A ideologia
A ordem social de hoje, diversa segundo os países, é sustentada por poderosos grupos sociais, apoiados intelectualmente por ideólogos. Esses elaboram a doutrina que justifica aquela ordem e mostram sua eficácia não só para o grupo mas também para toda a sociedade. A doutrina, elaborada diretamente para expandir os benefícios daquela ordem, é chamada de ideologia.
“Cada grupo social, nascendo sobre o terreno original de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria ao mesmo tempo que ele uma ou várias camadas de intelectuais, que lhe dão sua hegemonia e a consciência de sua própria função, não somente no domínio econômico, mas também no domínio político e social” (Gramsci, A. Gli intellettuali. Torino, 1955, p. 3).
A ideologia tem, pois, um sentido de dominação. Ela sublima a dominação acenando para uma ordem social de bem-estar para toda a sociedade.
As ordens sociais de hoje com suas ideologias se debatem na aritmética do útil. Aliciam mais adeptos quando conseguem mostrar que distribuem o útil social ao maior número possível.
Por mais bens que produza e consuma, a ordem capitalista é de interesse particular, porque não beneficia adequadamente a todos e favorece desmedidamente a poucos. Daí sua critica e contestação por parte de largos estratos sociais chegados recentemente à consciência da subjetividade.
Quem mais criticou a ordem capitalista foi Karl Marx (1818-1883). E o fez com muita perspicácia. Não mediante a oratória que apenas mostra a miséria de muitos, produzida pela riqueza de poucos, mas analisando a alma do sistema. Na sua análise mostrou que o móvel primeiro da economia capitalista é a mais-valia e não o bem estar de todos.
A partir dessa vontade que quer produzir, consumir e ainda lucrar muito na atividade econômica, origina-se também a ideologia ou as idéias predominantes que penetram e dirigem o sentir do corpo social em sua totalidade.
“As idéias da classe dominante são também as idéias predominantes em cada época, ou seja, a classe que é a força material dominante da sociedade é também a força espiritual dominante. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe ao mesmo tempo dos meios de produção intelectual, de modo que, por essa razão, as idéias daqueles que não dispõem dos meios de produção intelectual ficam sujeitas à classe dominante” (Marx, O. A ideologia alemã. Rio, 1965, p. 45).
“Cada nova classe que toma o lugar daquela que dominava antes dela é compelida, para alcançar sua finalidade, a representar seu interesse como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade, ou, para usar uma formulação no plano das idéias, essa classe é obrigada a dar às suas idéias formas de universalidade, a representá-las como sendo as únicas razoáveis, as únicas universalmente válidas” (Marx, C. A ideologia alemã. Rio. 1965, p. 46).
O termo ideologia foi criado por Destutt de Tracy (1754-1836). E se divulgou por obra de Napoleão Bonaparte, que para contra-atacar os inimigos, isto é, os críticos de seu regime, os chamava com o termo pejorativo de ideólogos.
Karl Marx deu-lhe um sentido de vontade de lucro e de dominação, próprio da subjetividade moderna e que aparece nitidamente nos conflitos de classe. Também Gramsci (1891-1937) mostrou que a ideologia é expressão da vontade de hegemonia ou de mando da subjetividade moderna. Um fenômeno tipicamente moderno, que pervade todo o tecido social.
A subjetividade moderna, a ideologia, não pára na objetividade do mundo de produção, consumo e lucro desmedido. Formada pela vontade de dominação, ela transcende essa objetividade de bem-estar da sociedade industrial.
A ideologia ou a subjetividade moderna esconde outro projeto. Projeto do qual ela mesma não fala. Mas o vive intensamente, na tecnologia.
(“Introdução ao pensar – O Ser, o Conhecimento, a Linguagem” de Arcângelo R. Buzzi – Petrópolis, Vozes, 1972, 17ª. Edição, p.143-144)
UTOPIA E IDEOLOGIA
Excerto do excelente artigo do Prof. HELMUT THIELEN, da UNISINOS, “A teoria crítica marxiana da utopia – um humanismo concreto (parte I)”, publicado na Revista de Cultura Vozes, no.2, volume 95 – 2001, pg. 160.
A ideologia das últimas duas décadas
produziu muita confusão e obscurantismo sobre a questão da utopia. Foi uma
confusão, porque faltou uma conceituação clara e rica.
Um “abstracionismo” vazio jogou tudo na
mesma caixa de lixo e aplicou a isto tudo a palavra “utopia”. Não argumentando,
o abstracionismo no clima pós-moderno tentava segurar-se pela instalação de um
tabu, defendendo-o numa espécie de reflexo condicionado.[1]
Falava-se: “queda do muro de Berlim”, e isso estimula o reflexo; fim das
utopias, do socialismo, do comunismo, do anarquismo.
Ora, pensar significa diferenciar. Em vez
de misturar tudo com tudo. Quem não faz isso, exerce barbárie intelectual. Uma
diferenciação dialético-dialógica[2]
do
conceito utopia abrange, pelo menos, as diferentes e até opostas idéias sobre
utopia a seguir:
- a
utopia autêntica: esta pode ser
abstrata ou concreta. Utopias
abstratas podem ter uma relação ideológica, isto é, afirmativa, com a sociedade.
Mas a utopia abstrata não é inteiramente sem valor. Ela pode ser uma
instância crítica quanto à realidade
e perante as pseudo-utopias e utopias alienadas, conciliadas com a má realidade,
e utopias falsamente concretizadas nessa realidade. Além disso, utopias
abstratas ou gerais podem ser uma fonte
fecunda do desenvolvimento de utopias concretas. Do mesmo modo, utopias
concretas podem ter significados opostos. Isso acontece se uma utopia geral
assume uma falsa concretização, colocando, por exemplo, um vínculo entre a idéia
de justiça, como utopia geral, e uma política social apenas reformista. Neste
caso, a concretização é “a mediocrização” da idéia utópica, tornando-se
ideologia. Por outro lado, essa idéia pode se concretizar em “células
revolucionárias” de uma vida anarco-comunista, confrontando assim a realidade
opressiva com uma outra, aquela das células revolucionárias.
O pensamento utópico é vivo, se movimenta,
assume diversos significados. Isso, predominantemente, não por si mesmo, mas
pelas mudanças de seu contexto prático.
Em tempos sem chance de praticar algo de uma utopia geral, essa sua forma
protege a substância utópica no seu asilo como teoria, sonho, imagem etc. É
claro que disso pode surgir uma co-existência com a realidade antiutópica ou a
falsa concretização, mencionada antes. Mas, também, se o contexto real muda
novamente, ela se pode concretizar subversivamente, isto é, criar células
revolucionárias, ou até um processo “poderoso” revolucionário, que as células
preparam, e no qual se expandem.
Pode-se adquirir mais uma compreensão de
utopia, usando o conceito “ideologia”.
A utopia, seja geral ou concreta, pode ter
uma relação ideológico-afirmativa ou uma crítico-subversiva com a realidade.
O que é ideologia?
A
compreensão disso começa além do uso cego e vulgar dessa palavra: ideologia
seria, supostamente, todo produto cultural e toda consciência que tem qualquer
relação com a realidade social (inclui-se a política). Essa é a idéia de Karl
Mannheim, sociólogo alemão, e de W.I. Lênin, um líder do bolchevismo. Bem
diferente é o conceito autêntico marxiano de ideologia: “‘É consciência
necessariamente falsa”. É falsa porque não contém suficientemente o
conhecimento das possibilidades reais
revolucionárias; exclui essa parte de conhecimentos sobre a realidade, exercendo
assim o seu papel ideológico, isto é, contribuição ao endurecimento da dominação
que existe. A ideologia é isso necessariamente, porque brota de processos nos
quais se ligam falsamente experiências sociais de opressão e exploração com
mecanismos sócio-psíquicos que “produzem”, por sua vez, a consciência falsa. As
experiências se transformam em forças, desejos e imagens psíquicas.
A
teoria política de Marx pode ser
caracterizada como uma constelação entre, pelo menos, dois elementos contrários.
Trata-se de um elemento sociotécnico[4],
ou seja, de dominação e poder. Um padrão de
disposição do mundo
como
ter nessa teoria (e práxis) conserva
e mantém partes e propriedades das estruturas de dominação da sociedade
burguesa, por exemplo, a política, o Estado, a ciência-técnica, o falso
progresso, a razão dominadora, instrumental, cínica. Por outro lado, trata-se de
um elemento crítico-prático alternativo:
a
perspectiva da sociedade livre e socialmente justa, condição da felicidade
de cada pessoa, baseada em relações entre iguais, sejam estas
imediatas-comunitárias, sejam em instituições conforme as idéias e as
experiências com a democracia direta dos conselhos.
[i]
Refiro-me aqui a um experimento famoso para justificar empiricamente a definição
instrumentalista do ser humano. É o cachorro de Pavlov, do Behaviorismo.
[2]
O
caminho iluminado da dialética para o diálogo. Neste, aquela desaparece para,
dentro de estruturas dialógicas, brotar cada vez novamente. Porque, como
expressava o filósofo e místico Rabindranath Tagore: a
alma do homem está na sua romaria da lei para o amor.
[3]
Uma
breve definição: alienação é um conjunto de reduções, separações, contradições,
que o homem sofre, trabalhando sob a opressão pelo capital e/ou pelo estado. Com
a diminuição do trabalho diminui também a alienação do trabalho ainda existente.
Sua crítica, nos Manuscritos
Econômico-Filosóficos, escritos em 1844, deve ser sintetizada com a crítica
do fetichismo da mercadoria no início do 1o. livro de
O capital e da religião na
Introdução à crítica da Filosofia do
Direito Hegeliana, como exemplo de uma dimensão da cultura fetichista,
incluído o fetichismo da tecnologia. Fetichismo é transformação de uma
característica antropológica - ser homem em relações sociais - ou seja, de sua
sociabilidade, em urna força coisificada que se independentiza do homem e o
oprime - como se esta fosse um fetiche na religião primitiva.
[4]
Sociotécnico,
numa
compreensão filosófica, significa: a) o técnico (grego: tecne): a razão
instrumental determina a realidade começando com
a natureza, como um conjunto de
objetos c instrumentos para o uso do sujeito: o
hommo faber. b) sociotécnico:
determina os próprios homens e suas relações sociais como objetos e instrumentos
da dominação e do poder; o homem domina o outro homem; por exemplo: os
instrumentos de manipulação psíquica na propaganda econômica e política. Aqui é
importante: o cálculo “tecnológico” dos homens nas estratégias e táticas
sócio-políticas. Isto acontece, por exemplo, na manipulação psíquica e social de
pessoas e grupos em fábricas e administrações.
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