Do homem-máquina ao homem-genoma

Sergio Paulo Rouanet

Há exatamente 250 anos morria em Potsdam, na corte de Frederico, o Grande, o médico Julien Offray de La Mettrie (1709-1751), vítima de um mal-estar gástrico provocado por um pastelão de faisão com trufas. É verdade que as más línguas, principalmente a mais viperina de todas, a de Voltaire, também hóspede de Frederico, juraram que o pobre homem não tinha morrido bem de indigestão, e sim dos remédios que ele receitara a si mesmo.

Como se não bastasse tanta maledicência, os devotos afirmaram que aquele ateu convicto tinha se convertido ao catolicismo antes de exalar seu último suspiro, mas podemos duvidar dessa conversão se levarmos em conta que pouco antes do seu triste fim La Mettrie tinha escrito que a felicidade consistia em segurar um copo numa das mãos e o biquinho do seio da linda Phílis na outra, "mandando ao diabo todos os preconceitos do universo".

Por que relembrar hoje esse filósofo relativamente pouco conhecido? Porque de certo modo ele está mais na ordem do dia que a maioria dos pensadores do século 18. La Mettrie é autor de um livro célebre, "O Homem-Máquina" (ed. Mille et Une Nuits, 1,52 euros, França), cujo título é quase um resumo do anti-humanismo moderno.

Talvez La Mettrie se espantasse com esse julgamento. Afinal, ele se via como um apóstolo da visão científica do mundo, contra as superstições inculcadas pela Igreja e como um defensor da liberdade de expressão e publicação -e por isso se julgaria com direito à designação de humanista. No máximo ele aceitaria ser chamado de libertino, mas no século 18 isso não era necessariamente um insulto.

Horror e desprezo

A palavra não tinha mais o sentido exclusivo de livre-pensador, como no século 17, nem o exclusivo sentido de devasso, como nos séculos 19 e 20, mas significava, na época das Luzes, a unidade das duas coisas, o homem culto, sem preconceitos filosóficos ou religiosos, e o epicurista delicado, apreciador do bom vinho e das mulheres amáveis. Como libertino, nesse sentido integral, La Mettrie não era muito diferente de Diderot, que se bateu contra o obscurantismo e escreveu uma obra erótica, "As Jóias Indiscretas", nem de Mirabeau, tribuno da Revolução e autor de vários livros de pornografia explícita.

Ou, pensando bem, talvez La Mettrie não se espantasse tanto assim. Afinal seus contemporâneos em geral o tinham tratado com horror ou com desprezo. O horror ficava por conta dos devotos, que se benziam quando La Mettrie escrevia que o homem era um autômato, sem alma e sem livre-arbítrio. Um dos livros em que ele defendia essas idéias foi queimado pelo carrasco. O desprezo vinha dos filósofos, que não tinham grandes objeções ao ateísmo de La Mettrie, mas se chocavam com suas opiniões morais.

Partindo do princípio de que o bom ou mau funcionamento do corpo condicionava de modo absoluto a felicidade ou infelicidade dos homens, La Mettrie escreveu sem pestanejar que "os maus podem ser felizes... Parricida, incestuoso, ladrão, celerado, infame e justo objeto da execração dos homens de bem, serás feliz apesar de tudo. Bebe, come, dorme, ronca, sonha; e, se pensas, às vezes, que seja entre dois vinhos... Refocila como os porcos e serás feliz à maneira deles".

Diante de trechos assim, é compreensível o desejo dos filósofos de se distanciarem de La Mettrie. Foi o caso de Diderot, também ateu, e que por isso mesmo fez questão de se dissociar das consequências morais (ou imorais) que La Mettrie tirava do seu materialismo. Para Diderot, La Mettrie era um autor sem julgamento, de quem se reconhecia a frivolidade de espírito no que ele dizia e a corrupção do coração no que não ousava dizer, cujos princípios derrubariam as leis, dispensariam os pais de educar seus filhos, internariam no hospício o homem que luta contra suas inclinações desregradas, em suma, era um homem dissoluto, impudente, bufão, adulador, feito para a vida das cortes e para o favor dos grandes.

Os cientistas que trabalham no Projeto Genoma Humano também não endossariam as opiniões de La Mettrie sobre assuntos morais, mas, se fossem honestos, reconheceriam no homem-máquina a origem de muitos pressupostos que hoje em dia orientam o trabalho científico.

La Mettrie levou às últimas consequências a afirmação de Descartes de que os animais eram simples máquinas, por serem privados de uma substância espiritual capaz de dirigir seu organismo. Os homens tinham esse princípio imaterial, uma alma implantada por Deus, e nisso se distinguiam dos animais. La Mettrie considerou a hipótese da alma uma complicação supérflua. Os homens não se distinguiam dos animais em praticamente nada, nem em sua anatomia, que era semelhante à dos primatas superiores (na época, os orangotangos eram chamados "homens selvagens"), nem em seu comportamento, sob inúmeros aspectos até mais desprezível que o dos animais. A própria linguagem não era um fator de diferenciação, porque não estava excluído que os animais pudessem um dia aprender a falar pela imitação dos homens.

De resto, afirma La Mettrie, isso já aconteceu, segundo depoimento do príncipe Maurício de Nassau, que jurou ter mantido no Brasil uma conversa perfeitamente racional com um papagaio. Como a ave falava em tupi-guarani, é bastante provável que o príncipe tenha sido enganado pelos intérpretes e que, em vez de ser o autor de uma observação científica, Maurício de Nassau tenha sido o inventor involuntário da primeira anedota de papagaio de nossa história. O comentário não é meu, e sim de Afonso Arinos, que conhecia bem esse episódio. De qualquer modo, La Mettrie acreditava na veracidade da narrativa, e é o que importa.

Nosso filósofo concluiu da virtual identidade de natureza entre homens e animais que, se Descartes tinha razão em dizer que os animais eram máquinas, bastava dar um passo para afirmar que também os homens eram apenas máquinas. Nosso corpo é um conjunto de molas e engrenagens, e o que chamamos alma é um princípio também material, localizado no cérebro, que movimenta nosso organismo e nos habilita a pensar.

A idéia de uma alma imortal vem da nossa vaidade, do orgulho de nos sentirmos superiores ao resto da criação. O pensamento é uma simples função da matéria organizada. A experiência demonstra que a matéria comanda tudo, que só o corpo existe. A prova é que com a doença o mais belo gênio se torna estúpido. Uma obstrução no baço teria transformado em covardia a coragem de Sêneca e de Petrônio. O vício e a virtude dependem do estado dos nossos órgãos.

Médicos conselheiros

Sem dúvida, a educação pode corrigir nossas inclinações anti-sociais, mas é uma influência frágil, que a qualquer momento pode ser sobrepujada pela força que realmente nos determina, a orgânica. Os criminosos fazem o que fazem porque sua "máquina" os impele nessa direção. Por exemplo, Henrique 3º mandou matar o duque de Guise porque fazia frio em Blois, e o rei que normalmente era doce e tímido ficava feroz quando sentia frio.

A ordem social exige que os assassinos sejam punidos, mas a rigor não são responsáveis por seus atos, porque não são livres para agir de outro modo. Numa sociedade mais humana, os jurados seriam médicos, porque só eles conhecem a influência irresistível dos determinismos orgânicos. Aliás, os médicos deveriam ser os primeiros personagens do Estado, livres para pesquisarem o que quiserem, porque seu trabalho nada tem a ver com a política, e ao mesmo tempo conselheiros preferenciais dos reis, porque sabem melhor que ninguém o que convém para conduzir os negócios públicos à luz da razão e para domesticar esse rebanho indócil a que chamamos povo.

Todos esses temas têm afinidades assustadoras com o clima que prevalece em alguns meios científicos de hoje.

Primeiro, a idéia da inexistência de fronteiras entre o mundo humano e o restante do mundo animal foi confirmada pela ciência.


La Mettrie levou às últimas consequências a afirmação de Descartes de que os animais eram simples máquinas, privados de substância espiritual


Os animais ainda não falam, mas as tentativas de ensinar a pequenos gorilas a linguagem dos surdos-mudos sugere que a "afasia" dos animais talvez tenha mais a ver com a insuficiência das suas cordas vocais que com uma incapacidade congênita para a fala. A genética está comprovando diariamente a continuidade entre o mundo humano e o animal.

Verificou-se que a divergência nas sequências entre o genoma do homem e o do chimpanzé é de apenas 1,3%. O patrimônio genético humano é de só 30 mil genes, apenas o dobro do da mosca drosófila. É nessa continuidade que se baseia a engenharia genética para realizar experiências transgênicas, como a implantação de hormônios humanos em touros, para assegurar a suas descendentes uma produção mais abundante de leite, ou genes humanos em porcos, para com isso criar um reservatório de órgãos para transplantes.

La Mettrie teria se deliciado com experiências em curso dentro do próprio mundo animal, levando à produção de bagres com genes de truta, ou de porcos com genes de galinha, cujo resultado foi a produção de leitões com os quartos dianteiros muito grandes, razão pela qual foram chamados, carinhosamente, de Arnies, em homenagem ao ator Schwarzenegger.Fala-se num animal mítico chamado Geep, híbrido de cabra ("goat") e ovelha ("sheep"). Estamos todos aguardando a revelação sensacional de que os deuses do Olimpo foram na verdade cientistas que fizeram as primeiras experiências transgênicas da história. Cruzando genes humanos com os de peixe, de bode e de cavalo, eles produziram, respectivamente, sereias, faunos e centauros.

Segundo, a idealização por parte de La Mettrie da figura do médico encontra um forte eco em nossos dias. A Ilustração em geral tendeu a pensar a cruzada filosófica em termos terapêuticos: o fanatismo era uma infecção, e o trabalho dos filósofos podia ser comparado ao dos médicos. Isso explica que cerca de 20 médicos tenham colaborado na "Encyclopédie" e que Voltaire, esse eterno valetudinário, tenha lido, segundo afirmou, mais livros de medicina do que Dom Quixote lera livros de cavalaria.

Na "Sagrada Família", Marx salienta esse papel dos médicos (Leroy, Cabanis e naturalmente nosso amigo La Mettrie) na formação do materialismo francês. Mas foi sem dúvida La Mettrie que levou mais longe esse culto do médico, embora tenha satirizado os charlatães que povoavam o meio médico do seu tempo. É que para ele a felicidade particular e o bem público dependiam do bom funcionamento da máquina corporal, e ninguém a conhecia melhor que o médico. La Mettrie teria achado assim perfeitamente normal a ênfase terapêutica que vem sendo dada às experiências genéticas do nosso tempo.

Estatuto ambíguo

Terceiro, o médico-filósofo de La Mettrie tinha um estatuto ambíguo. Por um lado, era totalmente apolítico, pois a ciência nada tem a ver com a sociedade. Em consequência, não podia sofrer nenhuma interferência em seu trabalho. Mas, por outro lado, só ele tinha a competência necessária para determinar o que era necessário para o bem dos homens. Em consequência, nenhum Estado podia abrir mão do seu saber. Esse ser ao mesmo tempo apolítico e político, imune às pressões do poder público e ao mesmo tempo presente em todas as grandes decisões que afetam a vida social, se parece com um irmão do sábio que só se julga responsável perante a ciência, mas imagina deter um conhecimento intransferível em todos os assuntos relacionados ao futuro do homem.

Quarto, o materialismo radical de La Mettrie deu um golpe de morte na visão religiosa do mundo. Com isso, o homem pôde assumir o lugar do criador na relação com a criatura. O cientista-demiurgo instalou-se no vazio deixado pela morte de Deus. A partir desse momento, nada poderia impedir que ele modificasse a obra da criação, criasse novas espécies ou produzisse homens artificiais. Antes de La Mettrie, o exemplo já fora dado pelo rabino Judah Ben Löew, criador do Golem. Depois da La Mettrie, uma garota de 20 anos, Mary Shelley, descreveu a tragédia de um estudante de química, Victor Frankenstein, vítima da própria criatura, um monstro produzido a partir de fragmentos de cadáveres.

Hoje a ficção já está se tornando realidade. A robótica está produzindo andróides, como nos filmes "Metropolis" (1927), de Fritz Lang, ou em "Blade Runner" (1982), de Ridley Scott; o homem pode ser gerado pela fertilização in vitro e pela inseminação artificial; e a produção de clones humanos é só uma questão de tempo. O horror de um filme como "The Boys from Brazil" (1978), de Franklin J. Schaffner, não vem só do fato de que os clones tenham sido feitos a partir de células de Adolf Hitler, mas de mecanismos psicológicos que nos levam a valorizar o caráter individual e irrepetível do ser humano e a reagir com aversão à idéia da sua duplicação genética. La Mettrie certamente não teria a mesma aversão, pois toda máquina é por essência artificial, e não há nada demais em máquinas que se auto-replicam.

Quinto, ao substituir o dualismo de Descartes por um monismo materialista que descartava a alma, La Mettrie contribuiu para produzir dois movimentos contrários e complementares. Por um lado, se o que chamamos alma é somente uma emanação da matéria organizada, o corpo deixa de ser um sacrário destinado a guardar uma substância infinitamente preciosa e sofre uma depreciação. A consequência é a instrumentalização do corpo, sua desvalorização ou sua mercantilização. Gnose moderna, a nova filosofia materialista avilta o corpo, transforma-o em mercadoria e o põe no mercado, patenteando genes e processos. Por outro lado, há uma valorização paradoxal, porque na vigência da visão religiosa do mundo o corpo era subordinado à alma. Agora o corpo passa a constituir a única realidade do homem, e sua função mais alta, o pensamento, passa a ser exercida pela matéria, o cérebro.

Donde a importância de cuidar do corpo, de preservá-lo, de protegê-lo da doença e da morte, pois não há nenhuma instância mais alta. Se a dessacralização do corpo, efetuada pelo primeiro movimento, autorizava todas as manipulações, sua valorização, efetuada pelo segundo, exigia toda uma série de tecnologias do corpo, para torná-lo mais belo e mais harmonioso. É preciso agora aperfeiçoar o corpo, como antes se procurava aperfeiçoar a alma. Não se trata mais da imitação de Cristo, mas da imitação de Sylvester Stallone, nem de fazer exercícios espirituais, como recomendava santo Inácio de Loyola, e sim de fazer exercícios em academias de musculação.

A taxa de serotonina

O resultado do primeiro movimento é que o corpo pode ser manipulado, e o do segundo é que deve ser objeto de intervenção. Não há nada de errado em terapias genéticas que busquem criar seres humanos mais saudáveis, mas começamos a pensar nos programas de eugenia do Terceiro Reich quando somos informados de que uma empresa multinacional tentou aumentar com um hormônio de crescimento destinado a crianças com deficiência de hipófise a estatura de crianças perfeitamente sadias.

Sexto, a afirmação de La Mettrie de que o crime resulta de predisposições biológicas encontra perfeita ressonância nas teses atuais sobre a influência de fatores genéticos no comportamento desviante. Como explicou o professor Marcos Palatnik (a quem devo muitas das informações contidas neste artigo), descobriu-se que os criminosos tendem a ter uma taxa muito baixa de serotonina. Com isso fica mais fácil produzir homens honestos e talvez menos violentos, realizando assim o ideal não alcançado nem pela pedagogia humanista tradicional nem pelos biopoderes (Foucault) que tentaram domesticar o homem: basta reprogramar certos indivíduos para elevar seu índice de serotonina.

Essas afinidades entre algumas idéias de hoje e as de La Mettrie só podem ser compreendidas se levarmos em conta que a Ilustração gerou duas linhagens espirituais. Uma delas parte de Diderot, Helvétius e Holbach, acredita que o homem é determinado pelo meio e acha que uma mudança nas relações sociais pode modificar o comportamento humano. Essa linhagem inclui os utilitaristas, como Jeremy Bentham e Stuart Mill, para os quais o homem novo pode ser produzido pela legislação e pela educação, e os marxistas, para os quais ele pode ser produzido pela revolução social.

O homem novo

A segunda linhagem parte de La Mettrie e acredita que o organismo determina o essencial da vida do homem. É nessa linhagem que se entronca o tipo de pensamento que estamos examinando. Para ela, cabe ao laboratório a fabricação do homem novo. A semelhança básica entre esse pensamento e o de La Mettrie está num rigoroso determinismo do corpo. Para La Mettrie, tudo depende da máquina biológica; para os cientistas em questão, tudo depende da máquina genômica.

La Mettrie escreveu certa vez uma obra irônica, intitulada "O Homem Mais Que Máquina", na qual finge aceitar os argumentos de seus adversários. Alguns cientistas mais sensatos poderiam escrever, esperemos que sem ironia, um livro chamado "O Homem Mais Que Genoma". Eles já se deram conta de que, se os genes determinam nosso comportamento, por sua vez a realidade exterior age sobre nosso genoma, produzindo mutações genéticas. De resto, por mais que a ciência demonstre que há um gene do câncer, não conseguiu até hoje descobrir um gene do capitalismo, e é o capitalismo que torna possível a indústria do cigarro, que transforma em realidade a propensão genética ao câncer.

La Mettrie não discordaria disso. Afinal ele nunca negou que dentro de certos limites o meio pudesse modificar a máquina humana. E com certeza detestaria a idéia de uma reprogramação genética que mudasse as condições sob as quais se processam a alimentação e a sexualidade do homem. Na dúvida, ele preferiria continuar tomando seu vinho e acariciando o seio de Phílis.


Sergio Paulo Rouanet é ensaísta e professor visitante na pós-graduação em sociologia da Universidade de Brasília. É autor de, entre outros, "As Razões do Iluminismo" e "Mal-Estar na Modernidade" (Companhia das Letras). Escreve mensalmente na seção "Brasil 502 d.C." (depois de Cabral). (FSP 6.5.01)

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