O
Horror Político
O
Horror não é econômico
Jacques Généreux
Humanismo
Uma única vida sacrificada já é um horror. É
preciso lembrar sempre essa evidência. Para além do desemprego e da pobreza
que, em pensamento, não costumam ser mais do que palavras, do que conceitos,
ela sabe nos chamar a atenção para a pessoa, seu sofrimento, sua humilhação
por não valer nada, por não valer nada para si mesma.
Em geral, é preciso o sacrifício de milhões de
vidas para que um “problema” nos incomode, e dezenas, ou melhor, centenas de
milhões para que nos comova de verdade. O desemprego só nos preocupa quando
ultrapassa um determinado índice; o assassinato de uma criança em Ruanda só
é monstruoso se for um caso de genocídio. Quando se trata de estimar as
dificuldades de uma sociedade, que não as nossas nem as de nossos próximos,
adotamos uma lógica de percentagem que anula as pessoas, únicas e distintas,
cujas vidas, sofrimentos e até mesmo a morte, passam a constituir dados estatísticos.
Por que esperar milhões de
desempregados e pobres, se não para lutar, de fato, contra esse flagelo, ao
menos para declarar essa luta prioritária? Claro, 5% de desempregados é menos
grave do que 13%. Mas o indivíduo descartado, sem esperança de voltar ao
trabalho, não está 5% ou 13% desempregado, está 100% excluído. Um por cento
de "sem domicílio fixo" não significa gente desprovida de 1% de
teto, mas vidas inteiras atiradas na rua. A urgência não começa em 13%. Ela já
é gritante ao primeiro pobre abandonado em uma sociedade transbordante de
riquezas.
O trabalho continua sendo a única via possível para
a integração dos indivíduos na vida social. De modo que esse modelo de
sociedade condena uma proporção crescente da população a procurar algo que não
existe mais: o emprego. E assim sendo, ele a condena à humilhação. Os
desempregados "se acusam daquilo de que são vítimas. Julgam-se com o
olhar daqueles que os julgam, olhar esse que adotam, que os vê como culpados, o
que os faz em seguida perguntar que incapacidade, que aptidão para o fracasso,
que má vontade, que erros puderam levá-los a essa situação?"
No
período de transição entre o mundo anterior, baseado no trabalho, e o mundo
emergente, sem trabalho, a ameaça do desemprego permite explorar sempre mais
duramente a mão-de-obra ainda útil, de sorte que a produção de riquezas só
beneficia os detentores do capital.
Poder
- globalização
Essa mudança desfavorável à maioria do indivíduos
já nem sequer é combatida pelos estados democráticos que, supostamente,
governam em nome da maioria, porque o verdadeiro poder lhes escapa. A globalização
da economia, o poderio dos mercados financeiros e das empresas transnacionais
restringem cada vez mais a margem de manobra de qualquer governo.
0 verdadeiro poder é exercido no interior de um "clube" muito
fechado de capitalistas, de financistas, de especuladores, que ditam sua lei ao
mundo: a lei do lucro. "Essas redes econômicas privadas, transnacionais,
dominam assim, cada vez mais, os poderes estatais; longe de serem controladas
por eles, são elas que os controlam. Constituem, em suma, uma espécie de nação
que, fora de qualquer território, de qualquer instituição governamental,
comanda cada vez mais as instituições e as políticas dos diversos países,
geralmente por meio de organizações de peso como o Banco Mundial, o FMI ou a
OCDE”.
Na "ausência radical do trabalho", o
sentimento de dignidade dos desempregados só pode renascer se, de agora em
diante, eles se sentirem como norma social e não como banidos, com acesso
interditado ao valor social dominante. Ora, é evidente que isso não tem
sentido, pois eles não são a norma, mas a exceção. Até o fim de suas vidas
serão espectadores de um mundo onde a imensa maioria dos indivíduos trabalha.
Deve-se compreender, então, que sua dignidade se resume em saberem que ainda não
são a norma, mas que prefiguram a norma de um mundo que eles nunca chegarão a
ver, de um futuro que nem mesmo sabem se de fato é plausível?
Se rejeitarmos essa irrisória consolação, tão
irrisória quanto improvável, não vemos como dar uma aparência de dignidade
aos "sem trabalho", a não ser oferecendo uma remuneração decente,
que lhes garanta, no mínimo, alguns direitos equivalentes aos dos
trabalhadores: o direito à moradia, o direito ao consumo, o direito de comprar
carne para os filhos e de lhes dar um presente no Natal. Pode-se também
experimentar uma proposta, não de trabalho, já que "radicalmente" não
existe, mas de uma "atividade". Uma atividade, porém, no fundo
desnecessária à sociedade, caso contrário seria um trabalho, isto é, a troca
de um salário por um serviço necessário a outras pessoas.
Para dizer a verdade, essa segunda saída não elimina
a indignidade, contenta-se em socializá-la, em "humanizá-la". Não
muda em nada a diferença essencial entre os "sem emprego" e os
assalariados. Os direitos desses últimos são a contrapartida dos deveres que
os deixam quites com a sociedade. Minha própria dignidade de cidadão não vem
do que a sociedade me dá, mas do que ela me cobra. Minha existência tem algum
valor porque os outros esperam alguma coisa de mim: precisam, portanto, que eu
exista.
Distribuir direitos entre os indivíduos sem lhes
atribuir deveres – o direito de ter deveres como todo mundo – não lhes
devolve a dignidade. Mantém uma desigualdade perversa, mais monstruosa do que a
desigualdade dos salários. É sem dúvida melhor que a indiferença, melhor do
que a morte. Mas não é uma “solução”. É a desistência
institucionalizada.
Nova
civilização
Não haverá saída para a miséria do mundo sem
economia de mercado, sem a globalização dessa economia, sem o fortalecimento
da União Européia, sem mercados financeiros eficientes, nem mesmo sem
especuladores que assumam os riscos que outros não querem assumir. Mas haverá
ainda menos saída se a lógica do interesse e do lucro privado não for
submetida à lógica da solidariedade, da justiça e da dignidade humana.
O
Horror
As
democracias já não suportam horrores ainda mais insuportáveis do que a
pobreza? Como nos Estados Unidos, por exemplo, onde bandos de crianças armadas
matam-se umas às outras nas ruas, sem que ainda seja o bastante para questionar
definitivamente o livre comércio de armas de fogo. E na França, a «pátria
dos direitos do homem", não se descobriu que professores violentaram crianças,
durante anos a fio, com o conhecimento de organizações hierarquizadas que,
muitas vezes, nem davam queixa? Não, realmente não se sabe até onde o
insuportável é suportável. As sociedades que «se habituam" à violação
ou à morte de crianças podem se habituar ao subemprego, à miséria comum e
digerir sem revolta algumas centenas de milhares de desempregados a mais. Ou
alguns milhões, quem sabe!
Se a
exclusão social prejudica a tranqüilidade, a segurança, a saúde, a boa
consciência, ou a bolsa dos "incluídos" não é só porque não
rejeitamos inteiramente os "excluídos", porque os deixamos viver em
nossas portas, percorrer nossas ruas, freqüentar nossas escolas e hospitais,
receber proventos descontados do fruto de nosso trabalho? Uma "solução"
simples e evidente então se esboça e já ganha corpo, de maneira esporádica,
na Europa, e mais nitidamente e de forma mais sistemática, nos Estados
Unidos: a secessão, a separação entre dois mundos, o dos trabalhadores ainda
produtivos e o dos outros. Tanto é que, na França, algumas municipalidades
confinam seus mendigos em redutos durante as estações turísticas. Por que não
confiná-los permanentemente? Nos Estados Unidos preferem isolar os ricos em
verdadeiras cidades privadas, rodeadas de muros, guardadas por um policiamento
particular e autorizadas a abater imposto para custear as instalações
coletivas; em suma, estados-miniatura - sinais precursores de uma sociedade
destinada, um dia, a ser constituída de ilhotas de civilização amuralhadas,
em meio a um mundo selvagem.
Na Europa, antes que se chegue a isso, vamos começar
achando excessivos os encargos dos serviços coletivos (educação, saúde,
serviços sociais, policiamento etc.) que incidirão sobre uma parcela
declinante de assalariados. A pressão da maioria para a redução dos impostos
e dos encargos sociais forçará as políticas a fazerem cortes inquietantes nos
serviços públicos, que serão reservados aos que pagam imposto. A delinqüência
vai se estender junto com a pobreza; a repressão aos delitos e a proteção dos
bens e das pessoas físicas ficarão cada vez mais caras. Permitiremos a expansão
de zonas fora da lei onde a polícia não vai: se os pobres se matarem uns aos
outros, tanto melhor, sai de graça!
O
futuro
Temos o direito de falar, de escrever, de filmar, de cantar o que bem queremos; o direito de nos reunir, de debater e os meios de levar nosso debate à praça pública. Se não aproveitarmos ainda mais esse poder de acordar o debate público e de servir de intermediários a nossos concidadãos, somos culpados de não socorrer a sociedade em perigo. E amanhã, quando o horror econômico e o horror político comparecerem ao encontro marcado por nosso imobilismo, e nossos filhos perguntarem: vocês dormiram enquanto estavam de guarda?, pior ainda, não dormiram, reconheceram o inimigo e não disseram nada, não fizeram nada? - o que responderemos?