A dívida externa é como a terceira guerra mundial.

Uma guerra diferente.

Nela, em vez de soldados, morrem crianças.

Em vez de feridos nos hospitais, há doentes e subnutridos que não encontram vaga, e há desempregados vagando pelas ruas.

Não destroem pontes e estradas, mas se eliminam fábricas, escolas e hospitais.

Não se lançam foguetes, mas se pilham riquezas.

Acabar com o pagamento da dívida externa é urgente.

Resgatar as dívidas sociais é preciso!

O Plebiscito da Dívida Externa é uma luta de todos!

DIGA NÃO À DIVIDA E SIM À VIDA!

 Dívida externa: o peso da escravidão

Geraldo Majella Agnelo

A expressão “dívida externa” vem de longe, mas assumiu um destaque particular depois da Segunda Guerra Mim­dial, quando alguns dentre os países vencedores —aqueles mesmos que eram os mais ricos— decidiram reservarem para si o papel de banqueiros do planeta Terra.

Praticamente tudo começou com um famoso plano (o Plano Marshall) cria­do com o objetivo de recuperar os países, especialmente a Alemanha, que ha­viam perdido a guerra. Como bons banqueiros, os “salvadores do mundo” forneceram recursos para sua recuperação material e econômica, mas impuseram condições que se revelaram em muitos casos perversas e que, ainda hoje, colocam em evidencia a força do poder econômico. Verdadeiramente bem-organizados, os países ricos cria­ram o Fundo Monetário Internacional, conhecido como FMI; semelhantes a ele, o BID e o Banco Mundial, com sede na América do Norte, e o Clube de Paris, com sede na Europa

Na fase mais simples, tudo funciona com uma grande oferta de recursos pa­ra, por exemplo, financiar a nação pobre. Uma nação com vocação para atividades simples, como aquelas agrícolas e comerciais de nível primário, recebe uma oferta de recursos para industrializar-se. Recebe, em particular, dinheiro a título de empréstimo para obras civis. Essas obras, via de regra, são executadas por empresas com sede nos países ricos; depois vem um novo financiamento para a aquisição do maquinário, que é fabricado e/ou vendido pelos países ricos. A mão-de-obra, especial­mente a especializa­da, vem de lá, isto é, dos países ricos, dado que, assim é dito, ela é necessária na fase inicial.

Além dos elevados juros, no momento da estipulação dos empréstimos são impostas condições rígidas, como a abertura do mercado a favor de empresas estrangeiras e a privatização das empresas nacionais, cuja aquisição, geralmente por estrangeiros, é acompanhada de generosas facilidades, per­missão para a remessa dos lucros para os países ricos etc. Etc. Com essas cláusulas severas, o país devedor jamais consegue quitar o débito, que, devido aos juros, é pago quatro ou cinco vezes e nunca chega a se extinguir.

Há países com grandes jazidas minerais, grande potencial hídrico e enormes florestas que não podem explorar nem mesmo utilizar essas reservas sem o “aval” dos credores.

Quando algum desses países começa a emergir e a compreender melhor o sistema econômico dos credores, quase por encanto explode uma crise econômica. Vem, então a ameaça do “caos” e, para evitá-lo, eis que surge o banqueiro miraculoso que, com uma sua solução salvífica, oferece novos empréstimos com novas e mais exigentes condições. Sem alternativa, o país pobre é obriga­do a aceitar, fazendo aumentar sua dívida externa e diminuir, sempre mais, a sua soberania.

Em níveis ou em etapas mais complexas, a poderosa indústria bélica de alguns países ricos suscita, nos países pobres, todo um clima que desemboca em guerra civil, separatismo etc.; os pobres caem ingenuamente nessa armadilha e vem a guerra. Milhões de dólares são gastos em armamento! Esse tipo de guerra, como todas as outras, produz uma assustadora destruição material, e inumeráveis vidas humanas são ceifadas.

No momento seguinte, os países ricos aparecem como “pombas da paz” e assinam o armistício. Tudo termina aqui? Grande ilusão! Como recuperar as perdas materiais produzidas pelas poderosas armas? Eis que surgem os homens do FMI (e as instituições semelhantes - os banqueiros do mundo) oferecendo empréstimos para a recuperação e a retomada. Há populações dizimadas, familiares obrigados a se separar e a viver como refugiados em outros países, sem alternativas; por isso aceitam o empréstimo e as condições propostas pelo banquei­ro, pelas quais a divida externa cresce multo e jamais termina.

Se examinarmos a situação das populações dos países devedores, concluiremos que ela piora cada vez mais. Os problemas de saúde, instrução, falta de alimentação, desemprego, prostituição e drogas são enormes. A dívida externa, assim como cada dívida contraída com agiotas, nunca será paga. Nunca jamais se ouviu falar de um país pobre que tenha pago sua dívida externa e se tornado rico.

O espírito cristão não é posto em prática pelos credores. A maioria dos países mais ricos do mundo é chamada cristã! Por que não perdoar aqueles que já pagaram a parte principal da divida mais de uma vez e continuam a dever muito? Não faz muito tempo, o santo padre, sem mencionar os credores, propôs o perdão da dívida, mas não foi ouvido. Na Exortação Tertio Millennio Adveniente no. 51: “No espírito do livro do Levítico 25,8-12, os cristãos devem fazer-se voz de todos os pobres do mundo, propondo o Jubileu como tempo oportuno para pensar, entre outras, numa consistente redução, ou mesmo num verdadeiro perdão total da dívida internacional que pesa sobre o destino de muitas nações”. Na mensagem para a 31’ Jornada Mundial da Paz (1/1/98), de 8/12/97, n~ 4: “A questão da dívida faz parte de um problema mais vasto: aquele da continuação da pobreza, muitas vezes também extrema, e do emergir de novas desigualdades que acompanham o processo da globalização...”.

Até que ponto chegará a avareza dos países ricos? Para que possuir tanto dinheiro se o próprio irmão, o próprio vizinho padece da fome e não tem escola para seu filho?

Será que um dia retornaremos ao ponto de onde partimos, quando só poucas nações tinham direito a tudo e os outros eram feitos escravos, colônia dos ricos e inferno de pobres?


DÍVIDA EXTERNA: A MAIOR FRAUDE DA HISTÓRIA DO CAPITALISMO

Paulo R. Schilling  

Centenas de livros foram escritos sobre a Dívida Externa do Terceiro Mundo. Aqui, nos limitaremos a destacar alguns aspectos do catastrófico (para os países devedores) problema.

1. A MAIOR FRAUDE DA HISTÓRIA DO CAPITALISMO

Antes de qualquer consideração sobre a Dívida Externa do Terceiro Mundo, cabe uma pergunta: porque os atuais países credores se tornaram tão ricos e nós, os devedores, estamos cada vez mais pobres e submetidos?     Verifica-se, hoje, um prático consenso de que a causa básica, fundamental do desenvolvimento econômico dos paises centrais deve ser buscada no processo de conquista e exploração da América, África e Ásia, O tráfico negreiro, o trabalho escravo, o sa­que da prata, do ouro, das especiarias e dos produtos tropicais proporcionaram aos paises europeus os recursos necessários às revoluções mercantil e industrial.

Considerando o aspecto humano - os índios chacinados pelos conquistadores e os negros mortos na operação de captura na África, nos barcos negreiros, nas plantations e minas americanas -, o preço que pagamos pelo “processo civilizatório” chega a 100 milhões de vidas. Inquestionavelmente, o maior genocídio da História.

Posteriormente, continuou a espoliação pela via de empréstimos colonizadores concedidos pelos banqueiros, da deterioração nas relações de intercâmbio e pela ação dos monopólios internacionais instalados em nossos países.

Finalmente, como uma espécie de “fecho de ouro” do processo neocolonizador, a Dívida Externa das últimas décadas, assim definida por John Kenneth Gallbraith, prêmio Nobel de Economia, em conferência dada em São Paulo: “Governos insensatos, cavalgando projetos insensatos, conseguindo créditos insensatos, forneci­dos por banqueiros não menos insensatos. Esse festival de insensatez, que não honra em absoluto o sistema capitalista e ofende o regime democrático, levou à falência dezenas de países do Tercei­ro Mundo, no mais espantoso processo de empobrecimento dos pobres a partir do enriquecimento dos ricos”.

2.      A EVASÃO DE CAPITAIS

Segundo publicação do Morgan Guaranty Trust Company (1986), era enorme a fuga de capitais dos países devedores. Um dos exemplos: a Argentina, que acumulara uma Divida Externa de US$ 50 bilhões, havia desviado para o exterior US$ 49 bilhões. David Mulford, secretário-assistente do Tesouro americano, afirmava em 1989: “A Dívida Externa dos 30 maiores devedores no Terceiro Mundo estaria praticamente paga se todo o dinheiro resultante da fuga de capitais desses paises retornasse a seus cofres”.

3. A DETERIORAÇÃO NOS TERMOS DE INTERCÂMBIO

Dados da Cepal mostram que a América Latina/Caribe vem pagando, nas duas últimas décadas, uma média anual de US$ 35 bilhões a titulo de “serviço da Divida Externa e transferência de lucros das transnacionais”. Para pagar esses encargos, nossos países são forçados a aumentar drasticamente suas exportações. Isso significa, além de graves danos ao abastecimento interno, uma constante desvalorização nos termos de intercâmbio. Esta foi, segundo a Cepal, de 21,9% no período 1981/90, e de mais 18,1% no triênio 1991/93. Os preços F0B baixaram do índice 100 para 64. Considerando uma exportação anual média de US$ 127 bilhões (1991/93), a perda média foi de US$ 45 bilhões/ano. O organismo das Nações Unidas calculou - modestamente -a fuga de capitais da América Latina em US$ 20 bilhões/ano. Se somarmos as três perdas/evasões, teremos um total de US$ 100 bilhões anuais.

4.      O ABISMO ENTRE OS POVOS

A tremenda sangria sofrida pelos países periféricos contribui de forma substancial para o aumento cada vez maior da diferença que se verifica entre países ricos e pobres. Dados do Instituto de Pesquisas Econômicas de Munique mostram que, em 1980, 26,2% da população mundial (a radicada nos países ricos) usufruía de 77,3% da renda global. Em 1990, essa população estava reduzida a 24,2%, mas se apoderava de 83,1% do produto mundial. Os habitantes dos países pobres aumentaram de 73,8% para 75,8% do total, porém sua participação no produto havia diminuído de 22,7% para 16,9%. Essa é a globalização neoliberal...

5.      A DIVIDA EXTERNA BRASILEIRA E A DITADURA MILITAR

Em 10 de abril de 1964, quando do golpe militar, a Dívida Externa brasileira somava US$ 3,2 bilhões. Em 1985, no fim da ditadura, era de US$ 100 bilhões. Ou seja, 30 vezes superior à acumulada por todos os governos anteriores, desde a Independência (1822). As várias constituições brasileiras sempre deter­minaram que os empréstimos externos deveriam ser previamente aprovados pelo Senado. Durante a ditadura, os contratos foram autorizados pelos famosos “decretos sigilosos”. Isto é, o endividamento brasileiro nesse período foi rigorosamente clandestino e completamente ilegal, inconstitucional.

6.      OS JUROS VARIÁVEIS

Os banqueiros internacionais impuseram, nos contratos da dívida, a cláusula dos “juros variáveis”. Os juros no mercado internacional eram, em 1976, de 6,25% e chegaram em 1981 (em razão da inflação norte-americana), a 21,5%. Este aumento, com efeito retroativo, só no caso brasileiro significou um custo adicional de pelo menos US$ 50 bilhões.

7.    ABDICAÇÃO DA SOBERANIA

O Brasil aceitou a imposição de que os assuntos da dívida fossem julgados nos foros de Londres e Nova York. O grande jurista Seabra Fagundes definiu assim a vergonhosa capitulação: “Esse fato, de o Brasil renunciar explicitamente a alegar sua soberania, faz deste documento talvez o mais triste da história do País”.

8.      COMO O BRASIL REFINANCIOU SUA DÍVIDA EXTERNA

Em função da intensa campanha pelo não-pagamento da Dívida Externa, protagonizada pelas Igrejas, partidos políticos, centrais sindicais, organizações como a Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Brasileira de Imprensa e ONGs, das dificuldades crescentes que tinha o governo de continuar pagando os serviços da dívida e do medo da moratória, os títulos da dívida brasileira chegaram a ser vendidos, no mercado paralelo de Nova York, por até 18% do seu valor nominal.

Não fossem as negociações dos últimos governos brasileiros, especialmente o acordo firmado por Fernando Henrique Cardoso, quando ministro da Fazendo do governo Itamar Franco, os títulos da dívida continuariam a cair (como nos anos anteriores), transformando-se em certificados (“papers”) sem nenhum valor, desses que se colam nas paredes. Devido ao acordo (homologado pelo Senado) e à “securitização” (troca dos títulos antigos, ilegais, por novos), os “C-Bonds” estavam cotizados, em 15/7/97, no merca­do de Nova York, a US$ 82,99 do valor nominal. Assim, graças ao Acordo, os banqueiros credores do Brasil, além de se livrarem do fantasma da moratória e do não-pagamento, evitaram prejuízos/realizaram lucros de várias dezenas de bilhões de dólares.

A Divida Externa brasileira, que poderia estar zerada, continuou aumentando aceleradamente durante o governo FHC. Em 1994, somava US$ 148,3 bilhões; atualmente chega a US$ 235 bilhões. Com os empréstimos programados com o FMI, termina­remos o século com uma divida não menor que US$ 300 bilhões.

O aumento da dívida interna (sobre a qual o governo está pagando 41% de juros/ano) é ainda mais vertiginoso: R$ 193 bilhões em 1997 e R$ 389 bilhões em 1998. A previsão para este ano: R$ 506 bilhões.

Essa catastrófica situação comprova a total vigência das definições do Cardeal Paulo Evaristo Arns (“Os cinco pontos do Cardeal” - 26/7/1985):

“A questão da divida, antes de ser financeira, é fundamental­mente política e, como tal, deve ser encarada. O que está em jogo não são as contas dos credores internacionais, mas a vida de milhões de pessoas que não podem sofrer a permanente ame­aça de medidas recessivas e do desemprego que traz a miséria e a morte.

Os direitos humanos exigem que todos os homens de boa vontade do Continente e do Caribe, todos os setores responsáveis, unam-se na busca urgente de uma solução realista para a questão da Divida Externa, de modo a preservar a soberania de nossas nações e a resguardar o princípio de que o compromisso primeiro de nossos governos não é com os credores, mas sim com os povos que representam”.


 A DÍVIDA COM A MORTE

 PEDRO CASALDÁLIGA

Nascer endividado, viver endividado, morrer endividado.., é o destino de todos os pobres do Terceiro Mundo, a fatalidade da nossa América. E ser assim endividado equivale a ser proibido de viver. A Dívida Externa é a morte interna.

Acabamos habituados a essa guerra total, a mais mortífera de quantas guerras a História humana registra. A expressão máxima da dominação internacional. O crime maior do capitalismo. Guerra, dominação, crime, por outro lado, cinicamente justificados no Direito Internacional: trata-se de uma dívida, e dívida é um dever e um direito, e as dívidas se pagam...

Nossos políticos, os acordos internacionais, a consciência desmobilizada ou subserviente vêm fazendo da Dívida Externa a Constituição real dos nossos Povos subjugados. Por causa da Dívida não podemos fazer Reforma Agrária; por causa da Dívida não podemos atender nem à saúde nem à educação nem aos salários... Somos o quintal do FMI, a barraca do Banco Mundial.

Contestar a Divida é ingenuidade política, fuga histórica, irresponsabilidade econômica. E continuamos pagando, não a Dívida, mas apenas seus juros: 11 bilhões de dólares por ano no nosso depauperado Brasil!

As Igrejas históricas, neste país, sem populismos nem irresponsabilidades, por princípios éticos e por exigência evangélica elementar, já declararam conjuntamente que a Dívida Externa é imoral: não pode ser paga, nem deve ser paga.

Mas o senso comum e as estatísticas honestas sabem muito bem que já pagamos essa dívida, com juros de espoliação, miséria e morte.

Se alguma solidariedade conjunta pode salvar nossa América do colapso econômico social a que o Primeiro Mundo e seus mecanismos nos condenam, ela seria a vontade conjugada, latino-americanamente unida, de não pagar a Dívida Externa. Sempre será mais ingênuo, mais cínico, mais suicida pagarmos para morrer, para ver nossos Povos aniquilados pela fome, pelas doenças, pela marginalização mundial.

            Contra a Divida Externa, a Dignidade continental interna.


Leia também (clique): METÁFORA DA DÍVIDA 

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