PECADO
CAPITAL DO CAPITALISMO: A EXPLORAÇÃO
EMIR
SADER[1]
Explorar,
no seu sentido mais geral, significa fazer uso de algo para um fim determinado,
como quando se explora um recurso natural para benefício próprio. Por
exemplo, quando se queima madeira para fazer fogo, se está explorando as
florestas para cozinhar ou para se proteger do frio.
Se,
porém, nos valemos da ação de outra pessoa para beneficio próprio, estamos
explorando essa pessoa. Se essa pessoa é fraca, desvalida, não tem formas de
resistência e de se submeter à nossa ação sobre ela, estamos fazendo algo
moralmente condenável, estamos explorando um ser humano, estamos tratando-o
como coisa, como instrumento de um fim nosso e não como pessoa. Como veremos,
através da exploração estamos não somente tirando um benefício para nós
mas também oprimindo outro ser humano, fazendo dele um objeto para nossa
satisfação. Ele se torna uma espécie de árvore que queimamos para nos
aquecer ou para suprir nossa fome.
Desde
um certo momento da organização das sociedades humanas, passou a existir a
exploração de uns homens por outros. Essa exploração se deu em geral através
da utilização do trabalho alheio para obtenção de benefícios, através da
exploração do trabalho de outro ou de outros para fins próprios, para
acumulação de riquezas. A compreensão da exploração, de sua natureza, de
suas formas de existência, requer, assim, o entendimento do que seja o
trabalho humano, que tem sido a grande fonte de exploração nas relações dos
homens entre si, de suas distintas formas de existência e do que seria uma
sociedade sem exploração.
Exploração
e trabalho humano
O
homem se distingue dos outros animais por várias coisas: pela música, pela
literatura, pela filosofia. Porém, antes de filosofar, compor ou escrever, os
homens se diferenciam dos outros animais por sua capacidade de trabalho.
O
que significa dizer que os homens trabalham? Significa que os homens são os únicos
seres que produzem os seus meios de subsistência e, para fazê-lo, transformam
o meio em que vivem. Os outros animais apenas recolhem o que encontram na
natureza, sem plantar e depois colher. Assim, sua capacidade de modificação
do meio em que vivem é pequena ou até mesmo nenhuma.
Por
outro lado, os homens, ao buscar os meios para comer, para se proteger da
intempérie, para se divertir, transformam o meio que os cerca. Plantam,
trabalhando a terra, alterando-a. Constroem casas, pontes, veículos para
deslocar-se. Assim, cada geração encontra um mundo diferente — não
necessariamente melhor, mas sempre diferente — do que o de seus pais.
Invoca-se
sempre o caso das abelhas ou das formigas, que sem dúvida, trabalham. O
trabalho delas, porém, é instintivo, repetitivo. Tanto assim, que é o mesmo
ao longo dos tempos. Praticamente nada muda no mundo dos outros animais que não
tenha sido introduzido pelo homem, da comida enlatada para gato ao poste. De
resto, de geração a geração, apenas com as mesmas lentas transformações
biológicas do homem, a vida transcorre de forma praticamente similar para os
outros animais, ao passo que cada geração de homem se depara com um mundo
transformado — para melhor ou para pior — e vive situações sempre
diferenciadas.
O trabalho é assim o que diferencia, antes de tudo, o homem dos animais. Sempre se pensa na abelha ou na formiga, exemplos de animais que inegavelmente trabalham. Por isso se diz que não têm história, têm uma reiteração biologicamente similar de geração a geração.
À
diferença dos outros animais, os homens têm a capacidade de transformar
racionalmente o mundo que os cerca, formular um projeto e traduzi-lo em
realidade concreta, por exemplo, construindo uma ponte para cruzar um rio ou um
despenhadeiro. O homem reflete sobre as condições que vai enfrentar, formula
um projeto, materializa esse projeto numa realidade concreta e assim muda o
meio em que vive, domina as condições naturais em que se encontra e transmite
às gerações seguintes um mundo modificado pelo seu trabalho.
Por
isso, ao ser aquele que transforma a natureza quando produz as condições de
sua sobrevivência, o homem é o único ser que tem história, isto é, cujas
condições de existência são transformadas por sua própria ação. O homem
transforma a natureza quando nela investe para obter as condições para sua
sobrevivência e, ao mesmo tempo, é transformado por ela ou é transformado
por seu próprio trabalho através das condições naturais sobre as quais age.
O
trabalho é o ato através do qual o homem despende energia para transformar as
condições que o cercam, com um fim determinado. A energia humana se traslada
para um objeto material que é criado ou transformado através de ato de
trabalho. Para que o trabalho seja possível, são necessárias a ação do
homem e matérias-primas sobre as quais atuar, que podem ser a própria terra,
no caso da agricultura, ou substâncias como, por exemplo, ferro, madeira ou
couro. Além desses elementos, costuma haver instrumentos de trabalho, desde
estiletes até máquinas complexas.
Esse
ato de sobrevivência pode, ao mesmo tempo, ser um ato de emancipação, quando
dirigido conscientemente para fins determinados, elaborados pelo intelecto e
pela imaginação humanas como um ato de liberdade, de criação livre do
homem. Ou pode ser um simples ato de sobrevivência, inconsciente, um meio para
obter um fim imediato, que se reproduz de forma cotidiana, mecanicamente.
Para
a grande maioria da humanidade o trabalho tem sido isso — um instrumento de
luta pela sobrevivência, um meio e não um fim. O trabalho tornou-se meio de
vida para a grande maioria e meio de acumulação de riqueza para uma minoria.
Isto é, serve como forma de exploração da grande maioria da humanidade por
aqueles que, ao possuírem capital, não necessitam trabalhar e podem viver do
trabalho alheio. O trabalho se torna então fonte de sobrevivência precária
para tantos e fonte de acumulação de riqueza para alguns.
Antes
do capitalismo o trabalho já era fonte de exploração e de acumulação de
riqueza de uns à custa de outros. Enquanto a sociedade tinha um nível muito
elementar de desenvolvimento econômico, todos necessitavam trabalhar. As
diferenças vinham apenas das formas de trabalho, da divisão do trabalho.
Dentro das próprias famílias se estabeleciam diferenças de funções, em que
o homem em geral se dedicava à busca de meios de sobrevivência, enquanto à
mulher cabia o cuidado dos filhos, a cozinha e o arranjo da habitação. Era
ainda uma divisão técnica do trabalho, em que cada um buscava fizer aquilo
para o que tinha melhores propensões, mas já implicava em privilégios,
porque propiciava ao homem maior contato com o mundo, experiências novas e
menos repetitivas que o trabalho doméstico. Além disso, desenvolvia nele a
força física e uma diversidade maior de habilidades, tornando-o mais apto
para enfrentar situações novas e para o aperfeiçoamento técnico.
Quando
o progresso material tornou possível que nem todos precisassem trabalhar, começaram
a surgir algumas figuras novas na sociedade humana — a dos técnicos, a dos
sacerdotes, a dos guerreiros, a dos governantes, a dos filósofos, a dos
artistas —, isto é, gente que se destacava da produção direta, seja para
planificá-la, seja para protegê-la militarmente ou para se dedicar à elaboração
sobre o significado do que os homens faziam.
Introduzia-se
a divisão entre trabalho material e trabalho intelectual, divisão chamada
divisão social do trabalho, porque introduz privilégios claros, em que alguns
ficam relegados à produção material, repetitiva, mecânica, enquanto outros
se dedicam à direção da sociedade, concentrando assim poder sobre os outros.
Essas
primeiras divisões em classes das sociedades humanas foram se consolidando e
se tornando cada vez mais complexas, sempre tendo a exploração do trabalho
como fundamento. Falar de divisão entre trabalho físico e trabalho
intelectual é falar de trabalho que produz riquezas e de funções que
organizam e usufruem a exploração do trabalho alheio. Os escravos na Grécia
e na Roma antigas, como os servos da gleba na Idade Média, foram expressões
mais claras das formas de subjugação e de dominação do trabalho humano por
uma elite privilegiada. As riquezas sempre foram produzidas pelo trabalho
humano, mas este foi concentrado nas camadas pobres da sociedade, sendo
apropriado pelas minorias privilegiadas. A história da humanidade até aqui
tem sido a história da exploração do trabalho da grande maioria por urna
minoria.
Reduzido
à fonte de enriquecimento alheio, a meio de sobrevivência para a grande
maioria, o trabalho humano tem sido até aqui um trabalho alienado. Alienação
tem o sentido — em geral usado no direito — de entregar a outro o que é
nosso. Assim, aliena-se um bem quando se vende a outro algo que é nosso. E no
caso do trabalho, como se dá essa alienação?
No
caso do trabalho, a alienação tem vários sentidos. No primeiro deles, o
trabalhador produz algo que é apropriado pelo não-trabalhador — nas nossas
sociedades, pelo capitalista —, que não lhe retribui a riqueza produzida por
seu trabalho. É isso que propicia o enriquecimento em um pólo, minoritário,
da sociedade —justamente aquele que não trabalha, no sentido da produção
de riquezas — e o empobrecimento ou a manutenção em níveis mínimos de
sobrevivência da grande maioria — justamente aquela responsável pela produção
de todas as riquezas materiais existentes. Esta é a alienação econômica,
aquela ligada diretamente à exploração do trabalho alheio, vinculada à
transferência de riqueza daqueles que a criam para os que exploram esse
trabalho através de distintas formas de capital — terra, fábricas, minas,
transporte, comércio, serviços etc.
Esse
mecanismo de exploração do trabalho — de não remuneração por parte do
capitalista do valor criado pelo trabalhador é o que Marx chamou de
“mais-valia”, o valor a mais, que alimenta a acumulação de riqueza por
parte do capital. Um trabalhador, em condições médias de produção, está
em condições de gerar incomparavelmente mais riqueza do que aquela necessária
para remunerar o seu trabalho. Existe um tanto a mais de riqueza que ele produz
e que não lhe é entregue, um excedente de mercadorias que ele gerou — por
exemplo, ao transformar, durante sua jornada de trabalho, uma certa quantidade
de pedaços de couro em um determinado número de pares de sapatos — e pelo
qual ele não é remunerado.
Esse
excedente de riqueza, esse excedente de valor produzido pelo trabalhador e que
fica nas mãos do capitalista, o qual é denominado de mais-valia, é a
alavanca do processo de reprodução do capital, aquela que produz a concentração
cada vez maior de riqueza nas mãos dos capitalistas. É ela que permite que o
funcionamento da economia redunde em concentração de riqueza no pólo
capitalista e de pobreza ou de simples sobrevivência no pólo do trabalhador,
na acumulação de capital em detrimento do produtor direto das riquezas. Esse
é o processo de exploração do trabalho alheio, que torna o trabalho humano
alienado, apropriado em grande parte das riquezas que produz por um outro —
neste caso, o capitalista.
Nas
sociedades anteriores ao capitalismo, essa exploração do trabalho se dava de
maneira explícita. Assim, os escravos da antiguidade ou os servos da Idade Média
eram considerados seres inferiores, que haviam nascido para cumprir tarefas
materiais. Os primeiros eram propriedade de seus donos, viviam em função das
necessidades deles, recebendo em troca apenas os elementos mínimos para
sobreviver. Os servos da gleba — como a expressão mesma afirma —
pertenciam à terra e esta, por sua vez, pertencia aos senhores feudais. Pela
utilização da terra, os servos entregavam aos senhores uma parte da sua produção
ou trabalhavam na terra dos senhores uma parte do tempo. Garantiam dessa
maneira a sobrevivência dos senhores, ficando com uma parte mínima que lhes
garantia as condições suficientes para sua sobrevivência.
No
capitalismo, oficialmente, as pessoas são iguais diante da lei, não se
tornando possíveis formas abertas de escravidão ou de servidão, mesmo se o
tráfico de escravos e a exploração do trabalho escravo tenha sido parte
integrante da acumulação de riquezas por parte de todas as potências
capitalistas, como conhecemos no caso ao longo de quase quatro séculos.
Como
é possível então a exploração da mão-de-obra em condições de igualdade
jurídica? O trabalho humano é uma mercadoria como qualquer outra, comprada e
vendida no mercado. Seu valor é definido pelo salário com o qual o
trabalhador é remunerado. Assim, parece que existe uma troca igual: trabalho
entregue ao capitalista contra salário. No entanto, como vimos anteriormente,
o trabalhador só é remunerado por uma parte do que ele entrega ao
capitalista. Dessa forma, a troca na realidade não representa valores iguais.
O salário esconde os mecanismos de exploração da força de trabalho.
Um
aumento de salário diminui as proporções da exploração, isto é, da
quantidade de riqueza produzida pelo trabalhador e não remunerada pelo
capitalista ou, como chamamos, de mais-valia. Ao aumentar os preços das
mercadorias que os trabalhadores comprarão, os capitalistas transferem os
maiores gastos com força de trabalho e recuperam as taxas de exploração, ao
fazer os trabalhadores retornarem parte ou a totalidade da maior remuneração
obtida, ao gastar uma parte maior de seus salários para comprar o indispensável
para sua sobrevivência.
Num
segundo sentido, o trabalho humano é alienado — aquele em que o
trabalhador não decide o que vai produzir. Imperam nas unidades de produção
as decisões do proprietário dos meios de produção — do dono da fábrica,
dos técnicos, em suma, não dos responsáveis pela criação da riqueza, mas
dos proprietários ou gestores dos instrumentos de produção. Tendo que vender
sua força de trabalho para sobreviver, os trabalhadores se submetem às decisões
dos que compram sua capacidade de trabalho.
Os
trabalhadores não são donos de sua força de trabalho. Eles não decidem o
que produzem, a que preço produzem, para quem produzem. Ao não possuir
capital para produzir por conta própria, alienam sua força de trabalho também
neste sentido.
Porém,
ao valer-se de seu trabalho apenas para sobreviver, fazendo de seu poder de
produção um meio de vida e não um instrumento para a transformação
consciente do meio que o cerca, o trabalhador não tem consciência sequer de
que ele é o produtor das riquezas da sociedade capitalista. A especialização
da produção faz com que o trabalhador realize operações cada vez menores,
sem sequer se dar conta do tipo de mercadoria que está produzindo.
Atualmente há fábricas inteiras que se especializam em produzir apenas
algumas peças de computadores, as menos sofisticadas tecnologicamente em países
mais atrasados, com salários mais baixos, enquanto as partes mais complexas são
produzidas em fábricas situadas em países capitalistas mais avançados, que
requerem mão-de-obra mais especializada e mais bem remunerada.
Um
trabalhador faz parte do processo de produção de um televisor, sem se dar
conta disso. Sai à rua depois do trabalho, passa por uma loja que vende os
televisores que ele contribuiu para produzir, mas não tem consciência desse
vínculo. É como se o trabalhador não tivesse nada a ver com o produto do seu
trabalho. Seu trabalho é alienado, desvinculado do que ele produz. Neste
terceiro sentido também se pode falar de trabalho alienado.
Desta
maneira, a exploração do trabalhador é possível pela existência da alienação,
que impede sua consciência sobre o processo de trabalho, através do qual o
trabalhador não é remunerado por uma parte substancial do valor que produz.
De
que forma se pode vincular exploração e capital, exploração e capitalismo?
O
trabalho humano foi transformado pelo capitalismo numa mercadoria. Na forma de
produção das mercadorias está contido o mecanismo de exploração.
Mercadoria
é tudo o que é produzido para o mercado, isto é, não para o consumo
individual, mas para a venda, para o consumo alheio. Se alguém produz algo
para seu uso ou para dar de presente a alguém, esse algo é um produto, mas não
uma mercadoria. Mas se ele trocar esse objeto por dinheiro ou por outro produto
qualquer, esse objeto passa a ser uma mercadoria. A mercadoria é portanto algo
produzido para o uso de outra pessoa, que a obtêm mediante a troca por
dinheiro ou por outra mercadoria que, por sua vez, atende à sua necessidade.
Toda
mercadoria tem assim duas funções: uma de uso e outra de troca. Em outras
palavras, tem valor em dois sentidos — valor de uso e valor de troca. É
valor de uso tudo o que satisfaz alguma necessidade humana —necessidade
material ou espiritual, do corpo ou da mente. O valor de uso sempre existiu nos
produtos do trabalho humano, seja para satisfazer necessidades de alimentação,
de vestimenta ou de habitação, ou para atender a necessidades simbólicas.
Já
o valor de troca, nem sempre existiu. Quando viviam em sociedades de baixo
desenvolvimento econômico, os homens consumiam tudo o que produziam, sobrando
pouco ou nada para trocar. Eram sociedades cujas economias viviam em função
da sobrevivência, em que a produção não tinha como objetivo a troca ou a
venda, e sim o consumo.
Quando
a especialização tornou possível uma produção superior ao consumo, gerando
um excedente em relação às necessidades da sociedade, a troca tornou-se um
objetivo cada vez mais importante para a produção.
Os
homens passaram a produzir tendo em vista crescentemente a venda, fazendo dos
objetos de seu trabalho mercadorias, coisas produzidas para o consumo alheio,
além daquela parte da produção destinada a satisfazer suas próprias
necessidades.
No
capitalismo, tudo passou a ser mercadoria. Com exceção daquilo a que temos
acesso gratuitamente — o ar, a água das fontes naturais, as praias —, tudo
o resto tem preço, é uma mercadoria. Mercadoria é algo que tem os dois tipos
de valor — o valor de uso e o valor de troca. O valor de uso de uma
mercadoria é a utilidade que ela tem. No caso dos alimentos, sua utilidade vem
de sua propriedade de matar nossa fome, assim como a utilidade de um
instrumento de trabalho reside na sua capacidade de facilitar nossa atividade,
multiplicar nosso potencial de produção ou economizar tempo de trabalho. O
valor de troca é dado não diretamente pela utilidade de um objeto, mas pelas
horas de trabalho necessárias para a sua produção.
Um
objeto precisa ter os dois tipos de valor para ser uma mercadoria. É pela sua
utilidade que eu me interesso em adquiri-la, mas o valor que devo pagar por ela
está dado pelas suas condições de produção, pelo tempo necessário para
produzi-la. Se um objeto não tem utilidade, eu preciso tratar de criá-la,
mediante campanhas de publicidade, para que pessoas se interessem em comprá-la.
É o caso de mercadorias que ficam na «moda», conforme a eficácia de
campanhas publicitárias. A utilidade — o valor de uso — é assim o suporte
do valor de troca, a condição do valor de troca, mas este termina sendo, no
capitalismo, aquele que representa diretamente o valor que as mercadorias
possuem.
Se
no entanto um produtor vai vender suas mercadorias para, com o dinheiro obtido,
comprar outras, que satisfaçam suas necessidades, que critério permite que se
vendam e se comprem essas mercadorias? Em outras palavras, quanto vale uma
enxada ou um quilo de tomate? O que faz com que, por exemplo, seja possível
vendê-los e comprá-los pela mesma quantidade de dinheiro?
A
utilidade de um objeto não é o que define seu valor. Objetos de enorme
utilidade como o feijão ou remédios podem custar relativamente muito barato
ou muito caro, enquanto outros, como adornos pessoais ou objetos de consumo
sofisticado, podem ter um preço muito alto. Se o ouro tem um valor alto, é
porque o custo de sua extração, o tempo de trabalho necessário para sua
produção como mercadoria, é elevado.
A
questão é saber o que contêm em comum dois objetos tão diferentes — em
sua matéria-prima, na técnica de sua produção, nas necessidades que atende
— para que seja possível estabelecer um critério para sua troca?
Deixadas
de lado essas diferenças, constatamos que o único elemento comum entre duas
mercadorias tão distintas do fato de que foram produzidas pelo trabalho
humano. Mesmo assim, não pelo trabalho especifico, do artesão que produz a
enxada e do camponês que produz tomates, mas pelo que eles têm de comum, isto
é, o gasto de energia humana para transformar a natureza e produzir
mercadorias novas.
Se
duas mercadorias diferentes são trocadas ou vendidas e, com esse dinheiro,
compradas outras mercadorias pelo valor, significa que elas contem a mesma
quantidade de trabalho humano. Em outras palavras, se quisermos medi-las em
termos de tempo, podemos dizer que elas foram produzidas no mesmo tempo de
trabalho. Este cálculo é feito não por quem demora mais ou por quem demora
menos, mas pela média do tempo necessário para produzir uma mercadoria, que
determina seu valor, isto é, a referência pela qual se decide os termos de
sua venda e compra.
A
própria força de trabalho é uma mercadoria no capitalismo. Como se determina
então seu valor?
Se,
como vimos, o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho
necessário para sua produção, como se determina esse tempo no caso da
mercadoria força de trabalho? Quanto tempo de trabalho é necessário para
produzir a força de trabalho? A resposta não é simples, porque a mercadoria
força de trabalho não é produzida diretamente na fábrica, como as outras
mercadorias. Ela não existe fora do corpo vivo do trabalhador. Quanto tempo de
trabalho então é necessário para produzir os músculos e o cérebro do
trabalhador, já que são essas propriedades que fazem com que a força de
trabalho seja útil para o capital que deseja comprá-la?
Para
que se produza e reproduza sua força de trabalho é necessário, antes de
tudo, que os trabalhadores estejam vivos e continuem vivos, isto é, que se
alimentem, durmam, se agasalhem, cuidem de sua saúde e se reproduzam. Sem isto
não poderiam retornar no dia seguinte à fábrica, à fazenda ou a qualquer
outro lugar onde vendem sua força de trabalho. Enquanto cresce, estuda e
trabalha, o homem consome certa quantidade de mercadorias, que pode ser medida
em tempo de trabalho. Ao medir este valor necessário para produzir e
reproduzir a força de trabalho, estaremos medindo o seu valor como mercadoria.
Casa,
comida, roupa, saúde, educação, lazer — esses custos básicos são o que
se costuma denominar "mínimo indispensável para a subsistência",
que deveria ser coberto pelo salário mínimo. Portanto, o valor da força de
trabalho é igual ao valor dos meios de subsistência, principalmente gêneros
de primeira necessidade, indispensáveis à reprodução dos trabalhadores.
Embora
seja uma mercadoria, a força de trabalho é uma mercadoria especial, porque
ela é a única mercadoria que produz mais valor. Toda mercadoria contém
valor, que é o tempo de trabalho consumido para produzi-la. Mas a força de
trabalho, além de conter valor, gera um valor a mais, tanto para sua própria
remuneração, quanto à mais-valia, que fica com o capitalista.
Como
produz valor, a força de trabalho é remunerada conforme sua capacidade de
produzir valor. Assim, uma força de trabalho qualificada vale mais, na medida
em que sua produção requereu mais anos de estudo, do que uma não
qualificada. Assim, seu salário mais alto reflete o maior tempo necessário
para a sua produção como força de trabalho especializada.
Como
nas sociedades capitalistas, em geral, existe uma oferta de mão-de-obra maior
do que os empregos existentes, os trabalhadores terminam trabalhando por salários
abaixo do mínimo necessário. Este, calculado pelos institutos de pesquisa, no
caso do Brasil, deveria ser cerca de cinco vezes maior do que o salário mínimo
vigente, para poder atender as necessidades mínimas do trabalhador e da sua
família. O salário mínimo, neste caso, está abaixo do valor do necessário
para a sobrevivência do trabalhador. Além da exploração escondida pelo salário
— a mais-valia —, existe então um outro montante ainda em que o
trabalhador é explorado nestas condições, o que faz com que se
dê uma superexploração do trabalho.
Uma
sociedade sem exploração
A
sociedade capitalista repousa sobre a exploração do trabalho. Ë a
mais-valia, o valor criado pelo trabalhador e não remunerado, que alimenta a
acumulação de capital.
Mas
o que poderia ser uma sociedade sem exploração?
Uma
sociedade sem exploração é, antes de tudo, uma sociedade do trabalho, uma
sociedade em que todos tenham garantido o direito ao trabalho, vivam do seu
trabalho. Isto significa que, de alguma forma, todos se tornem trabalhadores e
ninguém viva da exploração do trabalho alheio.
Uma
sociedade desse tipo elimina a exploração, fazendo com que ninguém possa
viver do trabalho dos outros. Significa que ninguém disponha do privilégio de
possuir capital, negado à grande maioria.
Assim,
as máquinas, instalações, matérias-primas — isto é, os meios de produção
— não poderiam ser propriedade privada, mas propriedade democrática do
conjunto da sociedade.
Uma
sociedade desse tipo se choca frontalmente com o capitalismo, que se apóia
estruturalmente na propriedade privada dos meios de produção, o que significa
a separação entre capital e trabalho. Esta separação implica em que a
minoria tenha acesso a capital — sob qualquer forma de dinheiro ou de
empresas, industriais, agrárias, comerciais ou de outro tipo —, e a grande
maioria, dispondo apenas de seus braços para sobreviver, seja obrigada a
submeter-se à exploração do capital.
Esse
tipo de sociedade tem o nome de socialismo, baseando-se na socialização dos
meios de produção, na decisão coletiva, tomada democraticamente, a respeito
do que produzir, quanto produzir, por que preço produzir, para quem produzir.
Numa sociedade desse tipo elimina-se não apenas a exploração, como a alienação,
fazendo-se do trabalho humano não um instrumento de sobrevivência, mas de
liberdade e de emancipação.
Sader, Emir (org.) – 7 pecados do capital – Editora Record, 1999 – pg. 57-77
[1]
Emir
Sader é professor de Sociologia da USP e da UERJ. Escreveu, entre outros, os
livros Estado e política em Marx, A transição no Brasil, Que Brasil é
este?, O anjo torto: esquerda (e direita) no Brasil e O poder, cadê o
poder?.