Dinheiro que cai do céu
Gilberto Dimenstein
Para
melhorar a seleção de seus funcionários, a empresa aérea TAM decidiu
incluir um novo critério - a taxa de bondade social dos candidatos.
O
Departamento de Recursos Humanos sinaliza preferência
a quem exerça trabalhos comunitários voluntários.
Por trás do critério há um raciocínio prático, longe dos
dons celestiais: os indivíduos que apreciam a filantropia teriam melhor
preparo para lidar com o público.
“É um bom negócio para o país uma empresa estimular trabalho
comunitário. Mas também é um bom negócio para nossa empresa",
afirma Rolim Amaro, dono da TAM.
Especialista
em estudos de filantropia, o professor Stephen Kanitz, da Faculdade de Administração
da Universidade de São Paulo, está convencido de que a tendência veio para
ficar.
Kaniz
também conhece o outro lado do "balcão”; por vários anos, editou
publicação intitulada “Maiores e Melhores" com uma análise do
desempenho das empresas brasileiras.
Ele
detecta crescente número de empresas incluindo na seleção o quesito
responsabilidade social - especialmente entre empresas multinacionais.
O
estresse ambiental não vai parecer tão devastador para quem se dispõe a
brigar numa favela ou numa creche.
Foi
concluída neste mês a mais abrangente pesquisa já realizada no Brasil com
dirigentes e altos funcionários dos mais variados tipos de empresas, escolas
e mídia sobre o perfil ideal do trabalhador – o
levantamento foi assessorado pelo professor José Pastore, um dos
maiores especialistas brasileiros em tendências do mercado de trabalho.
É, assim, uma característica que passa a ser
decisiva na hora de conseguir emprego, por melhorar a qualificação –
afinal, faz parte do aprendizado sobre como lidar com conflitos.
Já
há no Brasil grupos de educadores dispostos a dar crédito escolar, no final
do ano, aos alunos que façam parte de programas para mudar a vida de suas
comunidades.
Há
anos tenho tido contato com jovens que realizam serviços comunitários. Dá
para perceber rapidamente como desenvolvem o senso de liderança, o gosto por
desafios, a ousadia e a articulação.
Ao
deixar os Estados Unidos, no início deste ano, saí convencido de que uma das
razões para a grandeza do pais é justamente a vocação ao trabalho comunitário
dos seus cidadãos.
PS:
Preparei uma pasta com artigos relacionando voluntariado e emprego. Além de
artigos, sites: um deles informa qual a entidade mais próxima de seu trabalho
ou casa. O material está na página do aprendiz, onde se pode encontrar a íntegra
da pesquisa realizada com formadores de opinião sobre o trabalhador do amanhã.
(e.mail: gdimen@vol.com.br Aprendiz: www.aprendiz.com.br )
Folha
de São Paulo, 29/11/98, pg.3,8.
A fé de Úrsula e Martina
Élio Gaspari
Pouco
antes do meio-dia de quarta-feira passada, a monja Maria da Graça caminhava
com suas sandálias de couro pelo pedaço de terra da estrada que leva ao alto
da Serra Preta, em Quixadá, no sertão cearense. Ia com seu hábito cinza e véu
branco, rezando. Durou pouco sua caminhada, porque parou ao seu lado um velho
Volks verde, guiado pela pediatra Martina. Subiram juntas os 12 quilômetros
que terminam no Santuário de Nossa Senhora Rainha do Sertão.
A
viagem dessas duas mulheres é uma história de fé.
A
monja Maria da Graça, de 31 anos, pele branca e óculos de aros dourados, é Úrsula,
uma alemã nascida em Paderborn, formada em Letras em Colônia e em Filosofia
em Roma. Ela estava na estrada porque acabara de dar sua aula de história da
filosofia moderna para uma turma de 34 alunos no Seminário de Quixadá.
Durante três horas, falara do iluminismo francês: D'Alembert, Diderot,
Voltaire e Montesquieu.
A
pediatra foi Martina até os 34 anos, em 1992. Vivia em Cagliari, na Sardenha,
era especializada em medicina esportiva e com sua clínica privada ganhava em
torno de US$ 8 mil por mês. Num campeonato mundial de karatê, internou um
lutador que sofreu uma luxação da bacia. Largou tudo, deu o que tinha e
tornou-se monja da comunidade Oásis da Paz. Hoje é a irmã Antonella e passa
quatro horas de seus dias no hospital da Diocese de Quixadá atendendo 50 crianças por jornada:
-
A primeira vez que eu vi uma criança mal-alimentada pensei que ia chorar.
Nunca tinha visto aquilo. Na Itália, eu receitava dietas, mandava as pessoas
comerem menos. Eu nunca tinha visto uma anemia, um abscesso, uma pneumonia.
Achei que ia chorar, mas pensei que Deus me daria forças. Pouco depois, eu
consegui sorrir para a criança, porque o meu hábito fala do meu trabalho e
quando um religioso ri ou receita um remédio, ele está mostrando a vontade
de Deus.
Maria
da Graça e Antonella são duas das quatro monjas da comunidade de 13
religiosos que levam uma existência contemplativa no Santuário de Nossa
Senhora Rainha do Sertão, encarrapitado a 500 metros de altura numa serra de
onde se vê um pedaço do imenso sertão cearense. Elas têm licença para
descer à cidade de manhã, ajudando as obras de Deus e a vida dos pobres. De
volta, retomam uma rotina de sete horas de orações diárias. (Para
cumpri-las, Antonella dirige na descida rezando o terço.)
Nesse santuário, que já se tornou um centro de romarias, os monges
adoram o Santíssimo Sacramento, revezando-se durante as 24 horas do dia. Oram
pela paz. Tanto Antonella quanto Maria da Graça ajoelham-se diante do altar,
com a cabeça encostada nas pernas ou, quando preferem, rezam tocando violão.
Antonella toca melhor: "Santo Agostinho já ensinou. Quem reza cantando
reza duas vezes." ("Musica profana, nunca.")
"Um santo triste é um triste santo. Um religioso triste é um
triste religioso", acrescenta Maria da Graça. As duas carregam uma
beata alegria e não fazem a menor questão de escondê-la. "No serviço
do Senhor eu vivo os dias mais felizes da minha vida. Estou servindo a Maria e
ajudando quem precisa", diz Maria da Graça. "E no dia em que eu
tiver que sair de Quixadá, acho que vou chorar mais do que chorei quando
parti da Itália", acrescenta Antonella.
Na comunidade, fazem de tudo. Lavam, passam, cozinham e limpam o santuário.
Ninguém as ajuda. Não ouvem rádio nem vêem televisão, pois todos
decidiram que o mundo poderia chegar a eles por meio de jornais e revistas, o
que já é muito. Maria da Graça só leu uma obra da literatura brasileira: O Quinze, romance de Rachel de Queiroz no qual ela conta os efeitos
da seca de 1915 na região que fica aos pés do santuário. Gostaria de ler
alguma coisa que colocasse a fé no quadro da seca e recorda que no último
dia de São José (19 de março) choveu enquanto a comunidade fazia uma
novena. Foi pouca a água, mas caiu durante a reza.
Além
da felicidade explícita dessas duas monjas, há nelas a história da surpreendente
virada de suas vidas. Ambas vinham de famílias católicas, eram praticantes,
mas decidiam-se pelas orações e pela contemplação em espaços curtos de
tempo. Entre a hora em que acharam possível entrar para a comunidade Oásis
da Paz e o momento em que bateram à sua porta passaram-se no máximo três
meses.
Os
pais de Úrsula (uma enfermeira e um funcionário do Correio) lembraram-lhe o
tempo que ela gastara preparando-se para ensinar literatura. (Fala cinco línguas
- alemão, inglês, francês, italiano e português, aprendido em menos de um
ano. Arranha o croata.) Ela lhes respondeu que partia feliz porque agora esses
dons estariam a serviço de Deus e dos outros. O pai de Martina pediu-lhe que
pensasse bem, porque depois poderia vir a chorar o que deixava para trás. Não
via sentido: “Agora que você
tem tudo, quer largar tudo". "Eu lhe disse que não havia essa
possibilidade. Sempre fui muito decidida e a decisão foi fácil", conta
a irmã. Há pouco tempo seu pai passou quase um mês em Quixadá. Se não houvesse
a possibilidade de ela ser transferida para outra comunidade, venderia tudo o
que tem e viria morar no Sertão.
As irmãs Antonella e Maria da Graça, como todos os outros monges da
comunidade, nada têm e nada querem. Só tocam em dinheiro para receber doações.
Martina compra gasolina assinando vales (o carro é da diocese). "É
muito difícil eu pegar nessa coisa do demônio, mas, quando eu pego, sabe-se
que ele está nas mãos de uma pessoa a serviço de Nossa Senhora."
Amigos italianos e alemães das duas já mandaram mais de US$ 5 mil em
doações para as vítimas da seca e para os pobres assistidos pela
comunidade.
Maria da Graça não acredita que casos como o seu sejam tão
excepcionais. Crê que sua escolha foi fácil e aconselha:
"Os jovens não devem ter medo de se dar a Deus, de ter fé. Não
devem ter medo de dar o que há de material em nossa vida. Deus pode dar
tudo aquilo que as pessoas precisam: amor".
Nada lhes falta. Percebe-se nelas uma ponta de curiosidade pelo
funcionamento dos computadores ligados à Internet. Se a comunidade tivesse
um, poderiam mandar recados aos parentes e ler no mesmo dia o L’Osservatore
Romano, jornal oficial da Santa Sé.
Quem quiser ajudar a comunidade das irmãs Maria da Graça e Antonella
pode ficar com seu endereço:
Comunidade Mariana Oásis da Paz - Santuário
Caixa Postal 15 - Quixadá - Ceará
Quem não quiser, pode ajudá-las lembrando-se da beleza de suas histórias.
É muito mais do que elas precisam.
Folha de São Paulo, 24/05/98 e Zero Hora, 24/05/98