Ideologia e Cidadania
J.B.Libânio
Sala de aula. O professor de
história dirige-se a um grupo de alunos:
-
Hoje vamos ter uma surpresa. Em vez de aula, vocês serão convidados a assistir
a um debate entre alguns professores, cujos pontos de vista são bem diferentes.
Às vezes, a conversa será um pouco difícil para vocês. Mas, no final,
retomaremos alguns pontos discutidos e poderemos esclarecê-los.
·
O professor, então, apresentou à
classe cada um dos seus colegas:
·
- O professor Ariosto, conhecedor da Grécia,
exporá a visão grega do mundo. O professor Samuel, cristão de origem judaica,
conhece de casa, com pormenores, o mundo judaico-cristão. O professor
Jefferson, engenheiro e economista, encarna muito bem a moderna cultura
tecnocrata. O professor Wellington, fazendo jus ao nome do grande general inglês,
está imbuído da cultura materialista saxônica. E, finalmente, o professor
Pannikar, nascido na Índia, falar-nos-á da cultura de seu país e das tradições
religiosas hinduístas e budistas.
·
O professor Ariosto deu início à
conversa:
·
- A visão espiritualista grega é
fascinante. No fundo, afirma que somos principalmente alma. Este corpo
comporta-se como um cárcere que aprisiona nossa alma. Basta notar como temos
dificuldade de pensar e de raciocinar depois de uma pesada feijoada, sobretudo
se regada a cerveja. O corpo sucumbe ao peso da matéria, e a alma se encolhe na
sonolência. Por sua vez, quando a comida é leve, dá uma vontade louca de
estudar.
·
O professor Samuel, judeu-cristão,
entrou na conversa:
·
- A gente é mais que alma. Sabem,
acontece que nos encontramos em situações humanas diferentes. Em alguns dias
acordo leve. Pulo da cama, cheio de vida. Ela atravessa-me o corpo, a inteligência,
a vontade. Para mim, a alma é isso. É a vida. E a vida não separa a alma do
corpo. Toca os dois.
·
- Prefiro continuar com os gregos -
disse o professor Ariosto. - Eles deixavam os trabalhos corporais para os
escravos e dedicavam-se às filosofias, ao pensamento. Na minha casa, por
exemplo, são os empregados que cuidam da limpeza, enquanto eu preparo minhas
aulas. Meu trabalho é puramente intelectual; a minha alma trabalha, enquanto
cabe a eles usarem a energia física para executar suas tarefas. Por isso, para
mim, o trabalho intelectual deve ser mais bem remunerado. Não acho justo um
empregado braçal ganhar tanto quanto um engenheiro.,
·
O professor Jefferson, engenheiro e
economista, acrescentou::
·
- A razão do engenheiro ganhar mais é
outra. Vivemos num mundo que valoriza a técnica e a ciência. Quem conseguir
manejá-las melhor, ganhará mais. Vivemos realmente num mundo em que predominam
a técnica, a matemática. Quando a matemática não era ainda aplicada às
diversas ciências, o atraso da humanidade era monstruoso. Por isso, não gosto
de literatura, nem de filosofia, nem de teologia. Tudo isso é pura alienação.
Se eu fosse ministro da Educação, transformaria todos os currículos humanísticos
em científicos. O Brasil iria transformar-se numa potência, como os Estados
Unidos.
·
Ao ouvir falar dos Estados Unidos, o
professor Wellington, especialista em cultura materialista, comentou:
·
- Concordo com tudo o que o professor
Jefferson disse. E vou mais além. Sabem - disse ele - andei pelos Estados
Unidos e voltei entusiasmado. Lá está o futuro da humanidade. O professor
Ariosto, com sua mentalidade grega, não vai longe. O pensamento e a inteligência
só têm valor se forem traduzidos em técnica, em produto, em progresso; enfim,
em dinheiro. Vou ainda mais longe. Afirmo o contrário do professor Ariosto.
Somos pura matéria. O espírito é momento de transição entre um momento em
que tudo era matéria e outro em que tudo será matéria. Viemos da matéria e
voltaremos a ela. Vocês sabem, Jacques Monod, grande cientista francês, prêmio
Nobel, diz que o espírito é um acaso no processo evolutivo. E o psicólogo
americano Skinner refuta tudo o que o professor Ariosto disse. Ele afirma que a
visão grega do mundo é puro mito e só se aplica onde as ciências não
chegaram.
·
O professor Pannikar, indiano, sentiu o
sangue ferver-lhe nas veias, quando ouviu o arrazoado materialista do professor
Wellington, e os interrompeu:
·
- O professor Jefferson e o professor
Wellington falam duma cultura muito recente. Nossa cultura oriental já era
milenar antes mesmo de a ocidental ter aparecido. Sabem, esse materialismo só
leva à morte, ao stress, ao esgotamento. Os americanos vivem tomando
comprimidos de prosak para poder rir. Nós, pelo contrário, aprendemos desde
criança uma série de danças, de ritmos, de movimentos corporais que nos levam
a uma profunda harmonia do corpo e do espírito. Vivemos uma unidade profunda de
corpo e alma, exatamente como disse o professor Samuel., numa união harmônica
com as experiências da vida.
·
Contente com o aparte do professor
indiano, o professor Samuel voltou à carga:
·
- Nós judeus usamos todas estas
palavras: corpo, alma, espírito, carne. Para nós elas significam situações
diferentes que experimentamos. Assim, como dizia há pouco, usamos o termo alma
para exprimir nossa totalidade humana na sua manifestação de vida.
Outro dia - prosseguiu o professor Samuel - lia numa antiga Bíblia, que
conservo com carinho, esta frase de Jesus: “Aquele que guarda a sua alma, perdê-la-á;
o que perde a sua alma por mim, achá-la-á”.
Com a visão grega do professor Ariosto, ou a materialista do professor
Jefferson e do professor Wellington, não dá para entender essa passagem bíblica.
Como é que o professor Ariosto pode compreender a expressão “perder a
alma”, se com ela se perde tudo? Que importância tem a
alma, se somos, em última análise, matéria? Mas, para mim, a frase de
Jesus é extremamente clara e profunda.
·
-
Vejam! - e o professor Samuel prosseguiu na sua análise. A pessoa que retém
sua vida somente para si cria um tal isolamento que acaba perdendo todas as
amizades e o amor das pessoas. E, na vida, não existe coisa mais gostosa do que
a amizade e o amor das pessoas. Pelo contrário, quando nos perdemos pelos
outros, cultivando amizades, amando, voltamos para casa repletos de felicidade.
A alma, portanto, no fundo, significa a vida. Aliás, por curiosidade, abri
outra Bíblia e pude notar que o
tradutor havia trocado a palavra alma pela palavra vida.
·
O professor Ariosto, que ficara calado,
reagiu à invectiva dos “materialistas” e do Professor Pannikar e
acrescentou:
·
- Imaginem vocês! Se Platão estivesse
preocupado com a vida e não tivesse renunciado a tudo para dedicar-se às
atividades puramente intelectuais e espirituais, nunca teríamos a beleza
daqueles diálogos imortais que escreveu. E que exemplo nos deixou Sócrates, ao
enfrentar a morte com toda a serenidade, precisamente porque sabia que, por meio
dela, sua alma se desprenderia do cárcere do corpo e voltaria ao mundo
espiritual das idéias. A visão platônica acabaria com essa sofreguidão
materialista e permitiria que passássemos nessa sala de aula dias e dias em
discussões tão agradáveis como essa. Por mais que vocês me critiquem,
estamos vivendo uma profunda experiência espiritualista grega.
·
- Pois vejo de modo diferente -
interrompeu o professor Samuel. - O
mais belo de tudo, o que estamos vivenciando agora, não são as reflexões.
Existem tantas, e muito mais profundas que as nossas. Nada tão prazeiroso do
que desfrutar a vida com a totalidade de nosso ser. E reparem: gesticulamos,
sorrimos, falamos, movemo-nos, explicitamos nossas idéias e sentimentos através
de todo o nosso corpo. Também ele está envolvido na discussão. Por isso, nós
judeus, chamamos de corpo o nosso eu”, enquanto ele se relaciona com os
outros. Esse “corpo” não só envolve o corpo físico, mas também toda a
nossa alma, que se exprime por meio dele. O corpo para nós não se opõem à
alma, ao espírito. Revela essa situação de comunicação que agora
experimentamos. Quando cessar toda possibilidade de comunicação, o corpo cessa
de ser corpo e se transforma em cadáver. Estamos mortos. Há pessoas que são tão
egoístas que praticamente vão transformando seus corpos em cadáveres. Elas
passam a ser defuntos ambulantes.
·
O professor Jerfferson retomou a
palavra:
·
- Quero voltar ao meu ponto de vista
científico. Tanto a visão grega como a judia podem ser até bonitas. No
entanto, pertencem ao mundo dos mitos, anterior às descobertas científicas.
Parece que vocês nem sabem que existiu Charles Darwin. Ele provou
definitivamente que viemos do animal, por meio de longa evolução. Não
passamos de um animal que se foi aperfeiçoando, mas não deixamos de ser
animais. E a visão evolucionista - continuou o professor Jefferson -, hoje, vai
muito mais longe. Segundo ela, somos originados da própria matéria inanimada,
por meio de um processo que levou bilhões de anos até chegar ao ser humano
consciente e livre. No início houve o “big-bang”, uma grande explosão, a
partir da qual o universo se expandiu. Dessa explosão inicial, de poder energético
quase infinito, veio todo o universo. Na pequena “casquinha” chamada Planeta
Terra desenvolveu-se a vida, que, aos poucos, foi-se tornando complexa.
Simplificando, daí viemos e para aí voltaremos. Isso é científico, e todo o
resto são histórias, mitos, lendas nas quais se ocupam as mentes infantis.
·
Com olhar entusiasmado, o professor
Jefferson prosseguiu, mirando para o infinito:
·
- A salvação vem do progresso, da ciência,
dos números. Vivemos na era da informática, do computador, da multimídia. E
quanto mais desenvolvermos essa tecnologia, mais nos distanciaremos da visão
grega do professor Ariosto ou da judia do professor Samuel. A partir de dois
pontos de vista diferentes, ambos pertencem à sociedade religiosa. Platão
pensava que nossa alma brotava como fagulha do seio da divindade. E os judeus
nunca conseguiram superar a visão do ser humano como criatura de Deus. Nós
criamos a nós mesmos.
·
O professor Wellington, ao ouvir a última
expressão do professor Jefferson, sentiu cócegas na língua e disse:
·
- O ídolo americano é precisamente o
self made man, o homem que se fez por si mesmo. Vejam! O que eram os Estados
Unidos dois séculos atrás? - perguntou. De continente de índios primitivos,
tornou-se a maior potência econômica do mundo. E isso não foi obra de nenhum
Platão espiritualista, mas sim de homens que buscaram o desenvolvimento, que
pensaram nos bens materiais desta Terra. Certa vez, andando pelo interior dos
Estados Unidos, encontrei um rico fazendeiro. Vi como mourejava de sol a sol,
apesar de tanta riqueza. Curioso, perguntei-lhe por que trabalhava tanto.
“Para plantar trigo”, disse ele. “E por que plantar tanto trigo?”,
interroguei-o . “Para ganhar dólar”, respondeu-me. “E por que tanto dólar?”,
voltei a indagar. “Para comprar mais terra”, foi a sua resposta.
“E por que comprar mais terra?”, quis saber. “Para plantar mais
trigo”, finalizou ele.
·
O professor Wellington prosseguiu com
seu ponto de vista:
·
- E, assim, teve início o mesmo ciclo
de respostas. Essa visão materialista fez a grandeza desse povo. Vejam, talvez
o país mais espiritualista do mundo seja a Índia. Que atraso! Cultuam vacas e
morrem de fome.
·
O professor Pannikar não agüentou
calado a estocada do colega e, sem pedir a palavra, retrucou:
·
- Prefiro respeitar os animais a adorar
o dinheiro e as máquinas. Quando os Beatles atingiram o apogeu da fama, com
fortuna incalculável, sentiram-se vazios e foram à Índia em busca de
espiritualidade. Nos países mais tecnologicamente desenvolvidos, brotam, por
todos os lados, movimentos inspirados nas tradições religiosas da Índia, da
China e do Japão. O número de suicídios, o stress, a taxa de neuroses estão
a mostrar a falência dessa cultura que o professor Jefferson e o professor
Wellington tanto defendem.
·
O professor Ariosto tomou a palavra e
acrescentou:
·
- Essa cultura tecnológica e
materialista não sabe explicar absolutamente nada sobre a morte. Procuram
silenciá-la ao máximo, como se isso resolvesse o problema. Pior ainda, pensam
um dia vencê-la com a medicina. Os gregos viam nela a salvação, a libertação
desse exílio no corpo.
·
O professor Samuel aproveitou a dica da
morte e foi mais longe:
·
- Para nós, judeus, a compreensão é
ainda mais bela. O professor Ariosto não sabe o que fazer com o corpo. Para nós,
a morte é vencida pela ressurreição em que todo o nosso eu continuará a
existir. Destarte, quando mencionamos a palavra “espírito”, sobretudo
depois da pregação de São Paulo, passamos a entender melhor essa esfera
divina que envolve nosso corpo e o fará glorioso após a morte. Somos espírito
com e no corpo pela força do Deus dos vivos. Nunca o perderemos. Ele assumirá
outra forma de existência. Nunca fomos puro espírito, nem nunca o seremos.
·
E o professor Jefferson acrescentou:
·
- Para nós do mundo científico e
materialista, é verdade, a morte é um absurdo. Martin Heidegger, filósofo
alemão, nos definiu como “ser-para-a-morte” e Paul Sartre dizia que nossa
vida é uma “paixão inútil”. Mesmo que eles pensassem em outro contexto, e
não tirassem nenhuma conclusão materialista, eu os interpreto a partir de
minha visão materialista. Se somos “seres-para-a-morte” e a existência é
uma “paixão inútil”, então aproveitemos o máximo que pudermos aqui na
terra porque iremos para o silêncio do nada. Estamos desenvolvendo, até mesmo,
engenharia especializada em lidar com a morte, de modo que ela cause o menor
impacto possível sobre os vivos. Recalcamo-la totalmente.
·
O professor Samuel entrou novamente na
conversa:
·
- Falar de morte implica,
necessariamente, introduzir o tema de Deus. Para nós,
ele é central. Viemos dele
e para ela voltaremos. Criados por ele, dele receberemos a vida eterna. Por
isso, quando dizemos que Deus criou a alma, não nos referimos a uma parte do
nosso ser, mas à vida que dele recebemos, agora mortal e que mais tarde será
imortal.
·
O professor Ariosto gostou da reflexão
do colega e avançou no assunto:
·
- E digo mais! Nosso espírito não
precisa de Deus para viver depois da morte.
·
somos imortais por natureza. Já que
nossa alma é fagulha da divindade, também ela é divina. Veio do mundo divino
e voltará para ele, sua verdadeira pátria.
Aqui estamos no exílio.
·
O professor Jefferson, engenheiro e
economista, acrescentou:
·
- Prefiro o exílio à pátria. O exílio
eu conheço. A pátria é pura promessa. Termina por alienar-nos da terra. Somos
filhos da terra, e para ela iremos. Deus não passa de pura ilusão para consolo
dos fracos. Basta-nos a ciência.
·
O professor Pannikar, atento à discussão
disse:
·
- Adoto posição intermediária entre
o espiritualismo do professor Ariosto e o materialismo do professor Jefferson. Não
viemos dessa matéria grotesca. Participamos, sim, como dizem os chineses, dos
dois princípios fundamentais de toda a criação: yin-yang, matéria-espírto,
feminino-masculino, negativo-positivo, etc.
Comungamos com o cosmos. Nosso presente e futuro se resume na busca e vivência
da harmonia com todo o universo. Isso supõe que nos exercitemos na meditação,
no esforço de pacificarmos interiormente cada vez mais nossas ansiedades,
inquietações e perturbações.
·
E o professor Pannikar prosseguiu:
·
- O mundo moderno produz muito barulho.
Vivemos em meio ao ruído. Isso nos tira a paz, a tranqüilidade. Todos os dias
concentro-me, esvazio-me de mim, cerco-me de silêncio profundo até tocar a
raiz própria do meu “eu”. Chego a silenciar tudo em mim a ponto de tocar o
nada. Apago-me e perco-me, como ensina o Budismo, no nirvana do repouso, em que
meu “eu” se dissolve e volta à energia inicial. Vivo envolvido pelo divino.
·
O professor Wellington sentiu arrepio
diante de tanta espiritualidade e protestou:
·
- Ao ouvir a palavra meditação, sinto
vontade de rir. A vida oscila entre dois pólos: trabalho e prazer. Ambos
pertencem ao mundo do agir. Trabalho bastante para dispor de muito dinheiro e,
com ele, usufruir de todos os prazeres da vida: viajar, praticar esporte, ir às
festas. Isso de ficar parado meditando, repousando no silêncio, perder-se no
“nirvana”, não me diz nada.
·
A conversa animada parecia não
encontrar fim. Mas os professores tinham outros compromissos e precisaram se
despedir. O professor de história ficou com os alunos. Perguntou-lhes o que
tinham achado da discussão e que dificuldades sentiam.
·
André, aluno inteligente e vivo, pediu
a palavra:
·
- Sabe, professor, aquelas visões de
mundo que os professores expuseram de maneira tão distinta, sinto que tenho um
pouco de cada uma delas. Não consigo identificar-me com nenhuma, mas também
encontro em todas elas pontos com que sintonizo.
·
- Muito bem, André - o professor
retomou a palavra -, sua observação foi ótima. Fazemos parte da civilização
ocidental. Ela tem origem precisamente no casamento da visão grega com a
judaico-cristã, com o tempero das tribos germânicas. Por isso temos traços do
espiritualismo grego, da visão unitária judaica e do materialismo muito
concreto e empírico dos germanos. Ultimamente a imprensa, a tevê e muitos
livros têm difundido aspectos das tradições culturais do Oriente. Tudo isso
embaralha na nossa cabeça.
·
João Henrique interrompeu a explanação
do professor para dar sua opinião:
·
- Sou adolescente e minha família é
muito rica e sem nenhuma religião. De fato, em casa respiro uma visão bem
materialista da vida. Até que sinto gosto nela. Mas, de vez em quando, bate uma
dúvida em mim. O que mais me preocupa é pensar no que acontece depois da
morte. Outro dia o Marcos, que estudava exatamente na classe da frente, morreu
num desastre de moto. Fiquei chocado. Éramos muito amigos. Será que acabou
toda nossa amizade, ou há outra coisa além da morte? Quando os professores
Samuel e Ariosto falavam da ressurreição depois da morte e da imortalidade,
senti um alívio.
·
Tiago, que ouvia tudo com atenção,
argumentou:
·
- Fiquei confuso com a explicação do
professor Pannikar. Ele falou de um tal de nirvana e daqueles dois princípios.
Não entendi bem.
·
Foi a vez do professor explicar:
·
- Veja, Tiago! Os budistas acreditam
que o ser humano pode chegar a um estado de existência de completa liberdade
diante do sofrimento e de todo apego; estado de uma inefável felicidade,
alegria e paz. Esse estado se chama “nirvana”. Para chegar lá, o budista
percorre um caminho de diversos estágios de esvaziamento dos próprios desejos.
Para entender melhor este modo de pensar, deveríamos conviver mais com as tradições
religiosas orientais. São muito
distantes da nossa e, assim, nos é mais difícil entendê-las. Talvez por isso
elas venham causando tanto atrativo.
·
- Puxa vida, deve ser muito difícil
compreender essa maneira de ver o mundo - exclamou Tiago, surpreso.
·
Pedro Lucas pediu a palavra:
·
- Gostei muito do que o professor
Samuel disse. De fato, noto que na minha vida, ora sinto mais meu corpo, ora, em
outros momentos, percebo mais minha parte espiritual. Mas nunca como duas coisas
separadas. Sou sempre eu mesmo. Por isso, acho a posição grega meio exagerada.
·
Tiago tomou mais uma vez a palavra:
·
- Não entendi bem outro ponto. Como é
possível, como disse o professor Jefferson, que nós tenhamos evoluído a
partir da matéria? Tinha aprendido que Deus criou o homem do pó da terra.
·
O professor, de maneira singela,
respondeu:
·
- Veja, Tiago, a Bíblia usa uma
maneira antiga para ensinar uma verdade válida até hoje. Ela quis dizer
simplesmente que há uma intervenção de Deus na criação do homem. Como isso
de fato se deu, as ciências e a filosofia vão nos esclarecendo. Pelos dados
que temos hoje, parece mais aceitável que Deus criou uma matéria-energia
inicial e nela colocou a força de ir evoluindo até chegar ao homem. E depois o
homem, com sua inteligência e liberdade, foi transformando o mundo em tudo isso
que hoje temos.
·
O professor, então, completou:
·
- Bem, meus alunos, pelos comentários
percebi que vocês entenderam o fundamental. Agora vem a pergunta mais
importante: qual é o tema que quero explicar, a partir dessa conversa dos
professores?
·
Como ninguém soube responder, o
professor prosseguiu:
·
- Pois bem, meus jovens, os professores
convidados nos deram excelente demonstração do que é ideologia no seu
primeiro e mais original sentido. Vocês devem ter ouvido falar muito dessa
palavra. Olhem. Cada um dos debatedores assumiu uma visão de mundo, da pessoa,
da relação com Deus, com a sociedade. Nisso consiste fundamentalmente a
ideologia.
·
Os alunos ouviram, então, do professor
a explicação de ideologia:
·
- O termo ideologia vem do grego ideo:
“aquilo que já se tinha visto antes”, e légein: “dizer”.
Assim, os professores iam conversando, mas, no fundo, refletiam uma visão
anterior que já traziam bem dentro de si, como se a tivessem visto antes. A
ideologia vai revelando como as pessoas representam e imaginam a realidade.
Ariosto, por exemplo, traduzia na sua conversa o mundo das idéias dos gregos e
como estes representavam a realidade.
·
Observando que os alunos estavam muito
atentos à explicação, o professor acrescentou:
·
- Foi em 1796, há dois séculos, numa
palestra de Destutt de Tracy, um filósofo francês, que o termo ideologia
apareceu pela primeira vez. Exprime a ciência que tem por objeto “o estudo
das idéias, de suas características, leis, relações com os sinais que as
representam e, sobretudo, de sua origem”. Nesse primeiro sentido original, a
ideologia seria o estudo que pudemos fazer aqui na aula, por exemplo, sobre as
idéias de cada um dos professores que entraram na discussão, procurando
perceber suas diferenças, características, origem, etc. Ainda hoje alguns
estudiosos também usam ideologia nesse sentido bem geral. Vejamos, agora, a
definição de Chatelet (Histoire des idéologies):
·
“É um sistema mais ou
menos coerente de imagens, idéias, princípios éticos, representações
globais. Exprime também gestos coletivos, rituais religiosos, estruturas de
parentesco, técnica de sobrevida e desenvolvimento. Implica expressões artísticas,
discursos míticos ou filosóficos. Refere-se à organização dos poderes, das
instituições e dos enunciados e das forças que estas colocam em jogo. É um
sistema que tem por fim regular, no seio de uma coletividade, de um povo, de uma
nação, de um Estado, relações que os indivíduos entretêm com os seus, com
os estrangeiros, com a natureza, com o imaginário, com o simbólico, com os
deuses, com as esperanças, com a vida e com a morte”.
O
professor comentou, finalizando a aula:
·
- Como se vê, é conceito muito amplo.
Envolve todos os assuntos que nossos debatedores trataram ao expor seu modo próprio
de pensar.
CONCLUSÃO
Ideologia
pertence, nesse sentido geral, à maneira humana de pensar. Somos movidos por
dois pólos interiores. Queremos ter, de um lado, visão geral de tudo. Isso
vale até para as coisas materiais. As cidades procuram encontrar pontos altos
para que de lá se alcance a vista de conjunto. Pelas estradas, de quando em
vez, existem mirantes que permitem ver todo o panorama. O cinema foi ampliando
as telas de projeção para que o expectador pudesse ter uma visão mais ampla
das cenas do filme.
Da mesma
forma, nossa inteligência procura adquirir visões de conjunto, construir um
horizonte mais amplo em que se possam localizar os pontos particulares. A
ideologia é, portanto, essa visão de conjunto de idéias, valores, instituições,
relações que constituem nosso universo de pensar, de julgar.
Por outro
lado, por mais abrangentes que queiramos ser, nossas visões de conjunto sempre
se fazem a partir de um determinado ponto bem particular. O mirante, que permite
alcançar o maravilhoso vale, localiza-se em lugar bem concreto, bem particular.
Se estivesse em outro lugar, a visão seria diferente. Por isso, multiplicam-se
os mirantes.
A ideologia
é esse mirante intelectual que avista os vales gigantescos das idéias, dos
valores, das instituições, das relações que estabelecemos, mas desde um
lugar bem localizado e particularizado.
Nesse sentido
bem amplo de ideologia, ela acompanha o pensamento humano desde sua origem,
dando-lhe um formato próprio.
A
CIDADANIA
Com a
tomada de consciência explícita da ideologia, pode-se definir a cidadania.
Novamente a etimologia, isto é, o estudo da origem das palavras, nos ajudará a
compreender melhor esse termo. Cidadania vem
de “cidade”. Cidade vem de civitas, civilis. A cidadania é a ação pela qual alguém se torna
civil, habitante de uma cidade, e passa a fazer parte de uma civilização.
Vejamos alguns exemplos.
Surge entre
duas pessoas uma pendência. Uma quer resolver a questão na marra. Alguém se
aproxima dela e diz: “Não faça isso. Seja civilizado! Um problema entre
‘civilizados’ se resolve no diálogo, na busca do entendimento”.
Um aluno
responde rispidamente em aula. O professor repreende-o: “Onde você pensa que
estamos? Estamos num país civilizado!”
Dois
candidatos ao governo digladiam-se durante a campanha eleitoral. Terminadas as
eleições, alguém se aproxima do candidato que perdeu e diz: “Como você vai
se comportar agora que perdeu as eleições?” O candidato derrotado responde:
“Farei oposição ‘civilizada’, como cidadão que sou”.
Esses vários
exemplos introduzem-nos na compreensão mais geral de cidadania. Para entender
melhor o termo, temos de ir mais longe, até a origem das cidades, para aí
descobrir as raízes da cidadania.
Como esse
conceito remonta ao mundo grego, vamos ver como nasceram as cidades gregas.
Claro, bem diferentes das nossas.
No passado, a
família aparece como única forma de sociedade existente. Família ampla em número,
mas ainda acanhada para prover as necessidades materiais, culturais e morais que
vão surgindo.
Cada família
tinha seus deuses, suas divindades domésticas, que eram adorados pelos seus
membros. A religião doméstica isolava essas famílias. Aos poucos, algumas
delas se uniram para adorar um deus comum, superior a seus deuses domésticos.
Criaram-se as “fratrias” ou “cúrias”, embora persistissem os laços
fundamentais de sangue. Entrava-se na fratria pelas mãos do pai.
Da fratria,
passaram a surgir, em embrião, pequenas sociedades com seus deuses, cultos,
sacerdócios, justiças e formas de governo. A associação alarga-se. As
fratrias unem-se em tribos, com seus altares e suas divindades protetoras. Nas
tribos, fazem-se assembléias, promulgam-se decretos a que todos os membros se
submetem. Instituem-se tribunais com direito de jurisdição sobre todos.
As
cidades nascem no momento em que várias tribos conseguem associar-se, sob a
condição de o culto de cada uma delas ser respeitado. O culto passa a ter
importância fundamental, a fim de garantir o vínculo entre as tribos. Elas
acendem o fogo sagrado e cultivam uma religião comum.
O conceito de
cidadania paga, logo no seu início, inegável tributo religioso. As cidades
originam-se, portanto, do movimento de pequenas células que se unem: famílias
em fratrias, fratrias em tribos, tribos em cidades. Cada novo momento não anula
a individualidade nem a independência
da célula anterior em seus cultos, sacerdócios, direitos de propriedade, justiça
interna, reuniões, festas, chefes, etc.
Ao descrever,
assim, de maneira rápida e esquemática, o nascimento das cidades, pode-se ter
a impressão de que a vida humana se desenvolve de maneira tranqüila, linear.
Mas sabemos que não é isso o que acontece. Cada passo se dá com muito
conflito, muita luta, muito sofrimento. Ora se avança, ora se regride. Mas, sem
dúvida, apesar disso, a consciência vai evoluindo no sentido de ir entendendo
melhor o passado.
A cidadania,
como forma de viver em cidade, não aboliu nem
negou os vínculos
sociais e religiosos anteriores. Com isso, temos um dado fundamental para
entender hoje a cidadania, se não quisermos negar e esquecer a história.
As cidades
configuravam-se como confederações que respeitavam os direitos e a vida das células
menores: família, fratria e tribo. As cidades antigas formavam-se não como um
agregado de indivíduos, mas de pequenos corpos sociais menores.
Pertencer a
essa quádrupla célula viva – família, fratria, tribo e cidade - implicava
um processo progressivo. Só aos dezesseis ou dezoito anos é que o adolescente
era admitido à cidade. Só então é que a cidadania propriamente dita começava
a ser exercida. Havia ritos para essa entrada. Um exemplo disso foi Atenas.
No altar do
culto ao deus dessa cidade arde a carne dos animais sacrificados, lançando seus
rolos de fumaça. E o jovem ateniense galga os degraus do altar, comovido.
Percebe a importância do momento. Vai proferir o seu juramento e terá a obrigação
de respeitar sempre a religião da cidade. Inicia-se no culto da cidade e,
doravante, passa a ser cidadão ateniense.
A criação
da cidadania implica a existência de um vínculo social que ligue as pessoas
entre si segundo regras comuns, sob determinado poder, e a conseqüente obediência
a elas. Para isso a paixão deve submeter-se à razão; a razão e os interesses
individuais, à razão pública e aos interesses coletivos. Que força consegue
esse milagre? A crença religiosa, apesar de ser em muitos de seus aspectos criação
humana, impõe-se como sobrenatural, divina na sua totalidade. Daí sua importância
no nascimento da cidadania.
Na primeira
percepção de cidadania existe a idéia não de conquista, mas de iniciação,
de introdução num mundo já existente e regulado pela religião, ao qual o
jovem tem acesso por via do rito. Outorga-se a cidadania a um membro da
comunidade por via do juramento no altar do deus por ela cultivado. À sua
providência estão entregues os cidadãos.
O conceito de
cidadania vai ampliar-se para além das cidades e ligar-se ao Estado. Nasce nas
cidades e torna-se mais amplo e vasto em seus direitos e deveres. Os romanos,
com sua mentalidade jurídica, vão dar a esse conceito um sentido mais preciso.
“A
cidadania (o status civitatis dos romanos) é o vínculo jurídico-político que,
traduzindo a pertença de um indivíduo a um Estado, o constitui perante este
num particular conjunto de direitos e obrigações [...] A cidadania exprime
assim um vínculo de caráter jurídico entre um indivíduo e uma entidade política:
o Estado.
(Moura
Ramos. Cidadania, Enciclopédia Verbo, Lisboa, 1983. p. 824-5.)
CONCLUSÃO
A cidadania
lança suas raízes nas cidades gregas. Ela nasce da associação de pequenos núcleos
de vida: família, fratria e tribo. Mesmo que nossa cidade tenha nascido de modo
bem diferente, percebemos que a cidadania está relacionada ao fato de nela
morarmos de maneira cordata. Não podemos perder esse germe de cidadania, que
continua válido para nós.
Ser cidadão
é viver em grupos sociais que formam células vivas, cada vez maiores, de modo
respeitoso. Ser cidadão na família, nos grupos de trabalho e de lazer, na
cidade pequena e na grande sociedade é um dado de toda nossa vida social.
Resumindo, a
cidadania implica um processo: a paixão se submete à razão; a razão e os
interesses individuais se submetem a razão pública e aos interesses coletivos.
(J.B. Libânio - “Ideologia e Cidadania” pg. 7-9 - Ed. Moderna