CONSCIENTIZAÇÃO

 

I. Noção de conscientização

 

O tema da conscientização tem múltiplas ressonâncias e implicações em diversos campos.

O termo "conscientização" (do verbo conscientizar) é de origem iberoamericana e começou a ser usado com uma nova carga de conteúdo não faz muito tempo. O verbo conscientizar não é um verbo nem totalmente ativo nem totalmente reflexivo: é um verbo que expressa reciprocidade. “É usado no sentido de uma tomada de consciência da realidade, do universo que nos rodeia; através dessa realidade, o homem se descobre a si mesmo, descobre suas relações com os outros ‘‘(R. G. Barros).

Conscientização significa tomada de consciência. A consciência humana é a grande realidade dentro do universo. Supõe tudo o que o homem é e o que o homem faz. “Mediante a consciência somos capazes de adquirir uma perspectiva com respeito aos outros, com respeito ao universo e com respeito a nós mesmos. Através da consciência, nós nos miramos como num espelho, olhamos os outros como alguém distinto de nós, podemos analisar a matéria em seus mínimos detalhes. Ao mesmo tempo, a consciência permite-nos entrar em comunhão. Descobrimos a nossa identidade, mas desejamos nos conhecer melhor. Podemos entrar em comunhão com os outros conservando sempre nossa identidade, e respeitando a dos outros, mas alcançando uma comunhão de amor. Sentimo-nos como parte do universo, mas capazes de o transformar, de o unir mais a nós, para o tornar mais humano. Mas adquiro consciência de mim mesmo na medida em que os outros me conhecem e me amam. O filho vai se tornando consciente na medida em que seus pais o conhecem e o amam. Essa consciência que adquiro de mim mesmo é a de alguém que vive inserido na matéria: num corpo, num universo, que é o prolongamento de meu corpo; é a consciência que alguém adquire de que necessita de alimentar-se, vestir-se, abrigar-se sob um teto, movimentar-se etc. Como conseqüência, na medida em que tenho de enfrentar este universo e na medida em que ele resiste ser aprisionado por mim, e em que eu o transformo e o assumo, vou me tornando mais consciente. Esse encontro com o universo vai indissoluvelmente ligando minhas relações com os outros. Não é uma tarefa exclusivamente minha, mas é uma chamada para ser cada vez mais uma tarefa de todos. Na medida em que eu for mais consciente, posso ajudar os demais a sê-lo também, e vice-versa” (idem).

Para definir a conscientização é necessário ter em conta as diversas formas da tomada de consciência que o homem pode ter diante da realidade. Essas diversas formas de consciência diante da realidade originam atitudes humanas e políticas muito diferentes. Conforme Paulo Freire, existem dois níveis de consciência:

1) - Consciência “intransitiva”: encontra-se nos homens acríticos e em comunidades “fechadas”. Caracteriza-se por uma quase impermeabilidade aos problemas e aos estímulos situados fora da esfera do biologicamente vital (alimentar-se, subsistir, imunizar-se contra tudo o que possa atentar contra a própria vida do homem ou da comunidade); pela quase ausência da consciência histórica (o homem está como que ancorado de alguma forma em um tempo que parece ter uma só dimensão: o presente; não tem senão uma débil consciência de sua tríplice dimensão de ontem, hoje e amanhã); e por uma captação e uma compreensão principalmente mágicas da realidade da qual necessariamente se deriva uma ação principal mente mágica.

2) - Consciência “crítica”: caracteriza-se pela profundidade na interpretação dos problemas; pela substituição das explicações mágicas pelo estudo das causas reais; pela segurança nas argumentações; pela prática do diálogo e não da polêmica; pela receptividade diante da novidade (sem por isso rechaçar o antigo); por não transferir ou abandonar sua responsabilidade.

3) - A conscientização supõe a passagem da consciência intransitiva para a consciência crítica. É antes um processo do que uma ação. Este processo da conscientização coloca o homem numa postura especial: o homem não se deixa encerrar numa situação, mas a domina e é capaz de superá-la com uma crítica valorativa.

Esta tomada de consciência como processo do homem tem um conjunto de aspectos ou etapas. R. G. Barros descreve-os do seguinte modo:

4) - A tomada de consciência como reflexão da realidade

A consciência humana pode chegar a estar quase totalmente imersa ou absorvida pela realidade, sem capacidade para tomar perspectivas para criticá-la ou superá-la. A tomada de consciência crítica diante da realidade é um momento ou uma etapa do processo da conscientização. O esforço da reflexão sobre a realidade para apreendê-la e criticá-la chega a ser um elemento essencial da tomada de consciência. Essa reflexão comporta: a)  análise da experiência; b)   interpretação da experiência; c) sistematização da realidade de maneira que se possa ter uma visão global para intentar um esforço de superação.

  5) - A tomada de consciência como projeção

Depois de haver analisado, interpretado, sistematizado e chegado a uma visão global da situação, a consciência quer ir mais além, quer transformar e elaborar uma nova realidade existente. Dito de outra forma, procura projetar os objetivos. Essa etapa ou momento da projeção comporta: a) proposição de objetivos; b)    adoção de uma estratégia para alcançar os objetivos; c)    reflexão sobre as operações que se hão de empreender para realizar a mudança.

  6) - A tomada de consciência (conscientização) deve continuar na escolha de opções:

 - em ações transformadoras, em evolução crítica permanente e em valorização da transformação empreendida. Estas são outras tantas etapas do processo de libertação, da qual faz parte a conscientização. O especifico da conscientização, nesse processo de libertação, é o seguinte: a tomada de consciência permitiu uma reflexão critica sobre a realidade, mas por seu dinamismo viu-se impulsionada a uma superação da situação. Foi levada a reflexionar quanto ao tipo da realidade que deve construir (objetivo), o modo de o conseguir (estratégia) a atividade que deve empreender para realizar as transformações necessárias (operações).

 

 II. Conscientização: realidade “pessoal” e realidade “política”

 

A conscientização é uma realidade bifrontal; tem uma dimensão pessoal e outra dimensão política (entendendo esse termo em seu sentido mais amplo). Criar homens conscientizados, é criar homens politizados .

  1) A conscientização radicaliza-se na estrutura pessoal do homem

O homem - na definição de Zubiri - é um animal de realidades . Sua função é “inteligir realidades”. Não está coercitivamente condicionado pelos estímulos de um esquema fechado de estímulo-resposta. É uma estrutura aberta, na qual entra o imprevisível. Isto supõe que o homem está, em certo sentido, acima da realidade: não como ausente ou fugido, mas na função de “tomar conta” da situação. Este caráter de ser alertado supõe nele a conscientização.

Paulo Freire abalizou a forma de relacionamento que o homem mantém com o mundo e descobriu a existência de uma conscientização como estrutura antropológica fundamental. Enquanto que o animal tem contatos com o mundo, o homem tem “relacionamentos” . As características desses relacionamentos são:

- postura critica (no animal: ausência de postura crítica).

- pluralidade (no animal: singularidade).

- conseqüência (no animal: inconseqüência).

-   transcendência (no animal: imanência).

  2) Dimensão “política” da conscientização

A conscientização traz consigo uma elevação do nível político dos homens:

- conscientizar é criar uma “sociedade-sujeito”;

- isso traz consigo uma auto-reflexão e uma auto-decisão (ser autores e não meros espectadores) num tempo e num espaço determinados;

- tudo isso conduz à “elevação do pensamento das massas”; e a isso podemos chamar “politização”.

  A auto-reflexão leva as massas ao aprofundamento que segue à sua tomada de consciência e que tem por efeito sua inserção na História, não como espectadores, mas como autores e protagonistas.

  3) correlação entre “níveis de consciência” e “formas de sociedade”

  Procurando correlacionar a Consciência com o tipo de sociedade, Freire estabelece os seguintes níveis: “submergência”, “emergência”, “inserção” e “flutuação”. Naturalmente esses níveis estão em relação direta com a realidade estrutural de sociedade em seu constante devir. Além disso, estes níveis devem ser entendidos em termos de preponderância e não de exclusividade.

  a) Consciência de “submergência” = Sociedade fechada

É preciso levar em conta que são muito diferentes os diversos tipos de sociedade fechada: as sociedades da América Latina, as da África, as áreas semifechadas nas sociedades de manipulação. Contudo, há algo comum em todas elas: - a “estrutura de dominação”. “As sociedades fechadas, como totalidades em si mesmas são parcialidades de uma totalidade maior nas quais se encontram em relação de dependência com respeito às Sociedades manipuladoras ou centrais. Deste modo, em tal relação de dependência, as sociedades fechadas não podem ser verdade de si mesmas”, mas, pelo contrário, se encontram a si mesmas como a “verdade das sociedades manipuladoras. Pode acontecer, além disso, que certos grupos vivam dependentes de outros grupos eleitos (primeira dependência) dentro de uma Sociedade fechada (segundo grupo de dependência).

Dentro da sociedade fechada a consciência é “consciência para o outro”; não existe a consciência própria: o centro decisório está fora (colonização); cala-se a cultura própria (silêncio da cultura: “mimetismo intelectual”). Uma “consciência para outro” é uma consciência silenciosa.

Uma “consciência para outro” é uma consciência que “está sempre sujeita, condicionada pela realidade objetiva de sua sociedade fechada; é uma sociedade “imersa” na própria realidade. Em tal situação a consciência “imersa” ou “semi-intransitiva” sofre uma espécie de obliteração que, por uma parte, restringe seu campo de percepção, e por outra, sua compreensão da verdadeira causalidade. Daí que a consciência, neste nível, não é capaz, geralmente, de ter uma percepção estrutural da realidade. Por esta razão, sua tendência com respeito às “situações limites” é buscar suas causas fora da própria objetividade. Às vezes, na vontade de Deus ou na “força do destino”, às vezes na própria “incapacidade natural” dos homens. Neste nível de consciência o comportamento do homem pode se qualificar como mágico.

Outra característica da sociedade fechada e da consciência semi-intransitiva é o fatalismo. Os homens neste nível de consciência, não crêem em si mesmos, em sua capacidade de transformação da realidade. Esta situação fatalista é uma boa oportunidade para aceitar as situações injustas nas quais se vêem submetidos. Por outro lado, os grupos elitistas manipuladores terão maiores garantias para manter sua atitude paternalista.

b) Consciência de emergência = sociedade em abertura

No momento em que uma sociedade fechada começa a se abrir sob o impacto de fatores internos e externos (como uma função da interação própria de suas contradições) então muda sua fisionomia. A sociedade fechada, ao tornar-se “dividida”, entra num processo de transição.

Mas este processo de transição traz consigo um abandono dos velhos valores (sobretudo, são os jovens os que começam a fazê-lo); além disso, as classes manipuladas, antes “submergidas”, começam a operar uma ação de “emergência”.

“O emergir refere-se ao momento da consciência deste mundo, com um mundo que ela começa a descobrir para si mesma em sua condição de dependência... O emergir seria impossível se o ser que está emergindo não estivesse imerso ou semi-imerso. Mas, por outra parte, o emergir seria impossível também se não existisse outro ser, num estado contrário, para dar testemunho do emergir do outro’’.

A Consciência nessa situação de emergência não é, porém, capaz de reconhecer clara e distintamente sua própria condição. Por isso é ainda uma consciência transitiva ingênua.

Contudo, é óbvio que a simples presença da gente na “superfície” da sociedade, como resultado de sua “fissuras” provoca o aparecimento de um novo estilo de vida política. Nasce o “populismo” (o líder populista que atua como intermediário entre a massa e as elites). Aparecem as contradições das sociedades: cada dia são maiores as contradições entre as elites do poder e as massas populares emergentes.

c) Consciência de inserção = sociedade aberta

A consciência crítica supõe uma autêntica conscientização dos homens e dá lugar a um tipo de sociedade aberta. A consciência crítica empenha-se em uma práxis libertadora.

A conscientização é a alma do processo humano da libertação. “Processo significa um conjunto de fenômenos em evolução, em movimento, em desenvolvimento. Para que estes fenômenos se convertam em um processo, faz falta uma certa coerência e uma certa unidade dinâmica entre eles... Em sentido estrito, processo humano é aquele do qual o homem toma consciência, aquele que submete à crítica, e cuja evolução ele orienta para tornar-se mais homem na liberdade, na responsabilidade e na solidariedade com os outros”.

 

III. Conscientização e educação humana

 

1) A educação para a liberdade (“educação libertadora”)

  Diante da ação educadora abrem-se duas opções: ser uma educação para a liberdade; ou ser uma educação para a “domesticação”. A primeira considera e trata o homem como “sujeito”; a segunda considera e trata o homem como ‘‘ objeto”.

A educação, sobretudo nos aspectos e formas de educação básica, alfabetização ou educação popular, aparece hoje em dia como uma das fórmulas básicas de conscientização e de libertação. Precisamente, considera-se como uma das tarefas fundamentais da educação libertadora e respeitosa da pessoa,  a de “expulsar a sombra esmagadora da opressão, mediante a conscientização”.

Daí o conectar-se a educação de um modo particular com o tema e com a realidade do “desenvolvimento”. O conceito e a realidade do desenvolvimento passaram por várias conceitualizações e por várias práxis. Falou-se do desenvolvimento:

a) em seu aspecto econômico (“condicionar o funcionamento da atividade econômica de forma que se produza o máximo de bens no prazo mais curto e a custo mais baixo”);

b)  em seu aspecto social (“os bens de produção não podem permanecer em mãos de um grupo reduzido”);

c) em seu aspecto político (“para superar certas contradições, para realizar certas mudanças na estrutura da sociedade, para assegurar certas orientações do desenvolvimento, é necessário uma vontade politica”);

d)  não faz muito tempo insiste-se na dimensão cultural do desenvolvimento como algo global: “o desenvolvimento de todo o homem, de cada homem e de todos os homens”).

Se o processo da libertação humana é a exigência fundamental de nosso tempo, sobretudo para certas sociedades e para certos grupos, a educação “não pode ser considerada senão como processo de libertação no significado existencial e global que é preciso dar-lhe. A perspectiva de uma educação libertadora deve orientar o conjunto do processo educativo, concretizar de novo seus objetivos, situar os educadores e educandos em outro tipo de relacionamento completamente distinto, valorizar novamente a utilização de diversos meios de comunicação, revisar toda uma série de sistemas educativos vigentes”.

Não se trata da confrontação de duas “pedagogias”, mas de duas “concepções” do homem e do mundo. Por isso é que procuramos assinalar quais são as características destes dois tipos de educação:

-  a educação para a “domesticação”. Chama-se também educação “utilitária” e educação “ bancária” .

A educação “utilitária” pode ser descrita do seguinte modo: o objetivo da educação tipo utilitário é ir integrando progressivamente setores cada vez mais amplos da população na sociedade existente. Nestas sociedades, o mais freqüente é que a criação cultural seja um privilégio dos grupos que estão na posse do poder e com aqueles que participam indiretamente dele. Decidem praticamente qual há de ser o tipo de homem e de sociedade que se há de promover, ou intentar fazê-lo de forma que se assegure sua permanência no poder. A criação cultural é feita por esses grupos para seu próprio serviço.

A educação “bancária” vem a ser a mesma que a educação utilitária, embora olhe sobretudo a relação educador educando. Conforme essa concepção, o educando é como um recipiente no qual o educador vai fazendo seus “depósitos”; considera-se a educação como um ato passivo de receber doações e imposições de outros. No fundo dessa forma de educação existe uma falsa concepção do homem; concepção mecanicista da Consciência; freio a tudo o que se suponha criatividade; negação do caráter crítico; aceitação de uma visão estática da realidade.

A educação para a “domesticação” é uma nova forma de entender esse tipo de educação utilitária ou bancária. Este tipo de educação é uma forma domesticadora dos indivíduos ante a realidade. É um instrumento de dominação.

  A educação libertadora, é a educação para a “conscientização”. Procura despertar em todos os cidadãos uma crítica, por meio da qual se tornem capazes:

- de interpretar e avaliar sua experiência e sua situação;

- criar com os outros relações de diálogo e de comunicação num esforço de interpelação recíproca;

- comprometer-se com os demais na transformação do universo e da sociedade para conseguir maior libertação e comunhão”.

  A educação libertadora tem suas leis: primazia da práxis; respeito à liberdade do sujeito; a educação como algo contínuo e permanente; democratização cultural; reconhecer os educadores como criadores da história e como protagonistas dela mesma; culminação da educação em seu processo de libertação humana.

Tal tipo de educação exige uma pedagogia especial: a) a comunicação não pode ser a comunicação de um conteúdo elaborado previamente; b) o educador deve se converter num animador: seu papel é o de interpelar o grupo ou a comunidade; c) o educando desenvolve ao máximo suas qualidades criativas e transformadoras da realidade.

  2) A ação cultural (educação de adultos)

  A ação cultural com relação aos adultos recebeu muitos nomes: “alfabetização”, “educação de base”, “educação de adultos”, “educação popular” , “cultura popular” etc.. Num sentido autêntico a educação de adultos compreende: a) a alfabetização; b) a educação sanitária, doméstica, alimentícia e nutritiva, práticas agrícolas e pequena indústria; c) a formação cívica, política, econômica e sindical; d) a cultura num sentido estrito (história, literatura, arte, música, cinema, teatro, ciências e técnica, biologia e física); e) a educação para o uso adequado do tempo livre; f) a formação profissional.

A educação dos adultos tem uma longa história, sobretudo a partir do século XIX. A UNESCO celebrou inúmeras Conferências Internacionais sobre a Educação de Adultos.

A educação de adultos aparece como uma necessidade ainda mais peremptória no atual momento: damo-nos conta da necessidade de uma “reciclagem”; melhor, de uma educação permanente. De fato, existe todo um programa da educação de adultos no mundo.

A ação cultural com adultos tem de ser entendida de um modo correto. Às vezes se identifica com alguns dos aspectos que a integram, mas que não constituem o fundamental de uma ação cultural. Não se pode identificá-la: - com um ensino de caráter compensatório ou complementar, - com o aproveitamento das horas de folga, - com os meios governamentais da política educacional, - com a “versão popular” da cultura burguesa.

A ação cultural é uma realidade muito mais rica e muito mais complexa. Do ponto de vista descritivo, no ato cultural podem-se distinguir cinco aspectos diferentes: a) A experiência íntima que faz o homem de si mesmo, de sua própria consciência e de seus empreendimentos... b) Partindo dessa experiência, o homem forma uma idéia de si mesmo e dos demais homens, elabora um determinado conceito do universo e da sociedade. Em outras palavras, elabora uma ideologia, uma doutrina ou participação mediante a confrontação com os outros, na elaboração de uma ideologia comum; partindo de sua experiência projeta um tipo de homem e de uma sociedade. c) Esta experiência íntima e esta ideologia o homem expressa mediante sinais visíveis: a conversa, os gestos, as manifestações artísticas, as ciências, as técnicas e inclusive os mitos. Os sinais constituem com bastante freqüência um esforço de transformação e humanização da realidade. d) O ato cultural tem sempre uma dimensão social. É o fruto de uma comunicação entre os homens. Necessita de uma estrutura social para se expressar. Insere-se numa família, num grupo, numa sociedade. e) Finalmente, o ato cultural tem uma dimensão moral: dito de outro modo, os quatro aspectos que acabamos de enumerar têm conseqüências quanto ao comportamento humano e lhe apresentam exigências (leis, normas morais etc.).

De um ponto de vista mais dinâmico, podemos dizer que estes cinco aspectos constituem no fundo dois pólos com respeito ao ato cultural:

- a tomada de Consciência pelo homem (que corresponde ao primeiro aspecto);

- as estruturas nas quais se expressa esta tomada de consciêencia e que a condicionam (corresponde aos outros quatro elementos).

  A tensão que se produz entre estes dois pólos lhes imprime movimento e os impele a uma superação.

  3) A conscientização como valor moral da pessoa

 A conscientização constitui uma forma de ser do homem. Por isso mesmo é um agir moral. Poderíamos dizer que a conscientização nos dá um valor ético decisivo da pessoa. Valor que pode se desdobrar nos seguintes aspectos:

  - O homem deve lutar para fugir do pólo da “domesticação” e procurar o pólo da “conscientização”.

- O homem deve ser tratado como uma “consciência crítica” (como “sujeito”) e nunca como “consciência intransitiva” (como “objeto”).

- O homem deve viver num processo de conscientização. Este processo levará a formar: a) um homem solidário (abertura para os outros); b) um homem aberto à práxis; c) um homem “despertado”.

- A conscientização dever ser o grande meio para romper com as injustiças. Deve ser a autêntica “moral do oprimido”.

( Texto de Marciano VIDAL, com algumas adaptações)