonha de perguntar
aos comissários insensíveis, autômatos, suas dúvidas humilhantes.
Inacreditável que os serviços das linhas aéreas não incluam
acompanhamento para idosos, as maiores vítimas -física e psicologicamente- da
violência desses trajetos transcontinentais.
Mas dona Francisca não seria melhor servida se viajasse pela Varig ou
pela TAM -são todas iguais essas companhias na sua arrogância de monopólio.
Os
banheiros da classe econômica foram ficando imundos no decorrer do vôo da
Transbrasil, recendendo a mijo, forrados de pedaços de papel sujos de fezes. Não
se preocupam em ensinar aos passageiros novatos o uso daquela cabine infernal. O
vôo prossegue na hipocrisia de que são todos ali iguais (apesar da separação
por classes), tratados com igualdade de gentileza -a artificialidade dos comissários.
Estava
em Portugal quando vi pela TV o ódio estampado na cara do assaltante de ônibus
do Rio de Janeiro, quando soube da morte da refém e da asfixia do próprio
bandido, ex-menino da Candelária, pela polícia.
E
como o assaltante era escuro e dona Francisca era escura, eu associei os dois: o
Brasil é um grande banheiro de avião em que a merda -anunciada já na infância
de rua da Candelária- é a classe econômica, estrangulada e atirada descarga
abaixo pela sociedade da primeira classe, pela polícia, pelos governantes da
executiva. Uma fossa, um nojo.
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- mfelinto@uol.com.br
Folha de São Paulo, terça-feira,
20 de junho de 2000