NOSSO ANTI-HUMANISMO
Afrânio Coutinho (*)
Um dos aspectos mais gritantes e mais deprimentes do
que chamei a civilização anti-humanista do Brasil é o desrespeito pelo
indivíduo, pelo homem, pela pessoa humana, nas mais variadas formas.
Tradicionalmente, a sociedade brasileira não existe para o homem. A unidade
homem é tratada com absoluto desdém. Desconsiderada, maltratada, massacrada,
espoliada, desrespeitada. Uma estrutura social em que não há direitos, os
direitos do homem, da pessoa humana.
Uma sociedade organizada encaminha todos os benefícios
para o homem. Ele é o centro de tudo. A vida gira, deve girar, em torno dele,
assegurando-lhe a liberdade, o bem-estar, a justiça social.
Está nos próprios hábitos mais comezinhos e
elementares o que contesta tudo isso entre nós. O homem, como unidade da vida
social, não é satisfeito em quase nada de suas necessidades primárias. O
desrespeito é a regra de nossa vida em relação ao homem.
Não lhe é oferecida moradia condigna. A maioria da
população não mora. Armazena-se em cubículos trepados pelas encostas dos
morros ou nos alagados mais infectos. Vegeta na maior sordidez e desumanidade.
Às primeiras chuvas de verão desce tudo de cambalhada ou então recebe pedaços
da montanha que desabam por sobre os casebres, que a incúria e a maldade
administrativa consente pregar nas encostas. Ou então é soçobrada pelos
riachos em cheia, levados de roldão pelas enchentes. Quem viaja pelo interior
do país é que recolhe bem a impressão do que é a casa de moradia das populações
pobres do país, que somam a mais de dois terços do total.
Alimento é o que se sabe. Com o aumento demográfico,
diminuíram as possibilidades de essa população lograr alimentar-se à altura
das mais modestas necessidades. Dizia-se antigamente que a gente pobre não
precisava fazer força para comer porque bastava a banana que se encontrava à-toa
no mato. Hoje não se pode mais repetir isso. No Nordeste, o pobre tinha o
charque, a farinha, a rapadura que davam um mínimo de calorias. Atualmente...
Não é de surpreender o aspecto de miséria física, esqueléticos, sem
um dente na boca, sem força para o trabalho.
E trabalho? É garantido ao nosso homem o meio de vida
que lhe dê o sustento? A maioria vive de subempregos, de biscates, levada pelo
desespero, em grande parte, ao roubo e ao assalto. Mesmo porque não lhe foi
dada oportunidade de adquirir uma profissão. Eis aí outra deficiência de
nossa civilização. A instrução é uma farsa, movida pela falácia da
universidade para todos, quando o que importa é o nível médio, preparando o
cidadão comum para profissões da maior necessidade e importância para o país.
Porque nem todos têm capacidade para seguir cursos superiores e dariam,
possivelmente, excelentes técnicos que garantiriam as infra-estruturas
absolutamente vazias ou ocupadas pelos profissionais do jeitinho.
Há muito mais nesse capítulo do desrespeito ao indivíduo.
Há o massacre fiscal. Há as filas imensas à porta dos hospitais e locais de
possíveis trabalhos, ou dos guichês de aposentadoria. Há o motorista que
atira o seu mastodonte sobre os pedestres
ao menor lapso de tempo antes da mudança do sinal, por pura perversidade e
desrespeito. É a repartição que responde: “Volte mais tarde que o diretor não
está, ou não pode atender porque está em reunião!” Esse capítulo do
desrespeito ao tempo alheio é então enorme. Ninguém respeita o tempo dos
outros. Por falta de educação comunitária.
Haveria muito que exemplificar, comentando esse
anti-humanismo brasileiro, que vem certamente dos péssimos processos da
colonização e da teoria dominante no tipo de colonização espoliativa que
tivemos.
(*) Professor,
crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras
Os
meninos-zumbis de São Paulo
Luís Nassif
Eles saíram das profundezas, espalharam-se pelo início
da avenida Conceição, pelas imediações da Maria Antônia, e foram ocupando
espaços no velho centro bancário de São Paulo, como um exército de zumbis.
Era impossível saber se eram homens ou mulheres.
Tinham a assexualidade dos cadáveres. Jovens, eram sem dúvida, vergando
macabros uniformes dos condenados à morte.
Os corpos eram tomados de uma fuligem que parecia
cravada na pele, própria dos habitantes das profundezas. As faces eram
macilentas, os cabelos duros de sujeira e os olhares vagos. Por dentro, o crack
possivelmente já tinha devorado mais da metade de seus organismos de crianças
desnutridas.
A maior parte não denotava disposição para assaltos.
Pareciam mais personagens de filmes de ficção classe B dos anos 50,
aproximando-se lentamente dos transeuntes pedindo dinheiro e balbuciando
palavras incompreensíveis.
Mendigos amadores e profissionais que freqüentam a
região de repente desapareceram. Consta que foram ameaçados. Mais provável é
que tenham se tomado de pânico, de quem se defronta com cadáveres.
Os meninos-zumbis cometeram violências indescritíveis
no cotidiano dos habitantes do centro. Muito menos pelos assaltos, mais por sua
presença incômoda. Quando invadiam cafés bem montados do centro, atrás de
moedas para financiar o crack, tinham a capacidade de deixar a todos sem fome e
sem assunto. Todos sabiam, indistintamente, que à sua frente estavam não
apenas jovens sem futuro, mas condenados à morte breve.
Quem teria coragem, depois, de lamber as próprias
feridas, reclamar da crise, discutir demanda agregada, ISSO-9000 ou persistir na
crendice que está se formando uma nação moderna?
Se não fosse detido a tempo, aquele exército de cadáveres
ambulantes mataria os bons sonhos burgueses que trafegavam na região.
E a cidade organizada reagiu. As associações dos
amigos da rua Maria Antônia e de todas as ruas da região se organizaram e
contrataram seguranças para expulsá-los das imediações.
O prefeito ordenou à guarda municipal que comandasse uma operação-arrastão, incumbida de devolver o exército de zumbis de volta para as profundezas.
Nos dias seguintes, um policiamento ostensivo tomou
conta do centro, fazendo com que qualquer honesto cidadão se sentisse aquecido
pela proteção do poder público.
A
300 metros dali, na Câmara Municipal, vereadores situacionistas discutiam,
entre si, quanto levariam do butim. Uma regional para aquele, um clube esportivo
para o outro. Um pouco mais adiante, senhores vetustos do Tribunal de Contas do
Município fechavam mais uma vez os olhos a licitações fraudulentas e ao
esfrangalhamento das contas municipais.
E o prefeito finalmente dormia em paz, julgando que a
prova do seu crime e de todos seus antecessores - os meninos-zumbis - não mais
estaria ali para condená-lo com sua presença silenciosa. Assim poderia
prosseguir em seu trabalho meritório de levantar pontes e viadutos, estranhas
catedrais que, com seu rigor geométrico, com a solidez do cimento e do
concreto, eternizariam seu dinamismo - e ajudariam a engordar os cofres do
partido para as próximas eleições.
Engano seu. Os vultos dos meninos condenados jamais
sairão das retinas de todos aqueles que, por algumas semanas, conheceram de
perto a face macilenta da morte.
(Publicado na Folha de São Paulo de 30-07-95)