CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE NA MODERNIDADE
                        

 Emir Sader - sociólogo (USP)


Enquanto mais de meia centena de mandatários do mundo se reuniam na ONU para prometer mais do mesmo mundo do século XX, milícias paramilitares assassinavam três membros de uma missão humanitária da ONU no Timor e feriam uma brasileira. Como reação, confirmando que a
ONU tampouco mudará, esta retirou seu pessoal da região, deixando a população e os membros remanescentes de outras missões humanitárias à mercê da sanha dos herdeiros do  maior massacre político do século, perpetrado por Suharto e pelo exército indonésio nos anos de 1965 e 1966.

Um dos fenômenos mais relevantes do século que termina é exatamente o do renascimento da barbárie. Não aquela da periferia, chamada de primitiva, presente no dilema civilização ou barbárie, mas no coração mesmo da civilização. A febre cientificista do final do século XIX, teorizada no positivismo, com sua confiança ilimitada no progresso técnico, teve na eclosão da Primeira Guerra Mundial seu desmentido. Foram os países até então considerados os mais
civilizados que se chocaram barbaramente na disputa das colônias do mundo, na guerra das baionetas, cara a cara, com milhões de mortos, vítimas das mais avançadas descobertas científicas. "Jamais no passado tecnologias tão modernas — os tanques, o gás, a aviação militar — tinham sido colocadas ao serviço de uma política imperialista de massacre e de agressão em uma escala tão imensa", diz o pensador brasileiro Michael Löwy (no artigo "Barbárie e modernidade no século XX", em Cadernos em Tempo, agosto 2000). Ele alinha as características das barbáries modernas:
    a) utilização de meios técnicos  modernos, industrialização do homicídio, extermínio em massa graças a tecnologias científicas de ponta;
    b) impessoalidade do massacre, em que populações inteiras são eliminadas, com o menor contato pessoal possível entre quem toma a decisão e as vítimas;
    c) gestão burocrática, administrativa, eficaz, planificada, racional (em termos instrumentais) dos atos bárbaros;
    d) ideologia legitimadora do tipo moderno: biológica, higiênica, científica e não-religiosa ou tradicionalista.

Dos maiores massacres modernos do século XX ressaltam o genocídio nazista contra os judeus e os ciganos e a bomba atômica em Hiroshima e Nagasáki, por conter todos os ingredientes da barbárie tecnoburocrática moderna. A biologia racial tornada ideologia levou à organização científica dos campos de concentração, segundo a racionalidade da fábrica capitalista e seus cálculos de custo/benefício, com seus fundamentos no taylorismo e na administração racional-burocrática. Aproveitava-se tudo — de cabelos a botões das vítimas — e chegou-se ao sonho da auto-administração dos campos pelas próprias vítimas, sem os gastos administrativos,
para um projeto "científico" de eliminação de raças consideradas nefastas.

As bombas atômicas jogadas pelos EUA no Japão não tinham como objetivo o extermínio da população civil, mas o de acelerar o fim da guerra e demonstrar à URSS a superioridade militar norte-americana. "A morte e a destruição irão não somente intimidar os japoneses sobreviventes a fazer pressão pela capitulação, mas também assustar a URSS. Em suma, a América poderia terminar mais rapidamente a guerra e, ao mesmo tempo, ajudar a moldar o mundo do pós-guerra", afirmam generais dos EUA num relatório secreto a Truman, então Presidente dos EUA. A novidade de Hiroshima veio de seu caráter ainda mais distante e impessoal do ato de extermínio: pressionar um botão, abrir a escotilha que liberta uma carga nuclear, sem necessidade de expressar a fúria sanguinária e racista dos oficiais da SS. Um general norte-americano chegou a manifestar suas reservas à ação, porque se chocava com o antigo código militar e sua concepção tradicional da guerra, que não admitia o massacre intencional de civis.

Além desses casos, a guerra do Vietnã, com o uso sistemático de napalm e de bombardeios aéreos contra populações civis e execuções coletivas, com extermínio de aldeias inteiras, constitui outro caso de barbárie moderna.  Novos "avanços" no caminho da barbárie moderna foram dados nas guerras dos anos 90, especialmente as do Golfo e da Iugoslávia. A própria incapacidade de seguir mobilizando jovens  para a guerra levou à consagração da guerra covarde da aviação, que bombardeia com pouquíssimos riscos, anonimamente, sem relação direta do algoz com as vítimas.  Se a isso acrescentamos o uso do monopólio da informação, terminando até com a heróica atividade do correspondente de guerra, que fala das frentes de combate e da dimensão "humana" da guerra, temos uma guerra condizente com as transformações tecnológicas do final do século, a serviço já não de guerras em que duas partes combatem, mas de massacres tecnológicos, em que 90% das vítimas são civis e de um lado só.

Antes mesmo de entrar em crise pelos desequilíbrios ambientais e por modelos de desenvolvimento — como os atuais nos EUA e no Brasil, por exemplo — que expandem a economia, mas fazem regredir a condição da maioria da população, já havia profundas razões para se questionar o conceito linear de progresso material, baseado na sua evolução tecnológica e nos lucros que produz.

Os países materialmente mais desenvolvidos do mundo são, ao mesmo tempo, os maiores fabricantes e utilizadores de armamentos no mundo contemporâneo, impedindo a identificação de civilização com desenvolvimento econômico. Uma sociedade humanista hoje é a que se baseia em critérios qualitativos — de justiça, de bem-estar, de solidariedade. O mundo não se divide então entre sociedades desenvolvidas e subdesenvolvidas, no sentido material da palavra, por mais que a atenção das necessidades básicas da humanidade requer um desenvolvimento econômico determinado, mas se divide entre sociedades justas e injustas, solidárias e egoístas, morais e imorais, pacifistas e belicistas. Assim sabemos onde estão hoje a civilização e a barbárie.

Correio Braziliense, 10 de setembro de 2000.


RETORNAR