HUMANISMO  -  CONCEITUAÇÃO

 

 

Humanismo é uma palavra bem sucedida. Ela se tornou como que um condimento para tornar apetitosas as iguarias culturais provenientes das mais diversas partes. Por isso foi muito usada. Por isso ficou muito vaga; tanto que hoje humanismo pode aplicar-se a quase todas as ideologias modernas e contemporâneas.

É preciso, portanto, que de antemão concordemos sobre o que entendemos por humanismo. Ao nosso modo de ver,  há três sentidos fundamentais da palavra, aliás, relacionados entre si.

1.    Há o humanismo histórico-literário, que lança suas raízes nos séculos treze e catorze, conhece seu máximo esplendor durante os séculos quinze e dezesseis e continua irradiando luz nos séculos dezessete e dezoito. Caracteriza-se pelo estudo dos grandes autores da cultura clássica, grega e romana, dos quais tenta imitar as formas literárias e assimilar os valores humanos.

 2.    Há o humanismo de caráter especulativo-filosófico. Em sentido lato, este humanismo filosófico pode significar qualquer conjunto de princípios doutrinais referentes à origem, natureza e destino do homem. Podemos perguntar, por exemplo: Qual é o humanismo de Sartre? Qual é a visão que Sartre tem do homem?

Em sentido estrito, o humanismo filosófico é qualquer doutrina que em seu conjunto dignifica o homem. É aqui que os humanismos divergem e proliferam numa gama de graduação que é difícil determinar.

Há o humanismo antigo, grego e romano, que exaltava o homem sobretudo nos valores de beleza, força, harmonia, virtude, heroísmo, gênio etc.

Há o humanismo cristão que realça o valor do homem como pessoa, isto é, como princípio autônomo e individual de consciência e responsabilidade, aberto à plenitude do ser e orientado para Deus como Fim último.

Há o humanismo moderno de Descartes, Kant e Hegel que faz da subjetividade do homem o ponto de partida, o centro de perspectiva e a construção de toda a realidade.

E há, finalmente, os humanismos contemporâneos, cada qual com a sua concepção e suas reivindicações para o homem.

Diante de tanta exuberância de humanismos, tão diversos entre si, e até com perspectivas diametralmente opostas, perguntamo-nos: como podem todas estas ideologias receber a denominação de humanismo? Há realmente um denominador comum que as associe?

Parece-nos que se pode aceitar nesta parte a colocação de Sartre. Segundo ele, é humanista, filosoficamente falando, toda doutrina que atribui ao homem algo de característico, de específico em relação aos outros seres do universo. Julgamos essa equação do problema válida e operacional, pelo menos como hipótese de trabalho. Ela nos oferece um  critério discriminativo das doutrinas humanistas e anti-humanistas, que nos permite fugir à indeterminação e ambigüidade de linguagem, que ameaçam todos aqueles que falam e escrevem sobre humanismo, muito embora compreendamos que nem todos irão aceitá-la sem reservas.

 

3. Mas, toda a teoria que não se torna parte da vida, isto é, que não seja acompanhada por uma ação correspondente, é estéril. Os filósofos, como dizia Marx, não devem contentar-se em contemplar o mundo: eles devem estudá-lo para transformá-lo. Um humanismo puramente teórico pode tornar-se ópio dos intelectuais e traição do homem, sobretudo dos homens que ainda não conseguiram desfrutar da  condição humana. Por isso, achamos muito importante acrescentar uma terceira forma: o humanismo de caráter ético-sociológico, isto é, o humanismo que visa tornar-se realidade, costume e convivência social.

Também aqui não é fácil encontrar um ponto de vista comum. Parece-nos que a perspectiva mais geralmente aceita (por S. Tomás, Kant, Marx, Max Scheler etc.) e mais realista considera humanista aquela doutrina que atribui ao homem, à sua realização na sociedade e na história, o valor de fim, de forma tal que tudo esteja subordinado ao homem, considerado individual e socialmente, e que o homem nunca seja considerado como meio ou instrumento para algo fora de si.

Este modo de entender o humanismo ético é uma derivação lógica da conceituação dada ao humanismo filosófico e traz consigo conseqüências importantes.

HOMEM  E  VALOR

Quando dizemos que o homem é sempre fim, nunca meio, queremos dizer que o homem, a pessoa, representa um valor, isto é, um ser apreciável e amável em si mesmo e por si mesmo.

Max Scheler faz a distinção entre fim e valor. Os dois conceitos, segundo ele, não coincidem. Pode-se sustentar que todo o fim é valor. Tudo aquilo que é querido como fim é valor, embora o valor não consista só no fato de ser querido, mas compreende também algo de objetivo, que é o fundamento e a razão de sua desejabilidade e amabilidade por parte do outro.

Podemos, portanto, distinguir no valor dois aspectos: o aspecto subjetivo (o fato de o valor sempre referir-se a um sujeito como algo desejável e amável) e o aspecto objetivo (a propriedade ou qualidade do objeto que faz com que ele se torne desejável ou amável para outro sujeito).

Pois bem, o homem é fim, como dissemos. Portanto, é valor. Mas o fato de ser fim e não instrumento coloca o homem não só como valor, mas como valor absoluto. Também o meio, o instrumento pode apresentar razões de desejabilidade e amabilidade. O dinheiro, por exemplo, é de fato muito cobiçado por quase todos os homens que o consideram como um valor. E, de fato, é valor. Mas é valor relativo, porque ele é cobiçado não por si mesmo (salvo por alguns maníacos avarentos), mas como um meio, como um instrumento para a aquisição de outros valores: comodidades, prazeres, honras. Pelo contrário, o homem nunca pode ser considerado como meio, para outro fim. Ele é um valor absoluto. O que não significa dizer que ele seja o valor último ou o Absoluto.

VALOR E AMOR

Tudo isso é abstrato e teórico. O homem em concreto vive na família, na sociedade, na convivência com os outros. Quando é que o homem, em sua vida real e quotidiana, pode se considerar reconhecido ou tratado como fim, como valor absoluto?

As relações humanas são tão vastas, tão complicadas e tão difíceis que muitos de nós pensam ter cumprido o seu dever para com o próximo quando não o lesam ou desrespeitam de algum modo. Mas esta é uma forma puramente negativa de reconhecer o outro como fim e valor absoluto. Longe de nós menosprezar esta espécie de humanismo. Tomara até que fosse mais praticada! Mas ela não basta.

O valor, mais do que não ser lesado, deve ser afirmado. Esta é uma exigência sua, em virtude do aspecto subjetivo e relacional. Ora, quando e como na convivência social o valor absoluto do homem é reconhecido e realizado em plenitude? Parece que só pelo amor. O amor autêntico, verdadeiro, desinteressado, é a única maneira de relacionamento humano em que a prerrogativa de o homem ser fim e não meio é reconhecida e realizada.

E isto pela própria natureza do verdadeiro amor. O amor é tudo, menos a absorção ou instrumentalização do amado pelo amante. No amor o eu dirige-se ao tu, querendo este tu na sua identidade, singularidade e profundidade. O amor, bem longe de diminuir ou abafar a personalidade do tu, a revela, destaca, potencia e faz vibrar como em nenhuma outra experiência. É o amor, em certo sentido, que cria a pessoa, isto é, que a desperta para seu valor e a dinamiza para sua realização.

Isto vale, antes de tudo, para quem ama. O homem, pelas suas faculdades espirituais, é essencialmente abertura, comunicação, dom de si. É só amando que ele se realiza como homem, e só é homem na medida em que ama.

Vale também para quem é amado. Se é verdade que a pessoa sempre tem consciência de si como valor, só quando se sente amada pessoalmente é que se dá conta concretamente do seu valor, porque só então sente ser, valer algo para alguém...

Compreende-se, assim, todo o alcance do preceito evangélico: Amai-vos uns aos outros”. Quando o Cristo o promulgava para a nova humanidade, não se abandonava à demagogia ou ao lirismo sentimental, mas indicava a única lei capaz de estabelecer relações humanas autenticamente válidas.

Note-se bem: não dizemos que onde não há amor, aí necessariamente o homem é rebaixado e instrumentalizado. Dizíamos antes que há uma forma negativa de reconhecer o valor absoluto do homem: abstendo-se de qualquer ato que ofenda esta prerrogativa. Também há certas formas de relacionamento positivo, que, embora não fundadas sobre o amor, não podem considerar-se lesivas à dignidade humana. Por exemplo, todo o relacionamento humano vinculado às normas da justiça. Mas o pleno reconhecimento desta prerrogativa da pessoa, de ser fim e valor absoluto, parece realizar-se unicamente pelo amor.

AMOR  E  LIBERDADE

Amor é uma palavra vaga que se presta para inúmeras interpretações e até abusos. Tanto que para Sartre, por exemplo, o amor é sempre instrumentalizante. Mas o amor de que falamos aqui não é pura complacência, fruição, gozo. Ele é tensão, criação, realização. O amor verdadeiro se dirige ao outro, ao mesmo tempo como ele é e como deveria ser. O amor quer a pessoa amada sempre mais bela, mais bondosa, mais dotada, mais feliz: numa palavra, a mais realizada possível.

Portanto, se querer o outro como fim é amá-lo, querer o outro como fim é querer a sua máxima realização. Realização plena de suas faculdades, de suas potencialidades, de suas aspirações. Realização plena, principalmente, de sua liberdade, que é a característica constituinte da pessoa.

É desde os primórdios da história que o homem tem consciência de sua liberdade e a quer afirmar. Mas nunca teve dela um sentido tão exigente como hoje: nunca sentiu tão profundamente a aspiração de realizá-la.

Acontece que a palavra liberdade, pelo seu uso e abuso, é um daqueles termos que praticamente ninguém sabe o que significa, se não for esclarecido. Vejamos:

Há, antes de tudo, a liberdade biológica, que mais convenientemente se chamaria de espontaneidade e que é própria de todos os seres vivos. Consiste no fato de o ser vivo determinar-se por si próprio às suas ações, sem necessidade de impulsos externos.

Há a liberdade psicológica, ou a liberdade de escolha, de opção. O poder de autodeterminar-se entre duas ou mais alternativas. Ela é o grande problema dos filósofos e psicólogos e, na medida em que é compreendida, distingue-se claramente da liberdade biológica.

O animal é espontâneo em seus movimentos instintivos, mas não tem o poder de controlá-los, porque não tem o poder de escolha: sentindo fome, não deixará de lançar-se sobre a comida que lhe é oferecida. O homem, ao contrário, é movido pelos instintos, mas não necessariamente: ele pode dominá-los pela liberdade. É por esta liberdade que a pessoa tem o grande e terrível privilégio, negado a todos os outros seres: o de criar-se, decidir sobre a sua existência e o seu valor, determinar seu destino terreno e eterno.

Mas este grande e magnífico poder, que é a liberdade psicológica, torna-se ilusório e fictício e causa frustrações humilhantes, se o homem não tiver condições de aproveitá-lo e concretizá-lo na vida.

Que importa ao prisioneiro saber que é livre psicologicamente e que pode escolher com sua vontade entre mil alternativas, se lhe é vedado sair da prisão e fazer o que realmente quer? Que adianta ao pobre imaginar escolher seu trabalho, seu salário, seus divertimentos, se não tem possibilidade de conseguir um emprego desejado, se deve conformar-se com o salário de fome que recebe, se lhe falta dinheiro para divertir-se? De nada vale ao jovem optar livremente pela profissão desejada, se não tiver recursos para realizar suas aspirações, se lhe falta tudo, até mesmo os sapatos para ir à escola e o dinheiro para comprar os livros.

Quantos povos têm maturidade  suficiente para escolher seu regime, seus governantes, suas instituições, mas não têm, de fato, as condições para tanto. Haja vista os povos escravizados e colonizados de ontem e o que está acontecendo hoje com inúmeros povos que, por forças internas e externas, políticas e econômicas, diretas e indiretas, são dirigidos por outras vontades que não a própria.

É esta liberdade, que nós chamaríamos de liberdade real, o problema número um  da nossa civilização. A liberdade psicológica, de forma mais ou menos perfeita, sempre foi prerrogativa e característica do homem. A liberdade real ainda não se realizou entre os homens. Não basta afirmar que o homem é livre. É preciso torná-lo livre. É inútil proclamar o homem como fim, se, de fato, é constantemente instrumentalizado.

Os cristãos envidaram muitos esforços e travaram muitas lutas ideológicas para reivindicar ao homem a liberdade psicológica: está na hora de aplicarem suas energias para efetivar e concretizar  esta liberdade.

Concluindo e resumindo: uma doutrina e principalmente uma determinada situação histórica só podem ser qualificadas como humanistas na medida em que, reconhecendo o homem  como superior a todos os outros seres, nele vê o objetivo e a meta de todas as atividades e de todas as instituições, no sentido de possibilitar-lhe a realização mais plena e perfeita possível de sua humanidade e personalidade, vale dizer, de sua liberdade. Tal liberdade só será possível numa convivência social fundamentada na  justiça e no amor.

Quando isto se realizar, não teremos, é claro, o homem perfeito, nem o super-homem, porque o homem, pela sua própria natureza, será sempre limitado e imperfeito, mas teremos um homem completamente novo, que talvez se distancie do atual mais do que o atual se distancia dos primitivos. Há ainda muitas riquezas e potencialidade a descobrir no homem. Há muito caminho a percorrer para o desenvolvimento completo do homem, que há poucos milênios iniciou sua caminhada histórica. 

In: “Humanismos e Anti-humanismos em Conflito” de Pedro Dalle Nogare - Ed.Herder.     


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