A
REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA E A GLOBALIZAÇÃO
“The
achievements of science outrun our capacity to manage the power they give us” -
J.M. Roberts - History of the World[1]
As mudanças estruturais partem essencialmente das
transformações tecnológicas. Quer utilizemos a divisão do trabalho permitida
pela máquina, em Adam Smith, ou o desenvolvimento das forças produtivas em
Marx, não há dúvida que o motor da história encontra-se nos processos
produtivos.
As bases tecnológicas do nosso desenvolvimento estão
passando pela mais dramática transformação da história da humanidade. Em
nenhum momento, nem na imensa abertura que significou a Renascença, com
gigantes como Leonardo da Vinci, nem no explosivo final do século passado, que
nos deu a energia elétrica, o motor a combustão e as bases da física moderna,
houve qualquer coisa que se comparasse com a atual abertura dos nossos
horizontes. Considera-se hoje que os conhecimentos novos adquiridos nos últimos
vinte anos correspondem grosso modo ao conjunto dos conhecimentos técnicos que
a humanidade acumulou durante a sua história. Um balanço do estado da arte em
termos de conhecimento do cérebro, por exemplo, constatava em meados de 1995
que 95% destes conhecimentos haviam sido desenvolvidos nos cinco anos
anteriores.[2]
Para efeitos metodológicos, identificaremos alguns
grandes eixos de transformação, porque muito do nosso futuro já está em boa
parte contido nas transformações que hoje se consolidam.
O eixo da eletrônica, e particularmente o da
informática, já invade
literalmente o nosso cotidiano. Em termos de simples poder de tratamento de
informações, considera-se que em dez anos este foi multiplicado por cem. A
imagem utilizada para dramatizar este processo, é de um carro que hoje anda a
100 quilômetros por hora, e que em dez anos chegasse aos 10 mil. Mas enquanto o
carro acelera as nossas pernas, e outras máquinas substituem os nossos braços,
a informática coloca nas nossas mãos instrumentos revolucionários de dinamização
do próprio conhecimento.
Apropriar-se do elétron e do fóton como
instrumentos de expressão, estocagem, organização, busca inteligente e
transmissão de informação significa simplesmente que o conjunto dos processos
vinculados ao conhecimento passa a utilizar um meio cuja rapidez é a da
velocidade da luz. Significa também que a informação adquire a fluidez da
corrente elétrica, podendo ser transmitida a cada casa, a cada indivíduo, a
cada empresa ou instituição científica, criando um ambiente global de
conectividade e interação de cuja existência mal se podia suspeitar há
alguns anos atrás.
Estas transformações coincidem com outro processo
de avanço vertiginoso, o das telecomunicações. Se em dez anos o potencial
informático foi multiplicado por cem, na área das comunicações o aumento foi
de um para mil, e nos setores que já utilizam sistemas óticos foi de um para
um milhão.[3]
De repente temos o planeta enfeixado num espaço unificado de comunicações via
satélite, cabos óticos e sistemas de retransmissão que, no dizer do Business
Week, está transformando “editoração, distribuição a cabo, programação
de TV, filmes e telefone em um só sistema de distribuição”.[4]
Na realidade, tudo que pode ser expresso através de sinais positivos e
negativos da eletricidade ou outro sistema binário de simbolização, como
palavras, números, sons e imagens, tornou-se hoje extremamente fluido e
universalmente acessível.
Um terceiro eixo de avanços fenomenais é o
conhecimento da vida. O projeto Genoma está pela primeira vez desvendando o código
genético humano, lançam-se os primeiros micro-organismos geneticamente
manipulados para digerir poluentes químicos, a agricultura prepara-se para a
sua revolução genética, os poderosos microscópios eletrônicos associados
aos computadores permitem uma autêntica revolução no conhecimento do
funcionamento das células e assim por diante. Não se trata mais de reproduzir
apenas os animais e de aproveitá-los de diferentes maneiras, e sim de
interferir no próprio sistema de reprodução, criando um espaço econômico de
arquitetura de seres vivos.
Um quarto eixo importante concerne às energias. O
laser já entrou no nosso
cotidiano, através do disco CD, da medicina, dos sistemas de gestão de
estoques nos supermercados, do microcomputador na nossa mesa. O próprio uso
direto da energia solar, através de filmes fotovoltaicos, está abrindo novos
horizontes. Novos materiais como os supercondutores já estão saindo da fase
experimental, permitindo formas radicalmente novas de utilização da energia.
Estes e outros eixos de transformação tecnológica
- pode-se citar a pesquisa espacial, os avanços da química fina e tantos
outros - provocaram uma ruptura qualitativa na forma da sociedade se relacionar
com o conhecimento. A mudança entrou nas nossas culturas como o fato normal, e
não a exceção. E esta mudança já não resulta de saltos individuais e
pontuais: o microscópio eletrônico e o computador permitem o trabalho com
unidades atômicas, o que permite por sua vez desenvolver novos materiais, que
permitem novos avanços na informática e assim por diante, num processo sinérgico
e cumulativo. É o próprio processo de transformação que se transformou. A
verdade é que estamos vivendo a mais profunda e mais acelerada revolução que
a humanidade já conheceu.
É essencial revermos as nossas ideologias, as
nossas concepções sobre as formas de organização social e política, levando
esta revolução em conta. Isto porque, na medida em que este prodigioso
aceleramento do tempo de transformação se dá de forma profundamente desigual,
os referenciais tradicionais perdem boa parte do seu sentido, ou no mínimo se
tornam demasiado grosseiros e globais frente a uma realidade muito mais
diferenciada. Não é a situação que mudou, exigindo novas políticas:
não há mais situação, e sim um processo de mudança permanente,
exigindo formas de gestão social radicalmente alteradas.
O tempo atinge de forma muito diferente as instâncias
da reprodução social. Enquanto as técnicas avançam em ritmo que sequer temos
capacidade de acompanhar, mesmo em áreas muito especializadas, o mesmo não
acontece com o universo cultural que constitui as nossas formas individualizadas
ou sociais de ver o mundo.[5]
O ritmo incomparavelmente mais lento da evolução das culturas pode ser
verificado no nosso cotidiano, na nossa dificuldade de utilizarmos o potencial
informático, não por razões técnicas, mas por atitudes enraizadas em décadas
de uma determinada cultura do trabalho. Pesquisas realizadas em empresas
informatizadas nos Estados Unidos mostram que somente com a chegada ao mercado
de trabalho dos jovens que já se formaram no ambiente informático, é que
efetivamente o uso do novo potencial passou a ser inovador e criativo. Antes, só
se fazia acelerar os mesmos procedimentos tradicionais.
O resultado é que, de certa forma, passamos a
“conviver” com as novas tecnologias, mas não as assimilamos efetivamente, e
não dominamos nem o seu potencial positivo nem os perigos que representam. De
repente chegam às nossas casas as mensagens mais obscurantistas de igrejas ou
de demagogos da violência, pelos meios eletrônicos mais modernos e com os mais
diversos efeitos especiais, e nos damos conta de que progresso técnico e
progresso cultural podem evoluir em ritmos completamente diferentes e inclusive
em sentidos inversos. Podemos legitimamente nos perguntar sobre o que faria um
Goebbels com as tecnologias modernas de comunicação.
Muito mais lento ainda do que o nosso universo
cultural é a evolução das instituições que desenvolvemos para gerir a nossa
reprodução social. Estruturas empresariais, instituições de governo
ou organizações da sociedade civil como sindicatos e outros, acumulam,
além das as resistências culturais à mudança que vimos acima, um conjunto de
fatores de inércia como interesses corporativos, lutas por poder e prestígio,
que fazem com que instituições possam permanecer inertes ainda quando todos os
seus membros estejam de acordo que se deva mudar.
Se considerarmos o universo jurídico que de certa
forma codifica o contexto das próprias mudanças institucionais, esta
diversidade de ritmos de evolução das diferentes instâncias de uma sociedade
fica ainda mais gritante. Periodicamente afloram leis em pleno vigor sobre o
tratamento a se dar a um ladrão de cavalos, datando de quando este era um meio
vital de transporte, ou o detalhamento de penas previstas para quem utilize de
forma inadequada os seus diversos órgãos sexuais, enquanto não temos sequer
embriões de regulamentação das manipulações genéticas descontroladas que
se multiplicam em todo o planeta.[6]
De certa forma, somos vítimas de um cérebro cujas
capacidades inventivas são incomparavelmente maiores do que a nossa frágil
capacidade de nos organizarmos como sociedade civilizada.
O resultado prático é que o conjunto do movimento
de transformações tecnológicas, na ausência de amadurecimento cultural e de
transformações institucionais capazes de canalizá-lo para o que poderíamos
chamar simplesmente pelo conceito tradicional de “bem público”,
transforma-se em ameaça para a sociedade.[7]
Um bom exemplo do “gap” entre o nível técnico
e o nível institucional nos é dado pelas pescas. Navios modernos de pesca
permitem hoje níveis de captura praticamente ilimitados. Teoricamente, estas
empresas não estariam interessadas na “sobre-pesca” (pesca que ultrapassa a
capacidade de reprodução da vida marítima) pois estariam prejudicando o seu
próprio futuro. Na realidade, como são numerosas empresas, cada uma tenta
capturar o máximo possível antes que outras empresas o consigam.
Negociações com grandes empresas de pesca industrial, tentando limitar
a destruição dos recursos pesqueiros, levam sempre ao mesmo argumento final, e
bastante realista, por parte das empresas: “se não formos nós, serão
outros”. Assim, aguardar dos mecanismos de mercado que assegurem o equilíbrio
dos processos é simplesmente inviável, e a própria sobrevivência das
empresas a longo prazo exige sólida organização das regras do jogo, com força
suficiente para se impor às próprias empresas.[8]
O exemplo da exploração da madeira é igualmente
significativo. Em princípio, todos são a favor da preservação das florestas.
No entanto, poucos têm esta preservação como interesse exclusivo. Trata-se de
um interesse difuso: é praticamente unânime, mas representa um espaço
limitado do interesse de cada um. A empresa madeireira, ao contrário,
representa um interesse pontual: com a perspectiva concreta de realizar um lucro
de milhões de dólares vendendo mogno, um grupo determinado saberá subornar
autoridades, financiar os meios de comunicação, neutralizar populações
locais, obter os apoios políticos necessários, e o resultado será o
desmatamento. Os procedimentos não são novos, mas com o machado e os bois
substituídos por tratores de esteira e moto-serras, a fragilidade do interesse
difuso de bilhões de pessoas frente aos interesses pontuais de alguns se torna
gritante. Na ausência de um reforço radical de organização do interesse público
para fazer frente aos interesses deste tipo, os resultados não são difíceis
de prever.
A nossa trágica fragilidade frente ao caso das
minas antipessoais ilustra outra dimensão da nossa “impotência
institucional”. São hoje, segundo estimativas da Unicef, cerca de 100 milhões
de pequenas minas destinadas essencialmente a criar insegurança entre as populações,
espalhadas nos mais diversos países. Trata-se de pequenos artefatos enterrados,
por vezes disfarçados como objetos de uso corrente e de aparência
inocente que são espalhados em grandes quantidades sobre regiões conflagradas.
Como os adultos são alertados para o perigo, as vítimas preferenciais são as
crianças. O interesse propriamente militar é praticamente nulo. Morrem
anualmente desta forma cerca de 100 mil crianças, sem falar das mutilações.
As tentativas do ex-diretor da Unicef, James Grant, de obter uma moratória de 5
anos, não sobre a produção, o que seria uma ambição excessiva, mas sobre as
exportações destas minas, não obtiveram resultado.
A dinâmica é compreensível, pois enquanto na venda a mina é baratíssima,
custando alguns dólares, os contratos de deminagem posteriores à guerra
envolvem mais de mil dólares por mina desativada, e em geral são as mesmas
empresas produtoras que detêm as tecnologias necessárias. Quando tecnologias
avançadas permitem produzir pequenos instrumentos explosivos de efeitos mortais
ao preço de pouco mais de um dólar, e a sociedade se organiza segundo a lei do
mais forte, o mercado continuará existindo. E qualquer um de nós pode ser
acionista involuntário de iniciativas deste tipo, através de aplicações
financeiras. São apenas negócios. Na realidade, o lucro gerado pelas
iniciativas gera ao mesmo tempo estruturas de poder que tornam extremamente difícil
a regulação e controle destas iniciativas.[9]
O caso das drogas é igualmente interessante.
Mascar folhas de coca ou fumar um cachimbo da paz constituem práticas milenares
sem efeitos dramáticos. Mas quando os avanços da química fina permitem
fabricar produtos quimicamente puros, e portanto de efeitos devastadores sobre o
organismo humano, como cocaína ou heroína, em qualquer fundo de quintal, e de
forma totalmente dispersa, destruindo milhões de vidas, a própria concepção
de organização social se vê afetada. Em termos propriamente de mercado, é
incomparavelmente mais lucrativo para o camponês colombiano produzir drogas
para o mercado norte-americano do que mandioca para a sua família. E há
realmente diferença ética entre o camponês colombiano que produz droga para
os norte-americanos, e o industrial norte-americano que produz armas para o
resto do mundo?[10]
Multiplicar exemplos, e denunciar situações
absurdas, não é o objetivo deste trabalho. O que é essencial para nós, é
constatarmos que há hoje um “gap”, um fosso gritante entre a evolução das
tecnologias e a evolução das outras instâncias de reprodução social. Como
as instâncias culturais, institucional e jurídica da sociedade avançam em
ritmo muito mais lento do que as tecnologias, gera-se uma desarticulação entre
as diversas dimensões da sociedade. O homem não pode mais se dar ao luxo de um
liberalismo descontrolado quando maneja tecnologias de impacto planetário e
irreversível. A recuperação da nossa capacidade de governo, no sentido amplo
de controle da sociedade sobre as dinâmicas que gera, já não é mais um luxo
de quem gosta de política. Trata-se de uma questão de sobrevivência.
A questão da governabilidade emerge assim como
questão central. É relativamente pouco importante, frente às explosões
sociais e ambientais que se avolumam, inventar um chip mais veloz ou enviar uma
sonda a um planeta mais distante. O que é realmente importante, é fazer estes
avanços responderem prosaicamente às exigências de uma melhor qualidade de
vida. Não podemos mais nos contentar com alternativas que, para privilegiar
estruturas eficientes de produção, paralisam o desenvolvimento social; ou,
inversamente, para assegurar o desenvolvimento social, terminam por estrangular
o processo de crescimento econômico.
Na realidade, um não pode evoluir sem o outro. As
próprias empresas estão condenadas a assumir as suas responsabilidades sociais
e ambientais, enquanto as demandas sociais deverão encontrar formas de organização
que assegurem a sua viabilização econômica.
Assim, da própria revolução tecnológica em
curso, surgem novos pontos de referência: enfrentamos um mundo que muda
rapidamente, com complexidade e diversidade qualitativamente mais amplos. Para
enfrentar mudança, complexidade e diversidade temos de gerar instrumentos de
regulação social mais ágeis, flexíveis, e participativos. E não há mais soluções que não sejam simultaneamente
econômicas, sociais e políticas.
2 - Da globalização ao poder local: a
nova hierarquia dos espaços
“Nations-states are weakening as decision-making
becomes either local or global” - Nações Unidas, 1994
As tecnologias mudaram radicalmente não só a
dimensão temporal, mas também a dimensão espacial da reprodução social. O
conceito de espaço no nosso desenvolvimento está sem dúvida gerando interesse
crescente, mas também crescente confusão. Afinal, para onde vão as macrotendências:
globalização, blocos, poder local? Entre o “Small is Beautiful”[11]
e o “Global Reach”, há razões de sobra para se discutir de forma
mais aprofundada, ou em todo caso mais organizada, o conceito de espaço, e a
importância que assume no nosso cotidiano.
Referiremo-nos aqui aos espaços da reprodução
social. Na realidade, a simples reprodução do capital, ou reprodução
econômica, já não é suficientemente abrangente para refletir os problemas
que vivemos, inclusive para entender a própria reprodução do capital. Na
linha imprimida pelos sucessivos relatórios sobre Desenvolvimento Humano das
Nações Unidas, o objetivo central do desenvolvimento é o homem, enquanto a
economia é apenas um meio.[12]
Ninguém mais se impressiona com o simples crescimento do PIB, e tornou-se cada
vez mais difícil identificar bem estar humano com o bem estar da economia.
A globalização constitui ao mesmo tempo uma tendência
dominante neste fim de século, e uma dinâmica diferenciada. Um excelente
exemplo nos é dado pela dimensão da especulação financeira. A circulação
financeira internacional ultrapassa, em 1995, o trilhão de dólares por dia,
para uma base de trocas efetivas de bens e serviços da ordem de 20 a 25 bilhões,
o que significa uma circulação especulativa 50 vezes maior do que a que seria
necessária para cobrir atividades econômicas reais.
Esta ampliação dramática da especulação financeira é literalmente
carregada pelas novas tecnologias: a integração dos espaços mundiais de
comunicação, via satélite e fibras óticas, e a capacidade de tratamento
instantâneo de informação em gigantescas quantidades com a informática,
levaram a um grande avanço, em
termos de globalização, de um setor cuja matéria prima – a informação –
é particularmente fluida, e que dispõe de amplos recursos para financiar os
equipamentos mais modernos.
As avaliações da crise de 1987, bem como dos
desequilíbrios asiáticos de 1998, permitem hoje entender melhor o ponto crítico
deste processo: na era do dinheiro volátil, os fluxos se tornaram mundiais,
enquanto os instrumentos de regulação continuam no âmbito do Estado nacional.
É curioso ver o banco central norte-americano, o Federal Reserve, confessar a
sua incompetência jurídica, na medida em que o seu campo de atuação é
essencialmente nacional, e a sua impotência técnica, na medida em que não
dispõe de computadores sequer para acompanhar o que está acontecendo.[13]
Por trás desta desarticulação encontramos aqui a
dimensão espacial do descompasso entre a rapidez da evolução das técnicas, e
a relativa lentidão das transformações institucionais, gerando uma ampla
esfera econômica mundial sem controle ou regulação, e uma perda generalizada
de governabilidade no planeta. No conjunto as instituições que surgiram de
Bretton Woods, como o Gatt, o Fmi e o Banco Mundial, foram dimensionadas para
ajudar a regular relações internacionais, ou seja, entre nações, e não
globais, e se encontram amplamente ultrapassadas.
Na ausência de governo mundial, formaram-se
segmentos bem mais globais do que os outros: trata-se de uma globalização
hierarquizada. Navegam com confiança neste espaço as cerca de 500 a 600
grandes empresas transnacionais que comandam 25% das atividades econômicas
mundiais, e controlam cerca de 80 a 90% das inovações tecnológicas. Estas
empresas pertencem aos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha e poucos
mais, e constituem um poderoso instrumento de elitização da economia mundial.
No dizer franco de um economista, neste sistema, “quem não faz parte do rolo
compressor, faz parte da estrada”. A verdade é que uma ampla maioria das
populações do mundo hoje faz parte “da estrada”.
Mas sobretudo, a globalização não é geral. Se
olharmos o nosso cotidiano, desde a casa onde moramos, a escola dos nossos
filhos, o médico para a família, o local de trabalho, até os
horti-fruti-granjeiros da nossa alimentação cotidiana, trata-se de atividades
de espaço local, e não global. É preciso, neste sentido, distinguir entre os
produtos globais que indiscutivelmente hoje existem, como o automóvel, o
computador e vários outros, e os outros níveis de atividade econômica e
social. Isto nos evitará batalhas inúteis – não há nenhuma razão para que
um país tenha de se dotar de uma indústria automobilística para ser moderno
– ao mesmo tempo em que nos permitirá enfrentar melhor as batalhas possíveis.[14]
Daí a necessidade de substituirmos a visão de que “tudo se globalizou”,
por uma melhor compreensão de como os diversos espaços do nosso
desenvolvimento se diferenciaram e se rearticulam, cada nível apresentando os
seus problemas e as suas oportunidades, e a totalidade representando um sistema
mais complexo.
A formação de blocos, vista como tendência
geral, ou simples transição para o global,
constitui outra visão simplificadora.
A Comunidade Européia surge nos anos 1950 numa
situação histórica precisa, de um conjunto de paises pequenos e médios
prensados entre dois mega-poderes, da União Soviética de um lado, e dos
Estados Unidos do outro, e buscando recuperar um mínimo de peso específico
para não se verem engolidos no processo. Surge também do choque de civilização
que foi para a Europa ocidental constatar a que nível de barbárie os
nacionalismos estreitos podem levar. Hoje, a União Européia atrai novos paises
pela simples força de arrasto de uma economia de 7 trilhões de dólares, com o
seu núcleo dominante constituído pela Alemanha, com 1,8 trilhões de dólares
de PIB, a França com 1,3, a Itália com 1,2 e o Reino Unido com 0,9. Estes
quatro paises somam um PIB de 5,2 trilhões.
Ainda não se sabe como se configurará a geopolítica
das novas repúblicas do leste europeu relativamente à Rússia. No entanto, de
forma geral é claro que os blocos realmente existentes constituem
essencialmente uma aproximação de satélites em torno de três gigantes econômicos,
que controlam quase três quartos da produção mundial. Transformar este poder
de atração das três grandes potências em tendência geral para formação
blocos, constitui uma transposição sem muito sentido.
Assim, os entusiasmos passageiros com a ALALC, o
Grupo Andino e tantos outros que já surgiram têm de ser moderados, e no caso
do Mercosul, temos de trabalhar com boa dose de realismo. O Uruguai tem 3,1 milhões
de habitantes, o Paraguai tem 4,5 milhões, e os dois paises somam um PIB de 15
bilhões de dólares, cerca do dobro do produto da Baixada Santista. O Brasil
tem um PIB da ordem de 700 bilhões de dólares. A Argentina, com 33 milhões de
habitantes, e um PIB da ordem de 200 bilhões de dólares, constitui sem dúvida
um aporte significativo, mas no conjunto o nosso “bloquinho” ficaria mais ou
menos na dimensão da economia espanhola, ela mesma um sócio menor da União
Européia. Este raciocínio não significa que a aproximação não seja
sumamente válida, mas nos traz uma visão mais realista do que representamos e
nos orienta melhor para as estratégias a adotar, evitando simplificações
abusivas. Trata-se menos da formação de um bloco com sentido próprio, do que
de uma estratégia destinada a melhorarmos, coletivamente, o nosso
relacionamento com os blocos realmente existentes.
Assim, no conjunto, a formação de blocos não
representa para os países do Terceiro Mundo a mesma dinâmica que a que foi
originada com as mega-potências econômicas, e a aproximação entres as
economias pobres deverá passar bastante mais pela definição de políticas
comuns frente aos países dominantes, buscando uma inserção mais
vantajosa na economia internacional, ao mesmo tempo em que se deverá
trabalhar uma integração efetiva do tecido econômico e institucional através
de formas descentralizadas de cooperação.[15]
LADISLAU DOWBOR - “A REPRODUÇÃO DO SOCIAL” – Editora Vozes – pg. 19-34
[1]
- J. M. Roberts, History of the World, Penguin Books, London
1995, pág. 1105
[2] - Ver
Joel Swerdlow, Quiet Miracles of the Brain, National Geographic, vol.
187, n.6, June 1995
[3] - Ver a este respeito os relatórios do PACE, Program
for Advanced Communications in Europe, da OCDE, vários anos.
[4] -
Business Week, editorial, August 14, 1995: The Expanding Entertainment
Universe. “Entertainment has replaced the defense and auto industries as
the driving force of the U.S. economy”.
[5] - Octávio Ianni utiliza o conceito rico de “não
contemporaneidade” dos processos de mudança
[6] - José Eduardo Faria lembra que “o Código
Comercial , por exemplo é de 1850, o Código Civil é de 1916, o Código
Penal na sua parte especial, é de 1940, o Código de Processo Penal é de
1941. Eles têm em comum o fato de terem sido concebidos em função dos
valores de uma sociedade rural e patriarcal, organizada em torno de uma
economia agrário-exportadora de produtos primários. Hoje, porém, o País
tem uma sociedade urbana de massas organizada em torno de uma complexa
economia industrial. O descompasso entre os textos legais e o contexto
socioeconômico, por isso, é gritante”. Reforma da Justiça, O
Estado de São Paulo, 3 de março de 1997.
[7] - A
idéia é bem formulada no belíssimo livro organizado pelo africano Joseph
Ki-Zerbo, Les Compagnons du Soleil, antologia dos principais textos do
mundo que tratam da relação entre o ser humano e a natureza: “Nous découvrons
...que les faits – l’impact cumulé de l’action des hommes sur leur
milieu, la mondialisation de l’économie, l’ampleur de l’emprise des
hommes sur le vivant – ont évolué plus vite, bien plus vite que les idéologies
avec lesquelles nous “pensons” le monde et notre action dans le monde,
bien plus vite que les institutions dont nous avons mis des siècles à nous
doter pour réguler l’activité humaine. De ce décalage entre les faits,
les idéologies et les institutions, peut naiître un danger mortel pour l’humanité
entière” - Joseph Ki-Zerbo, Les compagnons du soleil, La
Découverte/Unesco/Fondation pour le Progrès de l’Homme, Paris 1992, p. 5.
Avant-propos de Piere Calame.
[8] - para uma visão rápida dos dados básicos da
destruição da vida nos mares, ver Time, 14-08-97; voltaremos em detalhe ao
assunto mais adiante.
[9] - ONU – Land Mines – Vol. 2.2, May
1997; a conferência de Tókio sobre minas antipessoais estimava o número de
minas espalhadas no campo em 110 milhões de unidades em 1997. As cifras
referentes às crianças mortas por minas variam: esforços empreendidos para
mostrar que seriam apenas cerca de 20 mil por ano, no entanto, não mudam
muito o problema, e mostram o nível de absurdo a que chegamos.
[10] - Veremos mais adiante a função da ética na
organização da economia, fortemente afetada pela desarticulação da dimensão
comunitária da reprodução social e pela rapidez da evolução das
tecnologias. Sobre
a economia da droga, ver Nicolás H. Hardinghaus, El desarrollo de la
narcoeconomía internacional, Nueva Sociedad, Caracas, Julio-Agosto 1995,
n. 138.
[11] - No Brasil, o “Small is Beautiful” de
Schumacher foi editado com o título de “O Negócio é ser Pequeno”, pela Zahar
[12] -
“Es posible que los mercados impresionen desde los puntos de vista económico
o tecnológico. Sin embargo, revisten escaso valor si no sirven para mejorar
el desarrollo humano. Los mercados son los medios. El desarrollo humano es el
fin” - PNUD, Desarrollo Humano
1992
[13] - Ver Joel Kurtzman, The Death of Money,
Simon & Schuster, New York 1993; Wall Street dispõe hoje dos equipamentos
e dos softwares incomparavelmente mais avançados, atraindo inclusive a nata
dos físicos e matemáticos das grandes instituições de pesquisa. Resumindo
a situação, Kurtzman constata que “the financial economy, which used to be
the tail, is now the dog...though real exports in America have picked up
recently, they still total less in a year than what is traded before lunchtime
on the world’s speculative markets”, p. 65.
[14] - Não se trata aqui de aceitar a priori
desigualdades econômicas, e sim de entender que produzir bem o essencial, que
frequentemente depende de uma boa organização do espaço nacional ou local,
abre melhor os caminhos para a inserção internacional do que avançar com
ilhas tecnológicas inseguras sem um sólido lastro de tecido econômico
organizado internamente. Qual a sustentabilidade de exportarmos aviões ao
mesmo tempo que que mais da metade da mão de obra do país conta com
quatro anos ou menos de formação escolar?
[15] - ver por exemplo a iniciativa de Porto Alegre de
criar um Trade Point Porto Alegre, associando a prefeitura com diversos
atores sociais locais para promover a aproximação entre pequenas e médias
empresas de diversos países - Um exemplo concreto de reforma do Estado, Tarso
Genro e José Antonio Alonso, Folha de São Paulo, 12 de Junho de 1995