ECONOMIA E RELIGIÃO: DESAFIOS PARA O CRISTIANISMO NO
SÉCULO XXI
Jung Mo Sung
O tema
evangelização e o Terceiro Milênio está na ordem do dia. Para que possamos
anunciar a boa-nova aos pobres e a toda humanidade precisamos conhecer os
principais problemas que os afligem. Quando se tem como horizonte de tempo o
terceiro milênio, é quase impossível fazer algumas análises sobre problemas
e suas causas. Por outro lado, não podemos também reduzir o horizonte de tempo
e espaço só ao imediato e ao cotidiano de pequenos grupos, especialmente
quando estamos vivendo o processo de globalização.
Por isso,
quero esboçar aqui uma análise que tem como horizonte de tempo não o milênio,
mas a virada do século. Tentar compreender quais são as grandes mudanças e
desafios de hoje que vão determinar as próximas décadas, e como o sistema
capitalista está enfrentando estas mudanças. Neste caminho vou privilegiar,
como tenho feito em outros textos, a relação entre a teologia e economia. Não
só porque, como um teólogo da libertação acredito ser fundamental trabalhar
a relação entre o anúncio da boa-nova aos pobres e as estruturas econômicas,
mas também porque a economia, uma instância da vida social que está se
tornando quase onipresente no mundo de hoje, está sendo relacionada cada vez
mais com a teologia e religião pelos próprios economistas e cientistas
sociais.
1. Uma visão global das mudanças.
Quem
acompanha minimamente as discussões e análises sobre o nosso
tempo já está se acostumando com a idéia de que estamos vivendo não só
em uma época de grandes mudanças, mas também uma mudança de época. Vejamos
alguns componentes principais deste processo.
1.Com o fim
do bloco comunista quase um terço da população mundial está tendo que
aprender com muitas dificuldades a passar de uma economia centralizada onde
todas ou pelo menos as principais decisões eram tomadas pelo Estado para uma
economia de mercado, com seus riscos, possibilidades de enriquecimento e
desigualdades sociais. As crises sociais e econômicas e conflitos étnicos no
Leste Europeu são sinais visíveis das dificuldades deste processo. Nesse
contexto, a China é um caso a parte. Não só pela sua população de um bilhão
e duzentos milhões de habitantes, mas pelo seu modelo de mudanças que tem
gerado um crescimento econômico superior a 10% ao ano nos últimos quinze anos.
A integração econômica cada vez maior da China na globalização,
independente da manutenção ou não do seu modelo político, vai modificar
profundamente a configuração econômica do planeta.
2. A
globalização da economia, possibilitada pelas transformações tecnológicas,
está acabando com a noção de economia nacional e diminuindo sensivelmente o
poder de influência dos Estados nacionais. Além da possibilidade de se
produzir e consumir sem as limitações das barreiras das fronteiras nacionais,
é preciso dar um destaque ao gigantismo do atual mercado financeiro, em torno
de 15 trilhões de dólares, e o seu caráter altamente especulativo, na medida
em que só uns quinze por cento deste total estão ligados ao sistema produtivo.
Na era da realidade virtual, podemos dizer que uma boa parte do capitalismo
internacional gira em torno de uma riqueza virtual.
3. Este
processo da globalização da economia vem sendo acompanhado por um outro de
mundialização da cultura. O conceito de economia global se refere a uma
estrutura única, subjacente a toda e qualquer economia, cuja dinâmica pode ser
mensurada pelos economistas por meio de indicadores como trocas e investimentos
internacionais. Na esfera cultural, entretanto, o mundialismo não se identifica
com a uniformidade. A cultura mundializada O tema evangelização e o Terceiro
Milênio está na ordem do dia se articula ao movimento de globalização das
sociedades, mas se trata de um universo simbólico específico à civilização
atual, de uma visão do mundo. "Nesse sentido ela convive com outras visões
de mundo, estabelecendo entre elas hierarquias, conflitos e acomodações."
(1) Não somente não implica no
aniquilamento das outras manifestações culturais "locais", mas
ocorre um processo no qual ela próprio se alimenta destas. Um exemplo disso é
a língua. O inglês é uma "língua mundial". Em alguns casos o inglês
é predominante (como na tecnologia, negócios internacionais e na Internet),
mas em outros momentos e esferas ele estará ausente ou terá um peso menor (família
e religião). "Sua transversalidade revela e exprime a globalização da
vida moderna; sua mundialidade preserva os outros idiomas no interior deste espaço
transglóssico." (2)
4. Se no início
do capitalismo e da modernização cultural no Ocidente prevalecia a ética e a
cultura do trabalho, na atual mundialização cultural, a cultura de consumo
desfruta uma posição de destaque, transformando-se numa das principais instâncias
mundiais de definição da legitimidade dos comportamentos e dos valores.
5. A mudança
tecnológica, também conhecida como revolução tecnológica, está criando uma
era dominada pelas indústrias baseadas na capacidade intelectual do ser humano.
Diferentemente do padrão anterior, onde a maioria das indústrias tinha seus
espaços geográficos determinados pela localização dos recursos naturais, a
posse do capital e o tipo de mão-de-obra necessária, estas novas indústrias não
têm lugares predeterminados e podem estabelecer-se em qualquer lugar que lhes
for mais conveniente.
6. O fim do
bloco comunista e o domínio exclusivo do capitalismo não significou a manutenção
de um centro ou um poder econômico ou político dominante. No século XIX, as
regras do comércio internacional foram formuladas e impostas pela Inglaterra, e
após a Segunda Guerra Mundial pelos Estados Unidos. Mas neste final do século
e, provavelmente, no século XXI a economia globalizada não tem e não terá
mais um centro "forte", mas sim vários "centros frouxos"
dispersos em grandes corporações transnacionais, em alguns países como
Estados Unidos, Japão e Alemanha e em organismos multilaterais como F.M.I.,
Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio. O problema que se levanta é
como um sistema econômico globalizado pode funcionar eficazmente sob o comando
de diversos "centros frouxos".
7. Além
destas questões, temos ainda o problema demográfico. A população dos países
pobres continua crescendo, ao mesmo tempo em que a dos países ricos estabiliza.
"Enquanto as democracias industriais representavam mais de um quinto da
população da Terra em 1950, essa parcela caiu para um sexto em 1985, e há
previsões de que encolha ainda mais, para um décimo, em 2025." (3)
Aliado a
isso temos também a concentração cada vez mais brutal da riqueza nas mãos de
uma minoria. Estes fatores geram o fenômeno das migrações em busca de
sobrevivência ou de dias melhores, sem falarmos nos refugiados por problemas
políticos. No século XVIII a Europa viveu um problema demográfico semelhante
e a solução encontrada foi a emigração para o "Novo Mundo". Só
que hoje os países ricos se fecham aos imigrantes, aos "novos bárbaros"
(4), porque com a revolução tecnológica a mão de obra não qualificada é
dispensável e os países industrializados, especialmente da Europa, também
vivem o problema do desemprego estrutural. Além deste problema da migração,
temos também o do envelhecimento da população que acarreta sérios problemas
para sistemas de seguridade social, na medida em que uma parcela
proporcionalmente menor de contribuintes deve sustentar um número cada vez
maior de aposentados.
8. Para não
alongarmos demasiadamente, quero citar somente mais um fator no processo de
grande transformação que estamos vivendo hoje: a questão ecológica. É certo
que o problema ambiental tem sido motivo mais de debates do que ações
concretas no nível macro-econômico ou político. Nesse sentido não deveria
fazer parte da lista dos fatores que estão mudando a configuração do mundo
hoje. Por outro lado, o aumento da consciência ecológica ou, pelo menos, da
consciência dos problemas ambientais e a influência desta questão no debate
sobre novos paradigmas teóricos nos permitem elencá-la. Do ponto de vista ecológico,
o alto padrão de consumo das elites dos países ricos e também da elite dos países
que imitam o padrão de consumo dos primeiros, as demandas excessivas e hábitos
de esbanjamento das populações integradas no mercado mundial e os bilhões de
excluídos em países pobres ou em países em desenvolvimento que aspiram
aumentar o seu nível de consumo, tendo como o seu modelo de imitação de
desejo os padrões de consumo da classe média e a elite, (5) constituem um sério
ataque ao nosso planeta. Por isso, os ambientalistas consideram essa questão
como uma corrida contra o tempo.
Neste
sentido, Cristovam Buarque diz que "a crise da modernidade não se
solucionará com um avanço na modernidade. Exige uma modernidade diferente: não
apenas nos meios, mas também nos propósitos e nos tipos de sociedade. Já não
é possível nem desejável atingir a riqueza dos 'países ricos'. Já não há
socialismo a ser copiado. A modernização da economia e a distribuição de
seus resultados não bastam; é preciso modernizar a modernização." (6)
Esse ponto
de vista, que critica os mitos do progresso e do desenvolvimento econômico e
contesta a suposição de que o crescimento é desejável por si e, por isso, a
produção econômica é a medida mais útil do sucesso material de um país,
provocou contra-ataque de muitos economistas. Para os otimistas, os recursos
naturais não constituem uma quantidade absoluta que está sendo constantemente
consumida; pelo contrário, para eles muitos recursos são criados pela
inventividade e o trabalho humanos, e a tecnologia tem uma capacidade infinita
de produzir novos recursos.
2. Novo
tempo, nova ideologia?
Para ter
uma visão mais completa do nosso grande cenário, precisamos ver também a
ideologia que está dinamizando e dando consistência a este processo.
Até pouco
tempo atrás, esta relação entre tecnologias e instituições de um lado e
crenças ou ideologias de outro não era muito valorizada nas análises sociais.
Isso porque a maioria dos cientistas sociais, tanto teóricos sob influência do
marxismo quanto os liberais neoclássicos, compartilhava de uma mesma visão sobre o mundo: o mundo como uma máquina.
Eles acreditavam, e ainda hoje muitos acreditam, que o mundo e a sociedade são
como uma máquina complicadíssima cujo funcionamento pode ser entendido se
juntarmos cuidadosa e meticulosamente as partes que a compõem. A partir desta
premissa concluíam que o comportamento do sistema como um todo poderia ser
deduzido de uma simples soma desses componentes, sejam indivíduos ou classes
sociais. Uma alavanca puxada em certa parte da máquina, com uma certa força,
provocaria resultados regulares e previsíveis em outra parte da máquina. É a
partir destas premissas que são impostos de um modo "impessoal" e
"universal", isto é válido para todas as sociedades, os ajustes econômicos
formulados pelo F.M.I. e Banco Mundial. Como também era a partir destas
premissas que muitas pessoas de boa vontade militaram nos movimentos eclesiais,
sociais e políticos com certeza inabalável da inevitabilidade do sucesso da
construção do Reino da Liberdade ou do Reino de Deus.
Na teoria
econômica neoclássica, a base "científica" do neoliberalismo, a peça
básica que compõe a máquina é o Homem Racional. Isto é, a sociedade é
vista como constituída por indivíduos que agem a partir do cálculo racional
de seus interesses, do cálculo que visa a maximização dos benefícios e a
minimização de custos. Além da redução do ser humano a um ser
essencialmente egoístico, a analogia do mundo com uma máquina bem azeitada
leva os economistas a pensarem que o mundo está fundamentalmente em harmonia e
equilíbrio. "Dada a partida, a máquina desliza, com cada parte componente
contribuindo para seu sereno progresso." (7) A partir disso, o crescimento
econômico é visto como simplesmente pacífico, desde que não haja intervenção
indevida do Estado e dos sindicatos, e os problemas das flutuações econômicas
e do desemprego simplesmente desapareceram da teoria econômica hegemônica nos
dias de hoje.
A fé nesta
concepção do mundo é tão forte que a Universidade de Chicago, o grande
centro do pensamento neoclássico contemporâneo, teve cinco dos seus
professores como ganhadores de Prêmio Nobel de Economia entre 1990 e 1995. E
dois dos mais renomados economistas neoclássicos do nosso tempo, Gary Becker e
James Buchanan, ganhadores de Nobel, construíram suas carreiras acadêmicas
estendendo a metodologia econômica neoclássica a fenômenos considerados não-econômicos,
como política, burocracia, racismo, família e fertilidade. No caso do controle
de natalidade, por exemplo, há economistas desta corrente advogando a idéia de
que a melhor forma de controlar a natalidade é mostrar aos pais que o
investimento em filhos não compensam o pouco e incerto retorno na forma de
cuidado na velhice. Melhor do que ter filhos é investir em fundos privados de
aposentadoria!
Para este
tipo de pensamento, o aumento da exclusão social e de outros problemas sociais
não são, na verdade, problemas, mas sim, sinais de que estamos no caminho de
uma solução real e definitiva. Sinais de que o Estado está abandonando a sua
pretensão indevida de intervir no mercado, em nome de metas sociais, e está
deixando o mercado funcionar livremente. No fundo, para eles o que nós chamamos
de problemas sociais são somente problemas de grupos de indivíduos
ineficientes que foram merecidamente alijados pelo sistema de concorrência do
mercado.
Esta visão
mecanicista e individualista do mundo foi expressa de uma forma clara na famosa
declaração de M. Tatcher de que isso que chamam de sociedade é algo que não
existe, só existem os indivíduos que a constituem.
Hoje, cada
vez mais, os cientistas chegam à conclusão de que esta maneira de ver o mundo
natural e social como uma máquina não é a mais apropriada. Ao invés da máquina,
estão utilizando como analogia o organismo vivo.
Comportamentos
de sistemas não são dedutíveis a partir da somatória dos comportamentos
individuais; são demasiados complexos para serem representados por uma
abordagem mecanicista. Com isso estão abdicando da certeza absoluta no diagnóstico
e da possibilidade de previsão "científica". (8)
Além
disso, esta nova maneira de ver o mundo e a sociedade humana traz ao debate econômico
o problema da ideologia e dos valores individuais e sociais. A dinâmica econômica
não é mais vista como um simples resultado da interação de fatores quantificáveis,
um princípio fundamental da ciência econômica desde o final do século XIX,
mas também resultado de interações com valores e outros fatores não
quantificáveis.
Neste
sentido, Lester Thurow, professor de economia do famoso M.I.T., escreveu que
"as sociedades florescem quando as crenças e tecnologias são congruentes
e declinam quando as mudanças inevitáveis nas crenças e tecnologias chegam a
ser incongruentes." (9) Esta
idéia não é nova, mas dita por um economista de prestígio nos Estados Unidos
revela um "sinal dos tempos". Para ele, a passagem do feudalismo não
se deu somente pela revolução tecnológica e novas institucionalidades, em
especial com respeito à propriedade e comércio. Ao lado disso, "o
capitalismo também necessitava de mudanças na ideologia. No Medievo a cobiça
era o pior de todos os pecados e o comerciante jamais poderia ser grato a Deus.
O capitalismo necessitava de um mundo onde a cobiça fora uma virtude e o
comerciante pudera ser mais grato a Deus. O indivíduo necessitava crer que
tinha não só o direito mas também o dever de ganhar o máximo de dinheiro
possível. A idéia de que incrementar o consumo é essencial para o bem estar
do indivíduo tem menos de duzentos anos. Sem esta crença, o incentivo do
capitalismo não tem sentido e o crescimento econômico fica desprovido de
objetivo." (10)
Se no início
o capitalismo necessitou da vinculação desta crença com a religião, com a
sua vitória pôde dispensar este abrigo. Pelo menos no nível do discurso explícito.
A este respeito M. Weber disse: "no setor de seu mais alto desenvolvimento,
nos Estados Unidos, a procura da riqueza, despida de sua roupagem ético-religiosa,
tende cada vez mais a associar-se com paixões puramente mundanas". (11)
Ora, o
capitalismo não precisa mais da religião para se autolegitimar e se livrou do
seu grande arquinimigo, o comunismo. Assim é natural que muitos concordem com a
tese de que a história chegou ao fim. (12)
Como diz
Thurow, "o capitalismo e a democracia vivem agora um período único na
história onde, com efeito, não tem concorrentes viáveis pela lealdade de seus
cidadãos. Isto tem sido chamado 'o fim da história'." (13)
Contudo, se
é verdade que há uma relação entre a tecnologia e as instituições de uma
determinada sociedade com ideologia, (14) quais são as implicações das
grandes mudanças que vimos anteriormente na composição tecnologia-ideologia
do sistema capitalista atual? Em outras palavras, estas grandes mudanças vão
exigir, ou já estão exigindo, mudanças no campo ideológico sob a pena de
ineficiência do sistema de mercado capitalista? Não somente pelas mudanças
tecnológicas, mas também pelo próprio fim do bloco comunista que leva o mundo
capitalista a se enfrentar com problemas e contradições internas que o
enfrentamento externo deixava em segundo plano.
Com isso não
estamos querendo dizer que o neoliberalismo, (15) a ideologia hegemônica do
nosso tempo, está em crise, muito menos em sua fase final.
Como diz
Perry Anderson, "o projeto neoliberal continua demonstrando uma vitalidade
impressionante. (...) A agenda política segue sendo ditada pelos parâmetros
neoliberais, mesmo quando seu momento de atuação econômica parece amplamente
estéril ou desastroso. Como explicar este segundo alento no mundo capitalista
avançado? Uma de suas razões fundamentais foi claramente a vitória do
neoliberalismo em outra área do mundo, isto é, a queda do comunismo na Europa
Oriental e na União Soviética (...) Não
há neoliberais mais intransigentes no mundo que os 'reformadores' do
Leste." (16)
Contudo,
começam a aparecer sinais de que há algo de novo ocorrendo neste campo.
Recentemente George Soros, um megainvestidor que dirige um fundo de investimento
de 16 bilhões de dólares e confesso discípulo de Karl Popper, escreveu um
longo artigo, The Capitalista Threat, atacando duramente o atual sistema
capitalista: "Embora eu tenha feito uma fortuna nos mercados financeiros,
agora eu tenho medo de que a intensificação desimpedida do capitalismo de
laissez-faire e a difusão dos valores do mercado para todas as áreas da vida
está colocando em perigo a nossa sociedade aberta e democrática. O principal
inimigo da sociedade aberta, eu acredito, não é mais o comunismo mas a ameaça
capitalista." (17)
Um ataque tão
vigoroso vindo de alguém que está no topo do sistema só poderia causar, como
causou, muita polêmica. A revista Forbes, por exemplo, publicou um artigo sobre
Soros no qual não rebate nenhum dos seus argumentos fundamentais, mas se
restringe basicamente a críticas pessoais, tentanto combater suas idéias através
da desmoralização do autor, taxando-o de um homem rico e excêntrico, e
"um pouco ridículo - passa seu tempo voando pelo mundo, dando entrevistas
coletivas à imprensa e escrevendo livros e artigos que ninguém
entende".(18)
Vargas
Llosa, um ferrenho defensor do neoliberalismo, também escreveu um artigo para
rebater George Soros, com o nome sugestivo de "O diabo pregador".(19)
Nele o autor concorda com uma única tese de Soros: a de que quando Adam
Smith desenvolveu a sua teoria sobre a "mão invisível" do mercado
estava convencido de que ela se apoiava numa filosofia moral muito firme e que
os grandes pensadores liberais, incluindo Popper, acreditavam que o mercado e o
sucesso econômico eram apenas um meio para a realização dos elevados ideais
éticos de solidariedade social, de progresso cultural e o aperfeiçoamento
individual. E que na versão do capitalismo triunfante hoje o culto do êxito
substituiu a crença nos princípios e que, por isso, a sociedade perdeu o seu
norte. Para ele, um grande desafio ao capitalismo hoje é o descalabro da
cultura religiosa e uma transformação radical da cultura provocada pelo
desenvolvimento da tecnologia, da ciência e economia. E apela à autoridade de
Adam Smith e Von Mises para defender a tese de que uma vida cultural e religiosa
intensa é "o complemento indispensável do mercado livre para atingir a
civilização". (20) O apelo à cultura e, em particular, à cultura
religiosa feito por um ardoroso defensor do neoliberalismo é um "sinal dos
tempos" que revela que a vitória deles não é tão cabal e muito menos
definitiva como eles mesmos gostariam que fosse e andaram apregoando. Aliás, é
possível perceber entre economistas liberais uma tendência de releitura de
Adam Smith, tentando complementar o clássico da economia "A riqueza das nações"
com um outro livro seu, "A teoria dos
sentimentos morais".
Esta
revalorização da dimensão cultural e até mesmo das questões éticas e
religiosas já era notória no campo da administração de empresas. A concorrência
das empresas japonesas obrigou as empresas ocidentais a implementarem programas
de reorganização empresarial, como Controle de Qualidade Total e Reengenharia,
e neste processo a se enfrentarem com questões éticas, culturais e religiosas.
Além desta influência externa, houve também uma causa interna. Com o
surgimento das grandes empresas e corporações do tipo Sociedades Anônimas, o
capitalismo se viu diante de um novo problema. O crescimento levou à constituição
de uma burocracia nas empresas privadas e a distinção entre a figura de
proprietários ou acionistas e dos dirigentes das empresas. Estes dois fatores
geraram o grave problema da corrupção no interior das empresas. Se levado em
extremo o individualismo liberal - a defesa do interesse próprio - no interior
das empresas, um funcionário graduado pode levar uma empresa à falência ou a
grandes dificuldades econômicas, como têm aparecido diversas vezes em noticiários.
Estes
desafios externo e interno levaram à revalorização da ética nas empresas e
nos negócios,(21) a tal ponto que todas as principais faculdades de administração
de empresas têm hoje cursos obrigatórios sobre ética, e também das questões
culturais e religiosas. (22) É importante destacar que esta valorização da ética,
cultura e religião na administração de empresas é uma valorização
instrumental, isto é, não em vista da ética ou religião, mas sim em busca da
maior eficiência produtiva.
Esta mudança
de enfoque que antes era mais restrito ao campo da administração de empresas
está chegando também ao campo da economia. A polêmica em torno de George
Soros e o artigo de Vargas Llosa é uma "ponta de icebergue". Para
entendermos um pouco melhor esta questão, vejamos algumas contradições
internas do sistema capitalista que está por trás desta revalorização da
cultura e dos valores religiosos na economia.
3. As contradições do sistema.
Antes de
tratarmos das contradições internas do capitalismo, é importante destacarmos
um outro sinal mais concreto da crise do sistema capitalista: a diminuição do
ritmo de crescimento econômico. "Na década dos anos sessenta a economia
mundial cresceu a um ritmo de 5% anual (corrigido pela inflação). Nos anos
setenta, o crescimento diminuiu para 3,6% ao ano. Nos anos oitenta houve uma
maior desaceleração atingindo 2,8% anual e na primeira metade da década dos
noventa o mundo experimentou um ritmo de crescimento de apenas 2% ao ano. Em
duas décadas o capitalismo perdeu 60% do seu impulso." (23) Este diagnóstico
de crise não é baseado em critérios extra-capitalistas, como por exemplo a
exclusão dos pobres, mas sim no critério capitalista por excelência: o
crescimento econômico. Esta é a principal causa pela qual alguns defensores
incondicionais do capitalismo estão propondo novas leituras da teoria econômica
e aceitando discutir as suas contradições internas.
Visto isto,
a primeira contradição que queremos tratar é a que ocorre entre a democracia
e o mercado nos países capitalistas ocidentais. Esta especificação de países
capitalistas ocidentais é necessária porque no Oriente, em particular nos países
chamados de Tigres Asiáticos a modernização capitalista no campo econômico não
foi acompanhada da democratização política, nem do individualismo liberal
ocidental. Apesar de que com o fortalecimento da cultura do mercado, "as
sociedades asiáticas de tradição confuciana centrada na família estão
mudando rápida e definitivamente para um individualismo auto-centrado. A
incessante busca de sucesso material torna-se o instrumento para medir o valor e
a posição na sociedade." (24)
No
Ocidente, a vitória sobre o bloco comunista foi celebrada como a vitória do
capitalismo democrático. A democracia liberal se baseia na noção de "um
indivíduo, um voto", isto é, na igualdade formal entre todos os cidadãos.
O sistema de mercado, por outro lado, se baseia na capacidade de concorrência
dos indivíduos no mercado, na lei da sobrevivência do mais forte ou do mais
apto e, com isso, tende à desigualdade social e concentração de riqueza,
chegando, como nos dias de hoje, à exclusão social de uma parcela importante
da população.
Nas décadas
passadas esta contradição foi contornada com o Estado de Bem Estar Social.
Cabia ao Estado diminuir as diferenças sociais e proporcionar a todos os cidadãos,
pelo menos em tese, as condições para uma vida digna e capacidade para
disputar pelas oportunidades oferecidas no mercado de trabalho. É bom
lembrarmos que este modelo de Estado se efetivou no interior do capitalismo
pelas mãos da elite dominante por causa da pressão social e da ameaça da
alternativa socialista. Eles preferiram "entregar os anéis para não
perder o dedo". Com a derrocada do bloco socialista e a hegemonia do
neoliberalismo, o desmonte do Estado de Bem Estar Social passou a ser visto como
algo necessário e lógico.
A
contrapartida ideológica deste desmonte foi o ressurgimento do "darwinismo
social" com novas roupagens "científicas" (25) e o que Galbraith
chamou de "cultura do contentamento" (26), onde a riqueza pessoal é
vista como justamente merecida e, portanto, a pobreza como também um castigo
justo pela ineficiência dos pobres. É a volta da idéia de que se os indivíduos,
se vêem forçados a enfrentarem a fome, se esforçarão ao máximo para
sobreviver no mercado. Assim, o fim da assistência pública aos pobres levaria
todos os marginalizados do mercado a se reintegrarem nele pelo seu próprio
esforço. Nesta lógica, programas sociais não somente são ineficientes e
geradores de déficit público, mas fazem mal à própria pessoa do pobre, na
medida em que não o leva a assumir a sua própria responsabilidade e a
desenvolver todo o seu potencial.
O problema
é que nenhuma sociedade pode viver muito tempo com esta cultura cínica. Um
individualismo cínico levado ao extremo destrói a própria noção de
sociedade. Além disso, o desemprego estrutural, a exclusão social, o desmonte
de programas sociais e a cultura cínica formam um caldeirão que pode resultar
em uma rebelião social ou uma ruptura do tecido social.
A segunda
contradição é a que se dá entre o consumo e investimento. Esta tensão é
implícita em todo e qualquer tipo de capitalismo. Como vimos acima, é
fundamental no capitalismo que os indivíduos creiam que tem não só o direito,
mas também o dever de ganhar o máximo de dinheiro possível para usufruir padrões
cada vez melhores de consumo. O problema é que o capitalismo para poder
oferecer este padrão cada vez melhor precisa que os próprios indivíduos
tenham a disposição de refrear este desejo de consumo e lazer e invistam
dinheiro e tempo em novas fábricas, equipamentos, infra-estruturas, pesquisa e
desenvolvimento de novas tecnologias e capacitação dos trabalhadores.
No passado
esta contradição foi em parte solucionada pelo ascetismo secular puritano que
opunha "poderosamente, ao espontâneo usufruir das riquezas, e restringia o
consumo, especialmente o consumo do luxo", ao mesmo tempo em que
"libertava psicologicamente a aquisição de bens das inibições da ética
tradicional, rompendo os grilhões da ânsia de lucro". (27) Esta ética do
trabalho foi sendo substituída lentamente pela ética do consumo. Contudo, com
a Guerra Fria o Estado exerceu a importante função de investimento em novas
tecnologias, especialmente na área militar, que serviram de alavanca ao
desenvolvimento econômico nos países capitalistas.
Hoje, na
era das empresas baseadas em capacidade intelectual, o investimento nas
habilidades humanas da população em geral, na tecnologia e na infra-estruturas
são pontos chaves para o crescimento econômico mais duradouro. O problema é
que indivíduos e empresas capitalistas, por sua própria lógica interna, não
podem por si só se responsabilizar por este tipo de investimento a longo prazo.
Caberia ao governo este papel de representar o interesse do futuro no presente e
o da nação frente aos interesses atomizados das empresas e indivíduos e fazer
investimentos necessários para o futuro do capitalismo. Só que o fim da Guerra
Fria, a hegemonia do neoliberalismo com o seu programa de Estado mínimo e a
cultura individualista com a sua ética de consumo estão levando os Estados ao
caminho inverso: consumir estes fundos em benefício do consumo imediato dos
cidadãos-eleitores de hoje e, nos casos de países latino-americanos, gastar
nos pagamentos de juros da dívida interna e externa e no financiamento do fascínio
do consumo de bens importados.
No caso
particular dos países latino-americanos endividados, é preciso recordar que o
problema da dívida externa, apesar de ausente nos meios de comunicação,
continua sendo um grande empecilho para o desenvolvimento da região. Como diz
Bresser Pereira, "atualmente, a principal restrição ao crescimento
origina-se das características dos desequilíbrios, que perduram no longo
prazo, induzidos pela crise da dívida externa, que, após dez anos, ainda não
se reverteu." (28) Para ele, "o crescimento será retomado apenas se a
estabilização e as reformas orientadas para o mercado forem complementadas
pela recuperação da capacidade de poupança do Estado e pela elaboração de
políticas que definam um novo papel estratégico para o Estado. Em outras
palavras, desde que o Estado seja reconstruído, recuperando sua capacidade de
intervenção." (29) Sem
entrar no debate sobre as suas teses sobre a orientação para o mercado e uma
possível identificação entre crescimento econômico e o desenvolvimento
social, fica aqui registrada a importância fundamental da reconstrução econômica
e política da capacidade de intervenção do Estado na economia e no campo
social. Sem ela não será superada a crise econômica da maioria dos países
latino-americanos e também a própria contradição do capitalismo, no que
tange à tensão entre o consumo e investimento, e muito menos o grave problema
da exclusão social.
Aqui vale a
pena fazer uma longa citação de Lester Thurow: "A tecnologia e a
ideologia estão sacudindo os cimentos do capitalismo do século vinte e um. A
tecnologia está fazendo das habilidades e do conhecimento as únicas fontes de
vantagem estratégica sustentável. Induzida pelos meios eletrônicos, a
ideologia está se deslocando para formas radicais de consumo individual de
curto prazo precisamente no momento em que o êxito econômico depende da
disposição e atitudes para fazer investimentos sociais de longo prazo em
habilidades, educação, conhecimento e infra-estrutura. Quando a tecnologia e
ideologia começam a se separar, a única pergunta que caberá formular é
quando será o 'grande cismo' (o terremoto que vai sacudir o sistema).
Paradoxalmente, no preciso momento em que o capitalismo se encontra sem
competidores sociais - tendo desaparecido seus ex-competidores, o socialismo e o
comunismo - terá que passar por uma profunda metamorfose." (30) "Na
próxima era, o capitalismo terá que criar novos valores e novas instituições".
(31)
É bom
relembrarmos que o autor dessa afirmação não é nenhum socialista ou marxista
que teima em prever o fim iminente do capitalismo, mas sim um respeitado
professor de economia do M.I.T; e que esta possível crise do capitalismo não
é, como muitos gostariam, "para já", nem uma "crise
final".
Mas
acredito que é algo que está preocupando os defensores do capitalismo. É
neste sentido que podemos interpretar a afirmação de Vargas Llosa de que
"esse é um desafio que as sociedades abertas enfrentam e para o qual
nenhuma delas ainda encontrou uma resposta criativa."
4. Religião e economia
Frente a
estes problemas encontramos dois tipos de atitude. Um que nega a seriedade ou a
importância delas e continua tendo uma fé inabalável na capacidade do mercado
solucionar por um automatismo inconsciente todos os problemas econômicos e
sociais. Paul Omerod diz que, diante da economia mundial que está em crise, -
com o número de desempregados atingindo a marca dos 20 milhões na Europa
Ocidental, os Estados Unidos enfrentando o grave problema dos déficits do orçamento
federal e o do balanço de comercial, as companhias japonesas prestes a quebrar
a tradição do emprego vitalício por causa da mais profunda recessão desde a
guerra e com as grandes frações da antiga União Soviética a beira do colapso
econômico -, "a teoria econômica ortodoxa, presa na armadilha de uma visão
idealizada e mecanicista não tem como ajudar" e que os economistas do
Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, protegidos pela segurança
que suas vastas burocracias lhe asseguram "pregam ao Terceiro Mundo a salvação
por meio do mercado". (32)
"Os
crentes nas virtudes redentoras do capitalismo globalizado" (33) acabam,
pela sua própria fé no mercado caindo em uma armadilha. A fé na capacidade da
"mão invisível" do mercado de transformar, através de efeitos não-intencionais,
a somatória dos interesses próprios em bem comum não permite que se pense e
procure soluções para a crise fora da própria lógica do mercado. Buscar soluções
extra-mercado, como a intervenção do Estado ou da sociedade civil, seria negar
a fé no mercado.
A partir
desta crença, todos os problemas sociais são vistos como "sacrifícios
necessários" exigidos pelo mercado. Esta transcendentalização do mercado
e o sacrificialismo daí decorrente é criticado pelos teólogos da libertação
como a idolatria do mercado. (34) A
noção ocidental de "sacrifícios necessários" está fortemente
marcada pela interpretação da cristandade sobre a morte de Jesus. Ao
interpretar a morte de Jesus como uma morte sacrificial definitiva e plena
exigida por Deus-Pai para a salvação da humanidade, a cristandade acabou
consolidando a idéia de que não há salvação sem sacrifícios.
Esta
teologia tem como resultado uma transfiguração do mal. Quando os sofrimentos
impostos sobre seres humanos são considerados como caminhos exigidos por Deus
para a salvação, estes sofrimentos deixam de ser um mal e passam a ser um
"bem" ao qual não podemos e nem devemos querer fugir. Esta inversão,
típica da idolatria, tem o poder de gerar consciências tranqüilas diante do
sofrimento humano. (35) É o que antes denominamos de "cultura de
cinismo". Este tipo de teologia sacrificial serviu, por exemplo, para
justificar o sacrifício de milhões de indígenas na América. Serve também
para que teólogos como M. Novak critique teologias e comunidades que lutam para
minorar o sofrimento dos pobres dizendo: "Se Deus desejou que seu amado
filho sofresse, por que iria poupar-nos?"(36)
Na lógica
do mercado, os sacrifícios de vidas humanas não são mais exigidos em nome de
um Deus transcendental, mas em nome de uma instituição que foi
transcendentalizada, o mercado. Os sacrifícios, "os custos sociais",
são impostos sobre seres humanos em nome da redenção econômica. Quando estes
sacrifícios não geram os resultados prometidos, os sacrificadores tem duas opções:
aceitar que os sacrifícios foram em vão e assumir que foram responsáveis pelo
assassinato em massa; ou defender-se dizendo que os sacrifícios ainda não
surtiram efeitos porque ainda existem pessoas e grupos que persistem em não
aceitar a inevitabilidade das leis do mercado e exigem, através de movimentos
sociais, sindicatos, partidos e outras instituições intervenção no mercado
em busca de metas sociais.
Na prática,
este grupo caminha na direção de solucionar as contradições acima citadas
com a relativização e até o menosprezo pela democracia, com a cultura do
cinismo frente à exclusão social e uma visão do tempo restrito ao presente,
ao consumo presente. Crendo na capacidade mágica do mercado e na capacidade
"infinita" da tecnologia humana. George Gilder, um famoso consultor
norte-americano, é um exemplo típico da mistura de um misticismo religioso,
irracionalismo e crença no mercado e na tecnologia que tenta negar a realidade
das contradições e as crises sociais. Comentando sobre a contradição entre o
desejo de acumulação e consumo infinitos e as limitações da natureza, ele
pergunta: "Por que será que enquanto as possibilidades humanas atingem
limites nunca dantes sequer suspeitados na História, os especialistas, na sua
maior parte, parecem acometidos de ataque de claustrofobia?" Sua resposta:
"Desde que a existência de Deus foi negada, esses homens que depositam
todos os recursos de inteligência na razão, no raciocínio e na lógica, caíram
na armadilha que eles mesmos haviam armado.
Felizmente,
o mundo não desabou com eles, o homem não é finito e a sua mente não se
resume à materialidade de um cérebro. Da mesma forma que o desassossego e a
histeria dos intelectuais modernos, a crise de energia é um fenômeno
religioso, uma conseqüência da falta de fé. E ela só pode ser superada por
uma crença profunda, pelo reconhecimento pleno de que, além da escuridão e da
cegueira do materialismo, existe um reino do espírito, que se alcança através
da íntima relação da fé e do fato - o nome a que podemos dar à ciência -,
da inspiração poética, de tudo isto, misterioso e inefável, que não deixa
de ser uma forma de oração."(37)
Esta longa
citação pode entusiasmar pessoas religiosas que ingenuamente acreditam que
qualquer referência à religião, principalmente numa linguagem tão mística,
é em si boa. Este discurso religioso que se parece a tantos outros que inundam
a tão falada revalorização da espiritualidade hoje não é nada mais do que
um discurso que tenta negar a contradição real existente entre o desejo de
consumo ilimitado e os limites do ser humano e da natureza como um todo. Negação
essa que implica na real possibilidade de destruição do habitat humano e na
condenação da grande parte da população à condição de vida
infra-humana.(38)
Uma segunda
posição que encontramos é daqueles que assumem a gravidade das contradições
e da crise econômica e procuram encontrar uma saída que não
seja exclusivamente do interior da lógica do mercado, mas que seja
subordinada a esta. Francis Fukuyama, o famoso autor da tese do "fim da
história", engrossa esta fileira com o seu último livro, Confiança: as
virtudes sociais e a criação da prosperidade. Neste livro ele afirma que a
maior eficiência econômica não é obtida por indivíduos racionais
auto-interessados, mas sim por grupos de indivíduos que são capazes de
trabalhar juntos eficientemente, devido a uma comunidade moral preexistente.
E que
"uma das lições mais importantes que se aprende com um exame da vida econômica
é que o bem-estar de uma nação, bem como sua capacidade de competir, é
condicionada a uma única, abrangente característica cultural: o nível de
confiança inerente à sociedade." (39)
Segundo
Kenneth J. Arrow, prêmio Nobel de economia, "atualmente, a confiança tem
um valor pragmático muito importante. Ela é extremamente eficiente; poupa
muito trabalho termos um razoável grau de confiança na palavra dos outros.
Infelizmente, não se trata de uma mercadoria que possa ser adquirida com
facilidade." (40) Se, "infelizmente" (sic) a confiança ainda não
é uma mercadoria disponível no mercado, onde se pode conseguir este componente
tão fundamental para a eficiência econômica? Fukuyama responde: "confiança
não é conseqüência de cálculo racional; ela nasce de fontes como religião
ou hábito ético, que não têm nada a ver com modernidade." (41) Por
isso, ele defende a tese de que "para as instituições da democracia e do
capitalismo funcionarem apropriadamente, elas têm de coexistir com outros hábitos
culturais pré-modernos que asseguram seu correto funcionamento" e estes
"não são anacronismos numa sociedade moderna; pelo contrário, são a
condição sine qua non para o seu sucesso." (42)
Esta
recuperação de valores pré-modernos, em particular os valores religiosos, não
é um abandono da tese de que o capitalismo é o ápice da história, mas sim um
retomar de uma tradição norte-americana. Como diz Michel Albert, "desde a
origem, sem dúvida, a América é devotada ao dólar, mas mantinha uma mão
sobre a Bíblia e outra sobre a Constituição. Permanecia uma sociedade
profundamente religiosa, (...) E a moral tradicional implicava restrições,
inspirava mandamentos, que não eram apenas formais (...) E quanto ao 'tecido
associativo' tão cheio de vida, já foi dito a que ponto seu papel de
amortecedor social era importante. Em suma, ao administrar suas contradições básicas,
a sociedade americana encontrava o seu equilíbrio. É exatamente este equilíbrio
que está hoje em ruptura. O dinheiro era rei mas, como todas as realezas seu
poder era contido, limitado. Hoje, seu poder tende a invadir todas as atividades
sociais." (43)
Esta
ruptura ou, nas palavras de Robert Reich, ex-secretário do Trabalho do
governo Clinton, a desintegração do pacto social ameaça a estabilidade
e a autoridade moral da nação, (44) o que abala a confiança e, por fim, a
eficiência.
Esta
tentativa de revalorizar a religião (os seus ritos, valores morais, mitos...)
como um instrumento para o aumento da eficiência e competitividade é
facilmente constatável na literatura de administração de empresas e começa a
ficar também cada vez mais presente na área da economia. A relação
economia-religião, que antes era implícita e só aparecia claramente após o
trabalho de desvelar a sua "teologia endógena" (Hugo Assmann),
aparece agora explicitamente defendida pelos próprios defensores do sistema
capitalista. (45)
Tanto os
neoliberais radicais quanto os que reconhecem a necessidade de alguma correção
para a manutenção do atual sistema econômico fazem o uso da religião. O
primeiro grupo, com o seu discurso dogmático e sacrificialista.
O segundo,
buscando a religião como instrumento para aumentar a eficiência e superar ou
contornar as contradições internas do capitalismo. A religião está na moda e
vai permanecer assim por mais tempo, não só na esfera pessoal e subjetiva, mas
também na esfera empresarial e macro-econômica.
5. Transcendência e o mercado
A experiência
religiosa é experiência de um mistério que transcende o ser humano. Seja
entendido no sentido de uma experiência do sagrado que provoca fascínio e
medo, como os estudiosos da religião tem a caracterizado, (46) ou como uma
experiência absolutamente única que funda um sentido radical para toda a existência,
que os místicos chama de experiência de Deus. (47) Não importa aqui qual o
sentido dado ao termo "experiência religiosa", nem a veracidade desta
experiência ou das religiões, que são as institucionalizações necessárias
realizadas por grupos sociais que se formam em torno deste tipo de experiência.
Neste
sentido, a religião é antes de mais nada uma tentativa humana de viver no
interior da história um mistério que está além, que é transcendente.
Mesmo um
discurso religioso com explícita intenção de manipulação deve
necessariamente fazer menção a um mistério ou a seres que transcende o ser
humano. O que nos interessa aqui é que a menção à religião implica
necessariamente, pela sua própria lógica interna, na referência a algo que
está além da nossa realidade humana ou das instituições humanas.
Quando se
pretende revalorizar a religião como um instrumento de criação de confiança
ou de outros objetivos em vista do aumento da eficiência e, em última instância,
da riqueza, está negando à religião o que lhe é mais próprio: a referência
à transcendência e, portanto, a relativização de todas as instituições
humanas. Esta instrumentalização da religião ou a redução da religião a um
instrumento da acumulação econômica só é possível e compreensível com a
absolutização de algo que é exterior à experiência religiosa e que é
inteiramente humano: o mercado. A lógica do mercado, com a sua lei da concorrência
e a sobrevivência do mais eficaz, é elevada à condição de absoluto que
sustenta todo o sistema. Até a religião deve se abdicar da referência à
transcendência, o que está além do mercado e de todas as instituições
humanas, e servir-lhe. O mercado é transcendentalizado, isto é, elevado à
condição de sobre-humano absoluto. É o ídolo.
Este uso
instrumental da religião revela, pela própria contradição do seu discurso, a
sua falsidade e perversidade.
Contra a
idolatria do mercado devemos reafirmar a nossa missão: sermos testemunhos da
ressurreição de Jesus, sermos anunciadores do Deus de Jesus.
A melhor
forma de negar a transcendentalização do mercado que sacrifica os pobres é
testemunhando que Deus, mesmo presente no mundo, não se identifica com ele e
nem com nenhuma outra instituição, porque é totalmente transcendente. Neste
sentido é importante explicitarmos que a missão da Igreja é uma missão
religiosa.
Dizer que a
missão da Igreja é religiosa não significa dizer que a Igreja e os cristãos
não devem se "intrometer" nas questões como as econômicas, sociais
e políticas. Se assim fosse, nós seríamos testemunhas de um Deus totalmente
insensível aos sofrimentos de seres humanos, isto é de um Deus totalmente
insensível e cínico. Contrário de Deus que é amor e misericórdia.
Significa
somente que a ação e os pronunciamentos das igrejas cristãs, enquanto
instituições, devem manter a sua especificidade religiosa, isto é, agir e
falar a partir da nossa experiência da fé.
Mesmo numa
sociedade moderna, que se crê secularizada, e até mesmo dentro dos parâmetros
da razão crítica moderna há uma tarefa fundamental para as religiões:
anunciar a transcendência de Deus para que os seres humanos não se esqueçam
da sua condição humana e para que não se absolutize nenhuma instituição
social. Horkheimer, nos lembra muito bem que "qualquer ser limitado - e a
humanidade é limitada- que se considera como o último, o mais elevado e o único,
se converte em um ídolo faminto de sacrifícios sangüinário, e que tem,
ademais, a capacidade demoníaca de mudar a identidade e de admitir nas coisas
um sentido distinto." (48) E que diante deste tipo de perigo, não podemos
contrapor uma comprovação da existência de Deus, pois o "conhecimento
consciente do desamparo, da nossa finitude, não se pode considerar como prova
da existência de Deus, senão que tão somente pode produzir a esperança de
que exista um absoluto positivo." O que não significa que não devamos
falar do Absoluto, pois se não podemos representar o Absoluto com a nossa
linguagem humana, podemos, ao falar do absoluto, afirmar que "o mundo em
que vivemos é algo relativo." (49) Neste sentido, a teologia para
Horkheimer não é um discurso sobre Deus em si, mas "a consciência de que
o mundo é um fenômeno, de que não é a verdade absoluta nem o último. A
teologia é - me expresso conscientemente com prudência- a esperança de que a
injustiça que caracteriza o mundo não pode permanecer assim, que o injusto não
pode considerar-se como a última palavra." (50)
Ser
testemunhas da transcendência da Deus não é uma tarefa fácil. A própria
estrutura da experiência religiosa está marcada pela possibilidade de
idolatria. Como só podemos, por causa da nossa condição, experienciar o
sagrado através de algo humano, seja um objeto ou uma lei moral, sempre
corremos o risco de confundirmos este "suporte" humano com o próprio
mistério transcendente. É isso que ocorre muitas vezes quando esquecemos que
os sacramentos, ritos religiosos e Igreja nunca são manifestação pura e plena
de Deus; quando esquecemos que Igreja ou nosso projeto social em favor dos
pobres não é Reino de Deus, e que portanto não podem ser absolutizados, mas
sempre criticados e "reformados". Idolatria não é algo que só
ocorre no mercado, mas é uma tentação permanente em todos os grupos humanos.
Uma forma
de vencer a tentação da idolatria é sempre a afirmar a absoluta transcendência
de Deus, mas, como diz Jon Sobrino, "se, de um lado, a transcendentalidade
da experiência de Deus e a reserva escatológica proíbem declarar um único e
exclusivo lugar para a expediência de Deus, também não exigem que se
relativizem qualquer lugar histórico para tal experiência." (51)
O lugar por
excelência onde podemos experienciar a presença de Deus na história e ao
mesmo tempo criticar radicalmente a idolatria do mercado é no meio dos pobres,
os excluídos do sistema que se auto-absolutiza. O sistema de mercado na sua
tentativa de auto-absolutização tem que negar outras formas de pensar, isto é,
impor um "pensamento único", negar qualquer outra alternativa social
que não seja o capitalismo e negar a existência de pessoas fora do sistema.
Pois, a existência de um pensamento diferente, uma alternativa social ou
pessoas que não fazem parte deste sistema mostram a sua relatividade e os seus
limites. Com a hegemonia no campo ideológico e nos meios de comunicação de
massa, não é tão difícil negar a existência e a validade de pensamentos e
projetos alternativos. Mais difícil é negar a existência de grupos de pessoas
que estão fora do mercado, mais de 1 bilhão de pessoas no mundo.
Há
basicamente dois caminhos para negar os limites revelados pelos excluídos. O
primeiro é dizer, como de fato os "sacerdotes" do mercado dizem, que
infelizmente o mercado ainda não se tornou total de fato, mas que a expansão
necessária e benéfica do mercado em todos os aspectos da vida e em todas as
partes do mundo irá resolver este problema. No fundo é a tese de que o mercado
ainda não resolveu todos os problemas porque ainda não se tornou tudo em
todos. O segundo é negar a dignidade humana dos que foram excluídos do
mercado. Se eles são indivíduos sem dignidade humana, por causa da sua ineficiência
e "preguiça", não há pessoas fora do mercado que possam revelar os
limites e a relatividade do mercado. Na prática, encontramos uma combinação
destes dois argumentos.
Afirmar a
existência dos excluídos, a dignidade fundamental de todos eles e ouvir o seu
clamor (52) e testemunhar - com a presença visível da Igreja no meio dos
pobres e lutas concretas em favor deles- que Deus está no seu meio é a melhor
forma de negar a absolutização do mercado, de desvelar concreta e praticamente
os seus limites. Negar a idolatria do mercado e mostrar os seus limites não
significa, contudo, negar o mercado de uma forma absoluta. Isso seria idolatria
ao revés. O que precisamos é a adequação do mercado ao objetivo de vida
digna e prazerosa para todos os seres humanos. E para isso, a opção pelos
pobres, com tudo o que isso significa, continua sendo um caminho privilegiado da
Igreja e dos cristãos na sua missão de testemunhar a sua fé em Deus que quer
que "todos tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo. 10,10).
Um outro
ponto importante na nossa missão é o problema do sacrifício. O ídolo é o
deus que exige sacrifícios de vidas humanas, que não perdoa e nem ouve os
clamores dos pobres. Deus, pelo contrário, é Aquele que ouve os clamores e, ao
invés de exigir sacrifícios, oferece como Dom a misericórdia.
Sabemos que
o sistema de mercado "bebeu" de uma determinada configuração histórica
do cristianismo a sua teologia sacrificial. É óbvio que sacrificialismo esteve
e está presente em muitas outras religiões e sociedades, mas também é inegável
a influência da teologia sacrificial cristã na mentalidade do Ocidente. Na
luta contra a cultura de insensibilidade que marca o nosso tempo, é fundamental
mostrarmos que o sofrimento humano, em particular dos pobres excluídos por um
sistema econômico opressor e injusto, não é uma exigência de Deus para a
salvação. Precisamos com nossas práticas e testemunho de vida mostrar que o
que Deus quer "é misericórdia e não sacrifícios" (Mt. 9,13).
Como sempre
insistia Juan Luís Segundo, não pode haver uma teologia da libertação sem a
libertação da teologia. Não conseguiremos contribuir eficazmente na luta
contra a exclusão social causada pelo atual sistema de mercado se não
conseguirmos, ao mesmo tempo, nos livrar das lógicas sacrificiais presentes em
muitas das nossas teologias da salvação.
Por fim,
quero lembrar que estes princípios teológico-políticos, a transcendência de
Deus que nega a absolutização do mercado e a crítica do sacrificialismo em
nome da misericórdia, estão no campo da "disputa ideológica".
Disputa importante, mas que não deve nos fazer esquecer que há o outro polo: o
da tecnologia e das instituições. A nossa espiritualidade deve desmascarar a
ideologia neoliberal que cimenta o atual sistema excludente, mas também deve
contribuir na formulação de novas diretrizes que devem orientar a criação de
novas instituições e técnicas. Na tensão entre estes dois pólos é
fundamental lembrarmos que Deus, a plenitude, o absoluto, está sempre além das
nossas possibilidades humanas e históricas. Em outras palavras, a nossa experiência
do mistério de Deus e o nosso desejo de vermos os problemas dos nossos irmãos
resolvidos de uma forma plena e definitiva não devem nos fazer esquecer que é
dentro das limitações e possibilidades históricas que podemos construir, não
o Reino de Deus, mas sim sociedades e instituições que, apesar de todas as
ambigüidades e limitações, sendo mais justas e fraternas sejam sinais
antecipatórios do Reino definitivo.
Notas:
1. ORTIZ, Renato, Mundialização e cultura, 2a.ed.,
São Paulo: Brasiliense, 1994, p.29.
2. Idem, ibidem, p.29.
3. KENNEDY, Paul, Preparando para o século XXI, Rio
de Janeiro: Campus, 1993, p.40.
4. RUFIN, Jean Cristophe, Os impérios e os novos bárbaros,
2a.ed., Rio de Janeiro: Record.
5. O problema da imitação do desejo de consumo foi
tratado nos caps. 2 e 3.
6. BUARQUE, Cristovam, A revolução na esquerda e a
invenção do Brasil, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.24.
7. ORMEROD, Paul, A morte da economia, São Paulo:
Companhia das Letras, 1996, p.52.
8. Este tema é muito importante e vasto, mas
extrapola o nosso artigo. Para uma visão introdutória recomendamos o livro de
Edgar Morin, Introdução ao pensamento complexo, Lisboa: Piaget, 1991. Aplicado
ao campo da educação e ao debate em torno do mercado, vide o excelente livro
de Hugo Assmann, Metáforas novas para reencantar a educação, Piracicaba:
Unimep, 1996. Aplicado ao debate das ciências econômicas, vide o livro de Paul
Ormerod, A morte da economia, op.cit.
9. THUROW, Lester, El futuro del capitalismo, Buenos
Aires: Javier Vergara, 1996, p.25.
10. Idem, ibidem, p.25. O trabalho clássico sobre
este assunto continua sendo o de Max Weber, A ética protestante e o espírito
do capitalismo, 3a.ed., São Paulo: Pioneira, 1983.
11. WEBER, Max, op.cit., p.131.
12. FUKUYAMA, F., O fim da história e o último
homem, Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
13. THUROW, L., op. cit., p.77
14. Para uma visão sistemática desta relação,
vide, por ex., F. Hinkelammert, Democracia y totalitarismo, San José:DEI, 1987,
pp.12-44.
15. Sobre o neoliberalismo, vide, por ex., SADER,
Emir (org), Pós-neoliberalismo, São Paulo: Paz e Terra, 1995. Uma visão teológica,
com a análise do problema da idolatria, vide, por ex., SUNG, Jung Mo, Deus numa
economia sem coração, 2a.ed.,São Paulo: Paulus, 1994, e ASSMANN, Hugo, Crítica
à lógica da exclusão, São Paulo: Paulus, 1995.
16. ANDERSON, Perry, El despliegue del
neoliberalismo y sus lecciones para la isquierda, Pasos, San José (Costa Rica):
DEI, n.66, jul-ago/96, pp. 23-30. Citado da p.26.
17. SOROS, George, The capitalist threat, The
Atlantic Monthly, fev/97, Boston, pp.45-58. Citado da p. 45.
18. Reproduzido na Revista Exame, n.633, 09/04/97,
p.99.
19. VARGAS LLOSA, M., O diabo pregador, O Estado de
São Paulo, 02/03/97, São Paulo, p.A-2.
20. Idem, ibidem.
21. Vide por ex., TOFFLER, Barbara L., Ética no
trabalho, São Paulo: Makron Books, 1993; NASH, Laura, Ética nas empresas, São
Paulo: Makron Books, 1993.
22. Vide por ex., CHAPPELL, Tom, A alma do negócio,
Rio de Janeiro: Campus,
1994; COVEY, Stephen R., Os sete hábitos das
pessoas muito eficazes, 13a.ed., São Paulo: Best Seller, s/d.
23. THUROW, L., op. cit., pp.15-16.
24. TEO, Bernardo, As religiões orientais e o
mercado, Concilium, n.270, 1997/2, Petrópolis, pp.83-91. Citado da p. 88.
25. Um exemplo típico desta tendência é o livro
de R.J. Hernsteis e C.Murray, The Bell Curve, New York, 1994.
26. GALBRAITH, John Kenneth, A cultura do
contentamento, São Paulo: Pioneira, 1992.
27. WEBER, Max, A ética protestante e o espírito
do capitalismo, 3. ed.,S.Paulo: Liv. Pioneira, 1983p. 122.
28. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos, Crise econômica e
reforma do Estado no Brasil : Para uma nova interpretação da América Latina,
São Paulo: Ed.34, 1996, p.46.
29. Idem, ibidem, p.52.
30. Op. cit., p.341.
31. Idem, p.324.
32. MEROD, Paul, op.cit., p. 13.
33. BELLUZZO, Luiz Gonzaga, A globalização da
estupidez, Carta Capital, 18/09/96, Ano 3, n.32, São Paulo, p.59. Esta expressão
é interessante porque é dita não por um teólogo da libertação, mas por um
economista.
34. ASSMANN, H.& HINKELAMMERT, F., Idolatria do
mercado, Petrópolis: Vozes, 1989; ASSMANN, H., Crítica à lógica da exclusão,
São Paulo: Paulus, 1995; SUNG, J.M., Deus numa economia sem coração, 2.ed.,São
Paulo: Paulus, 1994; Teologia e economia, 2.ed., Petrópolis: Vozes, 1995.
35. Sobre o lógica e circuito sacrificial no
ocidente, vide HINKELAMMERT, Franz., Sacrificios humanos y sociedad occidental:
Lucifer y la Bestia, San José (Costa Rica): DEI, 1991.(tradução brasileira
pela Ed. Paulus)
36. NOVAK, Michael, O espírito do capitalismo
democrático, Rio de Janeiro: Nordica, s/d., p.398. (orig. inglês, 1982)
37. GILDER, G.,O espírito de empresa, São Paulo:
Pioneira, 1989, p. 60.
38. Sobre o problema da ecologia e sua relação com
os pobres, vide BOFF, L., Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, São
Paulo: Ática, 1995
39. FUKUYAMA, Francis, Confiança: as virtudes
sociais e a criação da prosperidade, Rio de Janeiro: Rocco, 1996, p.21.
40. Kenneth J. Arrow, The Limits of Organization.
Citado em FUKUYAMA, F., op.cit., pp.167-168.
41. op.cit., p.372.
42. Idem, ibidem, p.26.
43. ALBERT, Michel, Capitalismo X capitalismo, São
Paulo: Fundação Fides-Loyola, 1992, p.102.
44. REICH, Robert B., Um programa inacabado, O
Estado de São Paulo, 23/02/97, São Paulo, p. A-2
45. Vale a pena citar como um outro exemplo
significativo as duas palestras de M. Camdessus, o diretor-geral do F.M.I.,
sobre a relação entre o Reino de Deus e Mercado. Marché-Royaume. La double
appartenance, Documents EPISCOPAT. Bulletin du Secrétariat de la Conférence
des Évêques de France, n.12, jul-ago/92; Mercado e o Reino frente à globalização
da economia mundial, São Paulo: Newswork, s/d. (Conferência dada em México,
29/10/93), tratados no cap.1.
46. OTTO, Rudolf, O Sagrado. Um estudo do elemento não-racional
na idéia do divino e a sua relação com o racional, São Bernardo do Campo-SP,
Imprensa Metodista-Programa Ecumênico de Pós-graduação em Ciências da
Religião, 1985; ELIADE, Mircea, O sagrado e o profano, Lisboa, ed. Livros do
Brasil, s/d.,
47. Para uma distinção entre a experiência
religiosa e a experiência de Deus, vide VAZ, Henrique C. de Lima, A experiência
de Deus, em: VVAA, Experimentar Deus hoje, Petrópolis, Vozes, 1974, pp. 74-89.
48. HORKHEIMER, Max, La añoranza de lo
completamente otro, em: MARCUSE. H., POPPER, K. e HORKHEIMER. M, A la búsqueda
del sentido, Salamanca, Sígueme, 1976, pp. 67-124. Citado da p.68.
49. Idem, ibidem, p. 103.
50. Idem, ibidem, p. 106.
51. SOBRINO, Jon, A ressurreição da verdadeira
Igreja, São Paulo: Loyola, 1982, p.138.
52. Sobre a revelação, o clamor dos pobres e o mercado, vide: SUNG, J.M., Deus numa economia sem coração; e ASSMANN, H., Clamor dos pobres e racionalidade econômica, São Paulo: Paulus, 1991. Na perspectiva mais filosófica, o tema do excluído como o "outro" do sistema de mercado foi trabalhado extensamente pelo E. Dussel.