O Brasil e a Globalização

 

Todos sabemos que a globalização da economia tem trazido prejuízos a trabalhadores em países como o Brasil. Esses prejuízos se manifestam, basicamente, por meio do desemprego. Chegam de outros países, ao mercado brasileiro, artigos mais baratos do que os equivalentes nacionais. Com isso, fábricas brasileiras fecham ou reduzem os seus negócios, aumentando o desemprego (que tem também outras razões, como o desenvolvimento tecnológico que se dá igualmente em escala mundial).

Mas esse não é o único modo pelo qual a globalização pode prejudicar os trabalhadores brasileiros. O país está cada vez mais dependente da entrada de capitais especulativos, atraídos pelos juros altos. No entanto, esses capitais podem fugir a qualquer momento, causando uma crise semelhante às que já ocorreram na Grã-Bretanha e no México e às que estão ocorrendo na Tailândia, Indonésia, Malásia, Filipinas e na Chéquia e na Polônia.

Mais ainda, está em discussão, entre os governos dos países mais ricos do mundo, tanto no chamado G-8, que reúne os sete países mais ricos mais a Rússia, quanto na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que reúne os 29 países mais ricos, o chamado Acordo Multilateral sobre Investimentos. Trata-se do seguinte: um acordo, em escala mundial, que proíbe os governos dos Estados nacionais de impor qualquer regulamentação aos capitais estrangeiros neles investidos. Entenda-se: enquanto os capitais financeiros já estão livres de qualquer regulamentação nacional, por se basearem em algo abstrato como dinheiro e papéis, ou simples caracteres em redes de computadores, os capitais produtivos, que têm um lado físico, refletido nas máquinas, matérias-primas, prédios etc., ainda estão sujeitos a regulamentações estatais. O objetivo do Acordo Multilateral sobre Investimentos é exatamente tornar ilegais, à luz do Direito Internacional, quaisquer regulamentações estatais sobre capitais estrangeiros produtivos - os quais, assim como os capitais financeiros, poderão então circular livremente de um país para outro, independentemente dos prejuízos que possam causar, seja por sua fuga, seja por sua total desregulamentação no que se refere a exigências trabalhistas, ambientais ou referentes à inflação ou deflação.

O que é que, diante dessa situação, têm proposto praticamente todos os que se opõem à globalização, que incluem por exemplo, não só no Brasil, mas no mundo em geral, tanto esquerdistas quanto direitistas, unidos na defesa do mercado nacional, da mão-de-obra nacional e, muitas vezes, do estatismo na economia? Têm proposto, por exemplo, que o Brasil se desligue do mercado mundial globalizado e se instaure como uma economia autárquica cada vez mais independente desse mesmo mercado mundial. Isso asseguraria um mercado nacional cativo para as empresas nacionais e emprego para mais trabalhadores brasileiros.

A disputa por mercados

Tal solução não parece a melhor entre as soluções possíveis ou concebíveis. Já tivemos no passado, por exemplo, na passagem do século 19 para o 20, fases de livre mercado mundial semelhantes à atual globalização. Ocorreram então os mesmos problemas de desemprego e de desigualdades econômicas crescentes que ocorrem atualmente. Contra isso, surgiram propostas de soluções semelhantes às que estão sendo preconizadas hoje, de fechamento das economias nacionais. De um lado, surgiram o fascismo e o nazismo; de outro, o stalinismo; de um terceiro, o New Deal, ou seja, uma regulamentação estatal do mercado americano, com o governo apoiado pelos sindicatos de trabalhadores. Os mercados nacionais cativos das empresas nacionais, entretanto, se revelaram insuficientes para essas próprias empresas nacionais, o que levou à eclosão da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais, em grande parte uma disputa por mercados.

Assim, hoje, se se fecharem os mercados nacionais, ou, o que é mais possível, se se fecharem os mercados dos grandes blocos - o Nafta, a União Européia, o Mercosul, o bloco asiático, um bloco da ex-URSS, um bloco islâmico -, com o objetivo em cada caso de defender as empresas e a mão-de-obra de cada bloco contra a concorrência de outros blocos, muito provavelmente se criarão condições para que, mais cedo ou mais tarde, ocorram conflitos militares em escala muito maior do que a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, novamente numa disputa por mercados.

Proposta como as do nazismo

Um outro lado da questão é que em geral todos concordam que as soluções dos problemas atuais dos trabalhadores, em todo o mundo e no Brasil em particular, passam pelo aumento de oportunidades de emprego e pela redistribuição da renda. Ora, o nazismo fez exatamente isto: assegurou o pleno emprego por meio de uma economia de guerra e redistribuiu a renda por meio da partilha dos bens dos judeus e de outros excluídos da sociedade, como os ciganos, os comunistas e outros. Poucas pessoas, no entanto, diriam hoje que a solução nazista foi uma solução adequada. No entanto, o que estamos vendo acontecer, por exemplo na Europa, são propostas de soluções semelhantes à do nazismo, como o racismo defendido pela Frente Nacional da França, que a cada eleição aumenta sua presença na política.

Diante de tudo isso, o que tem surgido como proposta de solução mais adequada para os problemas de desemprego, subemprego, miséria, marginalidade e violência tem sido a regulamentação do mercado em escala mundial feita por meio de mecanismos democráticos. Esse tipo de solução, no entanto, tem sido defendido apenas por economistas e intelectuais em geral, sem que ela esteja incorporada no dia-a-dia dos sindicalistas e, muito menos, das massas de trabalhadores.

Tal tipo de solução, no entanto, mereceria muito maior divulgação do que vem tendo. Essa divulgação não interessa, por exemplo, às grandes mídias do mundo inteiro. Estas estão interessadas na globalização tal como está ocorrendo, sem nenhum tipo de regulamentação, pois dependem de anúncios das grandes multinacionais, ou estão interessadas no fechamento dos mercados regionais, por estarem ligadas a empresas cuja fatia no seu próprio mercado nacional ou regional está diminuindo.

Uma regulamentação do mercado em escala mundial, rumo a uma política mundial de pleno emprego e de redistribuição da renda, envolve de um lado um acordo entre os vários governos nacionais em torno seja de um governo mundial, seja de uma federação mundial de governos nacionais, que imponha leis mundiais para regulamentar o mercado, nisso estando previstas regras mundiais para o emprego, para o nível salarial e para os serviços públicos em geral, como saúde, educação e transportes. Assim, essa regulamentação mundial do mercado envolve também uma democracia em escala mundial, com eleições mundiais e com direito a voto realmente universal.

Essa regulamentação mundial do mercado permitiria avançar rumo ao pleno emprego em escala mundial e a uma menor desigualdade na distribuição da renda também em escala mundial, pois seria possível instaurar mecanismos reguladores tanto dos capitais financeiros quanto dos atuais capitais produtivos. Lembremos ainda que, caso prevaleçam as propostas atuais, de regulamentação em escala restrita, os capitais, estrangeiros ou nacionais, poderão continuar fugindo dos locais onde há regulamentação para os locais onde não há regulamentação, ou há regulamentação mais vantajosa para os capitais estrangeiros. A única maneira de agir contra isso é a regulamentação do mercado em escala mundial.

As alternativas a essa regulamentação mundial são o prosseguimento da atual auto-regulação do mercado pelo próprio mercado mundial, com seu cortejo de desemprego, desigualdades crescentes, miséria e violência, ou o surgimento de regulamentações em escala limitada, tanto nacional como dentro de cada bloco, que, além de poderem ser internamente excludentes de minorias, também poderão culminar em conflitos militares em escala que nem sequer podemos imaginar. Ora, os brasileiros estão numa posição estratégica para desempenhar um papel de destaque na luta por uma regulamentação do mercado em escala mundial. De um lado, o país como um todo não se destaca nem por estar entre os países mais ricos, nem por estar entre os países mais pobres. De outro lado, os brasileiros têm uma experiência muito grande em lidar com situações disparatadas dentro de seu próprio país, já que nele ocorrem ilhas de prosperidade cercadas por um mar de pobreza e por um oceano de miséria, reproduzindo em escala menor e mais intensa o que acontece em todo o mundo. Finalmente, no Brasil ocorreu uma fusão de culturas vindas de todos os cantos do mundo numa cultura nova capaz de dialogar com qualquer outro povo do mundo. Em outros países em que há várias culturas, como nos Estados Unidos, elas não estão fundidas numa cultura única como no Brasil, mas se desenvolvem em separado umas em relação às outras.

Sabemos que, trabalhando numa fábrica de tênis de grife, um indonésio ganha 38 dólares por mês, um brasileiro ganha 600 dólares por mês e um americano ganha 1.500 dólares por mês, para dar exemplos aleatórios. Ora, de que valerá fecharmos o nosso mercado se isso vai contribuir, de um lado, para o indonésio ficar ainda mais miserável e, de outro, para o americano ficar cada vez mais favorável a ações retaliatórias de seu governo para reabrir o nosso mercado a produtos americanos? Essa política de fechamento à globalização, pregada no Brasil por esquerdistas e direitistas, não tem futuro a longo prazo.

Uma regulamentação do mercado em escala mundial também não é uma solução fácil. Além de ser uma solução praticamente desconhecida pelas massas de trabalhadores, ela, se por acaso um dia chegar a se concretizar, implicará, por exemplo, que as disparidades salariais acima citadas - 38 dólares na Indonésia, 600 no Brasil e 1.500 nos Estados Unidos - se equilibrem em torno de algo que pode estar abaixo do próprio salário brasileiro. Mas aqui devemos levar em conta que pelo menos 60% da população brasileira está fora do mercado formal de mão-de-obra, de modo que um salário representativo de uma média mundial seria um avanço para a grande maioria dos trabalhadores brasileiros. De qualquer modo, em termos dos seres humanos como um todo, a regulamentação mundial do mercado traria uma possibilidade maior de ser feita justiça. O povo brasileiro, como primeiro povo global da história da humanidade, teria assim uma missão global a cumprir, não contra a globalização, mas em favor de uma globalização regulamentada em benefício de todos no globo terrestre que pertence a todos.

(Da revista CAROS AMIGOS - nº 8, páginas 10 e 11)


 

RISCOS DA GLOBALIZAÇÃO

   

A busca da sobrevivência no mundo globalizado custará caro aos países em desenvolvimento como o Brasil. Os US$ 30 trilhões em capitais especulativos que vagam pelo planeta castigarão com o desemprego as nações que não combaterem seus problemas de distribuição de renda.

Enquanto todas as riquezas produzidas no planeta somam US$ 10 trilhões, há uma nuvem muito maior de dinheiro aplicado em papéis financeiros que não têm eqüivalência na vida real. São os US$ 30 trilhões. Por isso, Márcio Pochmann, diretor-adjunto do Centro de Estudos Sindicais e da Economia do Trabalho da Universidade de Campinas (Unicamp), prevê que todo o mundo pode sofrer nova e forte crise econômica, como na década de 30.

"A expansão do crédito bancário e a alucinada movimentação de títulos quebrou a bolsa de Nova Iorque há 67 anos, o que pode se repetir em breve. Precisa de proteger com políticas que aumentem a renda da população, gerando emprego nas indústrias e na agricultura", ressalta Pochmann.

A soma dos PIBs (Produto Interno Bruto) da América do Sul mal alcança o faturamento de R$ 1,42 trilhão, das dez maiores empresas do mundo: Exxon, Ford, General Motors, Itochu, Marubeni, Mitsubishi, Mitsui, Nissho, Shell e Sumimoto. Desse total, elas faturam R$ 866 milhões (mais de 60%) fora dos países de origem. Por isso são chamadas de tansnacionais. As cem maiores empresas do planeta comercializam R$ 2 trilhões entre si, soma equivalente a 33% do comércio mundial.

  O desemprego é outra nuvem ameaçadora neste final de milênio. Somente na Europa 19 milhões de pessoas estão procurando emprego, sem perspectivas de encontrá-lo. Há três décadas, o velho continente não consegue aumentar o número de vagas em suas fábricas na mesma proporção em que surgem novos trabalhadores. Estão desempregadas 23.700.000 pessoas na Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão, os países mais ricos do mundo que formam o G-7 (o Grupo dos Sete). Há 33 milhões de desempregados nos 25 países mais industrializados do mundo, que formam a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

 

(Publicado na revista "Dívida Externa" - S. Paulo)  


 

GLOBALIZAÇÃO AUMENTA CONCENTRAÇÃO DE RENDA

 

A globalização da economia tende a aumentar as disparidades  na distribuição de renda, pois se concentra na ampliação de   mercados de bens de alta tecnologia.

 Também cria problemas para os países emergentes: pois exclui parcela cada vez maior da população.

A avaliação é do brasilianista e diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil, Ignacy  Sachs, da École des Hautes études en   Sciences Sociales de Paris. Para ele, a globalização das economias não contribui para diminuir o desemprego que já aflige 30% da força mundial de trabalho.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem 120 milhões de desempregados e 700 milhões de subempregados. O Banco Mundial, em relatório do ano passado, previu que até o ano 2010 os países em desenvolvimento devem ter mais de 1 bilhão de consumidores com renda per capita superior à da Grécia (US$ 8.200) e da Espanha (US$ 13.200). "E os outros 3 bilhões de consumidores?", pergunta.

Especialista em desenvolvimento e meio ambiente e com mais de 20 livros publicados, quatro deles inclusive no Brasil, Sachs acha que dada a gravidade da situação, as políticas de redistribuição de renda, de cunho assistencialista, são necessárias mas constituem um trabalho paliativo.

Para absorver este contingente de mão-de-obra e também os novos candidatos que ingressam no mercado de trabalho seria preciso criar nos próximos dez anos nada menos que 1 bilhão de empregos, conforme estimativas do Instituto de Desenvolvimento da Universidade das Nações Unidas. Mas onde achar tantos empregos? Uma coisa é certa, diz Sachs, esses empregos não serão oferecidos pela indústria de bens de capital.

A afirmação se baseia em dados da ONU, que mostram que as 37 multinacionais com 200 mil filiais espalhadas pelo mundo são responsáveis por só 5% dos empregos, embora representem 33% dos ativos globais e um quinto da produção.

Para Sachs, a busca de soluções, inclusive para o Brasil, passa por cinco pontos estratégicos: primeiro: revisão do modelo de modernidade rural. Segundo: pelo aproveitamento industrial e energético da biomassa.

A terceira estratégia é o aumento da produtividade dos recursos, como, por exemplo, produzir mais cereais por metro quadrado de irrigação e reduzir os desperdícios. O quarto ponto passa por mais investimentos em serviços sociais e, por último, ele sugere investir no setor de obras públicas, pelo grande potencial de absorção de mão-de-obra. (OESP)

  (Publicado na revista "Dívida Externa" - S. Paulo)  


ALGUNS FATORES DA EXCLUSÃO

 

A revolução tecnológica, a crise da dívida externa dos países do Terceiro Mundo e a crise dos países socialistas do Leste europeu estão criando uma nova ordem internacional. Com as políticas neoliberais de ajuste econômico e a insensibilidade de muitos diante do sofrimento dos pobres, temos ingredientes explosivos dessa precária situação social em que vivemos.

O mundo está sendo reorganizado a partir de três pólos: o Japão, com os chamados "tigres asiáticos" (Coréia do Sul, Hong Kong, Cingapura e Taiwan); a América do Norte (Estados Unidos e Canadá) e a Comunidade Econômica Européia (CEE), sob a hegemonia da Alemanha unificada. A África está, quase que definitivamente, fora desse novo circuito e a América Latina está entre ingressar nessa nova ordem ou juntar-se à África. ("Deus numa economia sem coração" - Jung Mo Sung - Ed. Paulinas, p. 126)  

 


A RAZÃO DO SISTEMA: O PRINCÍPIO DA EXCLUSÃO  

 

Júlio de Santa Ana 

 

(Júlio de Santa Ana é teólogo metodista, secretário executivo do Cesep, professor no Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, São Paulo. É autor de diversos livros, entre os quais "O amor e as paixões: crítica teológica à Economia Política".  

O presente artigo foi publicado na revista "TEMPO E PRESENÇA" (do CEDI) - número 26

 

 

A ideologia dominante, ao mesmo tempo que proclama "o fim da história" também afirma enfaticamente que ao chegarmos ao fim deste século teremos entrado definitivamente numa época de "economia mundial". Isso significa que, pela primeira vez na história, os processos de produção, distribuição de bens, circulação de mercadorias e consumo de todas as regiões do planeta se inter-relacionam estreitamente. 0 que, por sua vez significa que participamos não só de um único mercado mundial, como também que este vem a ser total. Os executivos das companhias transnacionais se vangloriam de que conseguem derrubar, pelo dinamismo de suas transações comerciais, as barreiras que separavam os seres humanos: nações, culturas, etnias, etc. Segundo essa argumentação, ao triunfar  a lógica do mercado unem-se os povos do mundo. Ou seja, estamos unidos no mercado e pelo mercado. A "mão invisível" que dirige o mercado é considerada como a razão histórica.

Os mitos da informação se encarregam de difundir urbi et orbi este evangelho mercantil da riqueza. Até o Papa fez eco desse evangelho em sua encíclica "Centesimus Annus", publicada há pouco menos de dois anos. Contudo, as afirmações da ideologia dominante não correspondem à realidade dos fatos. Na verdade, o mercado não é um agente de inclusão, mas de exclusão. Isto se deve principalmente a duas razões.

A primeira se relaciona com o fato de que o mercado moderno é expressão da cultura ocidental moderna, que foi a primeira a conseguir o desenvolvimento da história humana, plasmar um sistema mundial.

Isso não quer dizer que só a cultura ocidental moderna seja válida; indica unicamente que ela chegou a impor-se sobre as outras por meio da  conquista, da aplicação da força e - sobretudo - mediante o controle dos mecanismos operacionais do  mercado mundial.

A cultura ocidental moderna é uma cultura de dominação: em contato  com o outro, não reconhece a alteridade de seu interlocutor, mas busca por  todos os meios que este último seja  como um espelho dos ocidentais modernos. Quem não consegue reproduzir  a imagem da modernidade é desqualificado e condenado. "Primitivo", "incivilizado",  "inculto", "supersticioso"" , "atrasado", são alguns dos adjetivos que lhe são aplicados. Se são excluídos da história não é por outra razão senão por sua própria idiossincrasia (como se em todo o processo as relações de dominação não tivessem  alguma coisa a ver...). Essa exclusão se concretiza sobretudo no plano do mercado: há os que são aptos a participar dele (são os que se "modernizam (?)", ao passo que os que não dão a réplica correspondente aos ocidentais modernos são deixados de lado. Essa é a razão que caracteriza o sistema construído por meio da dominação ocidental. Portanto, não é verdade que o mercado é inclusivo; na realidade, é o agente selecionador (e, pois, excludente), o qual permite aos que controlam o sistema perceber quem pode ou não participar dele.

A segunda razão tem a ver com a própria lógica do mercado, caracterizada pela competitividade. A linguagem que utilizam os que analisam esse aspecto fundamental do mercado denota o uso de uma terminologia própria ao campo militar: "estratégia'', "forças", "recursos", "fragilidades", "armamentos", etc.

Isso significa que se entende a área das atividades mercantis como um campo de batalha e, como tal, um espaço onde predomina a violência. De fato, um dos pré-requisitos para participar do mercado moderno é a desconfiança do outro. Parece haver uma necessidade inerente ao mercado moderno de perceber o outro como um inimigo em potencial, contra quem tem de se lutar. Não se pode participar do mercado sem uma disposição "a priori"  para fazer uso da agressividade.

Acaso não escreveu Adam Smith, em  "A Riqueza das Nações", que quando vemos dois ou três homens de negócios reunidos para conversar entre si devemos imediatamente suspeitar que estejam conspirando?

0 grave problema que resulta de tudo isso é que, por meio dessas práticas  competitivas e violentas, há vastos setores da humanidade que acabam excluídos. Não pode ser de outra maneira se levarmos em conta a lógica do sistema dominante.

 

 Os condenados a morrer antes do tempo

 Trata-se de um sistema cruel e iníquo. Se não é assim, como explicar que, no momento em que a humanidade dispõe dos recursos suficientes para conseguir erradicar a miséria da face da planeta, haja neste grandes zonas em que os homens e as mulheres que nelas vivem estejam praticamente condenados ao sofrimento desde que nascem? É o caso da maior parte da África, especialmente nas sociedades desse continente que vivem entre o Saara e a  linha do Zambeze, que delimita as fronteiras da África Austral. É também  o caso das populações das pequenas ilhas do Pacífico, cujo habitat natural vem sendo pervertido em virtude das repetidas experiências nucleares praticadas pela França nos atóis da região. É também o caso de vastos contingentes humanos em Bangladesh, na região de Bengala, no sub-continente indiano. É também o que ocorre com os povos da América Central, em sua maioria indígenas (penso, especialmente, no caso da Guatemala). E, infelizmente, é também o caso das populações do nordeste do Brasil. Trata-se de muitos milhões de seres humanos cujas condições de existência poderiam ser melhoradas se houvesse boa vontade. Mas, como assinalava Max Weber ao referir-se à lógica do mercado em sua obra póstuma "Economia e Sociedade", nesse espaço não pode haver mais lugar para a expressão de sentimentos fraternos (México, Ed. FCE, 1969, Volume 1 - p.494): "0 mercado, em plena contraposição a todas as outras comunidades que sempre supõem confraternização pessoal e, quase sempre, parentesco de sangue, é em suas raízes estranho à  toda confraternização".

Os fatos demonstram claramente que a ideologia da mundialização da economia, a qual abre caminhos para a unidade da humanidade é uma grande mentira A parte da humanidade que conta é aquela que tem condições para competir e sobreviver Ao resto não sobra outra opção senão morrer antes do tempo!

 

Os excluídos de sempre

Seguindo a inspiração do historiador francês Fernand Braudel,  Immanuel Wallerstein  consagrou os últimos 25 anos de sua produção intelectual à análise da construção e do funcionamento do mercado mundial pelas forças dominantes do Ocidente moderno Em suas obras ("The Moderns World System",  London, Academic Press, 1980. 2 vols. e também em "The Politics of the World Economy", Cambidge, Cambridge University Press 1984. Em colaboração com outros autores: "Dynamics of Global Crisis", New York,  Monthly Review Press, 1982), indica com precisão que o sistema dominante pratica constantemente o princípio da exclusão.

Além dos que são excluidos economicaamente do sistema estão aqueles que são deixados de lado em virtude de suas origens étnicas e suas identidades culturais Nisso se percebe c caráter racista do sistema. Possivelmente um dos seus aspectos mais perversos se manifestou na prática missionária do cristianismo Por exemplo, quando chegaram os iberos a esta parte do mundo o que agora chamamos América, conquistando-a  e colonizando-a, com eles chegaram os missionários que tinham por missão a evangelização dos indígenas que povoavam estas regiões. Um deles, o jesuíta José de Acosta bem como o franciscano Sahagún, praticava o método da tabula rasa que haveria de conduzir à erradicação sociorreligiosa dos índios e, com isso à perda de sua identidade. Assim se lançaram os alicerces da "cultura da pobreza", como denominou Osar Lewis a subcultura das massas desenraizadas nas quais desapareceu a vontade de um desenvolvimento independente e de  uma responsabilidade própria" (Hans Jürgen Prien em "La historia del Cristianismo en América Latina",  Salamanca e São Leopoldo: Sígueme e Sinodal 1985, p.228). Essa prática não foi aplicada exclusivamente na América Latina. Houve, é verdade, exceções notáveis (por exemplo, Francisco Xavier, no Japão;  Ricci, na China; Robert de Nobili, em Goa, Índia; junto com outros jesuítas), não obstante a regra haver sido, em primeiro lugar, de que os não cristãos abandonassem sua identidade e aceitassem a cultura ocidental. Só então estariam em condições de receber o batismo cristão.

0 racismo ocidental é claramente etnocêntrico. Nota-se que, por meio dele, os povos ocidentais, com sua cultura, se propõem como paradigma a ser seguido pelo resto da humanidade. Além de dar testemunho de um narcisismo enorme, essa atitude indica a existência de um profundo desprezo pelo outro.

 

Sexismo

 O caráter excludente do sistema não  se limita à prática do racismo e de seu etnocentrismo cultural. Também aparece no sexismo que, por milhares de anos, desde antes da formação da cultura ocidental moderna, foi testemunhado pelas culturas que contribuíram decisivamente para formar a modernidade ocidental. Assim como o racismo tem servido de mecanismo de controle direto dos produtores de matérias-primas, a dominação das mulheres significa a raiz mesma da injustiça social. Enquanto existir discriminação do sexo feminino haverá desigualdade.

É preciso, no entanto, reconhecer que essa situação começou a mudar no decorrer deste século que está chegando ao fim. Não obstante, é importante repisar que as mudanças que ocorreram e os sinais de esperança que elas geraram não são fruto do sistema nem de sua lógica, mas  da própria luta das mulheres. Pouco a pouco, entraram no mercado de trabalho, obrigando a sociedade a reconsiderar uma série de pautas com as quais se analisavam não só a vida social mas também a pessoal, levantando questões muito sérias relativas à própria estrutura da organização do trabalho, dos padrões de  consumo  e sobretudo do estilo de vida familiar.

Ou seja, o que a revolução feminina - que é um processo a longo prazo, cuja continuação deve ser prevista para muito mais de um século, mas que certamente constitui o agente de mudança mais profundo que está contribuindo para uma transformação social no âmago de nossas sociedades - está fazendo é questionar a verdadeira organização da reprodução da vida quotidiana em seus termos materiais.

Por isso mesmo, a ela resistem os que administram a existência do sistema. E não só os que têm a responsabilidade do poder econômico ou político, mas também muitos que dirigem as instituições pelas quais se realiza a produção de bens simbólicos. Na verdade, também nesse campo as reivindicações das mulheres se fazem sentir, e algumas inovações favoráveis a seus interesses têm sido introduzidas ao longo dos últimos 20 ou 30 anos (embora não em todas as instituições do campo religioso). Contudo, a resistência que se observa diante de seus protestos evidencia a dureza e a rigidez desse sistema injusto.

 

Relações com a natureza

Outro aspecto importante da vida humana, em que transparece o caráter excludente do sistema, diz respeito às relações dos seres humanos com a natureza. A cultura ocidental moderna, que testemunha uma clara vontade de dominação, não respeita outros seres humanos. Considera-os como meios, como instrumentos. Sua hybris instrumental é inegável quando se trata dos elementos naturais. Por isso, com sua intencionalidade instrumental, tratando de resolver problemas imediatos, o que conseguiu foi multiplicar os problemas do meio ambiente. Ou seja, tratando de resolver problemas urgentes, não levou em conta os efeitos não-intencionais de sua instrumentalidade. Por exemplo, tentando ganhar tempo, empenhou-se profundamente em um desenvolvimento econômico centrado no transporte e seus derivados. A intenção imediata merece respeito; no entanto, é reprovável que não se tenha levado em conta o impacto que tanta contaminação do ambiente iria causar sobre a natureza: chuva ácida, diminuição de terras cultiváveis, deterioração da qualidade do ar, etc. E tudo isso sem mencionar outros problemas gerados pelo tipo de tecnologia que prevalece na produção industrial. O resultado desse impacto foi um desenvolvimento insustentável. O ser humano que não se compreende senão em relação com a natureza, segundo os padrões dominantes no sistema vigente excluiu essa parte tão importante de sua identidade. Com sua moral utilitarista, que faz do útil o princípio de todos os valores, termina sacrificando uma parte constitutiva de seu ser, em função do que aparece imediatamente como conveniente e lucrativo.


Olhando o futuro

É necessário resistir ao sistema e formular alternativas para ele. Este desafio deve ser visto como um processo a longo prazo, que está requerendo esforços de muitas gerações. Para ir definindo as novas opções de vida, deve-se levar em conta a prática daqueles que se opõem materialmente ao sistema, ou seja, os movimentos anti-sistêmicos.

Alguns deles realizaram no passado um trabalho notável de erosão do sistema, o qual se viu obrigado a reformular algumas de suas orientações ante a luta daqueles que procuraram maior justiça, e a terminar com sua dominação opressora. Alguns desses movimentos anti-sistêmicos do passado ainda têm energias para manter um confronto com o sistema, mas, sobretudo, devemos aprender com as lutas dos novos movimentos (com os novos atuais e com os novos que irão surgindo). Pensamos, particularmente, na luta dos povos indígenas da América e do Caribe, de origem africana e asiática, contra o racismo branco. Também cremos que é fundamental levar muito em conta os movimentos feministas com suas reivindicações e exigências de justiça. No decorrer dos últimos 20 anos multiplicaram-se, por outro lado, os movimentos de responsabilidade ecológica, de respeito ao meio ambiente, que, com seus questionamentos, estão motivando transformações importantes, tanto no plano da produção industrial como no da organização do trabalho social.

Esses esforços provêm, principalmente, do setor da sociedade civil composto pelos organismos públicos não-governamentais que canalizam as aspirações populares. Com sua mobilização estão influenciando as organizações políticas, contribuindo para que não fiquem fascinadas pelo poder e pelas possibilidades de sua administração e venham a conceber a prática política como uma atividade na qual o povo conta. O povo, em sua dimensão mais ampla: como família de todas as nações da terra, como comunidade de homens e mulheres, como seres junto à natureza.

Por isso, ao olhar para a frente, é preciso prever (por ora, na conjuntura atual), dar a prioridade mais alta à construção e à consolidação da sociedade civil. Ela é a consciência moral da realidade social. Sem ela não há possibilidades para o desenvolvimento democrático. Ela é que permite que germinem as forças anti-sistêmicas tão necessárias para terminar com a prática institucionalizada da exclusão que estamos experimentando.

 


Desigualdade entre ricos e pobres é a causa maior da criminalidade

 

Um país onde cada habitante recebe em média US$ 3.000 por ano e produz riqueza econômica próxima à do Canadá, nação de Primeiro Mundo, deve ter um índice de criminalidade muito menor do que um outro, miserável, que gera 98,5% menos riqueza e tem renda por habitante abaixo de US$ 500?

  A resposta é não. O Brasil, o primeiro país do exemplo acima, tem proporcionalmente à população, 10 vezes mais homicídios por ano do que Gana, o país pobre. A principal causa da criminalidade não está na pobreza em si, mas na disparidade entre ricos e pobres num mesmo lugar.

  É isso que explica, segundo especialistas em segurança pública de vários países, porque a sociedade brasileira tem a maior média de homicídios do mundo, entre os países que não estão em guerra ou não têm guerrilhas.

  O Brasil detém também o título de campeão mundial da desigualdade social, conferido pelo Banco Mundial que divulgou um estudo informando que, aqui, os 20% mais ricos concentram 32 vezes mais renda que os 20% mais pobres.

  Cresce a desigualdade e cresce a violência. Na Grande São Paulo, por exemplo, a taxa de homicídios anual por grupo de 100 mil habitantes aumentou 83% entre 1984 e os primeiros meses de 95.

  O nível de desigualdade social é uma das poucas causas de criminalidade que podem ser quantificadas. Tabelas de países que possuem estatísticas sobre homicídios comprovam que quanto maior a desigualdade social maior a violência.

  Outros fatores, como racismo, alcoolismo, drogas, facilidade para comprar armas e o baixo índice de escolaridade também pesam e agravam o problema. Mas  o fato é que cidades mais violentas do planeta têm como característica comum a desigualdade acentuada entre ricos e pobres.

  Pelas estatísticas, nos países onde não há grandes diferenças sociais, a criminalidade é baixa. O exemplo de Gana, no oeste da África, é eloqüente, com 2,1 casos de homicídio para cada 100  mil habitantes. No Brasil. segundo o Ministério da Saúde, a média de casos de homicídios, por ano, por grupo de 100 mil habitantes, é 19,4. Este dado é de 1990. Atualmente é  estimado em 21.

A constatação se completa quando se observa países com melhor distribuição de riqueza, como a França, Inglaterra ou o Japão. Todos têm baixo índice de criminalidade. Paris, a capital da França, tem baixos índices de violência -  concentrada nos bairros de imigrantes pobres, principalmente  argelinos - e  um nível de desigualdade muito inferior ao de São Paulo. Segundo  o estudo do Banco Mundial, os 20% mais ricos da França  concentram 6,5 vezes mais renda do que os 20% mais pobres. Em Paris, o número de casos de homicídio por grupo de 120 mil habitantes, em 93, foi de 1,2.

  Cerca de 800 milhões de pessoas sofrem de má nutrição crônica nos países em desenvolvimento. Entre elas, 192 milhões de crianças com menos de cinco anos. Para acompanhar o crescimento da população mundial nos próximos 35 anos, a produção de alimentos terá que aumentar 30%. Mas em 1995, por exemplo, a produção mundial de alimentos sofreu uma queda de 3%. Estes dados da FAO ajudam a explicar os altos índices de criminalidade nos países onde há muita concentração de renda.

  ( Da "Folha de São Paulo", publicado na revista "Dívida Externa")


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