A   BOMBA!

Há meio milhão de anos, domínio do fogo...

1945: domínio da energia nuclear.

 

Pela explosão da primeira bomba atômica sobre Hiroshima - 10 mil graus na Praça da Paz, como a temperatura do sol

- 200 mil mortos e 80 mil feridos em 9 segundos.

COMO PASSAR DA ADOLESCÊNCIA TECNOLÓGICA SEM SE DESTRUIR?


 

Piloto do Enola Gay morre na Flórida

MiamiTom Ferebee, o homem que abriu o compartimento do bombardeiro americano Enola Gay para deixar cair a bomba atômica sobre Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial, morreu aos 81 anos em Windermere, na Flórida (EUA). Foi o que informou ontem o jornal Orlando Sentinel. “Tom era simpático, carinhoso e generoso”, disse a mulher dele, Mary Ann Ferebee. “Fez tantas coisas positivas e isso é o que há que se recordar da vi­da dele.” Oriundo de Mocksville, na Carolina do Norte, ele tinha 26 anos de idade e participado de 63 missões como piloto da Força Aérea americana quando lhe encarregaram da tarefa. Tom não sabia naquele 6 de agosto de 1945 que o bombardeiro em que voava transportava a primei­ra bomba atômica da guerra. (CORREIO DO POVO de18.03.00)


Em memória de Hiroshima

 Marcelo Rezende Guimarães

 “Num silêncio fúnebre, vi toda a desolação com meus próprios olhos, dois meses depois da queda da bomba. Não havia vida nem atividade em Hiroshima, não havia grama nem árvore, só um terrível silêncio”. Este testemunho comovente do Pastor Ricardo Wangen é suficiente para trazer à nossa memória o que aconteceu com as cidades de Hiroshima e Nagasaki há exatos cinqüenta e quatro anos atrás, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, quando explodia, pela primeira vez, a bomba atômica.

O silêncio das trezentas mil vítimas, seja das que morreram instantaneamente, seja das que morreram anos depois, especialmente de leucemia - a “doença da bomba” -, ainda reverbera na humanidade, como a verdadeira pergunta que não pode calar.

 Infelizmente, no entanto, Hiroshima e Nagasaki não constituem episódios isolados ou acidentes de percurso na história da assim chama­da civilização. Deflagraram a jamais vista corrida militar descrita pelo romancista colombiano Gabriel Garcia Márquez com as seguintes palavras: “Pois é: hoje, seis de agosto de 1986, existem no mundo mais de 50 mil ogivas nucleares emprazadas. Em termos caseiros, isto quer dizer que cada ser humano, sem excluir as crianças, está sentado num barril com umas quatro toneladas de dinamite, cuja explosão total pode eliminar doze vezes todo o rastro de vida na terra. A potência de aniquilação desta ameaça colossal, que pende sobre nossas cabeças como um cataclismo de Dâmocles, propõe a possibilidade teórica de inutilizar quatro planetas a mais do que os que giram ao redor do sol, e de influenciar no equilíbrio do sistema solar. Nenhuma ciência, nenhuma arte, nenhuma indústria tem se dobrado a si mesma tantas vezes como a indústria nuclear desde a sua origem - faz 41 anos -, nem nenhuma outra criação do engenho humano teve tanto poder de determinação sobre o destino do mundo”.

Passados 13 anos deste discurso de Márquez, mesmo que o número de ogivas tenha sido reduzido pela metade, temos ainda cerca de 25 mil neste planeta chamado Terra! Assim, reverenciar a memória daqueles que foram varridos pela anti-rosa atômica assume, também, o sentido de um compromisso com o movimento internacional que está propondo a eliminação das armas nucleares e o fim dos testes em laboratórios.  

A pauta de reivindicações pede aos estados nucleares e aos que de­sejam entrar no clube atômico, em primeiro lugar, o fim da ameaça nuclear, com a retirada destes armamentos situados em territórios estrangeiros e águas internacionais, com a separação das ogivas nucleares dos seus vetores e com o compromisso, sem condições, de não utilizar de antemão armas atômicas e de cessar todos os testes nucleares, inclusive os de laboratório. Em segundo lugar, propõe a assinatura, no ano 2000, de uma convenção de abo    lição, que proíba e elimine todas as armas nucleares, de acordo com um calendário. Finalmente, solicita a redistribuição dos investimentos militares para contribuir com o desenvolvimento durável do planeta e reparar as devastações ao meio ambiente e os sofrimentos humanos provocados pela produção e experimentação das armas nucleares.

A falta de vontade política, particularmente por parte dos estados nucleares, é a única barreira verdadeira. Como as armas químicas e bacteriológicas foram proibidas, as armas atômicas o podem ser igualmente. À sociedade civil de todos os países cabe estabelecer um movimento amplo para convencer seus governos de que “as armas nucleares são fundamentalmente perigosas, extraordinariamente custosas, militarmente ineficazes e moralmente insustentáveis”, segundo a precisa expressão do general americano Lee Butler, um ex-defensor da dissuasão nuclear.

O terrível silêncio de Hiroshima, como ode Auschwitz, constitui a reserva sagrada de humanidade que ainda temos. Se a perdermos, se não a transformarmos em ação, o que nós restará?

Marcelo Rezende Guimarães é padre da Diocese de Santa Cruz do Sul – Rio Grande do Sul -  e mestrando em educação na UFRGS.- Publicado no Jornal Correio da Cidadania de 7-14 de agosto de 1999 – pg.2


A hora da experiência foi fixada para 5.30 da manhã...

“Ainda dez segundos”, anunciou uma voz que parecia vir do céu, e uma chama verde apareceu acima das nuvens, tomou-se cinzenta e desapareceu. “Ainda três segundos”, retomou a voz, e de novo a chama verde apareceu acima das nuvens.

No horizonte, os primeiros clarões da alvorada, e, de repente, viu-se aparecer das profundezas da terra uma luz sobrenatural, um levantar de sol, como o mundo jamais viu ainda, um imenso sol verde que se levantou numa fração de segundo até uma altura de cinco mil metros, atingiu as nuvens e encheu o céu e a terra com uma luz que cegava. Ele subiu, qual gigantesca bola de fogo, com um diâmetro de um quilômetro e meio, e suas cores passaram da púrpura mais escarlate à cor de laranja a mais esplêndida. Ele subiu como uma força elementar que tivesse rompido as cadeias que a detinham há milhões de séculos...

Uma nuvem se elevou da terra e seguiu o sol verde, no começo pequena bola cinzenta, que tomou, em seguida, as formas alucinantes de algum gigantesco animal pré-­histórico. Ela subiu e transformou-se numa montanha; atingiu as nuvens e elevou-se ainda até a altura de doze mil metros. Durante breves momentos, que a todos nos pareciam uma eternidade, tudo era silencio. E depois, subitamente, um terrível estrondo, o trovão de milhares de bombas, explodindo todas ao mesmo tempo; ele veio do deserto, repercutiu nas montanhas em redor, uniu-se ao eco num estrondo interminável, e a terra tremeu.

Mas um grito se fez ouvir então: o grito dos homens que tinham consagrado toda uma vida a suas pesquisas e que viviam agora a coroação de sua obra. Eles gritavam, riam, choravam, saudando o nascimento de um novo mundo, de um mundo de liberdade, o nascimento de uma nova força que, num segundo, os tinha transformado em homens livres.

Citado por Études, Paris, julho-agosto, 1946, no artigo de N. Abele, "Nascimento da energia atômica", pág. 55-56.


Ciência e moralidade

Marcelo Gleiser

 O físico J. Robert Oppenheimer, que chefiou a construção da bomba atômica norte-americana entre 1942 e 1945, registrou sua reação após o sucesso do primeiro teste, em palavras que são, hoje, famosas: “Eu lembrei-me de uma linha do Bhagavad-Ghita, as Escrituras hindus, onde o deus Vishnu diz, “Agora tornei-me a Morte, destruidora de mundos’”. Uma invenção usando conceitos desenvolvidos por físicos interessados em entender o funcionamento do núcleo atômico transformou para sempre a história da humanidade. Os homens se transformaram na encarnação destrutiva de Vishnu, o Destruidor de Mundos.

 A construção da bomba mostra o quanto a ciência não pode ser separada da sociedade em que está sendo desenvolvida. A idéia que ciência pode se desenvolver ignorando a realidade política à sua volta é um mito extremamente inocente. A mobilização do governo norte-americano iniciou-se após cartas enviadas por físicos para o presidente Roosevelt. Essas cartas sugeriam que armas de destruição de massa poderiam ser desenvolvidas por cientistas trabalhando para Hitler. O Projeto Manhattam, como ficou conhecido, representou uma enorme concentração de recursos financeiros e burocráticos, sob supervisão militar. Os físicos viam sua missão com heroísmo: construir a bomba antes dos nazistas e assim ganhar a guerra. Maquiavelicamente, o fim justificava os meios. Foi selado um pacto político entre ciência e governo. Mesmo que a razão principal de sua construção, a ameaça nazista, estivesse efetivamente derrotada quando a bomba ficou pronta, e os japoneses, se não derrotados, estivessem à beira da derrota, outra “ameaça” surgiu no mundo: os soviéticos e sua política expansionista. Se a primeira bomba terminou a guerra com o Japão, a segunda serviu de aviso aos soviéticos.
A construção da bomba não marcou a primeira contribuição entre cientistas e governo. Arquimedes, em torno de 250 a.C., ajudou o reino de Siracusa, criando catapultas e outras máquinas bélicas. Essa relação entre ciência e política é inevitável: ciência custa caro, e a indústria, com seu interesse em lucros a curto prazo, não pode se dar ao luxo de financiar grandes projetos. O que motiva governos a financiar projetos gigantes e extremamente custosos como a Estação Espacial, ou o Projeto Genoma Humano? O desenvolvimento de hegemonia tecnológica e, portanto, o domínio dos mercados econômicos; a geração de milhares de empregos; o controle político que vem como conseqüência dessa hegemonia tecnológica. Ah, quase que esqueço, o desenvolvimento da ciência, claro.

 Existe também a ciência de menor escala, menos custosa mas nem por isso menos inventiva. Em condições ideais, ambas deveriam coexistir. Nos dois tipos de ciência, o cientista se depara com sérias questões morais. Em época de guerra, como durante o Projeto Manhattam, valores morais podem ser comprometidos pelo contexto de “vida ou morte”. Não acredito que a maioria dos cientistas em Los Alamos teria optado por essa linha de pesquisa na ausência de um conflito mundial. Até que ponto a pesquisa deve -ou pode- ser “controlada”? Faz sentido impor limites ao progresso científico? Eu acho que não; o que foi pensado, jamais será “des-pensado”; invenções, censuradas aqui, reaparecerão ali. A bomba teria sido inventada mais cedo ou mais tarde. A clonagem de humanos será inventada mais cedo ou mais tarde. As decisões morais devem partir da honestidade de cada cientista em alertar a sociedade para as conseqüências de suas invenções, acima de compromissos políticos. Para isso, a sociedade tem de estar preparada para optar pelo seu próprio futuro. Moralidade parte do indivíduo e termina em uma sociedade educada.

 Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College, em Hannover (EUA), e autor do livro “Retalhos Cósmicos”. - Folha de São Paulo - 25.06.2000


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