. A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA E
A DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO
“There
is no world wide trend toward convergence between rich and poor workers. Indeed,
there are risks that workers in poorer countries will fall futher behind.”
– Banco Mundial, 1995
Constatamos que este nosso planeta tem uma população
de quase 5,3 bilhões em 1990, o que, com um aumento anual da ordem de 1,6%, nos
leva a uma população total da ordem 6
bilhões em 1998. No entanto, o
aumento real seguirá sendo da ordem de 100 milhões de novos habitantes ao ano
no período de 2.000 a 2.030, o que representa uma imensa pressão sobre a
natureza, as infraestruturas, e a nossa capacidade de organização social.
Conforme vimos, este aumento é social e
geograficamente muito localizado: os países ricos têm um aumento anual da
ordem de 5 milhões apenas, enquanto os países de baixa renda atingem 70 milhões.
Como os ritmos demográficos se modificam de maneira muito lenta, esta mistura
de pressão demográfica com aumento de miséria constitui um elemento
explosivo, e nos coloca desafios novos em termos de organização econômica e
social.
Um segundo eixo de mudança demográfica é a
urbanização. Em 1996, com a Cúpula de Istambul, o mundo comemora de certa
maneira o fim da dominância do mundo rural: a metade da humanidade passa a
viver em cidades, algumas representando megalópoles de mais de 15 milhões de
habitantes, fenômeno que somos a primeira geração a enfrentar. Vivemos a mais
profunda revolução demográfica conhecida pela humanidade, e ainda não
dimensionamos o impacto desta transformação para a organização econômica,
social e política de forma geral.[1]
No Brasil, este processo foi particularmente
acelerado. Na área rural, vivemos nas décadas de 60 a 80 um fortíssimo êxodo
de populações agrícolas, que nos transformou, no espaço de uma geração
praticamente, de país rural em país urbano. Em termos de ordem de grandeza,
dois terços da nossa população viviam no campo nos anos 1950. Em 1960 tínhamos
45% de população urbana, e 76% em 1992, com previsão de 81% para o ano 2.000.
Assim, com quatro quintos da população vivendo nas cidades, estamos invertendo
completamente a situação encontrada há uma geração atrás. Esta urbanização
acelerada, tardia e caótica tem o seu preço.
O Brasil se urbanizou mais por expulsão do campo,
do que por atração das cidades. Este processo merece um detalhamento.
Constatamos
que os pequenos proprietários, representando mais de 3 milhões de
estabelecimentos, ocupam apenas 2,67% da área total, enquanto no outro extremo,
ao somarmos as classes de mais de 1.000 e de mais de 10.000 hectares, teremos
50.105 estabelecimentos, 1% do total, que controlam 165 milhões de hectares,
44% do solo. Como numerosos proprietários
têm vários estabelecimentos, podemos dizer como ordem de grandeza que 50.000
proprietários são donos da metade da área de estabelecimentos agrícolas do
país. Particularmente escandalosa é a situação dos 2.174 proprietários de
estabelecimentos de mais de 10.000 hectares, que controlam 5 vezes mais área do
que os 3 milhões de pequenos agricultores. Notemos ainda que o IBGE aponta para
61 estabelecimentos de mais de 100 mil hectares, que controlam 12,4 milhões de
hectares, portanto mais do que o total dos pequenos agricultores.
O
mundo rural brasileiro foi de certa maneira vítima do seu maior capital, a
disponibilidade de terras. O caminho natural indicado por esta gigantesca
disponibilidade seria a constituição de uma grande massa de proprietários
rurais, como se deu por exemplo nos Estados Unidos, e nas hoje prósperas áreas
do Paraná e de Santa Catarina. Mas com isto os grandes fazendeiros perderiam o
acesso à mão de obra miserável que exploravam, e se veriam, coisa
naturalmente absurda, constrangidos a trabalhar eles mesmos a terra para
“manter seus estabelecimentos”.[2]
Esta
herança estrutural é agravada por três fenômenos mais recentes. Por um lado,
vemos a expansão da monocultura, que utiliza pouca mão de obra ou a utiliza de
forma sazonal, desarticulando inclusive a formação de empregos estáveis. Por
outro, a tecnificação generalizada nas grandes propriedades leva à substituição
do homem pela máquina. Finalmente, o uso generalizado do solo agrícola como
reserva de valor fechou ao trabalhador rural expulso das grandes propriedades a
alternativa de criar pequenas e médias propriedades rurais. Esta grande
oportunidade perdida, de se gerar um forte tecido de policultura familiar, levou
a população rural às periferias urbanas, gerando o acelerado e caótico
processo de urbanização das últimas décadas.
Manter
esta situação, com milhões de agricultores que querem cultivar e são
impedidos por falta de terra – uma pessoa que quer trabalhar a terra é
tratada como “invasor” – enquanto dezenas de milhões passam fome, mostra
o grau de absurdo que pode atingir a ausência de processos democráticos de
decisão no interesse da sociedade.
Se
nas últimas décadas assistimos à absurda expulsão do trabalhador rural do
campo, na década de 1990 assistimos à acelerada tecnificação da indústria e
dos serviços, que reduz a oferta de empregos nas cidades, no que as Nações
Unidas têm chamado de jobless growth. O conceito significa que a redução
do emprego já não resulta de uma falta de crescimento, ou de uma baixa
conjuntura, mas do próprio crescimento e de sua característica de substituição
do trabalho.
Atingimos
a fase em que algumas centenas de empresas transnacionais, gerando menos de 3%
do emprego mundial, produzem para o mundo inteiro, substituindo atividades
“obsoletas” locais e regionais. Hoje milhões de trabalhadores no mundo
ficam de mão no bolso olhando nas vitrines das lojas as últimas maravilhas da
tecnologia, produzidas em países distantes, sem saber o que fazer com o seu
amanhã.
Estes
dados merecem ser detalhados, na medida em que as empresas transnacionais
assumiram claramente a liderança do desenvolvimento econômico mundial, gerando
uma dinâmica sobre a qual mesmo países de porte têm pouca influência. Em
termos de volume de produção, as empresas transnacionais são hoje responsáveis
por um faturamento da ordem de 5 trilhões de dólares, algo como 25% do Pib
mundial. O impacto sobre o emprego, no entanto, evolui inversamente.
O
balanço mundial realizado pela Organização Internacional do Trabalho deixa
poucas dúvidas: “Calcula-se o número total de postos de trabalho criados
diretamente pelas empresas multinacionais no mundo em cerca de 73 milhões, o
que equivale mais ou menos a 3% da
população ativa mundial. Segundo a Comissão de Empresas Transnacionais das Nações
Unidas, para cada posto criado pelas empresas multinacionais pode haver talvez
até um ou dois mais gerados indiretamente, o que implicaria que o emprego total
relacionado com as empresas multinacionais possa ser de uns 150 milhões. Nos países
em desenvolvimento, os 12 milhões de postos de trabalho criados por empresas
multinacionais representam apenas 2% da população ativa destes países; se
somarmos os 12 milhões de empregos derivados da possível criação indireta de
empregos chegaremos aos 4%. Não há como negar que esta contribuição global
das empresas multinacionais no emprego parece hoje insignificante”. É
interessante notar a distribuição do emprego das multinacionais no mundo: em
1992, do total de 73 milhões de empregos, 44 estão situados nas matrizes nos
países de origem (fundamentalmente Estados Unidos, Alemanha, Japão e uns
poucos mais), 17 em outros países desenvolvidos, e 12 nos países em
desenvolvimento.[3]
Nos
próprios países desenvolvidos, o processo gera preocupações crescentes. Uma
projeção realizada pelo Business Week sobre as tendências do emprego nos traz
uma imagem clara. Por um lado, nas próprias empresas transnacionais e de forma
geral no setor dinâmico dos países do primeiro mundo, a tendência é para a
criação de um “núcleo” de emprego nobre, obedecendo ao conjunto das tendências
estudadas pelos “gurus” da administração empresarial: reengenharia, redução
do leque de hierarquia empresarial, a knowledge organization onde os
trabalhadores têm mais autonomia, mais poder de decisão e mais compreensão
global dos objetivos. Ao mesmo tempo, no entanto, a busca de redução de custos
leva à empresa enxuta, lean and mean, com um volume relativamente
pequeno de empregos. Assim, um conjunto de atividades acessórias, que envolvem
desde segurança, cantinas, limpeza e coisas do gênero até fornecimento de peças
e de serviços vinculados à produção, estão sendo terceirizados, gerando uma
ampla massa de precarious jobs, empregos precários, onde a pessoa é
perfeitamente substituível, e a relação com normas de trabalho e o nível
salarial tende a evoluir de modo negativo. Finalmente, tende a crescer a massa
de pessoas simplesmente desempregadas.[4]
Assistimos
a um processo articulado de transformação do emprego. Por uma lado, aumenta
ligeiramente o emprego nas empresas transnacionais, passando de 65 para 73 milhões
de trabalhadores entre 1985 e 1992. Por outro lado, como os paises em
desenvolvimento recebem uma parcela muito pequena deste emprego, mas recebem
toda a carga dos produtos que hoje circulam no mercado mundial, gera-se um
efeito de desemprego indireto muito amplo, e conseqüente pressão para a queda
de salários e recuo no respeito às normas de trabalho.
No
nosso caso, com forte presença de multinacionais dentro do país, e crescente
abertura para o exterior, acumulamos os lados negativos do progresso e do
atraso, ao juntarmos a política retrógrada do monopólio de terras agrícolas,
expulsando os produtores, com o efeito moderno do desemprego que hoje afeta os
países mais desenvolvidos. A população pobre do país, expulsa ontem do campo
e hoje excluída do emprego urbano, gera a situação explosiva que constatamos
nas cidades e no campo neste fim de século.
Esta
evolução leva por sua vez ao surgimento de um conjunto de atitudes defensivas
nos países em desenvolvimento, que podemos chamar de estratégias familiares de
sobrevivência, que se cruzam com as atividades ilegais do crime organizado,
segmentam e desarticulam o universo do trabalho.
Sem
entrar no detalhe do processo, alguns exemplos permitem um dimensionamento
preliminar. Na cidade de São Paulo são roubados diariamente 420 automóveis,
em 1995. Estimando um valor médio de 5 mil dólares por unidade, e
multiplicando por 365 dias, chegamos a uma economia que fatura cerca de 700 milhões
de dólares por ano. Com estimativas grosseiras que acrescentam as drogas, a
prostituição e jogos ilegais como o video-póquer, chegamos a uma ordem de
grandeza de 3 bilhões de dólares, numa cidade onde a receita pública para
cuidar de saúde, educação, infraestrutura urbana etc., é da ordem de 4 bilhões.
Se acrescentarmos os custos indiretos gerados por esta economia ilegal, os números
se avolumam rapidamente. A nível do país, Ib Teixeira estimou que as empresas
gastam algo como 28 bilhões de dólares por ano em segurança, custo indireto
que resulta da própria expansão do setor ilegal. Já não são cifras
marginais, “excepcionais”. Trata-se de atividades econômicas fortemente
articuladas com o sistema formal de produção. E envolvem atividades tão
diversificadas como o comércio de armas, a agricultura destinada à fabricação
de entorpecentes, os desmatamentos ilegais que devastam grandes regiões no
mundo, a sobrepesca em áreas fragilizadas, os loteamentos ilegais de
especuladores imobiliários que jogam populações miseráveis em áreas de
mananciais, o comércio internacional de prostitutas infantis, o tráfico de órgãos
humanos para transplante e assim por diante.[5]
Constatamos
assim que o processo de avanço tecnológico sem as transformações
institucionais e políticas
correspondentes, leva a uma nova hierarquização do trabalho característica do
subdesenvolvimento tecnificado. No topo da pirâmide, o emprego nobre no setor
formal, com salários relativamente elevados e normas de trabalho relativamente
respeitadas, mas envolvendo um segmento minoritário da população, tanto em
volume como em termos de distribuição por países. Mais abaixo, o conjunto de
atividades terceirizadas mais ou menos instáveis, onde a precariedade leva a
uma grande insegurança, e gera um volume elevado de pequenas e médias empresas
de elevadíssima taxa de mortalidade. Em torno deste espaço formal,
desenvolve-se um amplo sistema de economia informal, que hoje ocupa freqüentemente
um terço da totalidade de mão de obra, e onde os níveis salariais, respeito a
normas de trabalho e preservação ambiental são cada vez mais baixos.
Finalmente, uma massa hoje muito significativa da mão de obra opta pela
economia ilegal, ou subterrânea, desarticulando e desagregando rapidamente a
sociedade, como tem sido constatado por exemplo desde as favelas do Rio de
Janeiro até a produção popular de cocaína na Colômbia,
ou as invasões de empresas de gado na Amazônia..
Nesta
nova hierarquização mundial do trabalho, o leque salarial tornou-se
extremamente aberto. O Banco Mundial estima que a hierarquia salarial
internacional atingiu uma relação de 1 para 60 entre os salários médios mais
baixos e os mais elevados. Isto leva a novas formas de organização empresarial
que buscam aproveitar as diferenças. Um estudo americano apresenta um caso típico
de “network firm”: “Nike, uma das grandes empresas do calçado, se
considera uma “empresa em rede”. Isto significa que emprega 8 mil pessoas em
gestão, design, vendas e promoção, e deixa a produção nas mãos de cerca de
75 mil trabalhadores contratados independentemente. A maior parte desta produção
terceirizada acontece na Indonésia, onde um par de Nikes que será vendido nos
Estados Unidos ou na Europa por $73 a $135 é produzido por uma valor de cerca
de US$5,60, por meninas e jovens pagas
inclusive a 15 centavos por hora. As trabalhadoras vivem em barracos da empresa
contratante, não há sindicatos, a hora extra é freqüentemente obrigatória,
e se houver greve, os militares podem ser chamados para quebrá-la. Os US$20
milhões que a estrela de basquete Michael Jordan teria recebido em 1992 para
promover os calçados Nike foram mais do que a massa de salários pagos em um
ano nas empresas da Indonésia para produzi-los...O caso Nike constitui um
exemplo impressionante das distorções de um sistema econômico que transfere a
remuneração dos que produzem valor real para aqueles cuja função primária
é de criar ilusões de marketing para convencer consumidores a comprar produtos
que não necessitam a preços inflados”.[6]
De
certa forma, o processo extremamente dinâmico de modernização econômica
controlado pelas empresas transnacionais gera um imenso volume de produtos, que
atinge toda a população mundial, mas gera um fluxo de renda incomparavelmente
menor, e um impacto de emprego menor ainda. O produto barato que invade o mundo
da economia globalizada reduz o espaço de sobrevivência de pequenas empresas
locais e regionais, de formas tradicionais de responder às necessidades,
substituindo centenas de empregos locais por um emprego extremamente produtivo,
ainda que mal pago na periferia, de uma multinacional. Isto pode garantir um
temporário pleno emprego no Japão ou na Coréia, na medida em que produzem
para este mercado mais amplo e mantêm nas suas fronteiras o impacto de renda e
de emprego. Mas simplesmente não pode funcionar para o conjunto.
Convergem
assim para a problemática do emprego e do desemprego um conjunto de fatores de
transformação social. A urbanização torna o emprego mais vital, pois
enquanto no campo a terra é simultaneamente um emprego e a base espacial da
vida, permitindo no pior dos casos uma razoável atividade de auto-subsistência,
na cidade uma família sem os rendimentos provenientes do emprego é
imediatamente jogada em situação crítica, sobretudo no terceiro mundo onde as
“redes” de segurança são simbólicas. A transformação das bases
produtivas da reprodução social levou à formação de gigantescos bolsões de
empregos “não viáveis”, na expressão do Banco Mundial, sobretudo numa
economia globalizada.[7]
A dinâmica tecnológica está simplesmente colocando fora do mercado grandes
segmentos profissionais, como por exemplo hoje o emprego em agências bancárias.
Finalmente, é importante lembrar que hoje uma pessoa que não está vinculada a
um emprego simplesmente perde cidadania, na medida em que desapareceram em boa
parte as estruturas comunitárias tradicionais de apoio social.
Não
há dúvida que gerar produtos mais performantes, mais baratos, e com custos
menores em termos de mão de obra e de matérias primas, constitui um fator
positivo em termos de produtividade global. No entanto, se não se reorganiza a
sociedade para fazer face a estas transformações, teremos custos humanos e
sociais incomparavelmente maiores, levando a uma desarticulação política que
tornará estes processos produtivos inviáveis.
Os
instrumentos para enfrentar estes novos desafios são frágeis. De forma geral,
as pessoas não especializadas mas também instituições técnicas e políticas
de alto nível acreditam que em última instância as coisas tenderão a se
“arrumar”, e que os dramas hoje vividos representam simplesmente as dores da
transição entre um perfil de emprego herdado e as novas tendências tecnológicas.
Acena-se sempre para o fato do progresso que suprime empregos gerar outros
empregos. Este argumento na realidade constitui mais uma visão otimista do que
uma avaliação científica, e se baseia no fato de que dificuldades semelhantes
no passado foram ultrapassadas. Nada justifica tal otimismo, e a situação é
nova, devendo ser estudada como tal.
Os
mecanismos de mercado são particularmente limitados nesta área. A evolução
do desemprego estrutural está fragilizando os sindicatos e a capacidade de
negociação frente a empresários de forma geral. As profissões passam a
funcionar em “circuitos” estratificados onde o mercado tem ação reguladora
limitada. Médicos de mesmo nível profissional poderão ganhar 20 mil dólares
mensais se pertencerem à casta da medicina de luxo em São Paulo, ou ganharem
salários aviltantes se foram capturados pelas modernas fabriquetas privadas de
saúde chamadas de “intermédicas”, ou ganharem 6 mil dólares se tiverem a
sorte de entrar em alguma organização internacional, ou ainda trabalharem nos
limites da sobrevivência se estiverem na área da medicina comunitária das
periferias pobres. Há cada vez menos espaço profissional homogêneo onde as
pessoas estariam competindo por emprego, salário e normas, e na era dos
circuitos estratificados os mecanismos institucionais de regulação tornam-se
cada vez mais necessários. O mercado, nesta área, desempenha apenas o papel de
ampliação de desigualdades. Na ausência de instituições adequadas, e frente
à inoperância dos mercados, formam-se movimentos corporativos de defesa de
privilégios, gerando-se nas sociedades poderosos quistos de interesses bem
defendidos e desequilíbrios ampliados.
O próprio
Banco Mundial, tão propenso a deixar a mão invisível agir de maneira
irrestrita, conclui o seu relatório
sobre o emprego no mundo afirmando que “as alternativas não são de laissez-faire
ou de intervenção governamental; trata-se de definir ações públicas
efetivas capazes de dar suporte ao funcionamento eficiente do mercado, encorajar
o investimento produtivo e responder às necessidades particulares de
trabalhadores que são discriminados ou colocados em situação de
desvantagem...Para que uma estratégia baseada em mercado possa ter sucesso, os
governos têm de estabelecer políticas de trabalho
para lidar com os direitos básicos do trabalhador, a discriminação e a
desigualdade, a segurança de acesso à renda, e o próprio papel do governo
como empregador.”[8]
A
Organização Internacional do Trabalho segue uma visão semelhante: “Para
aumentar o número de postos de trabalho produtivos no setor moderno é
indispensável uma boa adaptação à mundialização, mas isto não basta. Em
muitos países em desenvolvimento, a maior parte da população ativa segue
trabalhando nos setores rural e urbano não estruturado, de pouca produtividade.
O sub-emprego é endêmico, e nestes países os pobres estão concentrados
nestes setores. Procede pois, que a política de desenvolvimento não os deixe
em segundo plano e que nos programas públicos se dê prioridade às medidas
destinadas a atenuar o subemprego e a pobreza”. A OIT recomenda assim intervenções
firmes por exemplo no mercado de capitais, no sentido de uma maior igualdade de
acesso, para elevar a produtividade nos setores rural e urbano não estruturado.[9]
Ao
mesmo tempo que se busca uma reforço da capacidade de governo, se constata a
sua erosão: “A conseqüência da mundialização é que se enfraqueceu a
capacidade de administração da economia de cada país. No plano macroeconômico,
a mobilidade do capital financeiro reduziu o controle do Estado sobre os juros e
o cambio; a fluidez dos investimentos das empresas multinacionais reduziu a
possibilidade do governo influir sobre
o nível de investimentos e a sua localização geográfica; e, dada a
mobilidade internacional do pessoal técnico e muito qualificado, aos governos
tornou-se hoje difícil impor a progressividade fiscal para a renda e a riqueza
e manter um elevado nível de gastos públicos”.[10]
A
recuperação da governabilidade está portanto no centro do problema.
Frente
à dimensão que o problema assumiu, não faltam inovações teóricas e experiências
inovadoras. Na linha teórica constitui um aporte importante o trabalho de Guy
Aznar, que sugere que se redistribua globalmente o trabalho entre os que se
queixam do seu excesso, e os que se queixam de não o conseguirem. A proposta
mostra com cálculos que é perfeitamente viável reduzir a jornada de trabalho,
manter os salários, e compensar as empresas das suas perdas através da
reorientação dos subsídios ao desemprego. Elaborada para a França, a
proposta tem o mérito de colocar claramente em discussão a gestão do
“estoque” de empregos da sociedade, e as novas políticas que deverão
surgir.[11]
As
experiências inovadoras também são ricas. O Estado de Kerala, na India, está
dando um exemplo sumamente interessante que mostra a que ponto uma sociedade que
assume a sua própria gestão pode equilibrar o processo de desenvolvimento e o
equilíbrio na distribuição do emprego mesmo em condições de baixa renda e nível
precário de modernização. A cidade de Santos e outros municípios brasileiros
mostraram que apesar do nível de emprego depender em grande parte de políticas
macro-econômicas, uma administração municipal pode organizar a informação
sobre os seus desempregados ou subempregados, identificar nichos de emprego
disponível, e melhorar radicalmente a situação ao assegurar uma micro-gestão
dos problemas. A China está inovando ao descentralizar a gestão das suas
empresas públicas, desenvolvendo o espaço econômico municipal, assegurando
simultaneamente a flexibilidade da gestão local e o interesse social da empresa
pública. A Itália está inovando com empresas sociais. Todas estas experiências
apresentam pros e contras, mas de forma geral demonstram que terminou o tempo em
que as comunidades podiam se contentar em se queixar do governo central e
esperar que o mercado traga melhores tempos.[12]
É
preciso lembrar que o problema do trabalho não pode mais ser reduzido à questão
do “emprego” que garante uma vinculação formal da pessoa com uma instituição.
A comunidade necessita de um grande volume de serviços antigamente prestados
pela família “ampla”, pelos avós, tios, amigos da família que ajudavam a
cuidar a casa, as crianças e os espaços comunitários. A cidade de Lausanne,
na Suiça, tirou os idosos dos hospitais quando podem ou preferem ficar nas suas
casas. Voluntários treinados, normalmente vizinhos, encarregam-se mediante
remuneração da prefeitura de cuidar das atividades que os idosos não podem
enfrentar sozinhos, como compras, banho ou outras necessidades diferenciadas. Não
se trata aqui de um funcionário público que cuida do idoso, mas de uma pessoa
da vizinhança que cria relações de amizade. Economiza-se o leito hospitalar,
capitaliza-se a residência que o idoso já tinha, e aproveita-se o capital de
boa vontade de pessoas que efetivamente gostam de cuidar dos outros. Na medida
em que as atividades produtivas irão reduzindo as suas necessidades em mão de
obra, os serviços comunitários poderão assumir um papel muito mais
importante, e diretamente vinculado à melhoria da qualidade de vida local.
Finalmente,
coloca-se hoje o problema central da estrutura do uso do tempo. Nunca é demais
lembrar que o tempo constitui o nosso único recurso efetivamente não renovável.
Em “The Force”, um vendedor da Xerox faz uma retrospectiva da sua vida
repleta de sucessos profissionais e financeiros – fora o melhor vendedor da
empresa – e conclui que a sua vida consistiu em correr atrás de metas
profissionais cada vez mais amplas, esperando sempre chegar o momento em que
pudesse respirar um pouco e “viver”. Quando pára finalmente para pensar um
pouco, constata que a vida passou, como passou o tempo de conviver com seus
filhos, o tempo dos mais ricos contatos culturais e afetivos.[13]
Se pensarmos um pouco, constatamos que é absurdo que nos vejamos ameaçados
pela tecnologia, que nos permite assegurar as nossa necessidades com menos
trabalho. Não é a tecnologia que é uma ameaça, e sim o atraso das instituições,
das formas de organização social capazes de transformar os avanços técnicos
em qualidade de vida, em maior lazer, em vida social e culturalmente mais rica.
Quando
os progressos técnicos se transformam apenas na riqueza fabulosa de uma
minoria, e na miséria da imensa maioria, é o conjunto do sistema que se torna
politicamente inviável, administrativamente burocratizado e ineficiente em
termos sociais.
No país
não falta trabalho, falta emprego. O problema do emprego é essencialmente um
problema de organização. Frente à imensidão do que há por fazer no país
– da construção de habitações até infraestruturas essenciais e produção
de alimentos para dezenas de milhões de desnutridos – ficarmos com dezenas de
milhões de pessoas desesperadas por não ter o que fazer é absurdo. A ponte
entre a massa de desempregados ou subempregados e as imensas frentes de trabalho
do país é a organização social. Esperar que “surjam” empregos do setor
privado ou empregos fixos na máquina do Estado, simplesmente não é realista,
frente às tendências atuais nos dois setores. As coisas não “surgem”, se
organizam.
LADISLAU
DOWBOR - “A
REPRODUÇÃO DO SOCIAL” – Editora Vozes – pg. 57-78
[1]
-
PNUD
- Human Development Report 1995, p. 184, tabela 15 “Growing
Urbanization”.
[2] - É importante lembrar que para romper esta visão
da agricultura os Estados Unidos foram levados a travar uma guerra com o
“Sul”, a guerra de Secessão, que resultou em ampla reforma agrária na
região. É interessante, do ponto de vista metodológico, comparar o Brasil
com o que seriam os Estados Unidos caso tivessem vencido os grandes proprietários
escravagistas do Sul.
[3] - OIT - El empleo en el mundo 1995 - Geneva
1995, p. 52; os cálculos da OIT são generosos, pois para uma população
ativa de mais de 2 bilhões nos paises em desenvolvimento, os 24 milhões de
empregos gerados representariam na realidade pouco mais de 1% do emprego.
[4] - Ver artigo de capa do Business Week de 17 de
outubro de 1994
[5] - No plano internacional a economia ilegal foi
estimada em um trilhão de dólares por ano pelas Nações Unidas, equivalente
ao PIB do conjunto dos paises de renda baixa do mundo, que representam mais de
3 bilhões de habitantes. Segundo
estudo do professor Chossudovsky, da universidade de Ottawa, “os progressos
das técnicas bancárias e das telecomunicações oferecem amplas
possibilidades de fazer rapidamente circular e desaparecer os lucros das
transações ilícitas”. Participam do processo governos, grandes empresas
transnacionais, os cerca de 55 paraísos fiscais do planeta, e organizações
acima de qualquer susbpeita como os bancos suiços ou a American Express. -
Michel Chodussovsky, La corruption mondialisée, Le Monde Diplomatique,
Manière de Voir 33, Février 1997
[6] - David Korten - When Corporations Rule the
World - Berrett-Koehler, California 1995, p. 111; a obra foi edita no
Brasil pela Futura/Siciliano, com o título Quando as corporações regem o
mundo.
[7] -
...”large groups of workers stuck in unviabale jobs”...”growing
underclass with few opportunities for employment”.
Ver World Development Report 1995, p. 110 e 120. De
forma geral, o conjunto das atividades propriamente produtivas está reduzindo
rapidamente a sua capacidade de absorção de emprego, tendência que atingiu
inicialmente a agricultura e agora atinge a indústria de transformação. O
emprego se desloca para novas áreas, e os países com menor capacidade de
reciclagem e reordenamento das atividades encontram-se simplesmente
marginalizados, mantendo artificialmente segmentos de emprego cada vez menos
viáveis nas estruturas atuais.
[8] - The
World Bank - World Development Report 1995: Workers in an Integrating World
- Oxford University Press 1995, p. 14
[9] -
OIT - El Empleo...p. 13
[10] -
OIT - El Empleo...p. 78
[11] - Guy Aznar - Trabalhar menos para trabalharem
todos - Editora Scritta, São Paulo 1995; o livro vem com um excelente
prefácio de André Gorz sobre a nova problemática do emprego.
[12] - Há uma verdadeira explosão de estudos sobre
experiências renovadoras de gestão local, que abordaremos de maneira mais
ampla na parte final do presente trabalho. Sobre a experiência italiana, ver L’impresa
sociale, de Ota de Leonardis, Diana Mauri e Franco Rotelli, Anabasi,
Milano 1994; sobre o Brasil, podem ser vistos trabalhos publicados pelo Pólis,
ou as propostas de desenvolvimento local integrado, crédito solidário para
pequenos produtores e outras soluções sistematizadas no documento Alternativas
de ocupação e renda distribuido pelo Conselho da Comunidade Solidária,
1997.