"Darwin interessou-nos na história da tecnologia natural, na formação dos órgãos das plantas e dos animais como instrumentos de produção necessários à vida das plantas e dos animais. Não merece igual atenção a história da formação dos órgãos produtivos do homem social, que constituem a base material de toda organização social? E não seria mais fácil reconstitui-la uma vez que, a história humana se distingue da história natural por termos feito uma e não termos feito a outra? A tecnologia revela o modo de proceder do homem para com a natureza, o processo imediato de produção de sua vida, e assim elucida as condições de sua vida social e as concepções mentais que delas decorrem." (Karl Marx - O Capital)
A introdução de novas tecnologias nos locais de trabalho tem atingido profundamente a vida dos trabalhadores. Na avaliação dos sindicalistas, para pior. A Comissão Nacional de Tecnologia e Automação da CUT há cinco anos estuda alternativas para o novo desafio. José Lopez Feijóo, secretário geral da CUT Estadual/SP, em entrevista a Tempo e Presença defende a socialização dos benefícios que as novas tecnologias podem promover. (Entrevista a Edmilson Zanetti e Rosana Soares)
TP — A tecnologia veio para servir o trabalhador ou se servir dele?
Feijóo — O problema dos trabalhadores não é a questão tecnológica, mas a utilização da tecnologia, a maneira como é utilizada, quem se apropria daquilo que ela pode produzir. Quem fica com o “lucro” da tecnologia e quem fica com o prejuízo. No capitalismo, a questão é sempre essa.
Com a aplicação de uma tecnologia cada vez mais avançada surge uma situação muito complexa para a classe trabalhadora. Pode causar desemprego, desqualificação profissional, competitividade levada a extremos jamais imaginados, tentativa por parte das empresas de quebrar o espírito de unidade da classe trabalhadora.
TP — Quais as conseqüências desse processo?
Feijóo — Há conseqüências para a saúde mental, aumento excessivo de ritmos de trabalho. Uma das que considero bastante grave é a redução do poder de barganha do trabalhador. Essa é uma característica do processo de inovação tecnológica.
TP — O trabalhador passa agora a competir com a máquina?
Feijóo — Ocorre a transferência do conhecimento do processo de produção do trabalhador para a máquina computadorizada. O trabalhador passa a ter cada vez menos conhecimento. Hoje, muitas vezes, ele nem sabe mais para que serve o que está fazendo.
TP — Em alguns casos ela pode ser aliada?
Feijóo — A tecnologia pode servir para liberar as pessoas de trabalhos cansativos, estafantes, repetitivos, mas na verdade não é assim. O eixo central se traduz em flexibilização do processo produtivo, tanto do ponto de vista do equipamento, como na própria flexibilidade do trabalhador. Num sistema tecnológico avançado você pode ter controle do trabalhador.
A pessoa é vigiada tempo integral, desde a hora que entra no portão da fábrica, onde passa um cartão magnético no computador, até o momento que, ao lado da máquina, tem obrigação de passar de novo o cartão magnético. A máquina, o ritmo, controla a velocidade.
TP — Quais os principais pontos negativos trazidos pela tecnologia?
Feijóo — No Brasil, ainda não se sentem propriamente os efeitos da inovação tecnológica porque, se comparada com outros países, é mais lenta. Mas onde ela se encontra as conseqüências já são notadas.
TP — Você tem algum exemplo?
Feijóo — Posso citar um, que conheço mais de perto, da Ford. No período 1978-1979 essa fábrica produzia quatrocentos automóveis, em dois turnos, com 12 mil trabalhadores na produção. A partir desse período começou um processo de demissão de pessoal. Por trás dessas demissões havia uma crise. Demitiu e começou um processo de modernização na fábrica. Na antiga fábrica, fez quatro novas unidades, modernizadas.
Logo após a implantação dessas tecnologias a empresa recontratou uma parcela do pessoal demitido, porque teve períodos de adaptação. Com a mesma quantidade de trabalhadores a produção interna subiu de quatrocentos para 756, praticamente dobrou.
O ritmo de todos os trabalhadores aumentou terrivelmente, com conseqüências para a saúde, conseqüências sérias em termos de acidentes de trabalho, esgotamento físico e mental. Aumentou o número de pessoas que passou a encontrar, por exemplo, na cachaça, o refúgio do cansaço do dia a dia. Aumentou o número de alcoólatras.
Para ter uma idéia, na enfermaria da linha de produção com novecentos trabalhadores havia uma média de 1,8 mil atendimentos semanais. Era como se todo o pessoal passasse no mínimo duas vezes por semana pela enfermaria. É evidente que nem todos passavam duas vezes, mas alguns passavam cinco, seis, sete, na maioria casos provocados por estafa e cansaço.
TP — Não houve nenhum benefício com estas inovações?
Feijóo — Os benefícios não estão colocados porque ainda não conquistamos essa faceta. A tecnologia tem vários pontos negativos, como tem várias qualidades. Lamentavelmente ficamos com as coisas ruins. Por exemplo, é um benefício um trabalho insalubre como solda ser feito por um robô e não por um ser humano. Mas a verdade é que isso não é um beneficio para o trabalhador porque concretamente ele perdeu o emprego. O reaproveitamento de toda mão de obra, deslocada da sua função origina! e recolocada numa função superior poderia ser considerado um benefício; no entanto isso não acontece.
A sociedade e os trabalhadores não absorvem o benefício do aumento da produtividade que poderia ser repassado em forma de redução de jornada, em forma de maior tempo para estudo, em aperfeiçoamento não só profissional mas até de caráter mais geral, em salários mais altos.
TP — Como você avalia o avanço da tecnologia cm outras áreas?
Feijóo — Se você observar o Brasil, os problemas que de tem de transporte, saúde, habitação, vai ver que há tecnologia suficiente para resolver todos eles, mas não se resolve. Por que? Porque não há interesse social, isso não dá lucro, pelo menos não dá lucro imediato, aquele que vai direto para o bolso do patrão. É um lucro social indestinado.
A questão está em todas as áreas, na área médica, de serviços, da agricultura, e tem, inclusive, efeitos graves. Se você considerar que o agrotóxico é um componente tecnológico da produção agrícola e que seus efeitos são, muitas vezes terríveis para quem usa ou para quem consome, esta é uma discussão que deve ser feita, que a sociedade tem que fazer.
Precisamos discutir que temos algumas prioridades, como a questão de acabar com as endemias, com as doenças que tem a ver com a fome, com a falta de saneamento básico.
TP — E a cabeça do trabalhador, como fica?
Feijóo — Hoje a empresa começa a trabalhar com outra faceta da questão tecnológica, que é a ideologia na cabeça do trabalhador; a empresa se preparou para trabalhar rigorosamente com o computador a seu favor. Trabalho participativo, equipe de trabalho, todas essas coisas que aparentemente democratizam as relações no interior do local de trabalho na verdade são métodos de organização da produção de transferência de conhecimento do trabalhador para a empresa. Ao mesmo tempo, a empresa cria a imagem de respeito mútuo.
Para o trabalhador na linha de produção, às vezes, trocar uma máquina moderna por uma antiga é só uma operação de troca, ele não se dá conta do que vai acontecer com a introdução daquela máquina. Para ele, ser convidado para dar sugestão num círculo de controle de qualidade pode parecer, num determinado momento, que o patrão está olhando para ele com outros olhos, está valorizando o trabalho dele, ele não percebe todo o jogo que está por trás.
Essa é a formação que o sindicato deve dar. Porque o trabalhador, depois, vai perceber as conseqüências e, muitas vezes, nem liga as conseqüências com o fato anterior.
TP — E nos outros países, os efeitos são os mesmos?
Feijóo — O Japão, por exemplo, já desenvolve em algumas empresas uma técnica que combina fórmulas modernas e antigas de repressão. Por exemplo, imagine um trabalhador que mora num conjunto habitacional da empresa, e o chefe vá à casa dele e diga à sua mulher: “Seu marido não está colaborando, corre sério risco de perder o emprego e isso significa que vocês vão perder a casa onde moram, vão ter que se mudar daqui”.
A Toyota, há alguns anos, construiu uni hospital de cinco andares para tratar os loucos que está gerando na linha de produção. A média de suicídios na Toyota era de cinco por ano, gente que se mata em frente à máquina, se enforca no chuveiro do banheiro da fábrica.
TP — O trabalhador é obrigado a se adaptar.
Feijóo — A empresa quer flexibilidade, o trabalhador tem que ser polivalente. Se ele está numa empresa tem que saber fazer a maioria das tarefas que a empresa necessita, desde limpeza, pequenos reparos de manutenção a fazer o produto que a empresa faz. Tem que ser polivalente porque está inserido numa equipe em que pode passar pelas diversas áreas da fábrica. Pode-se dizer que o cara está mais qualificado, mas não é real, ele é um “tarefeiro”. Todo mundo deve saber fazer tudo para poder socorrer algum ponto e não deixar que o ritmo caia. É mais uma armadilha de intensificação de ritmo de trabalho.
TP — Qual a solução, então para fazer da tecnologia uma aliada do trabalhador?
Feijóo — A grande solução está em inverter esse eixo, a tecnologia não ser propriedade das empresas, nem das elites, mas da sociedade, com função social. Isso, no capitalismo, pelo menos no capitalismo que a gente conhece, é impossível.
TP — E do ponto de vista do socialismo?
Feijóo — Do socialismo, temos algumas dúvidas ultimamente. Se o socialismo estiver realmente avançando, dentro de algum tempo iremos saber.
TP — O que os sindicatos estão fazendo?
Feijóo — Enquanto sindicato, o primeiro ponto é desenvolver uma ação internacional. A partir do momento em que foi criada uma economia internacional que está integrada e pode fazer todos esses jogos, o trabalhador só tem uma maneira de quebrar isso, é tendo comunicação, solidariedade.
Quando uma fábrica determina para outra que produza para furar alguma greve, de outro lugar, que exista comunicação em nível internacional para pedir que os trabalhadores não façam isso porque estarão fazendo com que o movimento seja enfraquecido. Já existem algumas experiências concretas nesse sentido que deram certo, não estou sonhando. Algumas coisas vêm acontecendo.
Hoje, o número de sindicatos que já apresenta em suas pautas de reivindicação cláusulas preocupadas com a questão tecnológica é muito grande.
TP — A Constituição oferece poucas garantias ao trabalhador.
Feijóo — Na Constituição, ficou assegurada uma vaga moratória tecnológica. Nenhum trabalhador poderá ser demitido por motivo de implantação tecnológica ou coisa do gênero, de acordo com a lei. Ainda precisa ser regulamentado...
TP — Quem, então, deve promover o debate, os próprios trabalhadores?
Feijóo — Essas são discussões que cabem aos trabalhadores. É também tirar do interior da fábrica essa série de coisas que cabem à sociedade, a sociedade tem que fazer essa discussão. Nós queremos tecnologia para usar na área médica ou para fazer bombas para destruir? Tem que discutir.
TP — Que setores são mais atingidos pelos efeitos nocivos da tecnologia?
Feudo — O setor das telecomunicações foi duramente atingido pela questão tecnológica. Quando se transforma um setor de telefonia tradicional num setor eletronicamente controlado há uma diminuição no nível de emprego.
Dados de três anos atrás apontavam que enquanto o setor se expandiu três vezes no Brasil o volume de emprego foi reduzido em 30% no setor. Um companheiro fazia a seguinte análise: uma moderna central telefônica precisa de um guarda e de um cachorro para funcionar. O guarda para ficar vigiando se as coisas estão em ordem e o cachorro para impedir que o guarda mexa em alguma coisa, senão poderia danificar o funcionamento.
“UM MAL NECESSÁRIO”
Os sindicalistas brasileiros, em geral, consideram o avanço tecnológico uma espécie de “mal necessário”. Ele é inevitável e imprescindível nos tempos modernos, mas sua função social, de servir à toda a sociedade, ainda está longe de ser cumprida. Os grandes beneficiários, na prática, são os detentores do poder econômico. Os trabalhadores, ao contrário, às vezes se transformam em vítimas do processo.
A reclamação maior dos sindicalistas é a diminuição da mão-de-obra, acompanhada, quase sempre, pelo aumento de serviços. Por exemplo, no setor bancário, um dos mais atingidos, já na década de 70,os efeitos da tecnologia eram notados, como apontam dados apurados pelo Dieese: de 1979 a 1982 o número de bancários aumentou em 24,3% e o número de cheques compensados em 6l,3%!
“A tecnologia é um processo irreversível. Sem ela não há desenvolvimento. O problema está em questionar a quem ela serve”, observa Miguel Rupp, ferramenteiro que já presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, no ABC paulista. Como operário na Philips, a partir de 1980, Rupp presenciou demissões em massa como conseqüência da chegada brusca e mal planejada da tecnologia.
“De uma maneira disciplinada e criteriosa, a tecnologia só tem a contribuir; do contrário, haverá sempre confronto na relação patrão/empregado”, defende Robson Moreira, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. O primeiro impacto, no caso dos jornalistas, pode ser medido em 1985, quando a Folha de São Paulo encheu a redação de terminais de vídeo e dispensou, de pronto, setenta revisores. Uma das reivindicações é que haja reaproveitamento do pessoal atingido. Hoje um mesmo jornalista acumula as funções de repórter, redator, revisor, editor e, às vezes, diagramador. O salário é um só.
Uma das formas de lutar para ter a tecnologia como aliada é conscientizar os trabalhadores. Tarefa difícil num país em que a maioria passa fome: “O salário ainda é a principal bandeira do sindicalismo”, diz Rupp.
TECNOLOGIA É USADA PARA CONTROLAR CIDADÃOS
Na avaliação dos sindicalistas, os novos processos tecnológicos têm sido usados para aumentar a produtividade e os lucros das empresas e permitir maior controle sobre o trabalhador. Em texto elaborado pela Comissão de Fábrica da Ford de São Bernardo do Campo, esta preocupação é lembrada. Diz o texto: “As máquinas são usadas para controlar o ser humano. Os digitadores em CPDs, por exemplo, são controlados pelas próprias máquinas que operam, desde o número de batidas até os intervalos para café, bate-papo, ir ao banheiro etc.”.
O Estado, outro dominador, também utiliza a tecnologia para controle dos cidadãos, avaliam os sindicalistas: possui banco de dados com informações sobre as pessoas, que a elas não tem acesso; permite até o arquivamento de informações falsas, colocando os cidadãos a mercê de organismos de repressão
Reivindicações — O sindicalismo brasileiro prega a luta para que as tecnologias, novas ou velhas, sejam usadas em favor de toda a sociedade. A lista de reivindicações do movimento se resume em poucos pontos, mas fundamentais para a sobrevivência digna do trabalhador:
— criação, pelos trabalhadores, de mecanismos para o controle da implantação de novas tecnologias;
— informações antecipadas sobre os projetos das empresas;
— comissões paritárias para discussão e implantação de novas tecnologias, direcionando sua instalação de acordo com os interesses do trabalhador;
— eliminação dos efeitos perversos da tecnologia e automação, com a requalificação da mão-de-obra e as empresas arcando com seus custos; com distribuição dos benefícios do aumento da produtividade, seja em salários ou em investimentos geradores de novos empregos;
— redução da jornada de trabalho;
— salário-desemprego;
— administração, pelos trabalhadores, de organismos e fundos criados em seu nome e/ou com seu dinheiro, como INPS, PIS/Pasep. FGTS etc.