OS NOVOS DONOS DO MUNDO
Ignacio
Ramonet
Bem
que poderia ser um conto de Jorge Luís Borges. Em um longínquo reino, um
grande e cruel soberano, agarrado aos atributos de seu poder, fechado em seu
suntuoso palácio, não se havia dado conta de como o mundo, de maneira apenas
perceptível, mudava ao seu redor. Até o dia em que teve de tomar a grande
decisão. Então, estupefato, viu que suas ordens não eram obedecidas, porque o
poder se havia deslocado. O grande soberano deixara de ser o dono do mundo.
Quem
se abandona a intermináveis combates eleitorais para conquistar
democraticamente o poder não se expõe, em caso de vitória. a sofrer uma decepção
similar a do soberano do conto? Sabem que, neste fim de século, o poder se
deslocou? Que fugiu desses lugares definidos que a política delimita? O
verdadeiro poder está em outra parte, fora de seu alcance.
Um
semanário francês publicou recentemente uma pesquisa sobre os cinqüenta
homens mais influente do planeta. Não figurava nela um só chefe de Estado ou
do governo, nem um ministro ou deputado, de nenhum país do mundo. Há algumas
semanas, outra publicação semanal dedicou sua capa ao homem mais influente do
mundo. Quem era? Bill Clinton, Helmut Kohl, Bóris Yeltsin? Não. Simplesmente
Bill Gates, dono da Microsoft, que domina os mercados estratégicos de comunicação
e se dispõe a controlar as autovias de informação.
As
incríveis inovações científicas e tecnológicas das últimas décadas
estimularam, em diferentes esferas, as teses ultraliberais do laissez-faire,
laissez-passer. Além disto, a queda do muro de Berlim, o
desaparecimento da URSS e o desmoronamento dos regimes comunistas animou-os a
fazê-lo A universalização do intercâmbio de sinais, em especial, acelerou-se
de forma extraordinária graças às revoluções da informática e à comunicação.
Estas provocaram concretamente a explosão dos autênticos sistemas nervosos das
sociedades modernas: os mercados financeiros e as redes de informação.
A
transmissão de dados à velocidade da luz (300.000 km por segundo); a digitação
dos textos, as imagens e os sons; o recurso, já banal, dos satélites de
telecomunicações; a revolução da telefonia; a implantação da informática
em quase todos os setores de produção e serviços; a miniaturização dos
computadores e sua ligação em redes em escala universal, estão conseguindo,
pouco a pouco, revolucionar a ordem mundial.
Especialmente
o mundo das finanças. As finanças reúnem as quatro qualidades que as
convertem num modelo perfeitamente adaptado à nova divisão tecnológica.
Atributos divinos que, como é lógico, geram um novo culto, uma nova religião:
a do mercado. Durante as 24 horas do dia trocam-se instantaneamente dados de um
extremo a outro da Terra. As principais Bolsas estão unidas entre si e
funcionam em espiral. Sem parar. Em todo o mundo, milhões de jovens
super-diplomados passam o dia dependurados ao telefone, diante de telas eletrônicas.
São os funcionários do mercado. Interpretam a nova racionalidade econômica,
que sempre tem razão, e diante da qualquer argumento - sobretudo social ou
humanitário - deve inclinar-se.
No
entanto, o mais normal é que os mercados funcionem, por assim dizer, às cegas,
incluindo parâmetros emprestados quase que da bruxaria, como a economia dos
rumores, a análise dos comportamentos de grupos, ou inclusive o estudo dos contágios
miméticos. Isto é assim porque, devido a estas novas características, o
mercado financeiro lançou novos produtos extremamente complexos e voláteis,
que poucos especialistas conhecem bem e que lhes proporcionam - isso sim,
correndo algum risco, como demonstrou há pouco tempo a quebra do banco britânico
Barings - uma considerável vantagem nas transações. Aqueles que sabem agir
sabiamente - quer dizer. em seu próprio benefício - sobre o curso dos valores
e das moedas, apenas chegam a uma dezena em tudo o mundo. São considerados
''donos dos mercados''. A uma palavra sua, tudo pode desabar: o dólar cai, a
Bolsa de Tóquio afunda.
Os
Estados não podem fazer grande coisa diante desses mastodontes
das finanças. Isso ficou claro durante a crise financeira do México,
que explodiu no final de dezembro de 1994. Que peso têm as reservas acumuladas
em divisas dos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália. Reino Unido e
Canadá - os sete países mais ricos do mundo – diante da força de dissuasão
financeira dos fundos de investimentos privados, na sua maior parte anglo-saxãos
ou japoneses? Não muito. Pensemos, por exemplo, que no mais importante esforço
financeiro da história econômica moderna em favor de um país – neste caso
– México – os grandes Estados do planeta (entre eles Estados Unidos), o
Banco Mundial e o FMI conseguiram reunir, entre todos, 50 bilhões de dólares.
Pois bem, por si sós, os três primeiros fundos de pensões norte-americanos (Fidelity
Investiments, Vanguard Group e Capital Research Management) controlam 500 bilhões
de dólares...
Os
gerentes desses fundos concentram nas suas mãos um poder financeiro não
igualado por nenhum ministro de economia ou o presidente do banco central do
mundo. Num mercado que passou a ser instantâneo e universal, qualquer
deslocamento brutal desses autênticos mamutes das finanças pode representar a
desestabilização econômica de qualquer país.
Os
dirigentes políticos das principais potências do planeta, reunidos com as
oitocentas e cinqüenta autoridades econômicas mais importantes do mundo no
marco do Fórum Internacional de Davos (Suíça). anunciaram claramente até que
ponto desconfiavam da nova palavra de ordem da moda, 'Todo poder ao mercado!",
enquanto temiam a potência sobre-humana desses gerentes de fundos. Sua fabulosa
riqueza, com freqüência abrigadas nos paraísos fiscais, libertou-os
totalmente dos governos, e eles atuam folgadamente no ciberespaço das geofinanças.
Este constrói uma espécie de nova fronteira. um novo território do qual
depende a sorte de boa parte do mundo. Sem contrato social. Sem sanções.
Sem lei. Exceto as dos protagonistas que as estabelecem a seu livre arbítrio.
Para seu maior proveito.
Em
tais circunstâncias, é de se estranhar que, especialmente nos Estados Unidos,
a desigual distribuição da riqueza continue a se agravar? E que o 1% mais
capitalizado da população controle aproximadamente 40% da riqueza nacional,
quer dizer, duas vezes mais que o Reino Unido, o país menos igualitário da
Europa Ocidental?
"Os
mercados votam todos os dias -opina George Soros, financista multimilionário -,
obrigam os governos a adotar medidas impopulares, porém indispensáveis. São
os mercados que possuem o sentido do Estado”. Ao que Raymond Barre, antigo
primeiro-ministro francês, grande defensor do liberalismo econômico, responde:
"Decididamente, já não podemos deixar o mundo nas mãos de irresponsáveis
de trinta anos, em média, que não pensam em nada mais do que em ganhar
dinheiro". O Sr. Barre considera que o sistema financeiro internacional não
possui os meios institucionais necessários para fazer frente aos desafios da
mundialização e da abertura geral dos mercados. Fato que também constata
Boutros-Gahli, secretário geral da ONU: "O poder mundial escapa em grande
medida aos Estados. A mundialização implica o surgimento de novos poderes,
que transcendem as estruturas estatais".
Entre
estes novos poderes, o dos meios de comunicação de massas apresenta-se como um
dos mais poderosos e mais temidos. A conquista de audiências massivas em escala
planetária desencadeia batalhas homéricas. Alguns grupos industriais
envolvem-se numa guerra de morte pelo controle dos recursos das sociedades de
multimídia e das autovias de informação que, segundo Albert Gore
vice-presidente dos Estados Unidos, “representam para os Estados Unidos hoje o
que a infra-estrutura de transporte por estrada representou em meados do século
XX".
Pela
primeira vez na história do mundo, é possível enviar mensagens (noticias e músicas)
ininterruptamente a todo o planeta, através das cadeias de televisão ligadas
via satélite. Atualmente, existem duas cadeias planetárias (CNN e MTV); amanhã
serão dezenas. E revolucionarão costumes e culturas, idéias e debates.
"Grupos mais poderosos que os Estados - constatam dois ensaístas franceses
- saqueiam um dos bens mais apreciados pela democracia: a informação. Imporão
sua lei no mundo inteiro, ou inaugurarão uma nova era de liberdade para o cidadão?".
Nenhum
desses autênticos donos do mundo submeteu seus projetos ao sufrágio universal.
A democracia não é feita para eles. Estão acima dessas intermináveis discussões
nas quais conceitos como o bem público, o bem-estar social. a liberdade e a
igualdade ainda tem sentido. Não têm tempo a perder. Seu dinheiro, seus
produtos e suas idéias atravessam sem obstáculos as fronteiras de um mercado
mundializado.
A seus pés, o poder político é simplesmente o terceiro poder. O primeiro é o econômico, depois o dos meios de comunicação. Quando se possui os dois - como Silvio Berluscone na Itália - conseguir o poder político não é nada além de uma mera formalidade.
Publicado em
”Le Monde Diplomatique”.
"Globalização
não é um conceito sério. Nós, americanos, o inventamos para dissimular nossa
política de entrada econômica nos outros países". (John
Kenneth Galbraith - citado em ZH de 17.01.98 - pg. 2) (GALBRAITH é talvez o
economista americano mais renomado e reconhecido em todo o mundo...)
Crime é única via de ascensão social na era FHC
MARILENE FELINTO
A gente pensa que não, mas dez anos com o mesmo grupo de homens no comando de um país como este fazem a diferença. Em breve (2002) teremos oito anos de governo FHC -governo que nunca nos tratou como humanos de fato.
Basta reparar que os ladrões e assassinos formados nesse período são, com espantosa freqüência, dotados de uma desumanidade e de um embrutecimento inéditos.
Basta reparar como piorou, na era FHC, o tratamento dado aos presos, aos menores infratores e aos meninos de rua -são tratados como animais que, na primeira chance, não vacilam em nos tratar também como animais.
Há mesmo algo de animalesco em ser assaltado a mão armada -a pessoa se sente na pré-história da humanidade, um simples objeto de caça, alcançado desprevenido pelo bandido, homem de uma tribo qualquer mais armada do que a sua, ele que saiu de casa (de sua favela-caverna) para caçar, que está na rua para caçar, e que vê na carne da vítima, no crime, o motivo não de sua sobrevivência imediata, mas de uma possibilidade de ascensão social.
O bandido embrutecido pela era FHC não rouba para comer, rouba para obter o amontoado de penduricalhos burgueses que sua vítima ostenta: o carro, o tênis, o relógio, o celular, o cartão do banco, o produto da globalização de um mundo em que ele, bandido, sabe que não conseguirá se inserir. Ele mata facilmente por um desses objetos.
Quem já não foi roubado, assaltado, quem não teve um parente, um amigo em situações piores, mortos, seqüestrados, assassinados?
É esse o cotidiano da era FHC -governo que abriu um fosso intransponível entre o miserável e o rico, entre o pobre e o classe média, mas que se gaba de ter inserido o país na economia globalizada, na informatização, na satelitização, na estabilidade.
Os dois homens que entraram encapuzados e armados na minha casa de praia há duas semanas estavam a milhares de anos-luz de distância social de mim. Eram diferentes dos ladrões que também entraram na minha casa de infância em Recife, há 30 anos, ladrões de galinhas desarmados, tão pobres quanto nós, e dos quais a gente se defendia pendurando panelas atrás das portas. Os ladrões da praia eram de uma pobreza diversa, uma pobreza que assassina. Uma das armas brilhava toda prateada na mão deles. Toda a família ficou rendida, deitada no chão da sala, da avó ao menino mais novo. E seriam mortos por qualquer deslize.
Entreguei tudo o que pediram. Eles levaram dos aparelhos celulares às peças de carne que tínhamos comprado para um churrasco em família. Foram 40 minutos de inferno típico da era FHC. Também notei o quanto eu mesma piorei nesse período. Quando os ladrões se foram, senti minha primeira vontade de matar um ser humano -de raiva pelo pânico, pela covardia.
-Tá me roubando por quê, fdp? -eu cuspiria, perversa, na cara do bandido.
-Eu já fui tão pobre quanto você e nunca roubei, nunca matei, fdp.
E só recuei na minha fúria vingativa quando pensei "macro", como se diz na era FHC -de nada adianta matar esse ladrão se não se elimina o outro, a causa de tudo, o colarinho branco protegido pelos homens da era FHC, o banqueiro espoliador, o juiz ladrão, o industrial ganancioso, o senador, o deputado corrupto.
A gente pensa que não, mas dez anos fazem a diferença. Morrem milhares de pessoas vítimas da violência social nos semáforos, nas casas, nas ruas, nas favelas e nos presídios -enquanto as autoridades insistem em festejar as "baixas taxas de juros", ignorando as taxas de morte, as verdadeiras baixas dessa guerra covarde.
E-mail - mfelinto@uol.com.br
Folha de São Paulo - 22.08.2000