ECONOMIA E RELIGIÃO: DESAFIOS PARA O CRISTIANISMO NO SÉCULO XXI

Jung Mo Sung

 

O tema evangelização e o Terceiro Milênio está na ordem do dia. Para que possamos anunciar a boa-nova aos pobres e a toda humanidade precisamos conhecer os principais problemas que os afligem. Quando se tem como horizonte de tempo o terceiro milênio, é quase impossível fazer algumas análises sobre problemas e suas causas. Por outro lado, não podemos também reduzir o horizonte de tempo e espaço só ao imediato e ao cotidiano de pequenos grupos, especialmente quando estamos vivendo o processo de globalização.

Por isso, quero esboçar aqui uma análise que tem como horizonte de tempo não o milênio, mas a virada do século. Tentar compreender quais são as grandes mudanças e desafios de hoje que vão determinar as próximas décadas, e como o sistema capitalista está enfrentando estas mudanças. Neste caminho vou privilegiar, como tenho feito em outros textos, a relação entre a teologia e economia. Não só porque, como um teólogo da libertação acredito ser fundamental trabalhar a relação entre o anúncio da boa-nova aos pobres e as estruturas econômicas, mas também porque a economia, uma instância da vida social que está se tornando quase onipresente no mundo de hoje, está sendo relacionada cada vez mais com a teologia e religião pelos próprios economistas e cientistas sociais.

 

1. Uma visão global das mudanças.

Quem acompanha minimamente as discussões e análises sobre o nosso  tempo já está se acostumando com a idéia de que estamos vivendo não só em uma época de grandes mudanças, mas também uma mudança de época. Vejamos alguns componentes principais deste processo.

 

1.Com o fim do bloco comunista quase um terço da população mundial está tendo que aprender com muitas dificuldades a passar de uma economia centralizada onde todas ou pelo menos as principais decisões eram tomadas pelo Estado para uma economia de mercado, com seus riscos, possibilidades de enriquecimento e desigualdades sociais. As crises sociais e econômicas e conflitos étnicos no Leste Europeu são sinais visíveis das dificuldades deste processo. Nesse contexto, a China é um caso a parte. Não só pela sua população de um bilhão e duzentos milhões de habitantes, mas pelo seu modelo de mudanças que tem gerado um crescimento econômico superior a 10% ao ano nos últimos quinze anos. A integração econômica cada vez maior da China na globalização, independente da manutenção ou não do seu modelo político, vai modificar profundamente a configuração econômica do planeta.

 

2. A globalização da economia, possibilitada pelas transformações tecnológicas, está acabando com a noção de economia nacional e diminuindo sensivelmente o poder de influência dos Estados nacionais. Além da possibilidade de se produzir e consumir sem as limitações das barreiras das fronteiras nacionais, é preciso dar um destaque ao gigantismo do atual mercado financeiro, em torno de 15 trilhões de dólares, e o seu caráter altamente especulativo, na medida em que só uns quinze por cento deste total estão ligados ao sistema produtivo. Na era da realidade virtual, podemos dizer que uma boa parte do capitalismo internacional gira em torno de uma riqueza virtual.

 

3. Este processo da globalização da economia vem sendo acompanhado por um outro de mundialização da cultura. O conceito de economia global se refere a uma estrutura única, subjacente a toda e qualquer economia, cuja dinâmica pode ser mensurada pelos economistas por meio de indicadores como trocas e investimentos internacionais. Na esfera cultural, entretanto, o mundialismo não se identifica com a uniformidade. A cultura mundializada O tema evangelização e o Terceiro Milênio está na ordem do dia se articula ao movimento de globalização das sociedades, mas se trata de um universo simbólico específico à civilização atual, de uma visão do mundo. "Nesse sentido ela convive com outras visões de mundo, estabelecendo entre elas hierarquias, conflitos e acomodações." (1)  Não somente não implica no aniquilamento das outras manifestações culturais "locais", mas ocorre um processo no qual ela próprio se alimenta destas. Um exemplo disso é a língua. O inglês é uma "língua mundial". Em alguns casos o inglês é predominante (como na tecnologia, negócios internacionais e na Internet), mas em outros momentos e esferas ele estará ausente ou terá um peso menor (família e religião). "Sua transversalidade revela e exprime a globalização da vida moderna; sua mundialidade preserva os outros idiomas no interior deste espaço transglóssico." (2)

 

4. Se no início do capitalismo e da modernização cultural no Ocidente prevalecia a ética e a cultura do trabalho, na atual mundialização cultural, a cultura de consumo desfruta uma posição de destaque, transformando-se numa das principais instâncias mundiais de definição da legitimidade dos comportamentos e dos valores.

 

5. A mudança tecnológica, também conhecida como revolução tecnológica, está criando uma era dominada pelas indústrias baseadas na capacidade intelectual do ser humano. Diferentemente do padrão anterior, onde a maioria das indústrias tinha seus espaços geográficos determinados pela localização dos recursos naturais, a posse do capital e o tipo de mão-de-obra necessária, estas novas indústrias não têm lugares predeterminados e podem estabelecer-se em qualquer lugar que lhes for mais conveniente.

 

6. O fim do bloco comunista e o domínio exclusivo do capitalismo não significou a manutenção de um centro ou um poder econômico ou político dominante. No século XIX, as regras do comércio internacional foram formuladas e impostas pela Inglaterra, e após a Segunda Guerra Mundial pelos Estados Unidos. Mas neste final do século e, provavelmente, no século XXI a economia globalizada não tem e não terá mais um centro "forte", mas sim vários "centros frouxos" dispersos em grandes corporações transnacionais, em alguns países como Estados Unidos, Japão e Alemanha e em organismos multilaterais como F.M.I., Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio. O problema que se levanta é como um sistema econômico globalizado pode funcionar eficazmente sob o comando de diversos "centros frouxos".

 

7. Além destas questões, temos ainda o problema demográfico. A população dos países pobres continua crescendo, ao mesmo tempo em que a dos países ricos estabiliza. "Enquanto as democracias industriais representavam mais de um quinto da população da Terra em 1950, essa parcela caiu para um sexto em 1985, e há previsões de que encolha ainda mais, para um décimo, em 2025." (3)

Aliado a isso temos também a concentração cada vez mais brutal da riqueza nas mãos de uma minoria. Estes fatores geram o fenômeno das migrações em busca de sobrevivência ou de dias melhores, sem falarmos nos refugiados por problemas políticos. No século XVIII a Europa viveu um problema demográfico semelhante e a solução encontrada foi a emigração para o "Novo Mundo". Só que hoje os países ricos se fecham aos imigrantes, aos "novos bárbaros" (4), porque com a revolução tecnológica a mão de obra não qualificada é dispensável e os países industrializados, especialmente da Europa, também vivem o problema do desemprego estrutural. Além deste problema da migração, temos também o do envelhecimento da população que acarreta sérios problemas para sistemas de seguridade social, na medida em que uma parcela proporcionalmente menor de contribuintes deve sustentar um número cada vez maior de aposentados.

 

8. Para não alongarmos demasiadamente, quero citar somente mais um fator no processo de grande transformação que estamos vivendo hoje: a questão ecológica. É certo que o problema ambiental tem sido motivo mais de debates do que ações concretas no nível macro-econômico ou político. Nesse sentido não deveria fazer parte da lista dos fatores que estão mudando a configuração do mundo hoje. Por outro lado, o aumento da consciência ecológica ou, pelo menos, da consciência dos problemas ambientais e a influência desta questão no debate sobre novos paradigmas teóricos nos permitem elencá-la. Do ponto de vista ecológico, o alto padrão de consumo das elites dos países ricos e também da elite dos países que imitam o padrão de consumo dos primeiros, as demandas excessivas e hábitos de esbanjamento das populações integradas no mercado mundial e os bilhões de excluídos em países pobres ou em países em desenvolvimento que aspiram aumentar o seu nível de consumo, tendo como o seu modelo de imitação de desejo os padrões de consumo da classe média e a elite, (5) constituem um sério ataque ao nosso planeta. Por isso, os ambientalistas consideram essa questão como uma corrida contra o tempo.

Neste sentido, Cristovam Buarque diz que "a crise da modernidade não se solucionará com um avanço na modernidade. Exige uma modernidade diferente: não apenas nos meios, mas também nos propósitos e nos tipos de sociedade. Já não é possível nem desejável atingir a riqueza dos 'países ricos'. Já não há socialismo a ser copiado. A modernização da economia e a distribuição de seus resultados não bastam; é preciso modernizar a modernização." (6)

 

Esse ponto de vista, que critica os mitos do progresso e do desenvolvimento econômico e contesta a suposição de que o crescimento é desejável por si e, por isso, a produção econômica é a medida mais útil do sucesso material de um país, provocou contra-ataque de muitos economistas. Para os otimistas, os recursos naturais não constituem uma quantidade absoluta que está sendo constantemente consumida; pelo contrário, para eles muitos recursos são criados pela inventividade e o trabalho humanos, e a tecnologia tem uma capacidade infinita de produzir novos recursos.

 

 2. Novo tempo, nova ideologia?

 

Para ter uma visão mais completa do nosso grande cenário, precisamos ver também a ideologia que está dinamizando e dando consistência a este processo.

Até pouco tempo atrás, esta relação entre tecnologias e instituições de um lado e crenças ou ideologias de outro não era muito valorizada nas análises sociais. Isso porque a maioria dos cientistas sociais, tanto teóricos sob influência do marxismo quanto os liberais neoclássicos, compartilhava de  uma mesma visão sobre o mundo: o mundo como uma máquina. Eles acreditavam, e ainda hoje muitos acreditam, que o mundo e a sociedade são como uma máquina complicadíssima cujo funcionamento pode ser entendido se juntarmos cuidadosa e meticulosamente as partes que a compõem. A partir desta premissa concluíam que o comportamento do sistema como um todo poderia ser deduzido de uma simples soma desses componentes, sejam indivíduos ou classes sociais. Uma alavanca puxada em certa parte da máquina, com uma certa força, provocaria resultados regulares e previsíveis em outra parte da máquina. É a partir destas premissas que são impostos de um modo "impessoal" e "universal", isto é válido para todas as sociedades, os ajustes econômicos formulados pelo F.M.I. e Banco Mundial. Como também era a partir destas premissas que muitas pessoas de boa vontade militaram nos movimentos eclesiais, sociais e políticos com certeza inabalável da inevitabilidade do sucesso da construção do Reino da Liberdade ou do Reino de Deus.

Na teoria econômica neoclássica, a base "científica" do neoliberalismo, a peça básica que compõe a máquina é o Homem Racional. Isto é, a sociedade é vista como constituída por indivíduos que agem a partir do cálculo racional de seus interesses, do cálculo que visa a maximização dos benefícios e a minimização de custos. Além da redução do ser humano a um ser essencialmente egoístico, a analogia do mundo com uma máquina bem azeitada leva os economistas a pensarem que o mundo está fundamentalmente em harmonia e equilíbrio. "Dada a partida, a máquina desliza, com cada parte componente contribuindo para seu sereno progresso." (7) A partir disso, o crescimento econômico é visto como simplesmente pacífico, desde que não haja intervenção indevida do Estado e dos sindicatos, e os problemas das flutuações econômicas e do desemprego simplesmente desapareceram da teoria econômica hegemônica nos dias de hoje.

A fé nesta concepção do mundo é tão forte que a Universidade de Chicago, o grande centro do pensamento neoclássico contemporâneo, teve cinco dos seus professores como ganhadores de Prêmio Nobel de Economia entre 1990 e 1995. E dois dos mais renomados economistas neoclássicos do nosso tempo, Gary Becker e James Buchanan, ganhadores de Nobel, construíram suas carreiras acadêmicas estendendo a metodologia econômica neoclássica a fenômenos considerados não-econômicos, como política, burocracia, racismo, família e fertilidade. No caso do controle de natalidade, por exemplo, há economistas desta corrente advogando a idéia de que a melhor forma de controlar a natalidade é mostrar aos pais que o investimento em filhos não compensam o pouco e incerto retorno na forma de cuidado na velhice. Melhor do que ter filhos é investir em fundos privados de aposentadoria!

Para este tipo de pensamento, o aumento da exclusão social e de outros problemas sociais não são, na verdade, problemas, mas sim, sinais de que estamos no caminho de uma solução real e definitiva. Sinais de que o Estado está abandonando a sua pretensão indevida de intervir no mercado, em nome de metas sociais, e está deixando o mercado funcionar livremente. No fundo, para eles o que nós chamamos de problemas sociais são somente problemas de grupos de indivíduos ineficientes que foram merecidamente alijados pelo sistema de concorrência do mercado.

Esta visão mecanicista e individualista do mundo foi expressa de uma forma clara na famosa declaração de M. Tatcher de que isso que chamam de sociedade é algo que não existe, só existem os indivíduos que a constituem.

Hoje, cada vez mais, os cientistas chegam à conclusão de que esta maneira de ver o mundo natural e social como uma máquina não é a mais apropriada. Ao invés da máquina, estão utilizando como analogia o organismo vivo.

Comportamentos de sistemas não são dedutíveis a partir da somatória dos comportamentos individuais; são demasiados complexos para serem representados por uma abordagem mecanicista. Com isso estão abdicando da certeza absoluta no diagnóstico e da possibilidade de previsão "científica". (8)

Além disso, esta nova maneira de ver o mundo e a sociedade humana traz ao debate econômico o problema da ideologia e dos valores individuais e sociais. A dinâmica econômica não é mais vista como um simples resultado da interação de fatores quantificáveis, um princípio fundamental da ciência econômica desde o final do século XIX, mas também resultado de interações com valores e outros fatores não quantificáveis.

Neste sentido, Lester Thurow, professor de economia do famoso M.I.T., escreveu que "as sociedades florescem quando as crenças e tecnologias são congruentes e declinam quando as mudanças inevitáveis nas crenças e tecnologias chegam a ser incongruentes." (9)  Esta idéia não é nova, mas dita por um economista de prestígio nos Estados Unidos revela um "sinal dos tempos". Para ele, a passagem do feudalismo não se deu somente pela revolução tecnológica e novas institucionalidades, em especial com respeito à propriedade e comércio. Ao lado disso, "o capitalismo também necessitava de mudanças na ideologia. No Medievo a cobiça era o pior de todos os pecados e o comerciante jamais poderia ser grato a Deus. O capitalismo necessitava de um mundo onde a cobiça fora uma virtude e o comerciante pudera ser mais grato a Deus. O indivíduo necessitava crer que tinha não só o direito mas também o dever de ganhar o máximo de dinheiro possível. A idéia de que incrementar o consumo é essencial para o bem estar do indivíduo tem menos de duzentos anos. Sem esta crença, o incentivo do capitalismo não tem sentido e o crescimento econômico fica desprovido de objetivo." (10)

Se no início o capitalismo necessitou da vinculação desta crença com a religião, com a sua vitória pôde dispensar este abrigo. Pelo menos no nível do discurso explícito. A este respeito M. Weber disse: "no setor de seu mais alto desenvolvimento, nos Estados Unidos, a procura da riqueza, despida de sua roupagem ético-religiosa, tende cada vez mais a associar-se com paixões puramente mundanas". (11)

Ora, o capitalismo não precisa mais da religião para se autolegitimar e se livrou do seu grande arquinimigo, o comunismo. Assim é natural que muitos concordem com a tese de que a história chegou ao fim. (12)

Como diz Thurow, "o capitalismo e a democracia vivem agora um período único na história onde, com efeito, não tem concorrentes viáveis pela lealdade de seus cidadãos. Isto tem sido chamado 'o fim da história'." (13)

Contudo, se é verdade que há uma relação entre a tecnologia e as instituições de uma determinada sociedade com ideologia, (14) quais são as implicações das grandes mudanças que vimos anteriormente na composição tecnologia-ideologia do sistema capitalista atual? Em outras palavras, estas grandes mudanças vão exigir, ou já estão exigindo, mudanças no campo ideológico sob a pena de ineficiência do sistema de mercado capitalista? Não somente pelas mudanças tecnológicas, mas também pelo próprio fim do bloco comunista que leva o mundo capitalista a se enfrentar com problemas e contradições internas que o enfrentamento externo deixava em segundo plano.

Com isso não estamos querendo dizer que o neoliberalismo, (15) a ideologia hegemônica do nosso tempo, está em crise, muito menos em sua fase final.

Como diz Perry Anderson, "o projeto neoliberal continua demonstrando uma vitalidade impressionante. (...) A agenda política segue sendo ditada pelos parâmetros neoliberais, mesmo quando seu momento de atuação econômica parece amplamente estéril ou desastroso. Como explicar este segundo alento no mundo capitalista avançado? Uma de suas razões fundamentais foi claramente a vitória do neoliberalismo em outra área do mundo, isto é, a queda do comunismo na Europa Oriental e na União Soviética (...)  Não há neoliberais mais intransigentes no mundo que os 'reformadores' do Leste." (16)

 Contudo, começam a aparecer sinais de que há algo de novo ocorrendo neste campo. Recentemente George Soros, um megainvestidor que dirige um fundo de investimento de 16 bilhões de dólares e confesso discípulo de Karl Popper, escreveu um longo artigo, The Capitalista Threat, atacando duramente o atual sistema capitalista: "Embora eu tenha feito uma fortuna nos mercados financeiros, agora eu tenho medo de que a intensificação desimpedida do capitalismo de laissez-faire e a difusão dos valores do mercado para todas as áreas da vida está colocando em perigo a nossa sociedade aberta e democrática. O principal inimigo da sociedade aberta, eu acredito, não é mais o comunismo mas a ameaça capitalista." (17)

Um ataque tão vigoroso vindo de alguém que está no topo do sistema só poderia causar, como causou, muita polêmica. A revista Forbes, por exemplo, publicou um artigo sobre Soros no qual não rebate nenhum dos seus argumentos fundamentais, mas se restringe basicamente a críticas pessoais, tentanto combater suas idéias através da desmoralização do autor, taxando-o de um homem rico e excêntrico, e "um pouco ridículo - passa seu tempo voando pelo mundo, dando entrevistas coletivas à imprensa e escrevendo livros e artigos que ninguém entende".(18)

 Vargas Llosa, um ferrenho defensor do neoliberalismo, também escreveu um artigo para rebater George Soros, com o nome sugestivo de "O diabo pregador".(19)  Nele o autor concorda com uma única tese de Soros: a de que quando Adam Smith desenvolveu a sua teoria sobre a "mão invisível" do mercado estava convencido de que ela se apoiava numa filosofia moral muito firme e que os grandes pensadores liberais, incluindo Popper, acreditavam que o mercado e o sucesso econômico eram apenas um meio para a realização dos elevados ideais éticos de solidariedade social, de progresso cultural e o aperfeiçoamento individual. E que na versão do capitalismo triunfante hoje o culto do êxito substituiu a crença nos princípios e que, por isso, a sociedade perdeu o seu norte. Para ele, um grande desafio ao capitalismo hoje é o descalabro da cultura religiosa e uma transformação radical da cultura provocada pelo desenvolvimento da tecnologia, da ciência e economia. E apela à autoridade de Adam Smith e Von Mises para defender a tese de que uma vida cultural e religiosa intensa é "o complemento indispensável do mercado livre para atingir a civilização". (20) O apelo à cultura e, em particular, à cultura religiosa feito por um ardoroso defensor do neoliberalismo é um "sinal dos tempos" que revela que a vitória deles não é tão cabal e muito menos definitiva como eles mesmos gostariam que fosse e andaram apregoando. Aliás, é possível perceber entre economistas liberais uma tendência de releitura de Adam Smith, tentando complementar o clássico da economia  "A riqueza das nações" com um outro livro seu, "A teoria dos sentimentos morais".

Esta revalorização da dimensão cultural e até mesmo das questões éticas e religiosas já era notória no campo da administração de empresas. A concorrência das empresas japonesas obrigou as empresas ocidentais a implementarem programas de reorganização empresarial, como Controle de Qualidade Total e Reengenharia, e neste processo a se enfrentarem com questões éticas, culturais e religiosas. Além desta influência externa, houve também uma causa interna. Com o surgimento das grandes empresas e corporações do tipo Sociedades Anônimas, o capitalismo se viu diante de um novo problema. O crescimento levou à constituição de uma burocracia nas empresas privadas e a distinção entre a figura de proprietários ou acionistas e dos dirigentes das empresas. Estes dois fatores geraram o grave problema da corrupção no interior das empresas. Se levado em extremo o individualismo liberal - a defesa do interesse próprio - no interior das empresas, um funcionário graduado pode levar uma empresa à falência ou a grandes dificuldades econômicas, como têm aparecido diversas vezes em noticiários.

Estes desafios externo e interno levaram à revalorização da ética nas empresas e nos negócios,(21) a tal ponto que todas as principais faculdades de administração de empresas têm hoje cursos obrigatórios sobre ética, e também das questões culturais e religiosas. (22) É importante destacar que esta valorização da ética, cultura e religião na administração de empresas é uma valorização instrumental, isto é, não em vista da ética ou religião, mas sim em busca da maior eficiência produtiva.

Esta mudança de enfoque que antes era mais restrito ao campo da administração de empresas está chegando também ao campo da economia. A polêmica em torno de George Soros e o artigo de Vargas Llosa é uma "ponta de icebergue". Para entendermos um pouco melhor esta questão, vejamos algumas contradições internas do sistema capitalista que está por trás desta revalorização da cultura e dos valores religiosos na economia.

 


3. As contradições do sistema.

 

Antes de tratarmos das contradições internas do capitalismo, é importante destacarmos um outro sinal mais concreto da crise do sistema capitalista: a diminuição do ritmo de crescimento econômico. "Na década dos anos sessenta a economia mundial cresceu a um ritmo de 5% anual (corrigido pela inflação). Nos anos setenta, o crescimento diminuiu para 3,6% ao ano. Nos anos oitenta houve uma maior desaceleração atingindo 2,8% anual e na primeira metade da década dos noventa o mundo experimentou um ritmo de crescimento de apenas 2% ao ano. Em duas décadas o capitalismo perdeu 60% do seu impulso." (23) Este diagnóstico de crise não é baseado em critérios extra-capitalistas, como por exemplo a exclusão dos pobres, mas sim no critério capitalista por excelência: o crescimento econômico. Esta é a principal causa pela qual alguns defensores incondicionais do capitalismo estão propondo novas leituras da teoria econômica e aceitando discutir as suas contradições internas.

Visto isto, a primeira contradição que queremos tratar é a que ocorre entre a democracia e o mercado nos países capitalistas ocidentais. Esta especificação de países capitalistas ocidentais é necessária porque no Oriente, em particular nos países chamados de Tigres Asiáticos a modernização capitalista no campo econômico não foi acompanhada da democratização política, nem do individualismo liberal ocidental. Apesar de que com o fortalecimento da cultura do mercado, "as sociedades asiáticas de tradição confuciana centrada na família estão mudando rápida e definitivamente para um individualismo auto-centrado. A incessante busca de sucesso material torna-se o instrumento para medir o valor e a posição na sociedade." (24)

No Ocidente, a vitória sobre o bloco comunista foi celebrada como a vitória do capitalismo democrático. A democracia liberal se baseia na noção de "um indivíduo, um voto", isto é, na igualdade formal entre todos os cidadãos. O sistema de mercado, por outro lado, se baseia na capacidade de concorrência dos indivíduos no mercado, na lei da sobrevivência do mais forte ou do mais apto e, com isso, tende à desigualdade social e concentração de riqueza, chegando, como nos dias de hoje, à exclusão social de uma parcela importante da população.

Nas décadas passadas esta contradição foi contornada com o Estado de Bem Estar Social. Cabia ao Estado diminuir as diferenças sociais e proporcionar a todos os cidadãos, pelo menos em tese, as condições para uma vida digna e capacidade para disputar pelas oportunidades oferecidas no mercado de trabalho. É bom lembrarmos que este modelo de Estado se efetivou no interior do capitalismo pelas mãos da elite dominante por causa da pressão social e da ameaça da alternativa socialista. Eles preferiram "entregar os anéis para não perder o dedo". Com a derrocada do bloco socialista e a hegemonia do neoliberalismo, o desmonte do Estado de Bem Estar Social passou a ser visto como algo necessário e lógico.

A contrapartida ideológica deste desmonte foi o ressurgimento do "darwinismo social" com novas roupagens "científicas" (25) e o que Galbraith chamou de "cultura do contentamento" (26), onde a riqueza pessoal é vista como justamente merecida e, portanto, a pobreza como também um castigo justo pela ineficiência dos pobres. É a volta da idéia de que se os indivíduos, se vêem forçados a enfrentarem a fome, se esforçarão ao máximo para sobreviver no mercado. Assim, o fim da assistência pública aos pobres levaria todos os marginalizados do mercado a se reintegrarem nele pelo seu próprio esforço. Nesta lógica, programas sociais não somente são ineficientes e geradores de déficit público, mas fazem mal à própria pessoa do pobre, na medida em que não o leva a assumir a sua própria responsabilidade e a desenvolver todo o seu potencial.

O problema é que nenhuma sociedade pode viver muito tempo com esta cultura cínica. Um individualismo cínico levado ao extremo destrói a própria noção de sociedade. Além disso, o desemprego estrutural, a exclusão social, o desmonte de programas sociais e a cultura cínica formam um caldeirão que pode resultar em uma rebelião social ou uma ruptura do tecido social.

A segunda contradição é a que se dá entre o consumo e investimento. Esta tensão é implícita em todo e qualquer tipo de capitalismo. Como vimos acima, é fundamental no capitalismo que os indivíduos creiam que tem não só o direito, mas também o dever de ganhar o máximo de dinheiro possível para usufruir padrões cada vez melhores de consumo. O problema é que o capitalismo para poder oferecer este padrão cada vez melhor precisa que os próprios indivíduos tenham a disposição de refrear este desejo de consumo e lazer e invistam dinheiro e tempo em novas fábricas, equipamentos, infra-estruturas, pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias e capacitação dos trabalhadores.

No passado esta contradição foi em parte solucionada pelo ascetismo secular puritano que opunha "poderosamente, ao espontâneo usufruir das riquezas, e restringia o consumo, especialmente o consumo do luxo", ao mesmo tempo em que "libertava psicologicamente a aquisição de bens das inibições da ética tradicional, rompendo os grilhões da ânsia de lucro". (27) Esta ética do trabalho foi sendo substituída lentamente pela ética do consumo. Contudo, com a Guerra Fria o Estado exerceu a importante função de investimento em novas tecnologias, especialmente na área militar, que serviram de alavanca ao desenvolvimento econômico nos países capitalistas.

Hoje, na era das empresas baseadas em capacidade intelectual, o investimento nas habilidades humanas da população em geral, na tecnologia e na infra-estruturas são pontos chaves para o crescimento econômico mais duradouro. O problema é que indivíduos e empresas capitalistas, por sua própria lógica interna, não podem por si só se responsabilizar por este tipo de investimento a longo prazo. Caberia ao governo este papel de representar o interesse do futuro no presente e o da nação frente aos interesses atomizados das empresas e indivíduos e fazer investimentos necessários para o futuro do capitalismo. Só que o fim da Guerra Fria, a hegemonia do neoliberalismo com o seu programa de Estado mínimo e a cultura individualista com a sua ética de consumo estão levando os Estados ao caminho inverso: consumir estes fundos em benefício do consumo imediato dos cidadãos-eleitores de hoje e, nos casos de países latino-americanos, gastar nos pagamentos de juros da dívida interna e externa e no financiamento do fascínio do consumo de bens importados.

No caso particular dos países latino-americanos endividados, é preciso recordar que o problema da dívida externa, apesar de ausente nos meios de comunicação, continua sendo um grande empecilho para o desenvolvimento da região. Como diz Bresser Pereira, "atualmente, a principal restrição ao crescimento origina-se das características dos desequilíbrios, que perduram no longo prazo, induzidos pela crise da dívida externa, que, após dez anos, ainda não se reverteu." (28) Para ele, "o crescimento será retomado apenas se a estabilização e as reformas orientadas para o mercado forem complementadas pela recuperação da capacidade de poupança do Estado e pela elaboração de políticas que definam um novo papel estratégico para o Estado. Em outras palavras, desde que o Estado seja reconstruído, recuperando sua capacidade de intervenção." (29)  Sem entrar no debate sobre as suas teses sobre a orientação para o mercado e uma possível identificação entre crescimento econômico e o desenvolvimento social, fica aqui registrada a importância fundamental da reconstrução econômica e política da capacidade de intervenção do Estado na economia e no campo social. Sem ela não será superada a crise econômica da maioria dos países latino-americanos e também a própria contradição do capitalismo, no que tange à tensão entre o consumo e investimento, e muito menos o grave problema da exclusão social.

Aqui vale a pena fazer uma longa citação de Lester Thurow: "A tecnologia e a ideologia estão sacudindo os cimentos do capitalismo do século vinte e um. A tecnologia está fazendo das habilidades e do conhecimento as únicas fontes de vantagem estratégica sustentável. Induzida pelos meios eletrônicos, a ideologia está se deslocando para formas radicais de consumo individual de curto prazo precisamente no momento em que o êxito econômico depende da disposição e atitudes para fazer investimentos sociais de longo prazo em habilidades, educação, conhecimento e infra-estrutura. Quando a tecnologia e ideologia começam a se separar, a única pergunta que caberá formular é quando será o 'grande cismo' (o terremoto que vai sacudir o sistema). Paradoxalmente, no preciso momento em que o capitalismo se encontra sem competidores sociais - tendo desaparecido seus ex-competidores, o socialismo e o comunismo - terá que passar por uma profunda metamorfose." (30) "Na próxima era, o capitalismo terá que criar novos valores e novas instituições". (31)

É bom relembrarmos que o autor dessa afirmação não é nenhum socialista ou marxista que teima em prever o fim iminente do capitalismo, mas sim um respeitado professor de economia do M.I.T; e que esta possível crise do capitalismo não é, como muitos gostariam, "para já", nem uma "crise final".

Mas acredito que é algo que está preocupando os defensores do capitalismo. É neste sentido que podemos interpretar a afirmação de Vargas Llosa de que "esse é um desafio que as sociedades abertas enfrentam e para o qual nenhuma delas ainda encontrou uma resposta criativa."

 

4. Religião e economia

 

Frente a estes problemas encontramos dois tipos de atitude. Um que nega a seriedade ou a importância delas e continua tendo uma fé inabalável na capacidade do mercado solucionar por um automatismo inconsciente todos os problemas econômicos e sociais. Paul Omerod diz que, diante da economia mundial que está em crise, - com o número de desempregados atingindo a marca dos 20 milhões na Europa Ocidental, os Estados Unidos enfrentando o grave problema dos déficits do orçamento federal e o do balanço de comercial, as companhias japonesas prestes a quebrar a tradição do emprego vitalício por causa da mais profunda recessão desde a guerra e com as grandes frações da antiga União Soviética a beira do colapso econômico -, "a teoria econômica ortodoxa, presa na armadilha de uma visão idealizada e mecanicista não tem como ajudar" e que os economistas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, protegidos pela segurança que suas vastas burocracias lhe asseguram "pregam ao Terceiro Mundo a salvação por meio do mercado". (32)

"Os crentes nas virtudes redentoras do capitalismo globalizado" (33) acabam, pela sua própria fé no mercado caindo em uma armadilha. A fé na capacidade da "mão invisível" do mercado de transformar, através de efeitos não-intencionais, a somatória dos interesses próprios em bem comum não permite que se pense e procure soluções para a crise fora da própria lógica do mercado. Buscar soluções extra-mercado, como a intervenção do Estado ou da sociedade civil, seria negar a fé no mercado.

A partir desta crença, todos os problemas sociais são vistos como "sacrifícios necessários" exigidos pelo mercado. Esta transcendentalização do mercado e o sacrificialismo daí decorrente é criticado pelos teólogos da libertação como a idolatria do mercado. (34)  A noção ocidental de "sacrifícios necessários" está fortemente marcada pela interpretação da cristandade sobre a morte de Jesus. Ao interpretar a morte de Jesus como uma morte sacrificial definitiva e plena exigida por Deus-Pai para a salvação da humanidade, a cristandade acabou consolidando a idéia de que não há salvação sem sacrifícios.

Esta teologia tem como resultado uma transfiguração do mal. Quando os sofrimentos impostos sobre seres humanos são considerados como caminhos exigidos por Deus para a salvação, estes sofrimentos deixam de ser um mal e passam a ser um "bem" ao qual não podemos e nem devemos querer fugir. Esta inversão, típica da idolatria, tem o poder de gerar consciências tranqüilas diante do sofrimento humano. (35) É o que antes denominamos de "cultura de cinismo". Este tipo de teologia sacrificial serviu, por exemplo, para justificar o sacrifício de milhões de indígenas na América. Serve também para que teólogos como M. Novak critique teologias e comunidades que lutam para minorar o sofrimento dos pobres dizendo: "Se Deus desejou que seu amado filho sofresse, por que iria poupar-nos?"(36)

 

Na lógica do mercado, os sacrifícios de vidas humanas não são mais exigidos em nome de um Deus transcendental, mas em nome de uma instituição que foi transcendentalizada, o mercado. Os sacrifícios, "os custos sociais", são impostos sobre seres humanos em nome da redenção econômica. Quando estes sacrifícios não geram os resultados prometidos, os sacrificadores tem duas opções: aceitar que os sacrifícios foram em vão e assumir que foram responsáveis pelo assassinato em massa; ou defender-se dizendo que os sacrifícios ainda não surtiram efeitos porque ainda existem pessoas e grupos que persistem em não aceitar a inevitabilidade das leis do mercado e exigem, através de movimentos sociais, sindicatos, partidos e outras instituições intervenção no mercado em busca de metas sociais.

Na prática, este grupo caminha na direção de solucionar as contradições acima citadas com a relativização e até o menosprezo pela democracia, com a cultura do cinismo frente à exclusão social e uma visão do tempo restrito ao presente, ao consumo presente. Crendo na capacidade mágica do mercado e na capacidade "infinita" da tecnologia humana. George Gilder, um famoso consultor norte-americano, é um exemplo típico da mistura de um misticismo religioso, irracionalismo e crença no mercado e na tecnologia que tenta negar a realidade das contradições e as crises sociais. Comentando sobre a contradição entre o desejo de acumulação e consumo infinitos e as limitações da natureza, ele pergunta: "Por que será que enquanto as possibilidades humanas atingem limites nunca dantes sequer suspeitados na História, os especialistas, na sua maior parte, parecem acometidos de ataque de claustrofobia?" Sua resposta: "Desde que a existência de Deus foi negada, esses homens que depositam todos os recursos de inteligência na razão, no raciocínio e na lógica, caíram na armadilha que eles mesmos haviam armado.

Felizmente, o mundo não desabou com eles, o homem não é finito e a sua mente não se resume à materialidade de um cérebro. Da mesma forma que o desassossego e a histeria dos intelectuais modernos, a crise de energia é um fenômeno religioso, uma conseqüência da falta de fé. E ela só pode ser superada por uma crença profunda, pelo reconhecimento pleno de que, além da escuridão e da cegueira do materialismo, existe um reino do espírito, que se alcança através da íntima relação da fé e do fato - o nome a que podemos dar à ciência -, da inspiração poética, de tudo isto, misterioso e inefável, que não deixa de ser uma forma de oração."(37)

 

Esta longa citação pode entusiasmar pessoas religiosas que ingenuamente acreditam que qualquer referência à religião, principalmente numa linguagem tão mística, é em si boa. Este discurso religioso que se parece a tantos outros que inundam a tão falada revalorização da espiritualidade hoje não é nada mais do que um discurso que tenta negar a contradição real existente entre o desejo de consumo ilimitado e os limites do ser humano e da natureza como um todo. Negação essa que implica na real possibilidade de destruição do habitat humano e na condenação da grande parte da população à condição de vida infra-humana.(38)

 

Uma segunda posição que encontramos é daqueles que assumem a gravidade das contradições e da crise econômica e procuram encontrar uma saída que não  seja exclusivamente do interior da lógica do mercado, mas que seja subordinada a esta. Francis Fukuyama, o famoso autor da tese do "fim da história", engrossa esta fileira com o seu último livro, Confiança: as virtudes sociais e a criação da prosperidade. Neste livro ele afirma que a maior eficiência econômica não é obtida por indivíduos racionais auto-interessados, mas sim por grupos de indivíduos que são capazes de trabalhar juntos eficientemente, devido a uma comunidade moral preexistente.

E que "uma das lições mais importantes que se aprende com um exame da vida econômica é que o bem-estar de uma nação, bem como sua capacidade de competir, é condicionada a uma única, abrangente característica cultural: o nível de confiança inerente à sociedade." (39)

 

Segundo Kenneth J. Arrow, prêmio Nobel de economia, "atualmente, a confiança tem um valor pragmático muito importante. Ela é extremamente eficiente; poupa muito trabalho termos um razoável grau de confiança na palavra dos outros. Infelizmente, não se trata de uma mercadoria que possa ser adquirida com facilidade." (40) Se, "infelizmente" (sic) a confiança ainda não é uma mercadoria disponível no mercado, onde se pode conseguir este componente tão fundamental para a eficiência econômica? Fukuyama responde: "confiança não é conseqüência de cálculo racional; ela nasce de fontes como religião ou hábito ético, que não têm nada a ver com modernidade." (41) Por isso, ele defende a tese de que "para as instituições da democracia e do capitalismo funcionarem apropriadamente, elas têm de coexistir com outros hábitos culturais pré-modernos que asseguram seu correto funcionamento" e estes "não são anacronismos numa sociedade moderna; pelo contrário, são a condição sine qua non para o seu sucesso." (42)

 

Esta recuperação de valores pré-modernos, em particular os valores religiosos, não é um abandono da tese de que o capitalismo é o ápice da história, mas sim um retomar de uma tradição norte-americana. Como diz Michel Albert, "desde a origem, sem dúvida, a América é devotada ao dólar, mas mantinha uma mão sobre a Bíblia e outra sobre a Constituição. Permanecia uma sociedade profundamente religiosa, (...) E a moral tradicional implicava restrições, inspirava mandamentos, que não eram apenas formais (...) E quanto ao 'tecido associativo' tão cheio de vida, já foi dito a que ponto seu papel de amortecedor social era importante. Em suma, ao administrar suas contradições básicas, a sociedade americana encontrava o seu equilíbrio. É exatamente este equilíbrio que está hoje em ruptura. O dinheiro era rei mas, como todas as realezas seu poder era contido, limitado. Hoje, seu poder tende a invadir todas as atividades sociais." (43)

 

Esta ruptura ou, nas palavras de Robert Reich, ex-secretário do Trabalho do  governo Clinton, a desintegração do pacto social ameaça a estabilidade e a autoridade moral da nação, (44) o que abala a confiança e, por fim, a eficiência.

 

Esta tentativa de revalorizar a religião (os seus ritos, valores morais, mitos...) como um instrumento para o aumento da eficiência e competitividade é facilmente constatável na literatura de administração de empresas e começa a ficar também cada vez mais presente na área da economia. A relação economia-religião, que antes era implícita e só aparecia claramente após o trabalho de desvelar a sua "teologia endógena" (Hugo Assmann), aparece agora explicitamente defendida pelos próprios defensores do sistema capitalista. (45)

 

Tanto os neoliberais radicais quanto os que reconhecem a necessidade de alguma correção para a manutenção do atual sistema econômico fazem o uso da religião. O primeiro grupo, com o seu discurso dogmático e sacrificialista.

O segundo, buscando a religião como instrumento para aumentar a eficiência e superar ou contornar as contradições internas do capitalismo. A religião está na moda e vai permanecer assim por mais tempo, não só na esfera pessoal e subjetiva, mas também na esfera empresarial e macro-econômica.

 

5. Transcendência e o mercado

 

A experiência religiosa é experiência de um mistério que transcende o ser humano. Seja entendido no sentido de uma experiência do sagrado que provoca fascínio e medo, como os estudiosos da religião tem a caracterizado, (46) ou como uma experiência absolutamente única que funda um sentido radical para toda a existência, que os místicos chama de experiência de Deus. (47) Não importa aqui qual o sentido dado ao termo "experiência religiosa", nem a veracidade desta experiência ou das religiões, que são as institucionalizações necessárias realizadas por grupos sociais que se formam em torno deste tipo de experiência.

 

Neste sentido, a religião é antes de mais nada uma tentativa humana de viver no interior da história um mistério que está além, que é transcendente.

Mesmo um discurso religioso com explícita intenção de manipulação deve necessariamente fazer menção a um mistério ou a seres que transcende o ser humano. O que nos interessa aqui é que a menção à religião implica necessariamente, pela sua própria lógica interna, na referência a algo que está além da nossa realidade humana ou das instituições humanas.

 

Quando se pretende revalorizar a religião como um instrumento de criação de confiança ou de outros objetivos em vista do aumento da eficiência e, em última instância, da riqueza, está negando à religião o que lhe é mais próprio: a referência à transcendência e, portanto, a relativização de todas as instituições humanas. Esta instrumentalização da religião ou a redução da religião a um instrumento da acumulação econômica só é possível e compreensível com a absolutização de algo que é exterior à experiência religiosa e que é inteiramente humano: o mercado. A lógica do mercado, com a sua lei da concorrência e a sobrevivência do mais eficaz, é elevada à condição de absoluto que sustenta todo o sistema. Até a religião deve se abdicar da referência à transcendência, o que está além do mercado e de todas as instituições humanas, e servir-lhe. O mercado é transcendentalizado, isto é, elevado à condição de sobre-humano absoluto. É o ídolo.

Este uso instrumental da religião revela, pela própria contradição do seu discurso, a sua falsidade e perversidade.

 

Contra a idolatria do mercado devemos reafirmar a nossa missão: sermos testemunhos da ressurreição de Jesus, sermos anunciadores do Deus de Jesus.

A melhor forma de negar a transcendentalização do mercado que sacrifica os pobres é testemunhando que Deus, mesmo presente no mundo, não se identifica com ele e nem com nenhuma outra instituição, porque é totalmente transcendente. Neste sentido é importante explicitarmos que a missão da Igreja é uma missão religiosa.

 

Dizer que a missão da Igreja é religiosa não significa dizer que a Igreja e os cristãos não devem se "intrometer" nas questões como as econômicas, sociais e políticas. Se assim fosse, nós seríamos testemunhas de um Deus totalmente insensível aos sofrimentos de seres humanos, isto é de um Deus totalmente insensível e cínico. Contrário de Deus que é amor e misericórdia.

Significa somente que a ação e os pronunciamentos das igrejas cristãs, enquanto instituições, devem manter a sua especificidade religiosa, isto é, agir e falar a partir da nossa experiência da fé.

 

Mesmo numa sociedade moderna, que se crê secularizada, e até mesmo dentro dos parâmetros da razão crítica moderna há uma tarefa fundamental para as religiões: anunciar a transcendência de Deus para que os seres humanos não se esqueçam da sua condição humana e para que não se absolutize nenhuma instituição social. Horkheimer, nos lembra muito bem que "qualquer ser limitado - e a humanidade é limitada- que se considera como o último, o mais elevado e o único, se converte em um ídolo faminto de sacrifícios sangüinário, e que tem, ademais, a capacidade demoníaca de mudar a identidade e de admitir nas coisas um sentido distinto." (48) E que diante deste tipo de perigo, não podemos contrapor uma comprovação da existência de Deus, pois o "conhecimento consciente do desamparo, da nossa finitude, não se pode considerar como prova da existência de Deus, senão que tão somente pode produzir a esperança de que exista um absoluto positivo." O que não significa que não devamos falar do Absoluto, pois se não podemos representar o Absoluto com a nossa linguagem humana, podemos, ao falar do absoluto, afirmar que "o mundo em que vivemos é algo relativo." (49) Neste sentido, a teologia para Horkheimer não é um discurso sobre Deus em si, mas "a consciência de que o mundo é um fenômeno, de que não é a verdade absoluta nem o último. A teologia é - me expresso conscientemente com prudência- a esperança de que a injustiça que caracteriza o mundo não pode permanecer assim, que o injusto não pode considerar-se como a última palavra." (50)

 

Ser testemunhas da transcendência da Deus não é uma tarefa fácil. A própria estrutura da experiência religiosa está marcada pela possibilidade de idolatria. Como só podemos, por causa da nossa condição, experienciar o sagrado através de algo humano, seja um objeto ou uma lei moral, sempre corremos o risco de confundirmos este "suporte" humano com o próprio mistério transcendente. É isso que ocorre muitas vezes quando esquecemos que os sacramentos, ritos religiosos e Igreja nunca são manifestação pura e plena de Deus; quando esquecemos que Igreja ou nosso projeto social em favor dos pobres não é Reino de Deus, e que portanto não podem ser absolutizados, mas sempre criticados e "reformados". Idolatria não é algo que só ocorre no mercado, mas é uma tentação permanente em todos os grupos humanos.

 

Uma forma de vencer a tentação da idolatria é sempre a afirmar a absoluta transcendência de Deus, mas, como diz Jon Sobrino, "se, de um lado, a transcendentalidade da experiência de Deus e a reserva escatológica proíbem declarar um único e exclusivo lugar para a expediência de Deus, também não exigem que se relativizem qualquer lugar histórico para tal experiência." (51)

O lugar por excelência onde podemos experienciar a presença de Deus na história e ao mesmo tempo criticar radicalmente a idolatria do mercado é no meio dos pobres, os excluídos do sistema que se auto-absolutiza. O sistema de mercado na sua tentativa de auto-absolutização tem que negar outras formas de pensar, isto é, impor um "pensamento único", negar qualquer outra alternativa social que não seja o capitalismo e negar a existência de pessoas fora do sistema. Pois, a existência de um pensamento diferente, uma alternativa social ou pessoas que não fazem parte deste sistema mostram a sua relatividade e os seus limites. Com a hegemonia no campo ideológico e nos meios de comunicação de massa, não é tão difícil negar a existência e a validade de pensamentos e projetos alternativos. Mais difícil é negar a existência de grupos de pessoas que estão fora do mercado, mais de 1 bilhão de pessoas no mundo.

 

Há basicamente dois caminhos para negar os limites revelados pelos excluídos. O primeiro é dizer, como de fato os "sacerdotes" do mercado dizem, que infelizmente o mercado ainda não se tornou total de fato, mas que a expansão necessária e benéfica do mercado em todos os aspectos da vida e em todas as partes do mundo irá resolver este problema. No fundo é a tese de que o mercado ainda não resolveu todos os problemas porque ainda não se tornou tudo em todos. O segundo é negar a dignidade humana dos que foram excluídos do mercado. Se eles são indivíduos sem dignidade humana, por causa da sua ineficiência e "preguiça", não há pessoas fora do mercado que possam revelar os limites e a relatividade do mercado. Na prática, encontramos uma combinação destes dois argumentos.

 

Afirmar a existência dos excluídos, a dignidade fundamental de todos eles e ouvir o seu clamor (52) e testemunhar - com a presença visível da Igreja no meio dos pobres e lutas concretas em favor deles- que Deus está no seu meio é a melhor forma de negar a absolutização do mercado, de desvelar concreta e praticamente os seus limites. Negar a idolatria do mercado e mostrar os seus limites não significa, contudo, negar o mercado de uma forma absoluta. Isso seria idolatria ao revés. O que precisamos é a adequação do mercado ao objetivo de vida digna e prazerosa para todos os seres humanos. E para isso, a opção pelos pobres, com tudo o que isso significa, continua sendo um caminho privilegiado da Igreja e dos cristãos na sua missão de testemunhar a sua fé em Deus que quer que "todos tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo. 10,10).

 

Um outro ponto importante na nossa missão é o problema do sacrifício. O ídolo é o deus que exige sacrifícios de vidas humanas, que não perdoa e nem ouve os clamores dos pobres. Deus, pelo contrário, é Aquele que ouve os clamores e, ao invés de exigir sacrifícios, oferece como Dom a misericórdia.

 

Sabemos que o sistema de mercado "bebeu" de uma determinada configuração histórica do cristianismo a sua teologia sacrificial. É óbvio que sacrificialismo esteve e está presente em muitas outras religiões e sociedades, mas também é inegável a influência da teologia sacrificial cristã na mentalidade do Ocidente. Na luta contra a cultura de insensibilidade que marca o nosso tempo, é fundamental mostrarmos que o sofrimento humano, em particular dos pobres excluídos por um sistema econômico opressor e injusto, não é uma exigência de Deus para a salvação. Precisamos com nossas práticas e testemunho de vida mostrar que o que Deus quer "é misericórdia e não sacrifícios" (Mt. 9,13).

 

Como sempre insistia Juan Luís Segundo, não pode haver uma teologia da libertação sem a libertação da teologia. Não conseguiremos contribuir eficazmente na luta contra a exclusão social causada pelo atual sistema de mercado se não conseguirmos, ao mesmo tempo, nos livrar das lógicas sacrificiais presentes em muitas das nossas teologias da salvação.

 

Por fim, quero lembrar que estes princípios teológico-políticos, a transcendência de Deus que nega a absolutização do mercado e a crítica do sacrificialismo em nome da misericórdia, estão no campo da "disputa ideológica". Disputa importante, mas que não deve nos fazer esquecer que há o outro polo: o da tecnologia e das instituições. A nossa espiritualidade deve desmascarar a ideologia neoliberal que cimenta o atual sistema excludente, mas também deve contribuir na formulação de novas diretrizes que devem orientar a criação de novas instituições e técnicas. Na tensão entre estes dois pólos é fundamental lembrarmos que Deus, a plenitude, o absoluto, está sempre além das nossas possibilidades humanas e históricas. Em outras palavras, a nossa experiência do mistério de Deus e o nosso desejo de vermos os problemas dos nossos irmãos resolvidos de uma forma plena e definitiva não devem nos fazer esquecer que é dentro das limitações e possibilidades históricas que podemos construir, não o Reino de Deus, mas sim sociedades e instituições que, apesar de todas as ambigüidades e limitações, sendo mais justas e fraternas sejam sinais antecipatórios do Reino definitivo.

 


Notas:

 

1. ORTIZ, Renato, Mundialização e cultura, 2a.ed., São Paulo: Brasiliense, 1994, p.29.

2. Idem, ibidem, p.29.

3. KENNEDY, Paul, Preparando para o século XXI, Rio de Janeiro: Campus, 1993, p.40.

4. RUFIN, Jean Cristophe, Os impérios e os novos bárbaros, 2a.ed., Rio de Janeiro: Record.

5. O problema da imitação do desejo de consumo foi tratado nos caps. 2 e 3.

6. BUARQUE, Cristovam, A revolução na esquerda e a invenção do Brasil, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.24.

7. ORMEROD, Paul, A morte da economia, São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.52.

8. Este tema é muito importante e vasto, mas extrapola o nosso artigo. Para uma visão introdutória recomendamos o livro de Edgar Morin, Introdução ao pensamento complexo, Lisboa: Piaget, 1991. Aplicado ao campo da educação e ao debate em torno do mercado, vide o excelente livro de Hugo Assmann, Metáforas novas para reencantar a educação, Piracicaba: Unimep, 1996. Aplicado ao debate das ciências econômicas, vide o livro de Paul Ormerod, A morte da economia, op.cit.

9. THUROW, Lester, El futuro del capitalismo, Buenos Aires: Javier Vergara, 1996, p.25.

10. Idem, ibidem, p.25. O trabalho clássico sobre este assunto continua sendo o de Max Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 3a.ed., São Paulo: Pioneira, 1983.

11. WEBER, Max, op.cit., p.131.

12. FUKUYAMA, F., O fim da história e o último homem, Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

13. THUROW, L., op. cit., p.77

14. Para uma visão sistemática desta relação, vide, por ex., F. Hinkelammert, Democracia y totalitarismo, San José:DEI, 1987, pp.12-44.

15. Sobre o neoliberalismo, vide, por ex., SADER, Emir (org), Pós-neoliberalismo, São Paulo: Paz e Terra, 1995. Uma visão teológica, com a análise do problema da idolatria, vide, por ex., SUNG, Jung Mo, Deus numa economia sem coração, 2a.ed.,São Paulo: Paulus, 1994, e ASSMANN, Hugo, Crítica à lógica da exclusão, São Paulo: Paulus, 1995.

16. ANDERSON, Perry, El despliegue del neoliberalismo y sus lecciones para la isquierda, Pasos, San José (Costa Rica): DEI, n.66, jul-ago/96, pp. 23-30. Citado da p.26.

17. SOROS, George, The capitalist threat, The Atlantic Monthly, fev/97, Boston, pp.45-58. Citado da p. 45.

18. Reproduzido na Revista Exame, n.633, 09/04/97, p.99.

19. VARGAS LLOSA, M., O diabo pregador, O Estado de São Paulo, 02/03/97, São Paulo, p.A-2.

20. Idem, ibidem.

21. Vide por ex., TOFFLER, Barbara L., Ética no trabalho, São Paulo: Makron Books, 1993; NASH, Laura, Ética nas empresas, São Paulo: Makron Books, 1993.

22. Vide por ex., CHAPPELL, Tom, A alma do negócio, Rio de Janeiro: Campus,

1994; COVEY, Stephen R., Os sete hábitos das pessoas muito eficazes, 13a.ed., São Paulo: Best Seller, s/d.

23. THUROW, L., op. cit., pp.15-16.

24. TEO, Bernardo, As religiões orientais e o mercado, Concilium, n.270, 1997/2, Petrópolis, pp.83-91. Citado da p. 88.

25. Um exemplo típico desta tendência é o livro de R.J. Hernsteis e C.Murray, The Bell Curve, New York, 1994.

26. GALBRAITH, John Kenneth, A cultura do contentamento, São Paulo: Pioneira, 1992.

27. WEBER, Max, A ética protestante e o espírito do capitalismo, 3. ed.,S.Paulo: Liv. Pioneira, 1983p. 122.

28. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos, Crise econômica e reforma do Estado no Brasil : Para uma nova interpretação da América Latina, São Paulo: Ed.34, 1996, p.46.

29. Idem, ibidem, p.52.

30. Op. cit., p.341.

31. Idem, p.324.

32. MEROD, Paul, op.cit., p. 13.

33. BELLUZZO, Luiz Gonzaga, A globalização da estupidez, Carta Capital, 18/09/96, Ano 3, n.32, São Paulo, p.59. Esta expressão é interessante porque é dita não por um teólogo da libertação, mas por um economista.

34. ASSMANN, H.& HINKELAMMERT, F., Idolatria do mercado, Petrópolis: Vozes, 1989; ASSMANN, H., Crítica à lógica da exclusão, São Paulo: Paulus, 1995; SUNG, J.M., Deus numa economia sem coração, 2.ed.,São Paulo: Paulus, 1994; Teologia e economia, 2.ed., Petrópolis: Vozes, 1995.

35. Sobre o lógica e circuito sacrificial no ocidente, vide HINKELAMMERT, Franz., Sacrificios humanos y sociedad occidental: Lucifer y la Bestia, San José (Costa Rica): DEI, 1991.(tradução brasileira pela Ed. Paulus)

36. NOVAK, Michael, O espírito do capitalismo democrático, Rio de Janeiro: Nordica, s/d., p.398. (orig. inglês, 1982)

37. GILDER, G.,O espírito de empresa, São Paulo: Pioneira, 1989, p. 60.

38. Sobre o problema da ecologia e sua relação com os pobres, vide BOFF, L., Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, São Paulo: Ática, 1995

39. FUKUYAMA, Francis, Confiança: as virtudes sociais e a criação da prosperidade, Rio de Janeiro: Rocco, 1996, p.21.

40. Kenneth J. Arrow, The Limits of Organization. Citado em FUKUYAMA, F., op.cit., pp.167-168.

41. op.cit., p.372.

42. Idem, ibidem, p.26.

43. ALBERT, Michel, Capitalismo X capitalismo, São Paulo: Fundação Fides-Loyola, 1992, p.102.

44. REICH, Robert B., Um programa inacabado, O Estado de São Paulo, 23/02/97, São Paulo, p. A-2

45. Vale a pena citar como um outro exemplo significativo as duas palestras de M. Camdessus, o diretor-geral do F.M.I., sobre a relação entre o Reino de Deus e Mercado. Marché-Royaume. La double appartenance, Documents EPISCOPAT. Bulletin du Secrétariat de la Conférence des Évêques de France, n.12, jul-ago/92; Mercado e o Reino frente à globalização da economia mundial, São Paulo: Newswork, s/d. (Conferência dada em México, 29/10/93), tratados no cap.1.

46. OTTO, Rudolf, O Sagrado. Um estudo do elemento não-racional na idéia do divino e a sua relação com o racional, São Bernardo do Campo-SP, Imprensa Metodista-Programa Ecumênico de Pós-graduação em Ciências da Religião, 1985; ELIADE, Mircea, O sagrado e o profano, Lisboa, ed. Livros do Brasil, s/d.,

47. Para uma distinção entre a experiência religiosa e a experiência de Deus, vide VAZ, Henrique C. de Lima, A experiência de Deus, em: VVAA, Experimentar Deus hoje, Petrópolis, Vozes, 1974, pp. 74-89.

48. HORKHEIMER, Max, La añoranza de lo completamente otro, em: MARCUSE. H., POPPER, K. e HORKHEIMER. M, A la búsqueda del sentido, Salamanca, Sígueme, 1976, pp. 67-124. Citado da p.68.

49. Idem, ibidem, p. 103.

50. Idem, ibidem, p. 106.

51. SOBRINO, Jon, A ressurreição da verdadeira Igreja, São Paulo: Loyola, 1982, p.138.

52. Sobre a revelação, o clamor dos pobres e o mercado, vide: SUNG, J.M., Deus numa economia sem coração; e ASSMANN, H., Clamor dos pobres e racionalidade econômica, São Paulo: Paulus, 1991. Na perspectiva mais filosófica, o tema do excluído como o "outro" do sistema de mercado foi trabalhado extensamente pelo E. Dussel.


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