TECNOLOGIA APROPRIADA

                                José Goldemberg

 

O que está ocorrendo com a tecnologia nas últimas décadas lembra muito o que ocorre quando se assina um contrato de locação de um apartamento ou quando se faz um seguro de vida: na hora de assinar, ninguém se dá ao trabalho de ler as inúmeras cláusulas em letra miúda que constam do documento. Mais tarde, contudo, quando surgem os problemas, as pessoas se dão conta de que concordaram com condições inaceitáveis, lesivas, ou simplesmente inadequadas.

É por esta razão que existe tamanho esforço em explicitar quais as hipóteses implícitas na aceitação de determinadas tecnologias. Os adjetivos usados neste campo têm significado pouco claro e só recentemente é que se começa a distinguir claramente os seus matizes e nuanças.

Pode parecer um pouco surpreendente que o uso da tecnologia dê origem a estas complicações uma vez que, à primeira vista, ela decorre da aplicação dos conhecimentos das ciências exatas à solução dos nossos problemas. A verdade é outra: tecnologia é mais do que técnica.

Tecnologia é o conjunto dos conhecimentos de que uma sociedade dispõe sobre ciências e artes industriais, incluindo os fenômenos sociais e físicos, e a aplicação destes princípios à produção de bens e produtos.

Técnica é um item isolado deste conjunto de conhecimentos como, por exemplo, uma máquina, um processo industrial ou um programa de computação.

A maneira pela qual as diferentes técnicas são organizadas e integradas numa dada sociedade é o que se chama de sistema tecnológico, ou simplesmente tecnologia. O sistema inclui eficiência econômica, técnica, valores culturais e estratégia de desenvolvimento.

Um sistema tecnológico tem, portanto, muitas dimensões e certos parâmetros medem o que se passa em cada uma destas dimensões.

A tabela abaixo relaciona os mais importantes:

 

DIMENSÃO   e  PARÂMETRO DE MEDIDAS

 

 Diferentes sistemas de idéias políticas e sociais utilizam diferentes tecnologias para sua realização e, sob este ponto de vista, pensar que tecnologia é neutra e não depende do sistema de organização social é simplesmente incorreto. Tecnologia é um instrumento usado como muitos outros o foram no passado como, por exemplo, a escravidão. Como os escravos, porém, a tecnologia tem uma certa autonomia própria e em muitos casos se torna tão forte que acaba por alterar os valores sociais tradicionais que a colocaram em uso; o telefone, por exemplo, que foi criado para substituir o telégrafo, começou por ser um instrumento inócuo e pouco usado para se transformar num tipo revolucionário de comunicação nas sociedades modernas.

Neste contexto surgiu, nas últimas décadas, a idéia de tecnologia apropriada que foi popularizada pelo economista inglês E.F. Shumacher. Ela deu origem a uma enorme variedade de esforços e um grande entusiasmo em torno de temas, tais como “small is beautiful” e outros, tendo a ver com uma volta a uma vida rural simples sem a poluição e as complicações da vida moderna. Além disso, estas idéias têm muito a ver com as idéias de Gandhi de desenvolver a tecnologia simples, necessária para as pequenas vilas da Índia, que desse emprego às grandes populações indianas.

O conceito de apropriado foi logo estendido a outras situações e chegou-se ao extremo de ver pessoas responsáveis defender o uso de um determinado tipo de reatores nucleares como os mais apropriados para um dado país. O conceito é muito elástico e se presta a toda a sorte de interpretações.

Uma definição formal é a seguinte:

   “Tecnologia apropriada é um processo de estabelecimento dos efeitos sociais e ambientais de uma tecnologia proposta antes que ela seja desenvolvida, e a tentativa de incorporar elementos benéficos, nas várias fases de seu desenvolvimento e utilização”.

Claramente, esta definição implica uma avaliação tecnológica e escolhas adequadas. Em outras palavras, tecnologia apropriada não tem um significado intrínseco, a não ser que se especifique os elementos econômicos, sociais e culturais em que ela vai ser usada. Qualquer tecnologia pode ser apropriada, dependendo de quem vai usá-la e do fim a que se destina, mesmo porque ela não teria sido introduzida se não fosse útil para algum grupo social. Neste sentido, ela pode ser vista como apropriada por alguns e totalmente inadequada por outros, e não é, portanto, isenta de “política”, no sentido mais amplo da palavra.

Usualmente, contudo, o quanto uma tecnologia é apropriada depende dos seguintes aspectos sociais e econômicos:

1.    Satisfaz as necessidades das camadas mais pobres da população?

2.    Preserva ou não o meio ambiente?

3.    É adequada em relação aos recursos naturais disponíveis?

4.    Depende de fontes de energia renováveis ou depende de combustíveis fósseis?

Dentre estes critérios, o de satisfazer as necessidades dos pobres é o mais usado, por razões humanistas, que têm muito a ver com as idéias de Gandhi. Sobretudo nos Estados Unidos, há um grande número de grupos e pessoas tentando ajudar as nações menos desenvolvidas, através do desenvolvimento destas tecnologias.

As características gerais da tecnologia apropriada para estes grupos devem ser:

Elas têm sido criticadas como correspondendo a opções tecnológicas de segunda classe, de serem destinadas a consumir poucos recursos naturais que seriam dirigidos às nações mais desenvolvidas e de criar um mercado para equipamento barato que viria das nações industriais e que manipulariam, assim, os hábitos de consumo dos menos desenvolvidos.

Esta concepção tem sido recebida também com grande ceticismo por muitos dirigentes de países periféricos, que acreditam que a solução para os seus problemas não reside no uso de uma “nova” tecnologia, mas em processos mais eficientes de transferência de tecnologia convencional para seus países, incluindo uma política de preços adequada para produtos primários que eles exportam.

Além disso, são muitos os que acreditam que tecnologias primitivas baseadas no nível das pequenas comunidades rurais não poderão trazer emprego e, muito menos, desenvolvimento para muitos países.

Para não haver dúvida que ao lado de tecnologia de pequena escala como bombas de irrigação, funcionando com energia solar ou fogões a lenha mais eficientes que reduzam a destruição das florestas, são indispensáveis represas e estações geradoras de energia elétrica.

É claro que ao construir uma estrada, um país menos desenvolvido não precisa usar a tecnologia de concreto armado em aplicação nos Estados Unidos; ele não pode, contudo, abrir mão de estradas que poderão ser construídas sem grandes tratores e equipamentos intensivos no uso de capital mas baseadas no uso intensivo de trabalho.

É uma mistura de tecnologias simples e sofisticadas, avançadas e primitivas, de pequena e larga escala, centralizadas e descentralizadas que será adequada, onde o grau da mistura será determinado por indicadores sociais e não apenas econômicos e tecnológicos.

Em suma, uma compreensão clara do que é tecnologia apropriada exige que se coloque no papel decisório central o interesse social da população (definido por processos democráticos de decisão) e, como acessórios, os métodos e tecnologias necessários para atingi-los.

Publicado na revista "Encontros com a Civilização Brasileira", número 3.