“As
pessoas não são meros instrumentos para a produção comercial”
- Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 1992[1]
“O
Ocidente: o seu sentido darwiniano de luta, o seu individualismo e
utilitarismo” - J.M.
Roberts[2]
O
avanço científico tem sido uma fonte permanente de incitação à modéstia do
ser humano, a uma melhor compreensão das suas limitações. Enquanto há
relativamente pouco tempo ainda acreditávamos que a terra estava no centro do
universo, hoje sabemos que somos apenas um modesto grão de poeira entre bilhões
de galáxias. Enquanto Copérnico
nos colocou no devido lugar no universo, Darwin nos colocou no devido lugar no
planeta: modestos primos dos macacos, com um cérebro impressionante, sem dúvida,
mas também com sólidas raízes animais e uma irracionalidade e freqüentes
laivos de perversidade capazes de chocar qualquer ser irracional. Freud mostrou
a que ponto o que consideramos as nossas atividades “superiores” estão
enraizadas em processos que não controlamos e freqüentemente sequer
conhecemos. Hoje começamos a entender as próprias raízes emocionais dos
processos vinculados à inteligência, e o lugar relativamente mais modesto que
o cérebro ocupa no nosso comportamento.
A
modéstia nunca foi uma característica marcante do ser humano. Só o fato de o
Ocidente acreditar que Deus fez o homem à sua imagem, o que por simetria
indicaria que somos um pouco deuses, é bastante significativo. Nada no nosso
comportamento justifica tanta pretensão. Um mínimo de realismo sugere
reconhecer que o ser humano guarda fortíssimas raízes animais. Ter consciência
destas nossas dimensões não nos diminui, antes abre espaço para uma compreensão
e tolerância renovadas, e uma nova atitude de respeito pela vida em geral.
Não
há porque supor que esta pretensão do ser humano de ser mais do que é se
tenha esgotado. De civilização em civilização, grupos humanos se convencem
de que são melhores que os outros, deuses à sua maneira, chineses em outros
tempos, egípcios, gregos, romanos, criando os seus estribilhos mais ou menos
ridículos, indo desde o Britannia Rules, até o Deutschland über
alles, a mania de Povo eleito dos judeus, o We’re the best
que hoje convence os americanos que são a única sociedade que realmente merece
a sua posição dominante e dominadora.
Hoje,
organizou-se todo um sistema que centra os seus valores em estimular esta
pretensão aos limites do absurdo, transformando as nossas vidas numa corrida
desesperada pelo chamado “sucesso”, por estar no noticiário, por dominar os
outros, por acumular riquezas e poder.
Jogando com uma animalidade que temos à flor da pele, articulam-se gigantescos recursos financeiros com as tecnologias mais modernas de comunicação para nos jogar uns contra os outros, numa sinistra reprodução dos circos antigos, ampliando a insegurança e atitudes egoístas de defesa, justificando tudo com argumentos pseudocientíficos de um darwinismo mal compreendido, e resumido na filosofia de que “o melhor vença”. Com os instrumentos tecnológicos que hoje manejamos, promover a guerra social pela sobrevivência leva simplesmente à destruição.
Com
um pouco de recuo, estas pretensões de “vencer” na vida (vencer quem?)
aparecem como bem ridículas, e não há razão para não vermos beleza no
simples relacionamento humano, na criatividade do dia a dia, na riqueza da afeição
que nos liga aos outros, no prazer de conhecer as coisas do mundo, sem precisar
ser super-homem, posar de forma ridícula com o attaché case do
executivo, nem fazer cirurgias desesperadas para ser uma imitação do que
Aldous Huxley já chamava de mulheres pneumáticas. É importante
reconhecer a que ponto o modelo que nos rege é mais ideológico e cultural do
que propriamente econômico, ainda que toda a discussão esteja centrada neste
último plano.
Há
uma beleza menos pretensiosa, e bem mais simples, a se resgatar no ser humano.
O
ser humano é rico e contraditório. A contradição, aliás, encontra-se na
quase totalidade das suas motivações. Deseja ao mesmo tempo a segurança
material, e a insegurança do risco. Organiza sistematicamente em torno de si a
tranqüilidade do familiar e do repetitivo, e tão pronto os tenha busca
desesperadamente o novo. A mulher deseja, como a Dona Flor e seus dois maridos,
um Vadinho vagabundo e apaixonado, e o farmacêutico estável e respeitador. O
homem deseja um impressionante compromisso entre a santa e a vadia. Busca
desesperadamente o sucesso, e imediatamente suspira desesperadamente pela tranqüilidade,
o prazer do anonimato. Superar os outros parece ser um objetivo central,
materializado na busca do poder e do dinheiro, e no entanto os momentos que
lembrará como de maior felicidade serão os momentos em que é igual aos
outros, no estádio de futebol ou numa pescaria, ou no papo furado de um bar, de
repente simplesmente um ser humano sem necessidades de representar imagens
insustentáveis de si mesmo. Assim, é errado dizer que o homem quer isto ou
aquilo, ele deseja simultaneamente coisas contraditórias. Realiza-se num
processo encadeado de objetivos contraditórios. Uma simples hierarquização de
motivações, como a que encontramos nos trabalhos de Maslow e semelhantes,
parece hoje uma visão insuficiente e superficial.
De
tanto vincular o ser humano a coisas sérias, esquecemos que no conjunto o ser
humano está desesperadamente vinculado ao lúdico, ao jogo, às tentativas de
alcançar e superar, e de se reencontrar com o outro, na mistura da competição
e da solidariedade, de atração e desconfiança, de surda resistência e de
imensa capacidade de criação. Em outras palavras, o ser humano deseja
construir e reconstruir em permanência a sua identidade, em condições sempre
renovadas. Ele não precisa de uma vida cheia de coisas, precisa de uma
vida rica e criativa.
A
sociedade gerou o homem culpabilizado. Desde a idéia de que o prazer é
intrinsecamente ruim, uma maçã proibida, de que o amor é uma serpente, de que
trabalhar é uma condenação, até dogmas de que muito carinho com as crianças
é ruim, pois as estraga, ou de que tirar uma nota ruim na escola é uma
tragédia pois significa que a pessoa está condenada a não ter sucesso.
Espera-se assim que o homem e a mulher vivam atribulados, cansados, que dediquem
a maior parte da sua vida ao trabalho, que deve ser desagradável, sacrificado,
para que possam chegar ao fim do dia e se dizerem extenuados, exaustos, para
gozarem sem sentimento de culpa um pequeno intervalo de divertimento antes de
dormir e recomeçar. E já aprendemos a encaminhar assim as nossas crianças,
traumatizadas pelo seu próprio futuro que ainda não chegou, com adolescentes
que se desesperam ou até se suicidam se não entram em determinada faculdade.
Há
portanto uma deformação fundamental na nossa vida realmente existente, e que
foi resumida com simplicidade por
Solzhenitsyn, em Doutor Jivago: “A vida é feita para se viver, e não
para se preparar para viver”.
O
“viver” não passa pela existência de uma instância benfeitora que nos dará
as coisas que necessitamos, segundo a hierarquia de bichinhos de laboratório
gerada pelos especialistas tradicionais da psicologia do comportamento de linha
americana ou pavloviana, ou os seus mais requintados especialistas de Recursos
Humanos das empresas modernas. Frente às ricas contradições dos nossos
desejos e sentimentos de realização, o elemento fundamental é o direito à opção,
o espaço da tentativa, a possibilidade de se criar e recriar nos diversos
potenciais que temos. Neste sentido, o Grande Irmão estatal e a
mega-empresa privada que nos enche de quinquilharias são muito próximos na sua
concepção.
De
certa maneira, colocaram-nos numa pista estreita de corrida, e temos todos a
liberdade de correr, de ultrapassar os outros, e corrermos mais que os outros se
chamará sucesso, sendo recompensado pela possibilidade de comprar mais
coisas. A equipe do Relatório sobre o Desenvolvimento Humano das Nações
Unidas adotou uma postura fundamental ao considerar como ponto de partida que a
pobreza não é uma simples falta de “coisas”, é antes de tudo uma perda do
direito às opções.
Vemos
pessoas acumulando mais e mais coisas, e deixando de viver para acumulá-las.
Independentemente do bom humor da constatação de que o dinheiro não traz a
felicidade, mas ajuda, a realidade profunda é que as pessoas centradas no
processo de acumulação não vivem e não deixam viver. As pessoas ditas de
sucesso justificam em geral a sua ridícula corrida pelo fato de se sacrificarem
pela família, pelos filhos. A realidade é que deixam os seus filhos
desesperadamente amarrados a gerir as estruturas de dinheiro e poder geradas ou
apropriadas, reduzindo as suas vidas a um mero continuísmo que tão freqüentemente
resulta em desespero e drogas. Trata-se na realidade de uma patética tentativa
de viver a vida dos outros.
Não
se pode, uma vez mais, descartar simplesmente o capitalismo como mau, e ignorar
o impressionante manancial de avanços que permitiu. No Manifesto, em
1848, Marx se deu ao luxo de elencar os aportes positivos do capitalismo. Este
direito não foi encerrado em 1848. Mas o que é importante entender, é que o
capitalismo só é bom gestor e gerador de produtos que se cobram. O prazer de
um rio limpo, o perfil de uma serra em Belo Horizonte, o gesto gratuito de
carinho são, no espírito capitalista, um desperdício. Se possível a beira de
um rio deve se transformar em avenida, gerando dinheiro para uma empreiteira, e
melhor ainda uma avenida com pedágio, onde as pessoas pagarão para passar. O
gesto de carinho deve ser o resultado não da simpatia e do sentimento natural,
mas o efeito calculado de perfumes, cremes, bebidas, desodorantes, pinturas. O
ideal é que o creme passado no corpo gere tanta satisfação antecipada, que o
próprio encontro e carinho que se prepara passe a ser secundário. Assim a
transferência do sentimento de atração para sentimento aquisitivo terá sido
completa.
Em
outros termos, o capitalismo e as empresas constituem um indiscutível avanço
na produção de coisas que possam ser compradas, mas não somente não
assegura, como freqüentemente tende a destruir, a imensa gama de bens públicos,
materiais ou não, que simplesmente geram satisfação. E se não tivermos sólidas
estruturas públicas – estatais e comunitárias – para garantir o rio limpo,
a rua arborizada, a praça florida e sem shopping, as avenidas transitáveis,
a possibilidade de a criança ir à escola de bicicleta, o sentimento de
liberdade que nos dá a segurança, o tempo para desfrutá-la, a organização
social que nos permita mudar de emprego sem o terror de deixar a família sem
recursos, a previdência que nos
assegure uma velhice sem a humilhação impotente que hoje constatamos,
simplesmente não seremos felizes. Não teremos o que hoje se chama de qualidade
de vida, por mais cigarros e novos modelos de carros que as empresas
consigam produzir, e por mais portas da felicidade que nos abra a televisão.
Assim
o capitalismo nos abre por um lado um leque maior de acesso a produtos, mas nos
restringe cada vez mais a possibilidade de aproveitá-los, num processo
reducionista cada vez mais absurdo. A Liberdade
de Escolher de Milton Friedmann, significa a liberdade de correr cada vez
mais depressa e mais eficientemente nas estreitas pistas do sucesso. Sair da
pista e gozar a vida não está previsto.
O
estreitamento das opções é ativo. Em outros termos, não se trata de um
efeito involuntário, mas de uma necessidade econômica. Uma empreiteira que vê
uma praia, pensa imediatamente em como fechá-la, pois é ao fechá-la que se
pode cobrar o ingresso. Aparece assim a portaria, ou seja, a catraca, o pedágio.
E na publicidade aparecerá a iniciativa não como limitando o nosso acesso a um
bem natural, mas como nos oferecendo o charme de uma belíssima praia e
das maravilhosas ondas. E como se trata de vender caro o acesso privilegiado, a
própria exclusão de uma parte da população aparecerá como argumento
suplementar: o condomínio é cercado, vigiado, no interesse dos
privilegiados.
É
interessante ver o desabafo de um homem de sucesso, João Sayad, banqueiro e
ex-ministro da economia, retornando de um típico “paraíso” turístico:
“De vez em quando você precisa tirar umas férias. Um lugar diferente, à
beira mar, pessoas afetivas e amigas como antigamente, conversa desinteressada
em torno da mesa de bar. O lugar está cheio de turistas, o pessoal da terra está
fantasiado com roupas regionais para lhe agradar, o tom de gentileza do garçom
parece artificial e produzido. A praia mais bonita pertence hoje a condomínio
com campo de golfe e heliporto. O riozinho onde se pescava de vara, está poluído.
Na mesa do bar você encontra colegas que falam de ações, taxas de juros e
comparam as qualidades do carro importado. O capitalismo invadiu a praia linda e
remota e o grotão da serra que só se alcançava em lombo de burro. E as férias
se tornaram iguaizinhas ao inferno do trabalho”. O raciocínio leva Sayad a um
comentário amargo sobre “a invasão da economia nas áreas em que gostaríamos
que prevalecessem outras regras. Essa organização – competitiva, eficiente e
racional – cansa. É tensa, impessoal, desumana e implacável, embora produza
mais batatas e telefones celulares.” [3]
A
constatação não é nova. O que é novo, é que quem fala não é um
ecologista, mas um economista e banqueiro, ativo e involuntário financiador
deste tipo de “paraísos”, que no momento de investir não teria como deixar
uma praia com a sua beleza natural, pois isso não rende. Não se trata
necessariamente de pessoas inconscientes ou mal intencionadas. Trata-se de um
sistema, que por natureza torna muito estreita a gama das nossas satisfações.
A privatização generalizada significa uma dramática redução da qualidade de
vida e das nossas opções. Da mesma forma, não reconhecer o aporte positivo do
setor privado no segmento particular de produção de bens e serviços
indefinidamente reproduzíveis seria ignorar que boa parte das nossas
motivações encontram sem dúvida respostas adequadas nesta forma de
organização econômica.
O
capitalismo como sistema mantém uma permanente ofensiva ideológica, baseada
nos poderosos meios de comunicação modernos, que o faz se apropriar de
conceitos positivos, sem dúvida, mas não necessariamente capitalistas. A
liberdade de iniciativa, no sentido de poder criar coisas novas ou simplesmente
bem feitas, existia entre os agricultores da Babilônia, os artistas da Grécia,
os artesão de Roma ou da Idade Média, os mercadores de Veneza. Não se trata
necessariamente de uma característica do capitalismo, existia
muito antes dele, e seguramente sobreviverá às suas transformações.
Trata-se de uma das mais poderosas alavancas de motivação do ser humano, de um
espaço mais vinculado à liberdade e à democracia do que propriamente ao
capitalismo.
Que
liberdade de iniciativa sobra ao agricultor, forçado a optar pela monocultura e
a quimização, a negociações permanentes com banqueiros, advogados, infindáveis
atravessadores comerciais? Isto quando, sendo pequeno, não foi simplesmente
expulso da terra, jogado para as periferias urbanas miseráveis, onde poderá
assistir na televisão à explicação de que a nova grande propriedade moderna
tem capacidade de produzir quanto alimento seja necessário (conquanto exista
mercado), e que portanto a sua contribuição seria de toda forma inútil.
Qualquer pequena ou média empresa, reduto tradicional da liberdade de
iniciativa, sente hoje o peso burocrático da complexa teia de dependências
interempresariais.
A
tendência natural é encontrar um culpado comum para todos os males, e
particularmente para a limitação da livre iniciativa: o Estado. A realidade é
que o próprio tecido econômico se tornou muito mais integrado e
interdependente, e um empresário de repente se sente, apesar de proprietário
da sua empresa, tão livre como o seria o torneiro de uma fábrica se pudesse
comprar o torno em que trabalha. O capitalismo não inventou a livre iniciativa,
e nem o Estado é o seu limite. É o próprio processo produtivo que mudou
profundamente, e precisamos redimensionar a organização dos espaços econômicos
para que o ser humano se sinta de novo no leme da sua vida.[4]
A
ética deixou já há longo tempo de ser considerada como preocupação nobre na
área das ciências sociais. Desviada para o controle da vida pessoal, terminou
por se preocupar com o que é do foro da liberdade individual, enquanto
abandonava o espaço do social. De certa forma, construiu-se uma visão de que o
enfoque da ciência política e da ciência econômica seriam incompatíveis com
a visão normativa. Científico seria explicar de forma neutra como funcionam as
coisas, enquanto o como deveriam funcionar entraria nos campos obscuros
da religião, da filosofia, das utopias.
Hoje
a ética volta à linha de frente já não como acompanhamento filosófico de
suspiros de impotência, e sim como eixo central das condições de sobrevivência
do sistema. A razão é simples: com o tipo de instrumentos que hoje manejamos,
se não houver um comportamento ético, ou seja, uma predisposição individual
e institucional de buscar o bem comum, o que conseguiremos será a nossa destruição.
As
tecnologias puseram em nossas mãos instrumentos não só potentes e de impacto
planetário, como extremamente acessíveis. O garimpeiro que busca ouro com auxílio
de mercúrio provoca danos econômicos, através da contaminação dos rios e
destruição de vida, que são milhares de
vezes superiores ao valor do ouro que retira. E não é viável se
colocar um fiscal atrás de cada garimpeiro, como não é viável limitar o
acesso ao mercúrio quando qualquer empresa produtora tenta vender o máximo
possível, declinando qualquer responsabilidade pelo seu uso ilegal. O mesmo
raciocínio pode ser estendido ao éter e outros produtos químicos utilizados
para fabricar drogas, ou à produção de armas que o produtor afirma ser legal
– e realmente é no sistema atual, ainda que não seja legítima –, ou à
lavagem de dinheiro de drogas cuja origem qualquer banco afirma desconhecer formalmente, ainda que
tenha perfeitas condições de usar o bom senso e detectá-la.
E
o que dizer das empresas que compram produtos que sabem perfeitamente serem
produzidas por crianças em condições de semi-escravidão, mas que apresentam
a nota fiscal de compra, declarando-se não-responsáveis pela política social
de empresas fornecedoras, que são afinal das contas empresas independentes? Com
a globalização, tornou-se fácil apresentar uma face respeitável ao consumo
de luxo dos países desenvolvidos, camuflando o conteúdo social dramático mas
que impacta regiões distantes. É viável colocar um fiscal em cada empresa de
turismo que oferece viagens organizadas para amadores de prostituição infantil
nos mais diversos países? Em diversos lugares se organiza a comercialização
de órgãos humanos para revenda em países ricos: trata-se de gente pobre de um
lado, que precisa sobreviver, e de gente rica de outro, também precisando
sobreviver. No meio, empresas de intermediação, honrados comerciantes. Onde
estarão os limites?
Diversos
países comercializam de uma forma ou outra produtos nucleares, cerca de 25 países
têm programas de pesquisa de armas bacteriológicas, avolumam-se pelo planeta
estoques de resíduos tóxicos, qualquer laboratório hoje manipula códigos genéticos
para ver se por acaso não localiza uma mina de ouro em termos de indústria da
saúde. Será viável colocar um sistema de controle atrás de cada agricultor
que envenena o solo e os rios, causando gigantescos prejuízos que se estenderão
por séculos? Como controlar os milhares de navios de pesca industrial que
praticam a pesca predatória e estão destruindo a vida nos mares?
A Gnt apresentou reportagem sobre nada menos que a Bayer que, junto com
duas outras empresas norte-americanas, comercializava coagulantes produzidos a
partir de sangue extraído de comunidades gays: hoje se defendem por meio de
grandes empresas de advocacia que alegam que na época as empresas podiam não
saber que a Aids se transmite por sangue.
Não
se trata aqui de elencar os absurdos desta mistura explosiva de avanço tecnológico
e de atraso institucional, que aliás vimos em detalhe no primeiro capítulo.
Trata-se de mostrar que os instrumentos extremamente potentes de que dispomos são
demasiado disseminados para que possamos resolver as ameaças que se avolumam
apenas com sistemas de controle, com leis e fiscais: precisamos gerar uma nova
cultura de sobrevivência, uma nova ética das atividades econômicas.
Sempre
haverá atividades ilegais. No entanto, se o contexto geral é de comportamento
ético, a delinqüência, seja ela de traficante de drogas ou de atividades
especulativas de um grande banco, tende a se destacar com facilidade, e se torna
administrável pela sociedade. No vale-tudo econômico, mal disfarçado como
liberalismo econômico, os excessos
tornam-se incontroláveis, e as alternativas serão a destruição da vida no
planeta, ou ainda, sob pressão de populações cada vez mais inseguras, o
recurso a regimes de força que nos jogarão de volta à idade média política.
A
educação no sentido amplo, e em particular a função dos meios de comunicação,
que trabalham a mente dos nossos filhos a partir de poucos anos de vida, e
formam os grandes consensos sociais, precisam neste sentido ser revistos
em profundidade.
Arte
e sociedade
A
arte constitui outra área que aparece nas análises mais como uma
“sobremesa” social do que propriamente como dimensão essencial da vida
humana, até ter se tornado um grande setor comercial. Os milhares de psicólogos
que trabalham com manipulação de pessoas nas empresas de publicidade sabem
perfeitamente o gigantesco poder da arte como formadora de comportamentos. E
todos sentimos, neste mundo mecanizado e nesta sociedade atomizada, algo como um
renascer da necessidade da arte, do belo, como dimensão essencial da nossa
vida.
Um
belíssimo filme inglês, The Loneliness of the Long Distance Runner,
apresenta a história do aluno de uma boa escola secundária que é um excelente
atleta de corridas de longa distância. Inicialmente, é apenas um jovem feliz
com as suas realizações esportivas e outras. Rapidamente, no entanto, torna-se
um trunfo econômico da escola a que pertence, pela importância social das
competições esportivas interescolares, e vê a sua vida cada vez mais
canalizada para promover o sucesso da instituição. Com o tempo, e à medida
que aumenta o sucesso, tudo na sua vida, os namoros, a alimentação, o próprio
estudo, passam a se exercer em função de um único objetivo, e escapa das suas
mãos. Ensinam-lhe a sorrir, a dar entrevistas, a falar bem da escola, a vestir
as roupas adequadas, a não tomar cerveja nos bares, a ser um símbolo
permanente. O filme termina com a gloriosa corrida final que determinará o
campeão nacional, e o jovem corre os últimos metros entre rostos de fanáticos
que o empurram para a vitória, o diretor que precisa melhorar a imagem da
escola, o responsável financeiro que precisa da vitória para obter
financiamentos, os pais desesperados por um pouco de glória emprestada. Quando
o sucesso está à mão, o rapaz olha mais uma vez para os rostos histéricos
que formam um corredor junto à pista, pára, pede licença aos espectadores
espantados, e sai caminhando pelo campo, trilhando pela primeira vez o seu próprio
caminho, com uma expressão de profunda felicidade de quem escapou da máquina
que o estava moendo. Tinha resgatado o direito a si mesmo.
Há
arte que ajuda a enfrentar a realidade, como há arte que nos ajuda a dela
fugir. Todo o nosso desejo de liberdade, de espaços ilimitados, de natureza
limpa e linda, aparece em caríssimas publicidades, pagas com o nosso dinheiro,
destinadas a nos fazer ingerir produtos químicos que geram câncer e outras
doenças, na solidão das nossas cidades. Não se pode discutir a beleza e
competência técnica destas publicidades, elaboradas por excelentes artistas
segundo as linhas determinadas por excelentes psicólogos. Como substituto da
realidade, no entanto, esta arte não sai da categoria das bonecas infláveis
que tomam o lugar do relacionamento afetivo. E no aspecto ético, há
pouco a acrescentar aos próprios depoimentos das empresas do ramo, que
concentram a publicidade nas crianças de 14 anos, que é quando a necessidade
de fumar pode mais facilmente se
tornar permanente.
Um
filme como Perfume de Mulher teve
muito sucesso tanto entre jovens como adultos. Trata-se de um devastador ataque
à hipocrisia social. Em vez de nos transportar para absurdos mundos de Rambos
que nos escondem do universo real, este tipo de filme nos reconcilia com a vida,
nos traz idéias sobre formas de enfrentá-la. A arte, e o Brasil tem dado
exemplos de imensa riqueza nesta área, pode ser intensamente humanista.
Trata-se,
no entanto, de modelos mal assumidos. As visões neste século oscilaram
bastante entre a alternativa liberal do anestésico social, gerando espaços de
vida por empréstimo, e uma alternativa comunista que tendia a glorificar o
operariado e um modo de produção diferente. Mas sempre se tratou, de forma
geral, do homo economicus, com novelas ou filmes cheios de carros e
eletrodomésticos, ou cheios de trabalhadores entusiasmados. O problema central
é que uma visão cultural renovada, centrada na solidariedade, na liberdade, na
diversidade, na tolerância, aparece apenas pontualmente, como contracultura
depois da meia-noite. .
De
certa forma, assumimos a visão que hoje aparece um tanto simplista, da cultura
pertencendo à superestrutura, com funções transformadoras limitadas, e de
toda forma constituindo um certo supérfluo, na tradição das hierarquias
de necessidades básicas de Maslow e outros. Na era da comunicação que
caracteriza o século que se inicia, os valores culturais podem constituir a
grande alavanca transformadora, e a criação artística um poderoso veículo de
resgate das nossas dimensões humanas. Não se trata de reforçar as dimensões
culturais de um modo de produção ou outro: trata-se de colocar os modos de
produção a serviço de uma cultura diferente.
A
religião constitui outra área subestimada na visão hardware que temos
da reprodução social, e que também se tornou importante setor econômico, ao
trabalhar as nossas motivações. Quando vemos gente muito pobre dedicar os seus
últimos centavos para sustentar um movimento religioso, não podemos deixar de
colocar em questão a tradicional hierarquia das necessidades humanas.
Foi-se
aqui também o tempo das simplificações, onde a esquerda adotava a visão da
religião como ópio dos pobres, enquanto a direita nela via o esteio da
família e da propriedade. A complexidade maior não está no sentimento, que é
universal e respeitável, mas na gama muito mais ampla de possibilidades de
aproveitamento do sentimento religioso com os mais diversos objetivos,
envolvendo tanto os impressionantes sistemas financeiros das igrejas eletrônicas
globalizadas, que entram rigorosamente no mesmo campo de disputa de poder econômico
da Mtv ou das telenovelas, como os usos políticos do movimento sionista ou os
fanatismos de segmentos do mundo islâmico.
É
importante lembrar aqui que é difícil encontrar alguém habilitado para jogar
a primeira pedra. A própria igreja católica começa apenas agora a fazer as
pazes com o seu passado de tortura, inquisição, perseguição sistemática de
cientistas, obscurantismo que ainda aflorava com força nos acordos com os
regimes fascistas ou nazistas deste século, e hoje se renova nas atitudes
frente ao controle da natalidade, ao celibato dos padres e outras questões.
Não
há dúvida que afloram aqui também as nossas profundas raízes não-racionais
com as quais a nossa razão tem tantas dificuldades em conviver. Muito católico,
que reza ajoelhado, olha com desprezo para o islâmico que reza acocorado, ambos
poderão achar ridículo o judeu rezar de pé se balançando, ou
achar absurdas religiões africanas onde se canta e dança, enquanto
cristãos só cantam, mas não dançam. Uma pomba pode ser símbolo divino numa
religião, mas vemos como primitivismo o respeito à vaca em outras civilizações,
ou o hábito de divinizar obras da natureza como gigantescas árvores.
Fato
curioso, ainda admitimos o conceito de religião verdadeira, quando é óbvio
que com centenas de religiões diferentes no mundo, cada uma com a mesma pretensão
à legitimidade do deus verdadeiro, ou há muitos deuses verdadeiros, ou
a própria pretensão à legitimidade foge ao elementar bom senso. O que o bom
senso exige, é respeito e compreensão para todos.
A
religião representou, historicamente, um foro comunitário de reflexão sobre o
bem e o mal, sobre a ética, sobre o sentido da vida, sobre o próprio convívio
comunitário. E o sobrenatural nos invade com força, quando pensamos na
fragilidade da condição humana, nesta nossa estranha e curta presença num grão
de areia no cosmos, sem que saibamos nem de onde surgimos nem para onde vamos,
conscientes apenas que a vida surgiu há alguns bilhões de anos atrás, e que
daqui desaparecerá com a morte do sistema solar. Teremos sido apenas uma forma
transitória de organização da energia, energia cuja natureza aliás
desconhecemos. Não é fácil enfrentar a consciência da nossa condição
humana apenas com a razão.
Buscar
no sobrenatural respostas para o que ultrapassa o nosso entendimento e para as
nossas angústias existenciais é respeitável. Comercializar estes sentimentos
através de poderosos meios de comunicação, ou utilizá-los como alavanca de
poder político, ademais de desonesto pois ninguém recebeu procuração de deus
nenhum, é perigoso. Como é perigoso reduzir populações ao desespero, pois
sempre haverá obscurantistas dispostos a capitalizar a insegurança do ser
humano.
O
caso do Irã é particularmente interessante. Principal vitrine do Ocidente no
mundo subdesenvolvido, o Irã devia servir de modelo, e não foram poupados
esforços, financiados com as imensas reservas de petróleo, devidamente
resgatadas através do golpe de Estado que os Estados Unidos (hoje
reconhecidamente) organizaram contra Mossadegh. Um chefe de Estado esperto e
corrupto, um discurso modernista, armas avançadíssimas para o exército, um
gigantesco sistema de informações para os órgãos de segurança, a televisão
para o povo, apartamentos e automóveis para a classe média, tudo foi feito de
acordo com o mais moderno e atraente receituário. O país era citado como
exemplo de uma grande vitória ocidental ainda semanas antes dos religiosos
derrubarem o sistema de poder, que murchou sem sequer conseguir esboçar resistência.
Foi um caso de rejeição cultural generalizada pela população.
A
religião aparece aqui claramente como um refúgio contra a corrupção, violência
e perda generalizada de referenciais éticos na sociedade. O islã era o
passado, mas era o único denominador comum para uma sociedade desnorteada, como
hoje surge tragicamente para a Argélia. A nossa tendência é, naturalmente, de
considerar que se trata de especificidades do Oriente Médio. No entanto, se
tomarmos um certo recuo e considerarmos o gigantesco processo mundial de exclusão
social que a globalização está provocando, com mais de um bilhão de pessoas
vivendo com menos de um dólar por dia, para tomar apenas este indicador, ao
mesmo tempo em que crescem explosivamente as mais variadas seitas, não há como
ficar indiferente. A imagem brasileira de igrejas que se enchem para rezar
contra a inadimplência nas compras a prazo, é neste sentido patética. E é
igualmente patética a imagem dos executivos americanos contentíssimos com os
seus salários que ultrapassam o milhão de dólares por mês.
O
que não podemos, é imaginar que o caos econômico e social que está se
gerando poderá ser enfrentado com a simples ajuda dos conselhos de economistas
que acham que a mão invisível é o melhor remédio. Os problemas gerados são
simplesmente mais amplos. Edgar Morin resume bem esta nova dimensão da angústia
social: “Podemos supor que o inconsciente coletivo sente de maneira obscura
esta grande ameaça que pesa sobre a identidade, o desenraizamento relativamente
a um passado perdido e a insegurança frente a um futuro desconhecido, a degradação
das qualidades da vida…Assim os desenvolvimentos da nossa civilização
conduzem a um novo subdesenvolvimento intelectual, a um novo subdesenvolvimento
afetivo – os seres não conseguem encontrar respostas às suas necessidades de
comunicação humana, de amor, de comunidade –, e a um novo subdesenvolvimento
moral na degradação da responsabilidade e da solidariedade.”[5]
Na
realidade, ao falarmos de arte, de valores, de motivações, de religiões,
estamos falando de um leme cultural hoje indispensável. Temos nos fixado
demasiado em alternativas econômicas. Hoje, conceitos como os de solidariedade,
transparência, participação, democracia, que se tornaram caricatura no modelo
econômico vigente, têm de ser resgatados no sentido de
uma proposta cultural para a humanidade.
A
riqueza do À sombra desta mangueira, de Paulo Freire, está em grande
parte nesta recusa de uma alternativa onde nos propõem, como no caso dos gansos
da revolução francesa, toda a liberdade de optar por sermos comidos assados ou
por sermos comidos guisados: “A paixão com que conheço, falo ou escrevo não
diminuem o compromisso com que denuncio ou anuncio. Sou uma inteireza e não uma
dicotomia. Não tenho uma parte esquemática, meticulosa, racionalista e outra
desarticulada, imprecisa, querendo simplesmente bem ao mundo. Conheço com meu
corpo todo, sentimentos, paixão. Razão também.” A mesma opção que centra
a nossa ação no modo de produção e não no modo de vida, impõe
uma racionalidade que isola as nossas dimensões afetivas, artísticas e
espirituais do processo de construção da sociedade.[6]
Isto
pode ser visto como uma simples volta ao idealismo. Na realidade, não se trata
de negar a que ponto o modo de produção desempenha hoje um papel central na
estrutura de poder que deforma e desarticula a riqueza das nossas dimensões
existenciais. Trata-se de reafirmar que o objetivo não é colocar a sociedade a
serviço de outro modo de produção, mas de reconquistar a centralidade da
cultura na construção de um modo de produção alternativo.
Mais
uma vez, não se trata de jogar o bebê junto com a água do banho. O mercado é
um bom regulador de atividades produtivas de bens de reprodução
ilimitada. Não é um instrumento adequado para redistribuição, para a
gestão dos setores sociais e nem para a gestão de bens não renováveis. Em
vez de imaginar utopias que substituam a livre iniciativa, trata-se de gerar o
ambiente que a torne útil e viável, dando lugar a novas formas de organização
social. As forças progressistas têm
se concentrado em elaborar modelos produtivos mais eficientes, quando o lado
verdadeiramente doente e insustentável do processo é o lado cultural no
sentido amplo.
De
toda forma, não se trata de buscar uma boa alavanca cultural para criar uma
alternativa de modo de produção. Trata-se de questionar a própria cultura que
organiza a humanidade em torno da produção, em vez de organizar a produção
em torno aos nossos objetivos humanos.
LADISLAU
DOWBOR - “A
REPRODUÇÃO DO SOCIAL” – Editora Vozes
[1]
- “People are not merely instruments for producing commodities” - UNDP, Human
Development Report 1992
[2]
- “The West: its Darwinian sense of struggle, its individualism and
utilitarianism”. J. M. Roberts, History of the World, Penguin Books,
London 1995, p. 884
[3]
- João Sayad, Fim das férias, Classe, Ano X, 59/96
[4]
- Há uma tendência intelectualmente bastante desonesta de se capitalizar a
irritação contra o mau Estado como sendo uma posição a favor da privatização
ou do liberalismo. Reação saudável do Prof. Walter Batista, numa conferência
sobre ética em Brasília: “O Estado é apropriado por bandidos e ladrões,
e não se denunciam os bandidos, se denuncia o Estado”.
[5]
Edgar Morin et Sami Naïr – Une politique de civilization – Arléa,
Paris 1997, p. 130 e 131
[6] - Paulo Freire - À sombra desta mangueira - Editora Olho d’Água, São Paulo 1994, p. 18. A imagem dos gansos se refere a uma conhecida caricatura que circulava durante a revolução francesa: os cidadãos, representados sob forma de gansos, reagem à opção que o juiz lhes oferece informando que simplesmente prefeririam não ser comidos. O juiz fica indignado: “Messieurs, vous sortez de la question”.